Chapter Text
Vulcanos não deveriam ter coisas favoritas. Isso era uma tendência ilógica e humana, que deveria ser evitada a todo custo.
Mas sentado em seu quarto, olhando para a delicada xícara de chá em suas mãos, observando o vapor rodopiar pelo ar, enquanto ele aproveitava um pequeno momento de paz antes de seu turno começar na ponte. Spock não podia negar que o cheiro amadeirado vindo da xícara era, de fato, seu favorito.
Esse chá havia sido um presente de sua mãe para comemorar sua nova posição como primeiro oficial. E seu perfume, trazia de volta memórias de sua mãe e as várias vezes durante sua juventude que eles bebiam e conversavam durante tardes pacatas em que seu pai não estava em casa.
Mas não era a única memoria que o mesmo trazia.
Spock suspirou com a lembrança agridoce que a bebida também evocava. A memória não era de todo ruim, mas sempre trazia um misto de emoções estranhas. Esperança, tristeza e solidão.
Colocando a xicara na mesa, Spock puxou suavemente a manga direita de seu uniforme, revelando a pequena marca de formato estranho em seu pulso.
Para um humano, uma marca de nascença como essa é natural, mas para vulcanos é impensável.
Vulcanos não possuem marca de nascença de nenhum tipo, pequena ou grande. Por isso, essa pequena cor diferente do resto de sua pele, foi mais um dos motivos pelo qual seu pai possuía mais desgosto por ele.
E por algum tempo de sua infância, carregar essa marca foi sinal de extrema vergonha.
Mas quando ele tinha sete anos, Spock conheceu um primo distante, Selek. Um sujeito estranho e diferente de qualquer vulcano adulto que Spock já havia conhecido ate então.
Foi Selek quem o ensinou sobre a marca de alma.
Um conceito estranho para Spock na época, mas que lhe foi explicou de maneira paciente.
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Durante uma manhã silenciosa, antes da partida de Selek, o vulcano mais velho sentou com Spock no jardim de sua mãe. Preparou o chá que Spock tomara tantas vezes com ela e lhe mostrou uma pequena marca que ele também carregava no pulso direito.
Seu semblante parecia impassível, mas seus lábios se contorceram no menor dos sorrisos carinhosos.
Selek contou uma história pré-Surak, sobre um vulcano, chamado Koss, filho do mais poderoso guerreiro vulcano da província de ShiKahr, que nascera com uma marca de nascença. Ele fora motivo de escarnio entre os seus e, até seus pais, o viam como um elo fraco.
Por esse motivo, o vulcano fora expulso de seu lar, obrigado a vagar pelo deserto sozinho e sem nenhum apoio contra guerreiros vulcanos de outras províncias.
Mas Koss, ao contrário do que os outros acreditavam, não era mais fraco por possuir tal marca, pelo contrário, o tornava mais forte.
Depois de vagar pelo deserto durante meses, Koss encontrou outro vulcano.
Ele caminhava de maneira irregular pela areia, parecia pálido, com vários machucados pelo corpo e estava completamente fora de si. Isso fez Koss se lembrar da vez que um de seus primos comeu uma suculenta que, ate o momento, não se sabia que era venenosa.
Koss observou o novo vulcano curiosamente, era incomum encontrar alguém que não estivesse acompanhado de pelo menos três de sua província. Mas o outro se encontrava completamente sozinho e doente. Koss sentiu simpatia pelo mesmo, já que, ele e esse novo ser estavam sozinhos e perdidos.
Quando o vulcano caiu no chão, provavelmente, desmaiando. Koss se aproximou de maneira cautelosa, pegou o vulcano nos braços e o levou para uma caverna próxima, que estava habitando nos últimos dias.
Por já ter experiência com o veneno, Koss deixou o vulcano na caverna e foi em busca de coletar o cacto que serviria como antídoto.
Foram algumas horas, depois que Koss fez o novo vulcano tomar o antídoto, para que ele melhorasse. Enquanto os dias de sua cura se estendiam, Koss cuidou fielmente do outro, curando seus cortes e o limpando quando o vulcano vomitava para se livrar da intoxicação.
Esse cuidado e o gasto de suprimentos por um desconhecido, era uma coisa estupida de se fazer, mas Koss não conseguia evitar, ele sentiu uma atração, como se o katra do novo vulcano chama-se pelo seu.
Quando seu paciente acordou, ele pareceu querer lutar, mas sua fraqueza o impediu. A única coisa que conseguiu fazer foi se mover para a parede mais distante de Koss, sibilando em sua direção.
“Não sou perigoso para você. Se eu o quisesse morto, não teria curado você”. Koss tinha um sorriso divertido no rosto, observando o vulcano curiosamente.
“Porque me curou?” Sua voz estava falhando, mas a força e determinação por trás dela era óbvia.
“Eu não tenho certeza,” Koss murmurou inseguro, desviando o olhar, “pareceu a coisa certa a se fazer.”
O vulcano o encarou de maneira critica, seus olhos penetrantes, castanhos como as paredes de pedra que os cercavam. Ele parecia estar vendo através de Koss. Talvez estivesse, pois ele sentiu um toque de telepatia contra sua mente. Desapareceu tão rápido quanto surgiu. “Eu acredito que posso confiar em você, afinal, como disse, você salvou minha vida.”
Um sorriso surgiu nos lábios de Koss, que foi retribuído pelo outro. E Koss podia sentir que isso era o inicio de algo maior.
Nos próximos dias, eles se conheceram, Koss descobriu que o vulcano se chamava T’pol. Ele era impetuoso e de espirito livre.
T’pol também contou sua história. Que fora expulso de sua província após tentar subir na hierarquia, lutando contra o líder.
Ele era de um nível baixo, mas sempre teve sonho de grandeza, lamentava a maneira como seus iguais eram tratados e tinha o sonho de se tornar líder, para dar dignidade para todos que sofriam. Mas ele não fora cuidadoso o suficiente. Enquanto planejava sua luta contra o líder da província, alguém descobriu seu plano, envenenou sua comida e o jogou no deserto para morrer.
Foi uma sorte que Koss o tivesse achado antes de seu trágico fim e o resgatado.
Koss também contou sua história. Como era visto como inferior por sua raça, como fora isolado e abandonado, para viver sozinho no deserto.
Os dois se solidarizaram com a dor um do outro. E fizeram um tratado de buscar vingança para aqueles que lhe fizeram mau.
Com o passar dos meses, veio a recuperação total de T’pol. E também o surgimento de sentimentos desconhecidos por eles. Um sentimento de pertencimento que crescia a cada dia.
A preparação para a vingança veio a todo vapor. Eles treinaram para a luta que enfrentariam, misturando o estilo das duas províncias para criarem um estilo mais mortal. Foram anos de trabalho, para chegar num resultado desejável, mas eles finalmente estavam prontos.
Seu primeiro ataque seria contra o antigo líder de T’pol. A batalha foi sangrenta. T’pol era mais forte, mas o líder jogava sujo. Eles venceram no fim.
T’pol se tornou líder de sua antiga província. Sua primeira ação foi matar todos aqueles que ainda eram fies ao antigo líder, que eram poucos, já que o homem era terrível, e subir seus antigos iguais para uma classe mais alta.
Sua segunda ação foi declarar guerra contra ShiKahr, a antiga província de Koss. Não foi uma luta fácil, ShiKahr era um povo poderoso, conhecido por sua crueldade. Mas T’por e Koss, não deixaram que isso os impedisse. Por ser filho do líder, Koss conhecia suas estratégias de batalhas e podia prever as ações de seu antigo povo.
A vitória foi inevitável.
T’pol e Koss se tornaram líderes da maior e mais poderosa província de vulcano. Seus nomes eram sussurrados com medo pelos outros vulcanos e até mesmo suas sombras eram temidas. Com isso, T’pol, fez a última etapa do plano que ele e Koss fizeram a tantos anos. Eles fizeram um vínculo.
Foi durante a realização do vinculo que eles finalmente puderam dar um nome para os sentimentos que eles tinham um pelo outro.
T'hy'la.
Irmão. Amigo. Amante. Partes de um todo, finalmente completo.
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“Você entende agora Spock?” Selek perguntou ao terminar a história. Seu rosto calmo e olhos brilhando com tanto carinho, algo que Spock só havia visto nos olhos de sua mãe. “Sei que crescer em vulcano, possuindo linhagem humana, não é fácil. Como disse anteriormente, eu também tenho sangue humana em minhas veias. Sei que pode ser solitário e duro as vezes não ter ninguém. Mas essa marca,” ele acariciou sua marca de nascença de forma carinhosa, “significa que tem alguém nos esperando, em algum lugar desse enorme universo. Assim como Koss achou T’pol, nos acharemos nosso par e conquistaremos nossos sonhos ao seu lado.”
Spock olhou para a marca em seu pulso, uma pequena pinta insignificante, que tantas vezes o entristecera por torna-lo menos vulcano. E que agora o enchia de esperança. Talvez algum dia ele poderia encontrar seu igual, como Koss fizera.
“Você encontrou sua t'hy'la?” Spock sussurrou, envergonhado com todos os sentimentos que uma palavra conseguia provocar nele.
“Eu fiz.” A voz de Selek estava transbordando de carinho e afeição, seus olhos brilhavam e eram muito mais intensos que o olhar que a mãe de Spock lançava para seu pai.
“Acha que eu vou encontrar também?” Spock perguntou, abaixando a cabeça e mexendo na xicara de chá que estava na sua frente, evitando o olhar de seu primo.
“Tenho certeza que sim.” Sua voz era firme e carregada de confiança, como se realmente acreditasse nas palavras que dizia.
Spock olhou por baixo dos cílios para Selek, que tinha um olhar carinhoso e encorajador como se realmente acreditasse que um dia Spock conseguiria encontrar tal felicidade.
E por um momento, Spock também acreditou.
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Spock piscou para a marca em seu pulso, ajeitando sua manga mais uma vez para que ela a cobrisse.
Fazia tanto tempo que ele tinha ouvido aquela história e visto seu primo pela ultima vez. Spock gostaria de encontrar com o vulcano novamente, para que pudesse dizer a ele que estava errado. Spock não encontrara sua t'hy'la.
Quando desistiu da Academia de Ciências de Vulcano e entrou para a Frota Estelar, Spock esperava poder encontrar sua t'hy'la em algum lugar de sua trajetória, mas o encontro não veio.
Ele de fato encontrara muitos companheiros em sua jornada, tanto mulheres quanto homens. Mas nenhum deles despertou o sentimento de pertencimento, nenhum katra ‘cantou’ para o seu. E a cada tentativa, a cada fio de esperança ilógico, Spock terminava mais decepcionado e solitário.
Spock sabia que deveria superar, a história da marca de alma, provavelmente, foi uma invenção de seu primo para consolar uma criança e lhe dar esperanças, mesmo que falsas, para continuar seguindo em frente.
Era logico que ele deveria esquecer essa história. Então porque ele não conseguia?
