Actions

Work Header

entre as cortinas

Summary:

Quando os dois descobrem que vão atuar como parceiros românticos na próxima peça que farão, uma chance para descobrir de uma vez por todas o que sentem um pelo outro surge, e pode ser que uma simples peça mude o rumo do relacionamento dos rapazes.

Notes:

OI! Essa é a primeira fanfic que escrevo, além de ser a primeira que publico no ao3, por isso, certamente está bem amadora, mas podem ter certeza que dei meu melhor!

Esse projeto me ajudou muito a melhorar minha escrita e meu planejamento para uma história, então não me arrependo nem um pouco de participar. Espero que goste, faça uma boa leitura!

Work Text:

Acordar ao som de gritos dentro daquela casa já era normal para Neil a essa altura. Sempre que acontecia, ele simplesmente ia para escola mais cedo, ficava enrolando nos arredores do colégio até os portões abrirem e fazia o possível para passar o dia inteiro na escola. As brigas constantes do pai e da mãe faziam com que a casa deles fosse sempre um inferno onde, quando os dois não estavam brigando, estavam se ignorando pelos corredores ou se pegando, sem se importar se o filho deles estava vendo ou não. Era uma vida de merda, mas Neil estava acostumado e tinha seus meios de escapar do poço sem fundo em que os pais lhe colocavam.
Gritos eram comuns, mas, nessa manhã específica, despertou com algo diferente. O som distinto de vidro quebrando se fez ouvir, e Neil levantou da cama na hora, tão rápido que tropeçou nos próprios pés. Os pais brigavam sempre, mas Nathan nunca havia chegado ao ponto de bater em sua esposa. Neil temia que esse dia houvesse chegado. Checou o horário no celular muito brevemente, e seus olhos turvos de sono mal conseguiram distinguir entre 5 e 6 da manhã. Desceu as escadas em tempo recorde para encontrar a sala completamente vazia. Avançou pelo corredor estreito que levava até a cozinha, igualmente vazia. Neil continuou a caminhar pelo cômodo até a porta da dispensa, e lá encontrou o culpado pelo barulho.
A porta era virada para o lado de fora da casa, e sua parte inferior era telada e vidrada. Aparentemente, um guaxinim conseguira burlar os dois sistemas de segurança da porta para invadir a dispensa e fazer um lanche. Neil soltou um suspiro aliviado ao entender o que tinha acontecido, depois, uma risada enquanto o animal fugia. Ele balançou a cabeça em descrença e voltou para a cozinha. O horário no relógio de ponteiros marcava 7:50, mas ele estava adiantado em uma hora, então Neil ainda tinha bastante tempo para se preparar para escola.
Na sua idade, e, principalmente, estando no penúltimo ano do colegial, a maioria das pessoas odeia a escola e a evita a todo custo, mas Neil é o exato oposto disso. A escola é seu refúgio, o lugar onde pode esquecer os pais horríveis que tem e simplesmente focar em ser um bom aluno, se dedicar de corpo e alma às atividades de seu clube e, principalmente, refugiar-se nas longas conversas com seu melhor e mais estranho amigo, Andrew Minyard. Sempre gostou de passar tempo no colégio, estudando ou simplesmente mexendo em alguma coisa na biblioteca, mas o que fizera a escola se tornar uma verdadeira casa fora a decisão de participar do clube de artes cênicas. No primeiro ano do Ensino Médio, decidira que precisava entrar em um dos clubes de atividades extracurriculares da escola, tanto para ter mais tempo fora de casa, quanto para poder espairecer de vez em quando. Pensou em algum esporte, mas nenhuma das opções lhe agradava e ele não conseguia se ver indo bem em nenhum deles. Cogitou o clube de música, mas nunca teria coordenação motora para tocar instrumento algum, muito menos conseguiria cantar bem. Artes visuais envolviam uma criatividade que Neil não tinha, então logo foi descartado.
No fim, tudo o que sobrou para ele foram as artes cênicas, e não podia ter feito uma escolha melhor. O teatro tornara-se algo além de uma simples atividade de clube. Atuar virou a forma que Neil tinha de se sentir vivo, de expressar tudo o que mantinha preso dentro de si. Cada vez que incorpora um personagem novo, é como se uma nova história fosse escrita para si. Podia viver a vida daquele personagem, mesmo que por apenas alguns minutos. Deixava de ser Neil Josten para ser uma persona intensa, com uma personalidade diferente, um nome diferente, hobbies diferentes. Era uma forma de se esconder da angústia dentro de seu âmago, temporária, mas o suficiente para mantê-lo são.
Se arrumar para a escola é uma tarefa que não toma nem dez minutos do tempo de Neil. Toma um banho de, no máximo, cinco minutos, e usa os outros cinco para vestir-se, conferir os materiais e comer alguma coisa. Ele vestiu-se de forma simples, calças jeans largas já bem gastas, uma camiseta preta quase cinza de tão desbotada e um casaco acinzentado. Calçou os mesmos tênis que usa a pelo menos dois anos, os que Kevin sente a necessidade de fazer um comentário rude sempre que vê. Kevin é amigo de infância de Neil e o que ficou mais irritado com sua decisão de ingressar no clube de teatro. Ele sempre dissera que Neil tinha potencial para os esportes por ser bom de corrida, então, queria que Neil se juntasse a ele na equipe de futebol americano. Kevin passou semanas tentando convencê-lo e, na verdade, nunca desistiu. Todo ano ele tenta. Apesar disso, ele também é quem mais apoia as atividades de Neil. Vai em todas as peças dele sem falta e, quando o treino do dia é cancelado, acompanha-o em seus ensaios também.
Andrew e Neil têm uma história muito mais embolada. Neil conheceu Andrew quando este entrou na escola, no segundo ano do colegial. O colégio é completamente parado, então, qualquer alma nova que entra ali vira o centro das atenções. Claro que não foi diferente com Andrew e seu irmão gêmeo, Aaron, mas, aparentemente, eles levavam toda essa atenção numa boa. Neil não é muito de conversar com pessoas fora de seu pequeno círculo social, simplesmente porque não vê um bom motivo para isso, mas quase se engasgou quando viu Andrew na porta do auditório, pronto para entrar no ensaio do clube de teatro. Sua curiosidade foi maior do que sua vontade de permanecer com todos os dentes dentro da boca e ele não conseguiu conter um “o que você está fazendo aqui?”. Andrew nem se deu o trabalho de replicar, visto que a resposta era óbvia. A partir disso, passaram a ser colegas dentro do clube de teatro, e, de uma forma estranha e curiosa, a amizade dos dois não parou de crescer. Contracenaram e se ajudaram nos ensaios tantas vezes que Neil conseguia se lembrar de cada papel que Andrew fizera até o momento.
Neil digitou uma mensagem rápida para Kevin antes de sair de casa, apenas avisando que já estava a caminho da escola. Combinavam de se encontrar no meio do caminho para continuarem juntos. É um pouco longe, mas, mesmo assim, Neil vai andando. Gosta de andar. Às vezes, vai correndo também, mas só faz isso quando precisa desesperadamente de algo que o faça esquecer de pensar. Seguiu um ritmo lento até a terceira parada de ônibus no caminho, onde, de longe, avistou Kevin. Acenou para ele até que percebesse a presença de Neil ali. Kevin se limitou a dar um aceno de cabeça em resposta ao cumprimento de Neil, e Neil se aproximou até a distância permitir que Kevin o ouvisse bem.
— Bom dia.
— Bom dia. — Kevin respondeu, sem muito entusiasmo.
— Seu treino hoje acaba às… 17h? — Adivinhou Neil. Faziam o mesmo esquema da ida na volta, por isso, era importante saber a hora em que os treinos e ensaios um do outro terminavam.
— 16h. Ano passado você me conhecia melhor. — Kevin resmungou, e Neil simplesmente deu de ombros, acostumado com esse drama. — O Minyard está fazendo você ficar alheio a todo o resto.
— Ano passado você treinava que nem um maníaco. Se eu não estivesse a menos de cinquenta metros de você, teria morrido.
Kevin abriu a boca para responder, mas desistiu quando percebeu que havia perdido a discussão e virou-se para continuar andando. Kevin sempre exagerou nos treinos. Sua obsessão pelo esporte e por ser o melhor nele a todo o custo o levava a montar rotinas insanas e impossíveis de serem seguidas, principalmente quando se precisa conciliar os estudos com os treinos. Muitas vezes, acabava simplesmente desmaiando pelos cantos da escola, tendo lesões relativamente graves e entrando em um estado de exaustão onde ele mal conseguia se manter acordado. Neil cuidou de Kevin toda vez que coisas assim aconteciam, mesmo que a contragosto, e a gratidão que Kevin nutre por ele é visível. Mesmo sendo arrogante, ele é capaz de reconhecer o que o amigo fez por si.
Seguiram caminho até a escola trocando algumas palavras sobre a temporada de Kevin. Neil tentava ir em todos os jogos, mas precisava usar seu próprio dinheiro e, às vezes, não tinha o suficiente para comprar os ingressos. Trabalha no período da noite em uma lanchonete. O trabalho não paga muito bem, mas Neil gasta pouco, o que ganha é o suficiente para sobreviver. Seus maiores gastos são com figurino. O clube de teatro faz seus próprios figurinos, então, geralmente, os membros fazem uma vaquinha para comprarem os itens necessários para confeccionar as roupas. Neil, além de ajudar na vaquinha, tira de seu próprio dinheiro para comprar mais algumas coisas para deixar a roupa mais interessante e condizente com o personagem. As peças que fazem raramente são autorais, na maioria das vezes, são adaptações de outras já existentes, então Neil se inspira no figurino do personagem original para fazer o seu próprio.
Assim que atravessaram os portões da escola, Kevin começou a ficar agitado. Olhava de um lado para o outro, como se, a qualquer momento, alguma coisa fosse o atingir. Neil o encarou com uma sobrancelha erguida, questionando o comportamento estranho, mas Kevin fez um gesto pedindo para que ele esperasse. Neil aceitou e foi logo atravessando o pequeno jardim para entrarem no edifício onde assistiam às aulas. Kevin estava logo atrás de si e só voltou a falar quando estavam na porta da sala.
— Estou evitando alguém. — Explicou apressado, tomando um lugar ao fundo.
— Quem? — Sua voz era calma e sem entusiasmo enquanto ele se sentava próximo ao amigo.
— Jean Moreau. — Neil demorou alguns segundos para relacionar o nome à pessoa. Jean Moreau fazia parte da defesa do time de futebol americano do colégio, um rapaz alto e, à primeira vista, magro demais para um esporte pautado em agressividade.
— Jean Moreau — Repetiu, testando as palavras. — O que você fez?
— Eu não fiz nada — Kevin enterrou a cabeça na curva do braço, suspirando. — Esse é o problema.
Neil pensou em buscar respostas, mas foi calado pela saudação do professor entrando em sala. Ao contrário de Neil, Kevin não se interessa tanto assim pelos estudos, apesar de ser um bom aluno. A única matéria que realmente consegue lhe prender é História. Neil, por outro lado, tem pelo menos um pouco de interesse em todas as áreas. Não só suas notas são boas, como também seus cadernos são impecáveis, repletos de anotações e atividades. Neil desistiu da conversa temporariamente e focou em prestar atenção no que acontecia à sua frente.
O tempo passou tão rápido que, quando o sinal estrondoso indicando o fim das aulas tocou, Neil levou um susto em sua cadeira. Deu uma olhada no horário e na caixa de mensagens. O grupo de teatro falava sobre a nova peça que estavam planejando, reforçando a importância de que nenhum dos membros faltasse. O projeto que estavam preparando era longo e complicado. Os clubes de artes sempre foram deixados de lado, esquecidos e desvalorizados por serem atividades “fáceis demais”. Com a intenção de quebrar essa visão pejorativa, os líderes do teatro sugeriram uma parceria com os clubes de música e artes visuais. A ideia era fazer uma peça com um crítica a desvalorização das artes na sociedade, e contar com o apoio do clube de música para fazer a trilha sonora da peça. O clube de artes visuais ficaria responsável pela promoção e divulgação. A princípio, parecia um plano quase revolucionário, mas Neil não tinha certeza se daria certo. Os demais clubes de artes não são muito integrados uns com os outros, o que pode prejudicar o trabalho em equipe.
Desde que viraram amigos, Andrew sempre vai até a sala de Neil para buscá-lo e, de lá, vão juntos até o auditório. Quando esse esquema começou, Kevin automaticamente torceu o nariz, dizendo que aquilo não era necessário. Andrew perguntou se Kevin seria um problema, mas Neil dispensou, dizendo que ele só estava com ciúmes. Neil esperava por Kevin, guardando suas coisas, enquanto rolava a tela do celular para acompanhar as mensagens mandadas durante a aula. Os líderes comemoravam a junção do clube de música ao projeto. Neil nunca havia tido contato com nenhum dos musicistas, mas os via indo e vindo por aí com seus instrumentos, pois a sala que usavam era próxima ao auditório. Suspeitava que Aaron, gêmeo de Andrew, fizesse parte do clube, porque já o vira carregar uma guitarra pelos corredores mais de uma vez. Vez ou outra, ouve os instrumentos sendo tocados e pessoas cantando, mas nunca despertara interesse o suficiente nele para que fosse espiar.
Andrew apareceu na porta da sala poucos minutos depois. Quando o vira pela primeira vez, Neil achara que ele era um valentão. Exatamente o tipo que fizera bullying com ele durante boa parte de sua vida. Seu cabelo loiro cortado de forma extremamente curta, a sombra preta embaixo dos olhos e os quatro piercings — fora os furos das orelhas — reforçam essa imagem. Contudo, quando Neil verdadeiramente o conheceu, percebeu que, na verdade, ele é alguém bem sentimental. Andrew se esconde atrás de sua fachada de “não me importo com nada” quando, na verdade, ele se importa — e muito. Andrew se irrita com Neil frequentemente, justamente porque ele consegue ver através de seu disfarce. Neil sabe quando ele está afetado por algo, sabe quando ele sente e o que ele sente, e isso abaixa a guarda de Andrew. Ele fez um sinal com a mão para que Neil agilizasse. Neil voltou-se para Kevin antes de seguir Andrew.
— Vou nessa. — Ajeitou a mochila nas costas. — E, seja lá o que rolou entre você e o Moreau, para de ser um merda e se resolve com ele.
Deixou Kevin para trás sem ouvir sua resposta. Ele e o Minyard caminharam em um ritmo lento, sem conversar no caminho. O auditório era liberado para o clube de teatro à partir das 14:30. Se adiantaram alguns minutos, então ficaram esperando na porta até que um dos líderes chegasse com a chave. O clube de teatro não é muito grande. A maioria dos membros são veteranos prestes a se formar, ou veteranos no segundo e no terceiro ano — Neil é um deles. Danielle Wilds e Matthew Boyd são os líderes, responsáveis por manter todos os membros na linha e ativos. O clube conta com mais oito integrantes, incluindo Neil. Quando ele se juntou, tinham tão poucos que mal conseguiam fazer uma peça. Por algum milagre, quando Neil entrou no segundo ano, uma boa quantidade de alunos começou a se interessar mais pelo teatro e o clube foi crescendo gradualmente.
Neil estava completamente distraído quando Dan passou por eles, cumprimentando-os. Ele respondeu ao oi animado dela com um boa tarde sem muita emoção, enquanto Andrew se limitou a dar um aceno de cabeça. Os três entraram no auditório assim que ela destrancou as portas. O auditório conta com uma quantidade generosa de lugares, equipamentos de luz de qualidade duvidosa, espaço para sonografia, camarim e um palco de tamanho médio. É cheio de falhas e muitas das coisas ali funcionam mal, mas é tudo o que eles têm e aprenderam a lidar com cada um dos problemas nos equipamentos.
— Matt não está com você? — Perguntou Neil, largando a mochila em uma das cadeiras da plateia.
— Ele vem daqui a pouco. Foi imprimir o roteiro da peça na biblioteca.
Demorou para entender de que peça ela falava. Sabia que estavam planejando-a a muito tempo, mas não imaginava que já estavam tão avançados. Mesmo se dedicando ao máximo nos ensaios, Neil não é muito integrado com os outros membros do clube. Não conversa com eles, a menos que o assunto seja sobre alguma cena mal ensaiada ou que não ficou muito clara. Talvez por isso não fazia a menor ideia de que haviam finalizado o roteiro. De qualquer forma, quanto mais cedo, melhor.
Matt chegou poucos minutos depois, trazendo Renee Walker consigo. Os dois cumprimentaram Neil, Dan e Andrew e começaram a conversar entre si sobre os termos que discutiram com o clube de música. Em dado momento da conversa, Renee largou Matt e Dan para conversar com Andrew. Os dois nutriam uma amizade estranha entre eles, mas parecia funcionar. Neil gostava de ficar ouvindo as conversas deles, e nenhum dos dois parecia se incomodar com a companhia extra. O restante dos membros chegou logo depois e, quando todos já estavam presentes, Dan os reuniu em círculo para explicar tudo o que precisariam saber sobre o mais novo projeto que estavam iniciando. Ela começou reforçando o motivo de estarem fazendo aquilo, como uma peça dessa magnitude daria visibilidade aos clubes envolvidos e como o projeto beneficiaria os membros, pois, por ser uma peça grande, praticamente todos os membros teriam um papel.
— Vale ressaltar que, por ser um trabalho muito importante para o clube, precisamos do comprometimento de vocês mais do que nunca. — Renee pontuou, e Dan concordou com a cabeça antes de continuar.
— Agora, vamos aos papéis. Nós geralmente gostamos de fazer audiências e testes antes de dar um papel a cada um de vocês, para vermos como se saem em cada um deles. Mas, mesmo tendo corrido contra o tempo, estamos atrasados no planejamento, então, decidimos os papéis por nós mesmos, baseado na personalidade e nos personagens que vocês fizeram até o momento. — Ela passou uma folha do próprio script antes de continuar. — Vou falar quem cada um vai interpretar. Renee vai distribuir a lista com o nome e a participação de cada personagem na peça. Acompanhem por ela.
Renee se levantou com uma pilha de papéis em mãos, e começou a distribuir um para cada. A quantidade de personagens era a quantidade exata de membros do clube, e Neil deu uma lida rápida em cada um deles. Nenhum chamou muito a sua atenção, mas um nome específico lhe despertou certa curiosidade. “Nathaniel Wesninski”, o par romântico do antagonista. Neil não saberia dizer o quê exatamente gerava tanta aversão àquele nome, mas queria fugir desse papel a todo custo. Quando Renee terminou de entregar as listas, Dan começou. Matt fora escolhido como protagonista. Neil já imaginava; ele combinava totalmente com a personalidade corajosa, determinada e, ao mesmo tempo, brincalhona do personagem principal. Assim que leu a descrição do antagonista, teve a certeza de que Andrew seria escolhido para esse papel. Sua personalidade confrontava com a de Matt, e sua aparência ajudaria a reforçar a imagem de antagonista cruel, quase que um vilão. Vilão ou não, Neil sabia que Andrew sairia-se bem. Neil percebeu que Dan seguia a ordem da lista e, quando seu nome começou a demorar demais para ser falado, ele já sabia o que esperar..
— … E, por fim, Neil Josten como Nathaniel Wesninski. Alguma dúvida? Reclamação? — Neil pensou em protestar, mas perdeu a força na voz. — Ok, vamos prosseguir.
Ela continuou explicando coisas que Neil não conseguia absorver. Tentava entender o quê exatamente o preocupava em interpretar aquele personagem, mas nada vinha à mente. Leu e releu a descrição da personalidade de Nathaniel umas quatro ou cinco vezes. Sua história era complicada e problemática, cheia de perdas, gangsters e mentiras. Um personagem fragmentado, sem um único motivo para viver, com uma personalidade complicada e um sonho impossível para perseguir. Ao mesmo tempo que seu coração pulsava de ansiedade para finalmente incorporar essa persona, sentia uma vontade de fugir quase incontrolável, como se o simples ato de pensar em tornar-se Nathaniel Wesninski, mesmo que apenas por alguns momentos, fosse completamente errado e perigoso. Seus olhos automaticamente procuraram pelos de Andrew, que estava sentado de pernas cruzadas bem ao seu lado, próximo o suficiente para que Neil conseguisse sentir seu calor. Ele não falou nada, mas seu olhar atento ao de Neil foi o suficiente para acalmar um pouco seus ânimos. Deixou os pensamentos de lado e voltou a prestar atenção em Dan.
Ela concluiu explicando o enredo da peça. Neil ouviu tudo com atenção, mas ouviu com um cuidado especial as partes em que Nathaniel era citado. Dan passou quarenta minutos apenas explicando em quê aquele enredo refletia na crítica que eles almejavam passar com a peça, bem como qual seria a função de cada um dos envolvidos.
— Por fim, marcamos uma reunião com o clube de música para nos conhecermos e já começarmos os ensaios semana que vem. — Antes de prosseguir, ela se levantou e ergueu no ar uma lista com o nome dos membros do teatro de um lado e o nome dos musicistas do outro. — Sei que não nos damos muito bem com eles, afinal, nunca tivemos a oportunidade de nos conhecermos direito. Mas tentem ser legais, tudo bem?
— As cenas que terão música já estão indicadas no roteiro que vamos entregar. — Observou Matt quando algumas pessoas franziram o cenho. — Pode não ser muito legal trabalhar com desconhecidos, mas por favor, se ajudem. Eles estão quebrando nosso galho aceitando fazer a trilha sonora da peça. O mínimo que podemos fazer é colaborar e nos darmos bem com eles.
Neil não se importava em realizar trabalho em equipe, mas não via motivos para ficar supervisionando o clube de música. Se eles já tinham o roteiro, poderiam fazer sozinhos. Matt imprimira roteiros para eles também, poderia simplesmente deixá-los trabalhar e apenas ver o resultado final. Era uma desculpa nada discreta para fazê-los se enturmar. Neil não julgava seus líderes por quererem que os clubes de artes colaborassem e tivessem amizades entre si, afinal, todos ali sofriam do mesmo mal: a falta de reconhecimento por parte da escola. Porém, qualquer um que pensasse um pouco mais sobre isso perceberia que não fazia sentido, mas ninguém ali questionaria as ordens de Dan e Neil não se importava o suficiente para se arriscar fazendo isso. Olhou para Andrew para ver sua reação, mas seu rosto impassível e sua postura relaxada continuaram lá.
— O que você acha disso? — Sussurrou para Andrew, inclinando um pouco o corpo em sua direção.
— Perda de tempo. O pessoal da música não gosta da gente, e a gente não gosta deles.
— Dan, Renee e Matt parecem gostar. — Replicou, e Andrew parou por um momento antes de responder. Virou o corpo para Neil e o olhou como se ele fosse idiota enquanto cutucava o piercing no septo.
— Eles gostam de qualquer um que dê o mínimo de atenção pra gente — Explicou, mas Neil não entendeu bem. Inclinou a cabeça para o lado em uma pergunta silenciosa, e Andrew respondeu pacientemente: — Eles acham que o clube de música vai se interessar pelo projeto pelo reconhecimento que os três clubes vão ter juntos, mas, no fim, é cada um por si. Pode ser que eles nos ajudem, ou pode ser que só estejam se juntando pra foder com a gente de vez.
Neil pensou nas palavras de Andrew com cuidado, absorvendo-as e interpretando-as. Fazia sentido. Mesmo que estivessem se ajudando, o interesse era próprio. Além disso, com outros clubes para competir pela atenção da escola, a competitividade entre eles era fortemente incentivada. Neil mexeu no roteiro novamente. Por um momento, esquecera que interpretaria o par romântico do personagem de Andrew. Seu coração vacilou de leve. Ao longo do tempo em que encenaram juntos, seus personagens nunca tiveram relacionamentos próximos. Às vezes, mal se falavam ao longo da história. Já haviam interpretado amigos, mas jamais fizeram parceiros românticos. Neil não sabia o que pensar sobre isso.
— Você gostou do seu papel? — Perguntou, porque foi a única pergunta que conseguiu formular.
— Ele parece fácil de interpretar — Andrew deu de ombros. Não foi uma resposta esclarecedora para Neil, mas a pergunta também não havia sido. — Você não combina com o seu.
— Por quê? — Saiu tão rápido que ele nem conseguiu decidir se realmente queria saber. Mas, no fim, certamente queria. Queria saber tudo o que Andrew pensa sobre ele.
— Descubra você mesmo — Andrew se levantou logo em seguida, acenando com a cabeça para que Neil o acompanhasse. Confuso, ele levantou-se também, sem tirar os olhos do Minyard. — Vamos. Kevin fica um saco quando você deixa ele esperando por muito tempo. E ainda coloca a culpa em mim.
Andrew se despediu brevemente de Renee e esperou que Neil fizesse o mesmo com os demais líderes para saírem. Kevin ficava esperando-os bem na frente do auditório, sempre com uma expressão de pura irritação e arrogância. Mas, dessa vez, seu rosto irritado estava pelo menos um pouco mais suave. Assim que Neil o viu, ergueu uma sobrancelha para Andrew, que apenas deu de ombros, ignorando completamente Kevin e a confusão de Neil.
Dispensaram cumprimentos e seguiram para fora do colégio. Neil precisava ir para casa rápido para conseguir ter tempo o suficiente de se arrumar para o trabalho. Andrew ia para o lado oposto, então se separavam em frente aos portões do colégio. Kevin seguia com Neil até a terceira parada de ônibus e, dali, Neil continuava por outro caminho. Fizeram a maior parte da viagem sem trocar uma palavra, mas a inquietação de Neil era visível. Sua mente alternava entre a ansiedade que sentira em descobrir o papel que interpretaria, o fato de ser o par romântico de Andrew e o trabalho em equipe confuso proposto pelos seus líderes. Sabia que Kevin estava alheio a tudo isso, mas precisava falar alguma coisa, do contrário, explodiria.
— Vou interpretar o namorado do personagem do Andrew na peça. — Kevin demorou tanto para responder que Neil pensou que ele não havia escutado, mas a expressão azeda que fez entregou tudo.
— Talvez você goste disso mais do que pensa. — Kevin deu de ombros.
— O que você quer dizer com isso?
— Você gosta do Minyard, não gosta? — Neil concordou, e Kevin prosseguiu: — Mas talvez você goste mais do que imagina. Quem sabe assim você não percebe o quão você realmente gosta dele?
Neil continuou em dúvida, mas não insistiu. Se pensasse um pouco mais sobre isso, ficaria esgotado antes mesmo de chegar no trabalho. Tirou Andrew, Kevin, Nathaniel Wesninski e o teatro da cabeça, deixando tudo isso guardado em uma caixinha para pensar depois, ou pelo menos tentou, porque o nome de Andrew ecoava em sua cabeça, repetindo-se incansáveis vezes. Neil ignorou o máximo que pôde, porém, enquanto trabalhava, só conseguia pensar nas palavras de Kevin.
[…]
Na terça-feira da semana seguinte, teriam o primeiro ensaio em conjunto com o clube de música. Neil pensou que não se importaria com isso, mas, no meio da segunda aula, notou que as únicas coisas em sua mente eram seu papel na peça e Andrew Minyard. Quando voltou do trabalho no dia em que receberam seus papéis, Neil leu e releu suas cenas com Andrew pelo menos dez vezes seguidas de forma quase compulsiva. A grande maioria delas não era explícita. Tudo o que entregava a relação entre seus personagens eram os apelidos carinhosos que um usava para se referir ao outro e, mesmo assim, seu relacionamento não era tão óbvio. Por serem dois personagens complexos, com personalidades complicadas e um passado que praticamente minou todas as suas relações sociais e emoções, eles se tratavam de forma que poderia ser considerada fria. Porém, o carinho que nutriam um pelo outro estava nos pequenos detalhes. Na forma como eles estavam sempre próximos um do outro, como se estivessem em órbita; no tom como falavam entre eles e nas conversas que tinham, que sempre escondiam indícios do amor ali existente
Neil contava os minutos para o fim da aula na cabeça. Os ensaios aconteciam praticamente todos os dias, e todos os dias a ansiedade de Neil o deixava a mil por hora até que Andrew finalmente aparecesse na porta da sala para buscá-lo. O sinal tocando, indicando o fim das aulas, foi quase um alíviol. Ele organizou suas coisas em tempo recorde e levantou da cadeira tão rápido que ficou tonto. Kevin notou sua hiperatividade, mas não disse nada, limitando-se a encará-lo com curiosidade. Talvez já soubesse o motivo de Neil estar assim, antes mesmo que o próprio Neil soubesse.
— Primeiro ensaio oficial hoje? — Kevin perguntou enquanto digitava alguma coisa no celular.
— Sim. Vamos ensaiar enquanto o clube de música começa a preparar a trilha sonora — Kevin demorou para responder, organizando as próprias coisas enquanto pensava no que dizer.
— Me impressiona que o Andrew realmente se importe com alguma coisa. — Ironizou Kevin. Neil responderia, mas perdeu o fôlego ao ver Andrew na porta.
Seu coração tremeu violentamente, de uma forma que nunca havia acontecido antes, e não era medo, muito menos ansiedade. Não conseguia entender a própria agitação e isso o deixava incomodado, mesmo que o sentimento não fosse necessariamente ruim. Escondeu a tensão óbvia em seus ombros da melhor forma que pôde enquanto se aproximava de Andrew, que acenou com a cabeça para Kevin em cumprimento. Os dois não se davam exatamente bem, mas conseguiam se suportar. Vez ou outra, acabavam ficando sozinhos juntos sem a companhia de Neil e, aparentemente, conversavam pelo menos um pouco.
Neil se despediu de Kevin e seguiu Andrew para longe. O auditório não era distante, mas, pela primeira vez, o silêncio entre eles era desconfortável. Essa mudança repentina de sentimentos em relação a Andrew deixava Neil inquieto, principalmente porque Andrew parecia não ter sido afetado pelo fato de serem um casal na peça. Ele continuou conversando com Neil por celular normalmente; os mesmos assuntos de sempre, o mesmo tom de sempre. Quando se esbarravam pelo corredor, Andrew se limitava a dar o mesmo aceno de cabeça de sempre, enquanto para Neil, ver Andrew por aí já era o suficiente para deixá-lo com os nervos à flor da pele. Os únicos momentos em que realmente passavam tempo juntos era durante as aulas de teatro, e Andrew pareceu não notar o comportamento alterado de Neil. Não se encontravam fora da escola porque Neil nunca havia tido coragem de chamar Andrew para vê-lo em seu trabalho; chamá-lo para sua casa estava fora de cogitação.
Ao entrarem no auditório, a onda barulhenta que atingiu os ouvidos de Neil foi forte o suficiente para que ele ficasse tonto na mesma hora. Esquecera que, naquele dia específico, a sala estaria extremamente cheia, pois tanto os membros do clube de teatro quanto os membros do clube de música estariam ali. Neil parou por instinto, precisando de alguns minutos para se recompor antes de continuar. Andrew não se importou em parar com ele. Ficou bem ao seu lado, próximo, mas não o suficiente para sufocá-lo. Era um apoio silencioso, firme e pronto para segurá-lo, caso ele precisasse. Ficaram estáticos por quase um minuto até Neil finalmente conseguir se mover, e Andrew o seguiu de perto, como se esperasse por mais um colapso.
As vozes alternavam entre conversas paralelas e ordens dos líderes para os outros membros. Pessoas iam e vinham, carregando instrumentos pesados para lá e para cá, enquanto Dan e Matt indicavam onde cada coisa podia ser colocada. O palco era o único espaço vazio, deixado para que os atores pudessem ensaiar, mas, de resto, estava tudo um caos. Instrumentos ocupavam boa parte do espaço livre, tornando caminhar por ali uma tarefa quase impossível. Membros do clube de música conversavam entre si perto do palco, dedicando-se a afinar seus instrumentos. Aaron era um deles. Neil via Aaron com pouquíssima frequência, o que era estranho, considerando que vivia grudado em seu irmão gêmeo. Ele não tinha certeza de como era o relacionamento dos dois, mas tinha plena certeza de que Andrew não odiava o irmão, visto que beirava a superproteção com ele. Neil constantemente pegava Andrew mandando mensagens curtas para Aaron, a maioria delas perguntando onde ele estava ou com quem estava. O grupo de Aaron era composto, em sua maioria, por pessoas que Neil não conhece. A única pessoa que Neil sabe quem era entre os que andavam com Aaron era sua namorada, Katelyn, cujo ele só conhece porque Andrew frequentemente reclama dela para Neil.
Neil lançou um olhar significativo para Aaron. Já havia trocado cumprimentos com ele, mas a cara que ele fez quando Neil se aproximou junto de Andrew deixou claro o que pensava sobre a amizade dos dois. Aaron não fez questão de cumprimentar Neil, então ele também não se deu o trabalho de fazê-lo. Esperou Andrew terminar de falar o que quer que precisasse dizer para o irmão e, quando terminou, ele cutucou Neil, distraído, para se afastarem. As pessoas ainda estavam se organizando no espaço, então, para saírem do meio da multidão enquanto o ensaio não começava oficialmente, Andrew e Neil foram até a última fileira de cadeiras do auditório e sentaram-se ali por um tempo.
Neil tirou o roteiro da mochila, passando suas folhas, sem realmente ler. Havia grifado as cenas mais importantes, bem como as que achara mais difíceis de se fazer. Andrew se inclinou para conseguir ler as coisas no roteiro que Neil segurava, e ele precisou usar todas as forças dentro de si para não estremecer. O corpo de Andrew estava tão próximo que Neil conseguia sentir seu calor emanando entre eles. Nas poucas vezes em que tocara Andrew, percebera o quão quente ele é, como se estivesse sempre fervendo. O calorzinho que sente toda vez que se aproximavam um pouco mais era perigosamente reconfortante. Facilmente seria capaz de se viciar na sensação que causa. Sua tensão deve ter ficado óbvia, porque Andrew se afastou um pouco. Não era bem isso o que Neil queria. Gostava da proximidade, mas ficava nervoso, sem saber o que fazer.
— Isso te incomoda? — A voz de Andrew era baixa, mas firme. Neil virou o rosto para ele, e a distância entre o seu e o de Andrew era intimidadora. Se inclinasse a cabeça um pouco mais…
— O que?
— Isso — Andrew apontou para uma das cenas mais intensas dos dois. Era um simples beijo, mas o contexto em que acontecia deixava tudo muito mais simbólico. Neil abriu a boca para tentar responder, mas não conseguiu formular nada que fizesse sentido. — Não precisamos fazer isso se incomodar.
A voz de Andrew não estava exatamente preocupada. Na verdade, seu tom era neutro, como sempre, mas a expressão tensa em seu rosto mostrava o quão importante aquilo era para ele. Neil o encarou com calma, mesmo que o coração estivesse prestes a explodir dentro do peito. Os olhos semicerrados de Andrew estavam sérios e a boca estreitada em uma linha fina exalava certa tensão. Ele estava falando sério. Se Neil dissesse que incomodava, Andrew estava pronto para fazer o que fosse necessário para que Neil não precisasse interpretar aquele papel. Mesmo depois de quase uma semana pensando, Neil ainda não sabia o que achar. Geralmente, não se importaria de ser o par romântico de alguém. Era bom em separar o teatro da realidade. Mas quando precisava aplicar isso a Andrew, a conta não fechava.
— Não. — Respondeu, por fim, e se surpreendeu por ter conseguido manter a voz firme. — Não incomoda. Vamos fazer isso.
A expressão de Andrew se suavizou, mesmo que de leve. Ele assentiu e continuou a ler o que quer que estivesse lendo no roteiro de Neil. Contudo, para Neil, aquela conversa ainda não estava encerrada. Ele se sentia bem com isso, mas e Andrew? A forma como ele se importa com limites deixa bem claro que, em algum momento, os dele já foram violados. Neil jamais se perdoaria se entrasse na lista de pessoas que ousaram transpassar os limites de Andrew.
— E você? — A reação de Andrew deixou claro que ele não esperava por isso. Seus olhos se ergueram do papel lentamente, e Neil pôde jurar que a cor de seu rosto avermelhou-se, mesmo que pouco.
— Não é um problema pra mim. — Respondeu, simples, e Neil se contentou com aquilo.
Ficaram mais alguns minutos ali, afastados da confusão e do barulho causado pela movimentação dos dois clubes, tentando se organizar dentro do auditório. Mesmo depois de já ter lido tudo o que tinha na página do roteiro de Neil, Andrew continuou por perto, de forma discreta. Neil ainda se sentia nervoso por estar tão próximo a Andrew, mas o conforto que esse quase contato gerava superava qualquer nervosismo que Neil poderia sentir. Precisaram sair de onde estavam quando Dan anunciou que o ensaio começaria. Com os membros do clube de música já instalados, tudo se acalmou dentro do auditório. Os musicistas se dividiram entre a primeira e a segunda fileira de cadeiras da plateia para assistir ao ensaio enquanto começavam a escrever as partituras das músicas, baseando-se no roteiro que Matt dera para eles.
Dan reuniu todos os atores e começou a explicar como funcionaria o ensaio. Neil já estava mais do que acostumado com a forma como os ensaios fluíam, mas era importante explicar para os membros mais novatos. Além de explicar como seria o andamento do ensaio, ela indicou quais cenas seriam passadas. Como seria a primeira vez que ensaiavam, Dan estipulou uma pequena quantidade de cenas e, depois de realizá-las, discutiriam entre si as partes que não haviam ficado muito claras ou que estavam meio desconexas. A peça contava com 22 cenas e três atos, o que daria cerca de duas horas de espetáculo. Não tinham costume de fazer peças tão longas, e Neil temia que os novatos ficassem ansiosos pela quantidade de falas que precisariam decorar. Renee pareceu ter lido sua mente, porque, antes de começarem, tranquilizou a todos sobre as falas, dizendo que teriam tempo o suficiente para decorar tudo e, caso não conseguissem, poderiam usar o improviso para se virar.
Com todos os avisos dados, não tinham mais motivos para continuar enrolando. Neil e Andrew só participavam a partir da décima cena, por isso, tomaram a liberdade de analisar a fluidez de cada uma delas. Os novatos ainda estavam um pouco travados, mas os veteranos compensavam sua falta de jeito, auxiliando-os quanto ao posicionamento em palco, bem como ao tom de voz que precisavam utilizar em cada fala. Haviam perdido um bom tempo tentando acomodar os membros do clube de música no auditório, então, antes mesmo de Andrew e Neil entrarem em cena, o tempo que eles tinham para usar o auditório acabou. Dan e Matt despediam-se dos líderes do clube de música quando Neil foi passar as anotações que fizera para Renee. Ela agradeceu e Neil se afastou para pegar sua mochila. Enquanto isso, Andrew foi atrás de Renee. Trocou algumas palavras com ela enquanto Neil esperava próximo à porta do auditório. Neil checou o horário no celular, torcendo o nariz ao ver que havia passado bastante da hora que costumam ser liberados, o que significava que, quando saíssem, Kevin estaria com uma carranca enorme no rosto.
Andrew não se demorou muito na conversa com Renee. Aproximou-se de Neil, mas não parou, continuando até abrir a porta para os dois saírem. Kevin nem esperou as portas se fecharem para partir para cima de Neil que nem uma flecha, o cenho tão franzido que parecia prestes a abrir um buraco em seu rosto. Andrew automaticamente se pôs à frente, parecendo ridiculamente pequeno se comparado a Kevin. Neil sabia que ele não estava tão irritado assim, mas a reação de Andrew deixava claro que ele não estava para brincadeira.
— Pensei que tinham morrido lá dentro. — A voz de Kevin saiu cheia de sarcasmo e um deboche habitual, mas sua expressão afiada não acompanhava a fala.
— Acabou demorando mais do que o esperado — Explicou Neil, dando de ombros. — Mas mesmo assim você esperou, não é? Do que adianta ficar irritado agora se já ficou esperando por mim esse tempo todo?
Kevin estava pronto para retrucar, mas pensou melhor e desistiu, limitando-se a bufar e se virar para saírem dali. Neil passou por Andrew e os três caminharam em fila para fora da escola. Kevin parou no meio do caminho quando encontrou Jean Moreau em um dos corredores. Dispensou Neil e Andrew, dizendo que eles podiam ir na frente e ficou para conversar com o Moreau. Andrew e Neil foram juntos até os portões do colégio e, antes de Andrew seguir seu próprio caminho, virou-se para Neil.
— Renee sugeriu que ensaiássemos nossas cenas sozinhos antes do ensaio com os outros atores — Andrew explicou, sem muito entusiasmo. — Você quer ou não?
— É uma boa ideia. Como eles são… Um casal, nosso entrosamento pode melhorar se fizermos ensaios extras.
Andrew se limitou a assentir. Ficaram em silêncio até Kevin os alcançar, alguns poucos minutos depois. Se antes sua expressão era carrancuda, agora, ele estava quase sorridente. Neil notou seus olhos brilhando enquanto ele se aproximava, e sua boca, antes retorcida em uma careta de desaprovação, agora mantinha-se numa linha leve, quase curvando-se em um pequeníssimo sorriso. Neil lançou um olhar significativo para ele, mas não teceu nenhum comentário. Não queria estragar o raríssimo momento de bom humor do amigo. Antes de se virarem para ir, Andrew tocou o ombro de Neil para chamar sua atenção.
— Você trabalha no fim de semana?
— Não.
— Então vai ser sábado. Te mando a hora e o endereço por mensagem.
Neil concordou com a cabeça, e seguiu Kevin para longe do colégio. Mal tinham saído da vista de Andrew quando Neil lançou um sorriso cheio de ironia para Kevin.
— Parece que alguém se resolveu com o Jean.
— Cala essa boca.
Mesmo que a resposta tenha sido agressiva, Neil via que Kevin não estava realmente com raiva e seu rosto envergonhado arrancou umas boas risadas de ambos. Neil pensou no teatro, na quantidade de falas que tinha para decorar e na incerteza de que o trabalho em grupo promovido pelos líderes daria certo. Pensou em Andrew, em seu rosto preocupado ao perguntar se Neil estava confortável em contracenar com ele interpretando papéis tão íntimos. Pensou no ensaio que haviam marcado. Deixou todos esses pensamentos fluírem em sua cabeça num ritmo lento o suficiente para não esgotar Neil, e ele ficou confortável com a linha de raciocínio que estava traçando.
Pensar em se encontrar com Andrew fora da escola pela primeira vez era, ao mesmo tempo, angustiante e animador. Estar com ele sem a pressão de precisar focar nos ensaios deixava mais espaço para que Neil o conhecesse melhor ainda, mas também permitia que as incertezas sobre Andrew crescessem dentro de si. A palpitação estranha que sente quando ele se aproxima demais; o conforto que sente quando ele está por perto, mesmo sem falar absolutamente nada; a forma como ele parece sempre disposto a proteger Neil, mesmo quando a ameaça é alguém próximo. Andrew é um mistério para muitos, mas Neil não está acostumado a ter dúvidas sobre ele. Sempre fora capaz de lê-lo com facilidade, mas realmente não consegue ver lógica nas coisas que ele faz consigo. Mas pior do que não saber o que Andrew sente é não saber o que ele mesmo sente. A confusão e o quentinho em seu interior sempre que Andrew entra em cena são coisas que Neil não está nem um pouco acostumado a sentir. Entender o que esses sentimentos significam é uma dor de cabeça, mas deixá-los se proliferar dentro de si é perigoso demais.
Ignorou tudo isso focou em chegar em casa à tempo de conseguir descansar pelo menos alguns minutos antes de ir para o trabalho, contudo, mesmo que se esforçasse, continuava se lembrando do quão quente Andrew estava quando se aproximou dele para, supostamente, ler seu roteiro, e os pensamentos continuaram tomando rumos descontrolados até Neil finalmente conseguir desligá-los.
[…]
A semana se passou em uma lentidão angustiante. Quando o sábado chegou, Neil mal conseguiu acreditar que conseguira sobreviver à ansiedade que sentira ao decorrer dos dias. Na sexta-feira de noite, Andrew sugeriu um horário para se encontrarem, adicionando um endereço à mensagem, que dava em um bairro não muito longe da casa de Neil. Marcaram de se encontrar às 16:00, mas, às 14:00, Neil já estava se arrumando. Não precisava nem tinha roupas muito chiques para usar, mas também não queria ir de qualquer jeito. O clima estava agradável, nem muito frio, nem muito quente, mas Neil colocou um casaco na bolsa que estava levando, temendo que, na volta, esfriasse. Vestiu-se com a camisa menos surrada que tinha, calças confortáveis e um tênis um pouco mais preservado do que o que costuma usar para a escola.
Conferia os itens na bolsa quando o som estridente da voz de seu pai se fez ouvir. Neil deixou para trás tudo o que fazia para prestar atenção no que Nathan estava dizendo. A um andar de distância e com as paredes atrapalhando a propagação do som, Neil não conseguiu distinguir direito o que saía da boca do pai, mas, pelo tom de voz alterado, tinha quase certeza de que não era coisa boa. Neil se afastou da cama e abriu a porta do próprio quarto para ouvir melhor. As únicas coisas que escutava eram os gritos do pai, o que significava que Mary, sua mãe, não estava respondendo. Era melhor assim. Sempre que ela tentava se opor ao marido, a discussão escalava a níveis horríveis. Os dois chegavam a quase se agredir. Enquanto brigavam, não ligavam muito para Neil, o que permitia que ele se esgueirasse pela casa até conseguir sair, ou pela porta da frente, ou pela dispensa. Foi exatamente o que fez.
A voz extremamente alta de Nathan bagunçava os sentidos de Neil, mas focar-se na tarefa de sair sem ser visto era o suficiente para fazê-lo entrar na linha, mesmo que pouco. Nathan e Mary estavam brigando na cozinha, então a saída mais óbvia era a porta da frente. Havia descido as escadas silenciosamente, dando uma olhada rápida na cozinha para ter certeza de que os pais estavam focados nos próprios assuntos. Ficou na sala de estar, esperando até a voz do pai se alterar novamente para girar a chave na porta rapidamente e sair. Ao longo dos anos, Neil se tornara especialista em sair de casa escondido dos pais. Geralmente, dava essas escapadas enquanto eles brigavam para fugir da gritaria. Uma pontada de culpa o consumia quando pensava que estava deixando a mãe sozinha com Nathan, mas o sentimento sumia quando ele lembrava o quão displicente ela é em relação a ele. Neil deixou tudo isso de lado e sacou o celular do bolso para avisar para Andrew que estava à caminho.
Saiu de casa mais cedo do que o necessário, então decidiu ir a pé para compensar. Se pegasse um ônibus, levaria cerca de dez minutos para chegar, então, caminhando, esse tempo deveria dobrar, mas Neil estava mais do que acostumado a andar longas distâncias. Não só tinha costume; adorava caminhar. Manter o corpo em movimento o ajudava a continuar com a mente sã e pensante, além de aliviar um pouco o estresse causado pela junção dos fatores escola e casa. Conhecia o bairro para onde estava indo, então dispensou o uso de GPS. Estava quase na metade do caminho quando o celular vibrou no bolso, e Neil o pegou tão rápido que quase o derrubou. A resposta de Andrew fora simples, então Neil se limitou a visualizá-la, porque não sabia o que responder. Mais dez minutos de caminhada em um ritmo tranquilo o levaram até o lugar que Andrew indicara e, assim que Neil viu as placas com o nome do bairro, digitou um rápido “Estou chegando” para ele.
As casas ali são pequenas, térreas, em sua maioria e praticamente todas são feitas de madeira. Uma arquitetura simples, mas bonita, bem característica de um bairro classe média. Por algum motivo, Neil desconfiou que Andrew morava ali. Andrew nunca falara muito sobre sua casa; as únicas coisas que Neil sabe é que ele e Aaron moram com a mãe e que a mesma é claramente abusiva com eles. Neil avançou pela rua até encontrar a casa com o número que Andrew mandara. Segue o mesmo padrão das outras: pequena e feita de madeira, mas tem um primeiro andar como diferencial. O quintal estava bem cuidado e o cheiro de grama recém cortada viajava pelo ar com a leve brisa que passava. Na entrada, em frente à porta, um tapete com uma mensagem gentil convidava alguém que estivesse do lado de fora a entrar, e a campainha ao lado da porta fez um barulho estrondoso quando Neil a apertou.
Andrew apareceu em questão de segundos, abrindo a porta com força o suficiente para fazê-la bater na parede interna. Vestido em roupas mais casuais e sem seus coturnos habituais, ele parecia ainda menor, por mais que Neil não tivesse muita moral para criticar a altura alheia. Estava vestido de preto dos pés à cabeça, como sempre, mas as roupas pareciam bem mais confortáveis do que as que costuma usar na escola. O casaco estampado com o nome de uma banda de rock que Neil não conhecia estava tão desbotado quanto a calça de moletom preta que usava e, ao descer um pouco mais o olhar, os calçados de Andrew arrancaram uma risadinha de Neil.
— Você usa crocs.
— Desde quando deixamos de falar oi e boa tarde?
— Você não tem cara de quem usa crocs.
— Entra logo.
Neil obedeceu e entrou, dando uma boa olhada na casa. O corredor inicial se bifurcava e levava, do lado direito, para uma cozinha bem grande e, do lado esquerdo, para uma sala de estar aparentemente vazia. Os cômodos estavam todos meio escuros, porque todas as cortinas e persianas estavam metodicamente fechadas, mas estava tão claro do lado de fora que, mesmo com tudo fechado e coberto, a parcela de luz que conseguia entrar pelas frestas era o suficiente para não deixar o ambiente engolido em escuridão. Andrew bateu a porta e trancou assim que Neil entrou, e não ficou muito tempo no corredor inicial.
— Aaron não está em casa?
— Aaron não mora aqui. — Andrew respondeu com o mesmo tom de sempre, mas uma sobrancelha erguida mostrava sua confusão.
— Ele não mora com você?
— Eu também não moro aqui. Essa é a casa do meu primo.
Andrew não ficou para responder às demais perguntas de Neil. Seguiu para cozinha e ficou lá por um tempo, sem chamar Neil para segui-lo. Enquanto ele fazia o que quer que estivesse fazendo, Neil digitou uma mensagem rápida para Kevin, avisando que estava com Andrew. Teoricamente, não precisava avisá-lo sobre nada, mas entraram em um consenso silencioso, anos atrás, de que avisariam um ao outro sua localização, caso estivessem distantes. Kevin respondeu com um simples “Ok”, bem a tempo de Andrew voltar da cozinha com um pote de sorvete e colheres. Com as mãos ocupadas, não conseguiu fazer o gesto habitual para chamar Neil para perto, então indicou a escada com a cabeça enquanto ia em sua direção.
Neil o seguiu, subindo logo atrás de Andrew, encarando suas costas. Mesmo sendo pequeno, Andrew tem uma composição física invejável. Às vezes, Neil se pega observando mais do que deveria e desvia os olhos na hora, temendo ser pego olhando, mesmo que Andrew já tivesse deixado bem claro que não se importava em ser encarado. Neil constantemente estava olhando para ele, simplesmente porque, sempre que Andrew estava presente, seus olhos não conseguiam deixar de segui-lo, e ele nunca se incomodou com isso.
O fim da escada dava para um pequeno corredor, com quatro portas de cada lado. Andrew abriu a primeira do lado esquerdo, entrou e esperou Neil fazer o mesmo para fechá-la com força. O quarto estava meio bagunçado, a cama e a cadeira da escrivaninha eram os únicos lugares onde não havia nada por cima. Andrew deixou o sorvete e as colheres em cima da mesa e sentou-se na cama, dando tapinhas no espaço vago ao lado de si para convidar Neil a se sentar ali. Neil fez como Andrew pediu, sentou no lugar indicado e deixou a mochila no chão, perto de seus pés. Neil tirou o roteiro da bolsa enquanto Andrew, ainda sentado, procurava o seu próprio no meio da bagunça da mesa. Quando finalmente encontrou, virou o corpo para Neil, abrindo a partir da primeira cena em que os dois estariam juntos.
— Vamos ensaiar todas as nossas cenas juntos. Anotamos as que ficaram confusas ou que você sentir que precisamos repetir. E depois tomamos sorvete.
Neil assentiu à explicação, então Andrew não demorou nem mais um segundo sentado. As cenas de Nathaniel sempre exigiam uma indiferença por parte de Neil, mas ela praticamente some quando ele está com seu amado. Nathaniel é completamente rendido por ele, e deixa isso bem claro, mesmo que de forma meio agressiva. À medida que Neil foi estudando o personagem, percebera que, querendo ou não, Nathaniel tem muito em comum consigo. Mas, ao mesmo tempo, eram completamente diferentes. Andrew dissera que Neil não combina com seu personagem e pedira para que ele descobrisse sozinho. Neil queria perguntar, e iria, mas o toque quente das mãos de Andrew em seus ombros o fez perder o rumo por um momento.
— Foco. — Neil ficou alguns segundos apenas encarando Andrew antes de assentir e se levantar.
Eles mapearam as cenas em que atuavam juntos e decidiram dar prioridade para aquelas mais íntimas e complicadas de se interpretar, mas buscaram seguir a ordem do roteiro. As primeiras cenas eram fáceis; os personagens se conheciam, Nathaniel começava a desenvolver sentimentos pelo antagonista e a história principal ia tomando um rumo que colaborava com o romance dos dois. Mas, quanto mais avançavam, mais difícil se tornava focar na tarefa. Andrew é um ótimo ator, isso é um fato, porém, sua desenvoltura fazia parecer que nem estava atuando. Falava como se aquilo fosse verdade, como se todos os apelidos carinhosos e os pequenos indícios de amor fossem reais, e não um papel para uma simples peça de teatro escolar. Neil, por sua vez, esquecia que estava encenando e falava as palavras no roteiro com uma certeza desconcertante. Estava indo bem, mas não porque entendera como as cenas entre os dois personagens deveriam funcionar, e sim porque acreditava em tudo o que dizia. À medida que foram passando e repassando as cenas, a convicção de Neil apenas crescia. Não queria parar de chamar Andrew daquela forma tão sutil e carinhosa, não queria parar de se referir a ele com uma infinidade de elogios, nem parar de segui-lo para todos os cantos. Queria que tudo aquilo fosse real. Queria que Andrew pudesse ser seu fora de palco também.
Neil passou a folha do roteiro com mãos levemente trêmulas e deu uma lida rápida na cena antes de começar:
— “Você diz que não quer que eu vá, mas também não me deixa ficar com você… O que é que quer de mim?” — Andrew vacilou por um momento, mas olhou para Neil com toda a intensidade que a cena pedia, aproximando-se à passos lentos.
— “Você não entende porque não é como eu. Você é falho, Nathaniel, mas tem uma chance de ser perdoado. Já eu nasci destinado a ser um pecador. Ficar perto de mim só vai te corromper. Além disso, você não tem o que é preciso para ser meu par.” — A boca de Neil secou enquanto esperava o tempo certo para falar, e foi quase impossível manter a voz calma para replicar sua própria fala.
— “Meu amor por você não é o suficiente? Eu te amo, tanto que estou disposto a carregar seus pecados contigo para que você não tenha todo esse peso nas costas. Estou disposto a abrir as portas do céu com minhas próprias mãos, se isso lhe fizer feliz. Não sou capaz de suportar a dor que me separar de ti causaria. Eu te amo, por isso — Lendo o roteiro, o beijo estava previsto para acontecer depois de mais uma troca de falas entre Neil e Andrew. Mas, antes mesmo de Neil concluir, Andrew já estava se aproximando.
A mão firme de Andrew deslizou pelo rosto de Neil com uma delicadeza inesperada, fazendo-o arrepiar dos pés à cabeça. O calor do diminuto corpo de Andrew emanava entre eles, deixando um quentinho agradável no meio dos dois. Um carinho leve tirou todos os sentidos de Neil do lugar, mas nada se comparou, ou se compararia, à onda intensa que o atingiu em cheio ao sentir os lábios de Andrew contra os seus pela primeira vez. Beijá-lo era uma mistura de calor, firmeza e intensidade. Andrew o beijava como se sua vida dependesse disso; como se a boca de Neil fosse a única coisa que o mantinha vivo. Seu beijo não é, nem de longe, delicado. É mais como se eles estivessem brigando. Neil perdera o fio da meada a muito tempo; não conseguia pensar em nada. Sua mente estava completamente em branco, e continuou assim, mesmo depois de Andrew se afastar.
Neil não percebeu que estava indo para trás até encostar na parede do quarto. Suas mãos trêmulas pairavam sobre a boca, sem tocá-la de maneira definitiva. Andrew não voltou a se aproximar. Continuou estático, sem dar um passo sequer para frente. Sua expressão não se alterara muito, mas o cenho estava levemente franzido em uma linha que Neil não conseguiu distinguir se era preocupação ou arrependimento, mas ele conseguia afirmar com toda certeza do mundo que ele estava todo vermelho.
— Se você não queria, era só ter dito. — Pela primeira vez ao longo de toda sua amizade com Andrew, sua voz estava trêmula, incerta. Neil afastou as mãos do rosto e desencostou o corpo da parede, se aproximando de Andrew como se ele fosse um animal assustado.
— Não — As mãos foram de encontro ao rosto de Andrew numa lentidão questionadora, como se pedissem permissão para tocá-lo. Um aceno de cabeça foi tudo o que Neil precisou para afundar os dedos nas bochechas alheias. — Não é isso. Eu queria. Eu quero.
— Você quer — Não foi bem uma pergunta, mas também não foi uma afirmação. — Você quer. Sim ou não?
— Sim. — A resposta saiu tão rápido que mais pareceu uma lufada de ar do que uma palavra propriamente dita, mas Andrew não perdeu tempo.
As mãos foram até os antebraços de Neil, apertando-os enquanto Andrew se inclinava para beijá-lo. E não foram duas ou três vezes. Os dois ficaram naquela posição por minutos, beijando um ao outro incansáveis vezes, provando o gosto um do outro. A partir de determinado ponto, Neil nem sequer sabia o que se passava ao seu redor. Tudo o que sentia era o calor das mãos e dos lábios de Andrew contra os seus, os dedos dele cravados em seu braço e suas bochechas, que tocava com dedos trêmulos.
— Andrew — Chamou entre os lábios alheios, mas sua voz saira tão fraca que Andrew não ouviu. Ou, se ouviu, preferiu ignorar. — Andrew.
Relutantemente, ele se afastou e encarou Neil, inclinando a cabeça de leve em um questionamento silencioso.
— Precisamos terminar de ensaiar.
— Nós estamos ensaiando.
— Nós estamos nos beijando, Andrew
— E não é a mesma coisa? — Neil não conseguiu responder, então, para calá-lo de vez, Andrew iniciou mais uma sequência de beijos em Neil.
Ficaram quase quinze minutos se beijando e só pararam porque Andrew percebeu que suas unhas já estavam começando a machucar os braços de Neil. Terminaram de passar mais algumas cenas e, depois, discutiram os pontos fortes e fracos de cada uma delas. Quando finalmente acabaram, já eram quase 19:00. No meio do ensaio, Andrew desceu para voltar o sorvete para o congelador para que não derretesse.
Neil mandou uma mensagem para Kevin avisando que já haviam concluído o ensaio, mas obviamente não mencionou os beijos extras que ganhara. Nesse meio tempo, Andrew voltou com o pote de sorvete e as colheres. Outra coisa que Neil não esperava dele. As crocs o pegaram de surpresa, mas descobrir que Andrew gostava de comer sorvete à qualquer hora do dia, direto do pote, em especial, fora, no mínimo, chocante.
Andrew se sentou ao lado de Neil e colocou o sorvete entre eles, onde ambos poderiam alcançar. Entregou uma colher para Neil e tomou a liberdade de comer primeiro.
Enquanto comiam, o silêncio entre eles dera espaço para Neil pensar. A forma como tudo aconteceu o deixou atordoado. Ele tinha perguntas, mas não sabia como formulá-las. Andrew parecia estranhamente calmo após tudo aquilo, como se nem tivesse sido afetado, mas Neil tinha quase certeza que esse julgamento era errôneo. Andrew não beijaria Neil apenas para provocá-lo ou brincar com seus sentimentos confusos. Se essa fosse sua intenção, não ficaria tão preocupado em transpassar seus limites. Não só isso; Andrew ficara completamente vermelho depois do primeiro beijo que deram. Não só seu rosto, como suas orelhas e sua nuca. Não conseguia acreditar que ele faria tudo isso, tendo todas essas reações, apenas para se divertir. Andrew estava bem ao seu lado, quieto, com o pote de sorvete apoiado nas coxas e concentrado em derreter um pouco o conteúdo. Neil abriu a boca, tornou a fechá-la e tentou de novo:
— Você disse que eu não combino com o Nathaniel. Por quê? — Neil pensou que ele não fosse responder, visto que nem sequer olhou para ele.
— Porque você é bom demais para interpretar ele — O cérebro de Neil parou de funcionar por um momento. — Você não merece fazer um personagem que se humilha daquela forma.
Neil ficou em silêncio, porque era tudo o que conseguia fazer. Olhava para Andrew como se ele fosse a resposta para tudo, e talvez realmente fosse. Neil já não sabia mais o que pensar ou o que falar, aliás, duvidava até se conseguia respirar da forma correta naquele momento. Andrew o encarava com a mesma expressão de antes, mas seus olhos estavam pesados, cheios de sentimentos não ditos, e seu rosto estava avermelhado, tanto que, mesmo com a baixa luminosidade do quarto, Neil reparou. Andrew pode não ser muito expressivo, mas sua linguagem corporal entrega tudo o que sente, desde a leve linha franzida em sua testa quando ele está com raiva ao tom de sua pele se alterando aos poucos quando a vergonha o consome.
Um silêncio quase desconfortável se instaurou entre eles, e Neil não percebeu que estava se aproximando até sentir o ombro esquerdo de Andrew contra o seu. Eles se olharam por um momento. Andrew, com seus olhos afundados em olheiras profundas, mas que não prejudicavam em nada sua aparência, parecia cheio de coisas a dizer, porém, tudo o que fazia era olhar. Neil poderia passar horas, dias ou meses inteiros apenas olhando para Andrew, reparando em todos os seus detalhes, gravando cada coisinha em sua mente, desde à cor castanha clara de seus olhos, o corte curto e caseiro em seu cabelo loiro, às pequenas pintas clarinhas em seu rosto à quantidade de piercings em suas duas orelhas, no nariz e nos lábios, que, por sinal, não atrapalham em nada na hora de beijar.
— Andrew. — Os olhos alheios, vagando entre as bochechas cheias de sardas de Neil e seu cabelo avermelhado todo bagunçado caindo de leve sobre os olhos, fixaram-se nas íris dele por um tempo. — Eu acho que te amo.
Andrew não é expressivo, nem é de falar muito. Mas Neil sempre sabe lê-lo. Andrew se esforça para passar a imagem de que não se importa com nada, nem com o que pensam sobre ele, nem com o que falam dele, porém, com Neil, a questão é completamente diferente. Neil vê através disso, abaixa a guarda de Andrew e faz com que ele demonstre cada vez mais o que sente, mesmo que à sua maneira.
O peito de Andrew, coberto pelo tecido grosso do casaco, subia e descia em um ritmo mais acelerado do que o normal, tanto seu rosto quanto suas orelhas estavam tão vermelhas que pareciam prestes a explodir. Seu rosto continuara impassível, como se nada estivesse acontecendo, mas, para Neil, era visível o quão afetado ele estava. Andrew ficou em silêncio por quase um minuto, e Neil já começava a se arrepender de ter aberto a boca quando Andrew finalmente começou a remexer os lábios para formular uma resposta.
— Fala isso de novo.
— Eu te amo.
— De novo.
— Eu te amo, Andrew.
Neil não conseguiu terminar de pronunciar a última sílaba do nome de Andrew; ele agarrou seu rosto e enterrou os lábios contra os de Neil de forma até meio agressiva, mas isso não era, nem de longe, um problema. Neil, por sua vez, afundou a mão esquerda na curva do pescoço de Andrew, deixando-o guiar o beijo. Separaram-se, mas voltaram a unir os lábios novamente segundos depois, dando um espaço mínimo entre eles para recuperar o fôlego. Repetiram esse mesmo processo várias e várias vezes e, quando ficar lado a lado começou a se tornar desconfortável, Andrew tomou a liberdade de subir em cima de Neil, sentando em seu colo para facilitar as coisas. Beijavam-se com força, cada ósculo exalando uma vontade sobrenatural de se entregar cada vez mais aos estímulos e às sensações. O calor abrasador entre eles começava a se tornar desconfortável, considerando as camadas de roupas que usavam, e Andrew estava pronto para se livrar de uma delas se não fosse pelo som horrível que a campainha da casa fizera ao ser tocada.
Neil se assustou, mas Andrew nem pareceu notar. Continuo focado na tarefa de beijar cada centímetro exposto do corpo de Neil. Quem quer que estivesse na porta precisou tocar mais duas vezes até Andrew desistir temporariamente de Neil e descer para abrir. Antes de ir, ele olhou pela janela para conferir quem era.
— Nicky chegou.
— Nicky? — Questionou, inclinando a cabeça para o lado de leve.
— Meu primo.
— O dono da casa?
— Dono é uma palavra muito forte para quem deixa a própria casa vazia por quase um ano.
Andrew desceu as escadas na maior lentidão possível e, por algum motivo, Neil julgou ser de propósito. Assim que abriu a porta, Nicky desatou a falar, tão rápido que Neil não conseguiu entender nem uma palavra. Ele dizia coisas sobre a Alemanha e citava uma pessoa que Neil não conhecia com um entusiasmo quase contagiante. Andrew, por sua vez, parecia extremamente entediado, empurrando o primo para dentro de casa o mais rápido possível para poderem se livrar do frio que fazia do lado de fora. Nicky entrou e parou de falar assim que bateu os olhos em Neil, chocado demais para formular uma frase coerente.
— Você não disse que ia trazer um amigo. Droga, Andrew! Se tivesse me avisado, teria comprado algo pra comermos juntos.
— Nós comemos sorvete.
— Como se isso fosse janta. — Nicky parecia prestes a iniciar uma briga ali mesmo, então Neik tomou a liberdade de intervir.
— Tudo bem, eu já estou de saída — Andrew olhou imediatamente para ele quando disso isso, mas Neil evitou encará-lo de volta. Queria ficar mais tempo, mas, assim que os pais percebessem sua ausência, fariam um auê. — Só vou subir e pegar minhas coisas.
Enquanto subia as escadas, Andrew vinha logo atrás, seguindo-o de perto, sem dizer nada. Neil colocou as coisas que tirara de volta na bolsa e pegou o casaco antes de fechá-la. Virou-se para ir embora, mas perdeu as forças ao dar de cara com Andrew a pouquíssimos centímetros de si.
— Obrigado pelo ensaio. E pelos beijos também. — Andrew não respondeu, mas o leve aceno de cabeça que deu foi o suficiente para Neil.
Desceram e, antes de sair, Nicky insistiu que Neil levasse com ele um dos muitos potes de sorvete que Andrew estocava na casa dele. Andrew pareceu não gostar muito da ideia, mas não impediu o primo. Neil despediu-se dos dois na porta e seguiu caminho rua à fora.
Mesmo estando um pouco tarde demais para ir andando, Neil fez todo o caminho de volta a pé, passando todas as cenas — da peça ou não — que reproduziu com Andrew naquela tarde. Só parou porque chegou em casa e o cérebro já estava beirando a loucura. Antes de entrar, olhou pela janela que dava para a sala de estar. O pai estava lá, sentado no sofá, provavelmente assistindo alguma coisa. Parecia mais calmo. Mary deveria estar lá em cima, no quarto, então, o melhor caminho para Neil era a porta da dispensa. Contornou parte da casa para chegar até lá. Desde que o animal invadira a por ali, Neil fez um remendo improvisado para que a porta não ficasse totalmente desprotegida. Abriu-a com cuidado e entrou. Mesmo se tivesse arrebentado a porta, Nathan provavelmente não ouviria, visto que a televisão estava em um volume insalubre.
Subiu as escadas como uma flecha e, felizmente, a mãe deveria estar perdida nos próprios assuntos, porque a porta do quarto que dividia com Nathan estava fechada. Neil entrou no próprio quarto, largou as coisas em cima da cama e a primeira coisa que fez foi mandar mensagem para Kevin. Não queria ser tão direto contando exatamente tudo o que aconteceu, então, optou por algo mais discreto, mas que ele entendesse.
“Acho que agora entendi o que você quis dizer com gostar mais do Andrew do que eu pensava.”
[…]
As semanas se passaram com uma agilidade surreal e, a cada dia que passava, os ensaios ficavam mais intensos. A correria para organizar figurinos, cenário, pensar no esquema de luzes e no marketing da peça, somadas às necessidades pessoais e estudos, deixaram todos os membros exaustos, mesmo os que não estavam nas linhas de frente Dan, Matt e Renee mais pareciam zumbis enquanto ensaiavam, mas mesmo com esse cansaço aparente, os três davam o máximo de si para organizar os ensaios e auxiliar os novatos com suas dúvidas. Neil anotava tudo para tentar ajudar de alguma forma, e dava algumas instruções básicas de como se portar em palco para aqueles que estavam meio perdidos.
Mas, no fim, toda essa comoção e dedicação valeu a pena, pois, quando o sábado para o qual marcaram a peça chegou, tudo estava no melhor estado possível. O clube de artes visuais aceitara fazer a divulgação da peça sem pestanejar, e a trilha sonora que o clube de música fizera estava impecável. Os atores estavam, em sua maioria, seguros de si. Haviam ensaiado muito, tanto sozinhos quanto nos encontros semanais que tinham. Cada um ali colocara um esforço especial para que o projeto caminhasse e desse certo, e tudo isso estava finalmente dando algum resultado.
Enquanto Neil caminhava para encontrar Kevin, o celular em seu bolso vibrava sem parar com as mensagens do clube de teatro organizando os últimos detalhes da peça. Algumas pessoas do clube de artes visuais se ofereceram para montar o cenário, e Matt o levaria para eles na caçamba de sua caminhonete. Neil supôs que Aaron iria com Andrew, então, provavelmente, chegaria bem mais cedo do que o necessário. Kevin acompanharia Neil, mesmo que a contragosto. Estava mais interessado em suas próprias sessões de treino, mas, quando o projeto começara, Neil fez Kevin prometer que ele iria assistir à peça. No fundo, sabia que Kevin iria mesmo, sem essa promessa.
Neil acenou para Kevin de longe, e só se deu conta de que estava sorrindo porque Kevin sorriu de volta. Kevin só sorri quando está certo sobre algo ou quando Neil sorri para ele primeiro, do contrário, seu rosto franzido em descontentamento está sempre à mostra.
— Bom dia. — Neil saudou ao se aproximar.
— Bom dia — Eles ficaram em silêncio por um tempo, apenas se olhando. Kevin abriu um sorriso convencido para Neil, quase como se tivesse plena certeza de que a peça seria um sucesso. — Está pronto?
— Claro.
— Então vamos.
O teatro em que se apresentariam era extremamente perto da escola e, geralmente, era para onde o colégio mandava os eventos e palestras maiores. Podiam fazer o mesmo trajeto que faziam todos os dias e, depois, virar uma esquerda à mais para chegar no teatro. Passaram o caminho todo em um silêncio agradável que permitiu que Neil repassasse mentalmente suas falas e cenas, dando uma atenção extra para aquelas em que Andrew estava presente. Chegaram mais rápido do que Neil imaginou. Ele se despediu de Kevin no hall de entrada do teatro. Dali, Neil avançaria para a área dos bastidores e para o camarim. Kevin disse um “boa sorte” tão baixo que Neil mal escutou, mas sorriu para ele de volta em resposta e deixou-o para trás.
À medida que avançava, encontrava alguns membros dos outros clubes de artes, passando para lá e para cá cheios de pressa e ansiedade. O camarim não estava diferente, aliás, estava mil vezes pior. Os novatos tinham expressões nervosas no rosto, alguns até mesmo hiperventilando. Dan e Matt tentavam controlá-los e mantê-los focados, mas estavam igualmente nervosos, a diferença é que sabiam disfarçar melhor. Renee parecia calma à primeira vista, porém, a forma como mexia as mão ansiosamente sempre que elas estavam desocupadas entregava tudo. Neil não sabia como se sentir. Uma leve pressão em seu peito sempre tomava conta de si antes de entrar em palco, mas ele sempre soube se controlar bem nesses momentos.
Neil deu um breve cumprimento geral, deixou sua mochila e bolsa em um cantinho e começou a trabalhar. Ajudou os menos experientes a acertarem o tempo de entrar em cada cena, bem como ajustou o tom de voz que deveriam usar para falar com o público. Confiou que eles já sabiam como mudar de entonação para entonação, então não repassou isso. Auxiliou os mais adiantados com os figurinos em maquiagem antes de colocar a sua própria roupa. Ele e Renee fizeram maquiagens simples nos atores, apenas para representar um pouco mais os personagens. Repetiram o mesmo processo em todos os atores e, quando terminaram, os dois foram vestir seus próprios figurinos. Renee faria a maquiagem nela mesma e em Neil. Enquanto se vestiam, Andrew chegou, poucos minutos atrasados. Neil não conseguiu ouvir a desculpa que ele dera porque estava longe, mas só de vê-lo ali era o suficiente para acalmar-se e focar-se em ficar pronto.
Renee fez a maquiagem em Neil tão rápido que ele mal sentiu e, durante todo o processo, seus olhos ficavam seguindo a movimentação de Andrew com cuidado para não atrapalhar. Quando foi liberado, a primeira coisa que fez foi ir atrás de Andrew. À essa altura, os dois dispensavam cumprimentos, simplesmente se abraçavam ou ficavam em extremamente próximos um do outro, quase se encostando, em silêncio. Neil parou em frente a Andrew, já vestido em seu figurino e maquiado por Dan. Usando aquelas roupas e com as linhas do rosto levemente destacadas, ele parecia até um anjo. Não falaram nada um para o outro, mas o olhar que trocaram por aqueles poucos segundos foi o suficiente para dizer tudo. Tiveram que se afastar quando Dan os chamou para dar os avisos finais antes de entrarem em palco.
— Beleza, pessoal, estamos trabalhando nesse projeto há quase três meses. Agora, é hora de botar esse bloco na rua. — Mesmo que sua voz estivesse trêmula, as palavras saíam com uma confiança que faria qualquer um se sentir inspirado. — Vocês se esforçaram muito para que pudéssemos chegar até aqui, assim como todos os outros envolvidos. Então agora é a hora de mostrar que todo esse esforço valeu a pena! Boa sorte para todos nós, vamos lá.
Matt soltou uma espécie de grito de guerra quando Dan concluiu, e Renee foi na mesma. Os três lideravam a fila indiana até os bastidores do palco. De onde estavam, já dava para ouvir a conversa da platéia, que parecia lotada. Um arrepio percorreu o corpo de Neil. Atuar sempre foi e talvez fosse uma válvula de escape para sempre, mas nada se compara a atuar ao lado de Andrew, principalmente como seu par romântico. Era um papel que ele gostaria de interpretar dentro e fora das cortinas, para além delas. Andrew estava logo atrás de si, próximo o suficiente para que Neil sentisse seu respirar lento. Neil parou de repente, virando-se para ele, fazendo-o ir direto de encontro ao seu rosto.
— Você está pronto? — Sussurrou, aproximando o rosto o máximo que podia, sem encostar de forma definitiva
— Pra beijar você na frente de um monte de gente? Não poderia estar mais pronto.
Neil não soube o que responder, então tudo o que fez foi abrir um sorriso e voltar a caminhar. A luz diminuía aos poucos enquanto os últimos minutos antes da peça começar iam embora. Em pouco tempo, as cortinas se abririam, e Neil estaria tornando-se Nathaniel para um monte de gente. Durante aquela uma hora, não seria mais Neil Josten, mas sim Nathaniel Wesniski, o par romântico do antagonista de peça que, curiosamente, também era seu amado, Andrew Minyard.