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— Coração de Tartaruga! O que você está fazendo aqui no frio?— Frex o chamou. Ele estava muito perto do parapeito, mas quando escutou seu nome se virou e sorriu, parecendo ainda mais iluminado com a aura que o pôr do sol atrás dele provocava— A bebê, pequena Nessarose, vai dormir agora. Venha nos ajudar a colocá-la pra dormir, você que é mágico com crianças.
— Nessarose será o nome?
Frex soltou aquele sorriso de pai orgulhoso.
— Sim, Nessarose— Coração de Tartaruga o puxou para um abraço apertado. Ele não conseguia encontrar as palavras, mas Frex já era craque em entender cada simples gesto do quadling. Ele abriu os olhos e tirou o cabelo bagunçado da sua linha de visão, e então sua atenção se dirigiu a uma comoção que acontecia no campo a poucos quilômetros de onde estavam— Era aquilo que você estava vendo?
— Sim. Veja! — ele apontou para algo que se debatia entre várias pessoas segurando tochas— Uma Porco— ele fez questão de dar ênfase ao “P” — Eu vendo pôr do sol, mas grupo passar perto daqui antes, e ele gritar por liberdade.
— Babá me alertou sobre isso— Frex respondeu, preocupado — Eles fazem um ritual pagão nessa época, algo abominável— ele não conseguiu mais olhar para o pobre Porco— ainda bem que você estava aqui dentro. Eles tendem a usar o estranho como sacrifício.
Coração sacudiu a cabeça.
— Hoje será noite feliz, não? Vamos celebrar pequena Nessarose e não pensar no que poderia ter sido.
— Sim, Cora — Frex sorriu— Entre, Melena está radiante.
Eles adentraram a residência oficial do Eminente da Munchkinlândia e encontraram Babá segurando Elfaba pela gola do vestido.
— Fabala, não! Sua irmãzinha acabou de nascer, não vai atormentar nem ela nem sua pobre mãe, ela está exausta!
Mas a criança logo viu Coração de Tartaruga e correu na sua direção, e o homem era esperto, pegou ela no pulo e a alojou nos seus braços.
— Cora! Irmãzinha!
— Sim, você ter irmãzinha nova.
— Fabala, querida,— Frex interrompeu — está na hora de ir dormir.
— Irmãzinha?
— Você vai reencontrá-la amanhã.
Isso pareceu acalmá-la, e os dois se dirigiram para o quarto de Melena enquanto Babá chamava Elfaba para colocar seus pijamas. Frex bateu de leve na porta.
— Entre— eles escutaram a resposta abafada. Quando entraram, os olhos de Melena pareceram brilhar ao olhar para eles.
A bebê Nessarose mamava fazendo esforço no colo dela, sem ter os braços para agarrar a mãe e encaixar propriamente a boca onde deveria, mas Melena ajudava segurando cuidadosamente sua cabecinha.
A mãe não lembrava muito como foi dar a luz a Elfaba, mas tinha certeza que não foi tão tranquilo quanto o de Nessa, naquela manhã. Agora ela tinha o conforto da riqueza de sua família por perto, e tudo ocorreu tranquilamente. Foi inesperado, como da última vez; ainda faltavam cinco semanas, então decidiu visitar sua família em Solos de Cowen uma última vez antes de ter que lidar com a agitação de um bebê recém nascido, mas a vida não espera ninguém e Nessarose decidiu nascer.
— Melena— Frex falava com tanto amor. Ele a mimava muito durante as gravidezes, pelo menos quando estava presente— Já mandei uma mensagem para seu pai— ele beijou sua testa e arrumou um pouco o cabelo dela. O Eminente saiu pouco antes dela entrar em trabalho de parto para uma reunião num centro comercial numa cidade vizinha, mas demoraria para a mensagem chegar, ainda. Por enquanto a casa descansava com a disfuncional família Thropp e os poucos funcionários que não celebravam o feriado.
— Obrigada… — Nessarose tossiu um pouco e Melena a reajustou no colo. A refeição tinha acabado e ela caiu num sono profundo.
— Melena— Coração de Tartaruga chamou, mas seus olhos não desviaram da bebezinha que parecia um bichinho que cabia na palma da mão dele.
— Cora.
Ele finalmente olhou para ela.
— Parabéns, ela é linda. Você brilha!
— Cora— ela sorriu, e depois olhou para Frex. Ele assentiu silenciosamente, um segredo entre os dois pais, que Coração de Tartaruga respeitou e deixou passar, como sempre.
Ela se levantou e colocou Nessarose em um berço ao lado da cama, depois pegou os dois pelas mãos.
— Vamos ao quarto de Frex — ela pegou o lampião fraco na estante e os guiou até o quarto ao lado.
Enquanto Melena acendia mais velas, espalhadas pelo quarto, Frex e Cora sentaram na cama, e pouco depois o quadling se deitou e abriu os braços. O pastor olhou para ele e deitou ao seu lado, apoiando a cabeça no braço do outro.
— Frex? — ele questionou, mas sua resposta foi um beijo, do tipo mais simples e inocente.
— Cora — Melena deitou do outro lado dele e deu um segundo beijo.
A noite seguiu e eles eventualmente dormiram, juntos e abraçados, suando com o calor de três corpos.
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Melena foi a primeira a acordar, apesar do sono confortável. Ela se encontrou presa pelos braços de Coração de Tartaruga e de mãos dadas com Frex. Logo a respiração do primeiro acelerou, e ela soube que ele tinha acordado.
— Ele não é lindo, Cora? — ela disse, olhando para Frex — Quase me faz me apaixonar de novo.
— Por que você se apaixonar por Frex, Lena?
— Porque ele foi o primeiro a me conhecer de verdade— ela suspirou— Ele foi o primeiro a querer me conhecer e se apaixonar e me aceitar, mesmo com todos os meus pecados— ele acariciou o pescoço dela com o nariz— E você foi o segundo— ele deixou um beijo, mas então ela virou a cabeça e Cora teve que se afastar — Você o ama?
— Eu amo sua família. Eu amo a pequena Fabala, amo Babá, amo nova Nessarose, amo a casa onde vocês me acolheram, amo o lago. Eu amo você, e eu amo Frex. Eu amo sua família, vocês me aceitar quando eu não tenho nada para oferecer, — ele desviou o olhar de Melena e viu Frex abrir os olhos— e vou dedicar toda minha vida a vocês.
Ela também olhou para Frex, e ele assestiu. Coração de Tartaruga entendeu o que era esse acordo silencioso entre eles.
— Cora, — Melena sussurrou como se fosse o segredo mais precioso a ser guardado — nós te queremos para sempre. Você tem sido tão bom para nós, desde que você apareceu pela primeira vez, aceitou Fabala quando qualquer outro viajante teria desviado de caminho, você atura e ajuda Babá todo dia. E você nos aceitou — ela levou a mão de Frex para junto da de Coração de Tartaruga— e nos reuniu quando mais precisávamos.
Frex abriu a boca e deixou sair sua voz grave de manhã.
— Nós somos eternamente gratos. E te amamos. E por isso decidimos que vamos nos mudar para Quadling. Queremos ajudar como pudermos e acredito que meu trabalho missionário…
Coração de Tartaruga esticou os braços e puxou os dois para um abraço apertado.
— Obrigado, obrigado! — ele disse enquanto beijava o rosto dos dois.
Eles ficaram assim, os três jogados na cama, até escutarem os primeiros choros de Nessarose. Depois seguiram a vida, juntos, naquela família estranha de seis, depois sete, como era pra ser.
