Actions

Work Header

If I loved you less

Summary:

Anna needed a marriage, Andrey needed sunlight, and Daniil received a letter; - or how Medvedev can't stand this man who appeared out of nowhere and has very irritating manners, but who offers him the greatest challenge.

A little prequel to Half Agony, Half Hope.

Notes:

This is a prequel to Half Agony, Half Hope, my other work here on Ao3, and also an experiment; I'm struggling to write in English, so I decided to write in my own language (and definitely, I feel that the words worked way better for me this way, I wrote much faster, etc). I definitely don't want to abandon Half Agony, but while I'm still working on the next chapter, have this little story!

(The title is from *that* line of Austen's Emma: "If I loved you less, I might be able to talk about it more.")

(See the end of the work for more notes.)

Chapter Text

A ideia partira de Anna. Ela estava naquela idade em que os pretendentes são abundantes, e os pais, desesperados. Anya sabia que sua alta posição exigia um bom casamento, e que logo teria de deixar de olhar para os lados por diversão para começar a olhar a sério para suas opções; porém não sentia que havia motivo para pressa, convencida de que seu divertimento em olhar aqui e ali, aceitando aos risos as flores e versos de má qualidade em sua homenagem, cairia em algum momento em alguém digno de amá-la e ser amado por ela. 

Seus pais, entretanto, estavam um pouco mais apressados. Quando Anna ouviu um certo nome saindo da boca de seu pai junto com as palavras "arranjei", "proposta" e "casamento", sua única reação foi chorar copiosamente, de joelhos, como se tivesse acabado de ouvir sua sentença de morte. O pai olhava-a atônito, tão chocado com a cena que não sabia se deveria brigar com a filha, acolhê-la ou ignorá-la. Anna não era dada a arroubos do tipo, mas era como se tivesse sido tomada por um demônio à mera menção do nome daquele cavalheiro desagradabilíssimo; sorte que sua mente também era ágil o bastante para pensar numa saída. Acalmando os ânimos à medida que o maquinário do seu cérebro girava mais rápido, apontou para o pai como aquele casamento não era nada vantajoso, e como ela, a princesa Kalinskaya, merecia mais do que um moscovita qualquer. Não, não, a Rússia era pequena demais para ela (o pai ficou um pouco confuso com essa afirmação, vale dizer). Ela merecia ir para a Europa. O pai tentou convencê-la então que ela ao menos deveria tentar procurar por alguém em São Petersburgo primeiro, mas Anya estava irredutível: ou era Europa ou ela passaria o resto de seus dias reclusa, com direito a voto de silêncio e tudo. Ora, era uma moça tão bonita, inteligente e cheia de habilidades! Se não arranjasse um casamento prontamente, ao menos era certo que a experiência não seria em vão, pois tinha a convicção de que todos os seus talentos seriam expandidos no mero contato com novos ares. 

Sabe-se lá como, mas o pai se convenceu da ideia afinal. Claro que era impensável que uma jovem moça como ela viajasse sozinha, mas Anna também já havia pensado nisso: levaria Dasha consigo. Bem, certo, a situação melhorava consideravelmente; Daria Kasatkina era uma mulher já noiva, comprometidíssima e apaixonada, o que a qualificava imediatamente como uma companhia confiável e ajuizada - a própria Dasha não ter ideia da situação e não ter concordado com essa viagem era apenas um detalhe. Ainda assim, a comitiva continuava pequena demais, e o trajeto era muito longo e muito distante para duas moças percorrerem sozinhas. O primeiro problema foi resolvido rapidamente: Anna escreveu uma carta bastante detalhada a Dasha explicando-lhe a situação e pedindo por socorro, ao que Daria não teve resposta senão aceitar (apesar de achar uma tragédia ter que se distanciar de sua Natasha por tanto tempo). Mas o que fazer quanto ao tamanho do grupo?

Foi assim que Andrei Andreievitch apareceu na porta de Daniil num fim de tarde de terça-feira. 

O rosto outrora alegre de Andrei foi instalado numa poltrona ao lado de Danya, uma expressão meio travessa, meio embaraçada. Ele estava naqueles dias que vinha enfrentando há já um tempo e que seu amigo aprendera a reconhecer, dias em que a melancolia se prendia à sua alma como um mau-cheiro que não se desgarra de um casaco velho. Tal condição tornava Andrei mais desatento aos detalhes ao seu redor, de modo que ele não percebeu que Daniil segurava uma carta de punho cerrado, mais desanimado e irritadiço do que o normal.

- Desculpe, Danya, mas surgiu uma questão e precisei vir vê-lo. 

- O que há? - mesmo indisposto, era impossível mandar Andrei dar meia-volta e ir para casa. Foi capaz apenas de mandar trazerem o samovar e esperar para ouvir o que seu amigo tinha a dizer. 

- Dasha me escreveu. Não a sua Dasha, me refiro à nossa amiga. Ela vai para a Europa junto com Kalinskaya e convoca a nossa companhia. 

Daniil piscou algumas vezes em silêncio. 

- Para a Europa - repetiu, como se seu amigo fosse um idiota que tivesse acabado de lhe dizer apenas palavras soltas e desconexas. - E o que diabos vamos fazer na Europa?

- Não sei. - admitiu Andrei, dando de ombros. - Dasha disse que há cidades europeias que fariam muito bem ao meu estado de espírito atual. E de fato, o último médico com quem me consultei recomendou-me banhos termais em algum lugar mais ensolarado. 

- Ah, certo. - Daniil conteve a vontade de revirar os olhos com impaciência. - E Anna e Dasha também estão precisando de banhos solares?

- Pelo que entendi, na verdade, Anna precisa de um casamento. Ou pelo menos de uma boa desculpa. 

O samovar chegou antes que Danya pudesse responder qualquer coisa, e os dois homens permaneceram em silêncio por um tempo, encarando suas respectivas xícaras de chá. Andrei passa a maior parte do tempo olhando para baixo agora, constatou Daniil com certa tristeza. A situação de Anna também era digna de empatia pelo que podia entender. Deu um longo suspiro: 

- Bem, o que você pensa dessa proposta? 

- Viajar seria bom para mim, Danya. Há tempos desejo passar o verão longe daqui, e sinto que meu coração bate cada vez mais lento a cada vez que olho as mesmas árvores pela janela! 

Ah, céus. Às vezes Daniil tinha vontade de pegar Andrusha no colo e repetir para ele as mesmas palavrinhas amáveis que dizia para sua filha quando precisava acalmá-la.

- Então vou pensar. - respondeu, e viu o rosto de Andrei se iluminar imediatamente. 

- Vamos, Danenka! Há quanto tempo não viaja ou faz algo diferente?

- Ser um homem casado e pai não é suficientemente diferente para você?

- Ah! Não vamos nos mudar para a Europa, é apenas uma temporada. Tenho certeza que Dasha (agora sim, a sua Dasha) vai entender e apoiar sua ajuda aos amigos. 

- Vou pensar. - repetiu Daniil, porém de maneira mais doce. - Estou surpreso que queira ir. 

- Já disse, aqui parece que não me resta mais nada. Não vejo porquê não ir. 

- Se eu soubesse antes que as árvores em frente à sua janela são tão destruidoras, garanto que teria mandado cortá-las o mais rápido possível. 

Andrei riu com o comentário; era bom vê-lo assim depois de um longo tempo em que parecia que o rapaz havia se esquecido de como gargalhar. 

- Concordo que uma distância fará bem a você, e as garotas são boas companhias. Tenho certeza que vai se divertir muito. 

- Você também é uma boa companhia, Daniil. 

Não, eu não, pensou Daniil amargamente, a carta amassada em uma das mãos. Ainda assim, forçou-se a dar um sorriso, que saiu como um erguer de sobrancelhas meio sarcástico. 


Ele não se lembrava exatamente qual fora a ocasião em que vira Stefanos pela primeira vez. Lembrava-se que estava acompanhado de Andrei quando este ainda era a pessoa mais risonha em qualquer lugar em que pisasse, e que estavam num daqueles bailes de sempre com as pessoas de sempre, regados a bebidas e papo furado. Em suma, não era exatamente o seu ambiente favorito, mas raramente declinava algum convite a essas reuniões sociais; às vezes encontrava alguém com quem conseguia desenvolver boas discussões, ou era levado à mesa de carteado - e ele jamais recusava um carteado. No pior dos cenários, se não encontrasse nem discussão nem jogo, sempre tinha Andrei para tagarelar. Nessa noite se encontrava na última situação, com o adendo que ele próprio estava mais recluso em um canto do salão, esperando o amigo, que se enfiara sabe-se lá onde, aparecer novamente. 

Tsitsipas sequer fora-lhe apresentado diretamente. Daniil avistou-o tocando piano, muito compenetrado na própria música, parecendo dar a si próprio tamanha importância como se achasse que todos deveriam fazer silêncio para ouvi-lo. Sua primeira impressão daquele homem não fora lá muito positiva; era uma figura deslocada. Será que alguém ali apreciava sua companhia o bastante para tê-lo convidado? De qualquer modo, esse deslocamento não parecia incomodá-lo. Tinha ares de superioridade que desagradaram Daniil imediatamente. 

- Você sabe quem é aquele ao piano? - perguntou a Andrei, que acabava de se juntar a ele após uma longa e sociável circulada pelo salão. 

- Pelo pouco que ouvi dizer, parece que é grego. Veio visitar a mãe aqui em Moscou. 

- Ele parece desagradável - disse Daniil por fim após uns segundos de silêncio entre os dois amigos. 

- Céus, Danya, o que foi que ele te fez? - indagou Andrei, risonho. Ele nunca levava suas más impressões a sério!

- Nada, apenas achei-o antipático. 

Andrei balançou a cabeça com um olhar irônico. É claro que não entendia, possuía uma visão ingênua demais sobre os outros, e Daniil se recusava a ser contagiado por ela; estava convencido de que era impossível aquele homem ao piano possuir qualquer qualidade, e muito haveria de acontecer para prová-lo o contrário.  


Em momento algum ele se sentia arrependido de ter se casado com Dasha; foi o que pensou enquanto observava silenciosamente a esposa concentrada a bordar. 

- O que Andrusha queria, afinal? - indagou a mulher sem tirar os olhos do trabalho em seu colo. Suas mãos eram ágeis em meio às linhas, agulhas e tesouras, rápidas e delicadas ao mesmo tempo. Daniil gostava de vê-la bordando, como se acompanhar o movimento de suas mãos e das linhas coloridas lentamente formando flores no tecido lhe trouxesse uma organização mental, desatasse pequenos nós de seu cérebro sempre tão agitado. 

- Kasatkina escreveu para ele. Kalinskaya precisa arranjar um casamento na Europa e pede a nossa companhia para a temporada. 

Os olhos de Dasha finalmente se voltaram para o marido, uma das mãos ainda segurando a agulha no ar. 

- Para a Europa?

- Tive a mesma reação. - Daniil deu de ombros. - Quis falar com você antes de dar minha resposta. 

Dasha piscou algumas vezes: 

- Uma temporada é um tempo longo. 

- Passará rápido.

- Entendo que as meninas não possam viajar sozinhas, mas a companhia de Andrei não é suficiente?

- É ele quem insiste em minha presença.

- E por quê?

- Porque ele precisa de mim. Você precisava ouvi-lo hoje mais cedo, quase que eu mesmo fiquei deprimido. 

Dasha suspirou profundamente daquela mesma maneira que fazia toda vez que o casal discutia por algum motivo banal (e que, vale ressaltar, geralmente causada por Danya por puro ócio). Nutria afeição por Andrei e não se atrevia a interferir na velha amizade que mantinha com seu marido, especialmente quando era sabido que o rapaz estava passando por um momento tão duro. 

- Escreva-nos todos os dias. - disse por fim. 

- Não sei se terei tanto assunto todos os dias... 

- Não tem importância, é apenas para lermos sua letra enquanto você estiver longe. E nem pense em voltar para cá sem uma boneca para Alisa!

Danya não pôde deixar de sorrir; sua querida e companheira Dasha! Uma temporada realmente parecia um tempo muito longo longe de sua filha e sua esposa. Vendo-a assim, ele não tinha dúvidas de que a amava...

...Certo? 


O grego voltou a aparecer em outras ocasiões sociais. Daniil não fazia ideia de quem o convidava ou como ele conseguira se incluir em seu círculo, mas lá estava Stefanos de queixo erguido em todos os salões que frequentava. Sua primeira impressão apenas se agravava cada vez mais, e Tsitsipas parecia transpirar arrogância, da postura ao modo de divagar pomposamente sobre qualquer assunto, à maneira de se vestir, de se portar. Felizmente falavam-se raríssimas vezes; mais especificamente, apenas quando ambos eram chamados à mesa de carteado, onde Stefanos revelava-se um oponente bastante focado, interessante e difícil. Por sorte Daniil nunca precisara formar uma dupla com ele em jogos que exigiam pares (Andrei estava sempre disponível para isso), mas apesar de toda a antipatia, era inegável que sentia um prazer especial em afrontá-lo nas cartas. Aos poucos, vê-lo lhe trazia uma inquietação: não gostava do homem, mas animava-se com o desafio que ele lhe proporcionava. 

Uma pena que Stefanos realmente não estava tão preocupado em manter uma boa convivência. Foi num desses bailes de sempre com as pessoas de sempre na residência de sei-lá-quem que a situação se agravou. Daniil e Andrei foram juntos até a mesa de bebidas caçar algum refresco decente quando passaram por Stefanos, que conversava com uma pequena roda de cavalheiros. Escutar a voz de Tsitsipas já era o suficiente para fazer Daniil revirar os olhos, mas o que de fato fez seu sangue ferver foi ouvi-lo dizer: 

- O tal Rublev? Sim, conheço-o mais pelas cartas do que pela conversa. Não é grandes coisas enquanto jogador. Quando perco para ele, sei que é por causa de seu habitual parceiro, o senhor Medvedev, ou por algum descuido de minha parte. Medvedev tem algo a oferecer e eu até o respeito como jogador, mas Rublev, coitado, é bobo demais! Não sei como ainda o convidam para jogar se só sabe fazer sempre os mesmos lances...

Rublev é bobo demais?! E ele até me respeita como jogador?! As palavras detestáveis que acabara de ouvir se repetiam em seu cérebro insistentemente, cheias de raiva. 

- Você ouviu isso? Que imbecil, Andrusha, não dê ouvidos a ele! 

- Não me importo. - respondeu Andrei, claramente incomodado. Estava tão murcho quanto uma flor deixada sem água e sem sol. - Você de fato é um jogador melhor. 

- Tolice! - Daniil estava tão irritado que não se preocupava se sua reação estava sendo razoável. Virou-se para Stefanos, que não os tinha visto ali até então, e deu-lhe um cutucão forte no ombro: 

- Ao menos tenha a coragem e a decência de dizer sua opinião errada sobre meu amigo diretamente a ele! - Nesse momento apontou para Andrei, que estava imóvel e de olhos arregalados como se quisesse fugir dali. - E saiba também que seu respeito não significa nada para mim, eu desprezo seu respeito! 

Devia estar falando alto demais, pois de repente todos em volta ficaram em silêncio, observando perplexos aquela cena. 

- Danya... - chamou Andrei, horrorizado. - Não estou chateado, não precisa disso... 

Stefanos ouviu a tudo em silêncio e inexpressivo, sem um franzir de cenho, um erguer de sobrancelhas, nada. Esperou Daniil terminar para virar-se sobre os calcanhares e sair de perto sem dizer palavra. 

Daniil era uma pessoa facilmente irritável, mas aquela noite em especial ficaria marcada como uma ocasião que o fez sair dos eixos como poucas haviam conseguido. Sentia-se ainda mais ofendido com aquele desprezo, em como Stefanos parecia não dar a mínima para nenhuma de suas palavras, de como ele não tinha coragem de lhe responder. Seu silêncio era ainda mais insuportável que a difamação! 

- O que foi, está com medo de me responder? - ele falava cada vez mais alto, ignorando o burburinho ao seu redor e os puxões desesperados de Andrei em sua manga. - Você vai fugir, Tsitsipas? Como uma criancinha? 

E antes mesmo que ele pudesse raciocinar, antes mesmo que ele pudesse ordenar cada palavra em sua língua com cuidado, elas se atropelaram num grito convicto:

- Um duelo! Eu te chamo para um duelo, Tsitsipas! 

O salão inteiro exclamou um oh! assustado e ao mesmo tempo muito entretido. Só então Stefanos virou-se na direção de Daniil, mas ainda carregando a mesma expressão que não esboçava nada, no máximo tédio:

- Um duelo? 

- Sim, eu e você. Arranje um padrinho, o meu será Rublev. 

Andrei estava pálido e parecia prestes a desmaiar. Stefanos acenou com a cabeça e disse, num tom de voz morno: 

- Escreva-me a hora e o local. 

E então foi-se embora de vez.