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I
O frio na barriga poderia ser a única sensação de nervosismo, pelo menos por uma hora inteira. Infelizmente, a ansiedade também traz o suor nas mãos, a sensação de perigo iminente e a criação de um multiverso de cenários desastrosos na mente. É assim que Sonosouke se encontra no momento, enquanto se arruma para o primeiro encontro após dois anos solteiro.
A pior parte era que o relacionamento terminou por culpa sua. A falta de afeto, compreensão com o jeito do outro e também paciência com seus erros… Ah, se tivesse sido mais paciente e amoroso, como o próprio Jesus ensinou aos seus fiéis.
“Theodoro vai achar que eu sou besta…”
Sorriu para o próprio reflexo do espelho em seu banheiro. Se tem uma pessoa que o conhece bem, esse alguém é o cara que irá se encontrar com ele daqui a alguns minutos. Achava um tanto exagerado ir a um restaurante que precisava de reservas. Ao mesmo tempo que compreendia a arte por trás de um prato gastronômico, achava um absurdo pagar caro por um filé malpassado e com um filete de molho ao lado.
Parou de pensar a fim de não ficar triste. Já passou o tempo em que podia ficar na batina, em estados longos e meditativos sobre a vida. Colocou as lentes de contato, dando mais brilho às suas íris verde-claras, e pôde enfim sair de sua casa.
II
Achou que chegaria primeiro ao restaurante, mas antes de atravessar a rua, avistou Theodoro. Ele vestia um suéter muito chique, provavelmente novo, de cor marrom-escuro. Para alguém perto dos cinquenta, estava tão bem que facilmente passaria por quarenta.
— Eu já ia enviar uma carta. — Theodoro comentou quando Sonosouke chegou. — Você está muito charmoso, meu amigo.
Sonosouke sentiu as bochechas esquentarem, mas, por estar de noite, teve a esperança de que o homem não tivesse notado. Por que o elogio dele o deixava tão envergonhado? Ah, sim… Era porque estavam se vendo de outra forma, após tantos anos.
— Digo o mesmo. — Elogiou de volta. — Priscila te ajudou a se vestir?
— Claro. Eu não escolheria isso aqui sozinho nunca. — Theodoro falou, puxando o suéter pela gola suavemente.
Ao entrarem no restaurante, foram recepcionados por um maître. Assim que se sentaram à mesa, receberam alguns petiscos e lhes ofereceram vinho. Theodoro não tardou em pedir um vinho do Porto. Sonosouke quis pontuar que era cedo demais para começarem a beber, mas Theodoro era sacana. O Vinho do Porto era seu ponto fraco. Além disso, adorava beber em boa companhia.
Depois da segunda taça, degustando a entrada mais cara da Terra, Sonosouke fitou os olhos azuis de Theodoro com divertimento. A barriga ainda estava cheia de borboletas — e agora, também de álcool —, mas ao menos o bom humor do outro homem o deixava mais à vontade.
— Ainda se rebaixa na profissão de professor? — Theodoro perguntou, balançando a taça languidamente. — Ou faz isso justamente por medo de terminar como eu?
Sonosouke inclinou a cabeça e franziu a testa.
— Mas você é um ótimo profissional. Eu fui seu aluno. — Rebateu, confuso com a pergunta.
Ele era um professor bem dedicado, porém indelicado. Estava disposto a tirar dúvidas com prazer; perguntas são válidas para o aprendizado. Agora, um marmanjo ou marmanja o perguntar se podia entregar um artigo, depois de estourar o prazo… Sonosuke tinha arrepios na espinha ao lembrar das broncas que ele impunha. A voz dele retumbava em seu corpo, mesmo que a fúria não fosse direcionada a si. Tinha certo fascínio em vê-lo perdendo a calma habitual, naquele semestre de sete anos atrás.
— Eu me refiro a acabar um tanto amargo e agnóstico por ser bom no que faz. Deus está lá, e eu estou aqui, preso a livros antigos do Vaticano… — Theodoro respondeu dando uma risadinha.
Sonosuke soube que o álcool começou a fazer efeito em seu corpo, quando riu baixinho de uma reclamação tão tola. E Theodoro sabia disso, tanto que passou os dedos polegar e indicador pelo cavanhaque satisfeito.
— Amargo eu já sou de natureza… — Sonosouke comentou, coçando a nuca. Theodoro sorriu jovialmente.
— Nas cartas nem tanto. Você é bem sentimental na escrita. — Pontuou, encarando-o. — Mas eu o adoro mesmo assim, bem amargo feito o vinho que estamos degustando.
De repente, Sonosuke se viu culpando o vinho por sentir uma onda de calor ir dos pés à cabeça com o comentário de Theodoro. Pegou um talher e o girou entre os dedos.
— Eu não quero ouvir esta comparação de novo, por favor. — Sonosuke disse- lhe apontando a colher. — O sangue de Cristo é bom demais para ser comparado a um mero mortal como eu.
III
Depois do jantar, deram uma volta pelo quarteirão para comprar chicletes em uma banca de esquina. Depois de comprarem chicletes de sabor tutti frutti, caminharam até uma bela praça, que, por conta da hora, estava quase vazia. Por fim, se sentaram em um banco perto de um belo chafariz de pedra-sabão.
— Foi divertido. — Theodoro comentou, cruzando as pernas. — Mas eu notei que teve momentos de devaneio. E sei que não foi por culpa do vinho.
Sonosouke fitou o amigo de soslaio. Era uma sensação esquisita, a de querer se esconder a todo custo, como se tentar se esgueirar da luz do sol em um deserto fosse possível. Cruzou os braços e deitou a cabeça no ombro do mais velho.
— Não sei se quero te contar o que eu pensei nessas horas… — Admitiu envergonhado.
— Acho que eu já sei. Por que não tenta? — Theodoro instigou com a voz baixa, fazendo Sonosouke engolir a seco.
Era o álcool fazendo com que a voz dele soasse mais aveludada? Sonosouke ficou alguns segundos em silêncio, tentando encontrar as palavras certas para ser plenamente compreendido. Elas não vieram à mente, mas ele sabia que precisava tentar.
— Tenho culpa… Por tê-lo superado tão rápido. Fico me perguntando se o que eu senti foi amor, se eu menti os meus sentimentos para ele, de perceber também que tudo era uma imensa confusão quando estávamos juntos… — Sonosouke comentou fechando os olhos.
O mais jovem sentia-se desnorteado ao relembrar o que viveu com o antigo parceiro, sendo que tentou reprimir as memórias ao longo do jantar, a fim de evitar a fadiga. No entanto, abrir a caixa de Pandora pessoal era uma boa escolha, porque a pessoa que o escutava tinha um bom entendimento de sua própria história. Não é como se fosse lhe contar uma novidade.
— A companhia dele era boa, sempre gentil, sorridente e atencioso...Só que alguma coisa nunca estava certa. Eu… Eu era muito frio e direto para lidar com as nossas desavenças… Eu sinto muito por não ter sentido demais…
Ficou decepcionado consigo mesmo. O coração não doía ao dizer aquelas coisas. Recordar os dias que passou no Japão ao lado de um ex-yakuza dava pouquíssimas saudades. Infelizmente ou felizmente, ele sentia uma pontada de alívio a qual também proporcionava raiva. Trincou os dentes e a testa enrugou ao perceber que esse sentimento era intenso: a contradição, essa vontade de se fazer de mártir pelo término, embora soubesse que jamais seria feliz ao lado do antigo amante. Ironicamente, quem rompeu os laços foi o próprio ex, ao perceber que a compatibilidade entre ambos era nula.
Theodoro enlaçou os ombros de Sonosouke e levou a mão até os cabelos escuros, começando um cafuné suave. O lado bom de conhecer bem uma pessoa, era a permissão velada de permanecer em silêncio e ainda sim dizer as palavras certas. Pelo que leu nas cartas, Sonosuke nunca ficou tanto tempo em silêncio com o antigo amor. Isso manteve a esperança de Theodoro acesa, tanto que o convidou para a sua casa.
