Actions

Work Header

Rating:
Archive Warning:
Category:
Fandom:
Additional Tags:
Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2025-04-23
Updated:
2026-03-10
Words:
10,741
Chapters:
8/?
Hits:
24

diário de um idiota

Summary:

Um ser humano em desenvolvimento escreve o que pensa ser sua história em busca do autoconhecimento e liberdade de existir. (estou na terapia)

Vou tratar um pouco como um blog pessoal.

Chapter 1: Eu, eu e eu

Notes:

Nem preciso avisar que os nomes e apelidos são fictícios... né?

Chapter Text

"Eu não sou o tipo de pessoa que esperam que eu seja, as mulheres me olham e tem uma expectativa, os homens me veem e tem outra, mas incrivelmente não sou nenhum dos dois"

Um pouco do meu passado

Quando se trata de relacionamentos, a primeira impressão que podem ter de mim pela aparência mais bruta e fechada é de ser experiente, o ativo da relação, quem vai tomar as rédeas e ter atitude. Me conhecendo um pouco mais podem ver que sou apenas reservado em minha privacidade, falando minhas nerdices, assuntos de desenho, musicais e livros começam a achar que sou mais algo a ser dominado e protegido, com toda a minha insegurança e inexperiência, veem um submisso perfeito e começam a me tratar como tal, detesto os dois pontos de vista sobre mim. Sou flexível, sou fluído, não gosto quando tentam me por nesses rótulos, o conteúdo da caixa não irá satisfazer a propaganda e todos ficamos decepcionados. Talvez eu sempre tenha sido "demais".

Quando eu era pequeno, ainda na época do Fundamental 1, os meninos gostavam de me tirar do sério, me insultando, puxando meu cabelo, me provocando, e eu corria atrás, batendo, empurrando, gritando de volta, era a diversão deles. Eu era uma das meninas mais altas da turma, grande e gorda comparada as outras. Apelidos como ogra, baleia e demônio eram naturais pra mim.

Chegando ao Fundamental 2, depois de muita lavagem cerebral com filmes de adolescentes, entendi que não poderia mais me comportar assim, "Um absurdo uma menina que não tem modos nessa idade!". Mergulhei no primeiro livro que encontrei, porque os meninos gostam de meninas inteligentes, tímidas e gentis, como toda protagonista de romance teen, os meninos não gostam de meninas que passam maquiagem, que falam alto ou são vaidosas, pelo menos os meninos que valem a pena, de acordo com os filmes. Mesmo do 5º ao 7º ano mais ou menos jogando Minecraft e vendo vídeos de teorias sobre Five Nights At Freddy's, a minha máscara era a "menina tímida que gosta de livros", eu me agarrei nisso por um bom tempo e esperei pelo momento em que algum garoto aleatório iria se interessar por mim.

Obviamente isso não aconteceu, porque mesmo tirando boas notas, não arrumando encrenca com ninguém e engolindo qualquer ofensa a minha pessoa com a desculpa de "não vou me rebaixar pois sou melhor", eu não era atraente, eu não era a garota baixinha, magrinha, botão de flor que precisa ser protegida. Eu continuei crescendo, ainda era alta, grande e gorda, a ogra no vestido de princesa. Eu gostava de um garoto e ele gostava das minhas amigas, um após o outro, eu nunca fui uma opção pra eles. "Mas Gabe, você não é bi? Onde estão as meninas que você gostava?". Eu ainda estava tentando engolir a heteronormatividade a força, minha única referência era filme de adolescente da Disney, vamos chegar na sexualidade mais tarde.

No 8º eu já comecei a me inspirar na minha amiga Lara, porque os meninos gostavam dela e ela era conhecida por gostar das coisas que eu gostava. Deixei o lado nerd de jogos e animes aflorar pra me aproximar dos meninos e larguei um pouco a mão da menina quietinha, o que deu certo, mas virei parceira, brother, irmã... sabe? Eles se apaixonavam pela minha amiga e não por mim, nessa época eu nutri muita inveja por ela, talvez eu esteja sendo injusto em jogar toda a culpa na minha aparência, no fim eu não tinha o carisma dela, mas será que eu era tão sem graça assim? Eu fiz amigos naquela época, bons amigos, eu não era uma pessoa ruim ou amargurada de afastar as pessoas desse jeito, então porque o amor nunca foi pra mim? Antes disso já existia um abismo entre eu e as outras meninas, mas cada ano que passava a distância se alongava e eu não me via em nenhuma delas, elas se entendiam e se compreendiam de uma forma que eu não conseguia, decidi mudar de escola no ensino médio, vai ver era o lugar.

Eu já estava saindo do "garota da biblioteca", "tímida dos livros" e indo pra algo que era um pouco mais eu: animes, jogos e desenho. Desisti das roupas femininas, do cabelo longo e da personalidade retraída, principalmente pela minha amizade com o Victor e com a Júlia que nasceu no 9º ano, gostávamos da mesma coisa, dos mesmos assuntos e com eles me senti livre pra explorar meus gostos a vontade. Comecei a comprar roupas da sessão masculina e pegar camisas do meu pai, me sentia mais a vontade, minha mãe estranhava no início, mas eu dava a desculpa de que era a moda Tumblr ou qualquer coisa assim, também me sentia mais confortável porque era o estilo de roupa que não marcava tanto o meu corpo. Vivia de calça pois os shorts machucavam entre minhas pernas e blusa de frio pra esconder os braços flácidos.

Hoje em dia acho interessante que o que antes surgiu como forma de insegurança tenha virado algo que realmente gosto, minhas roupas enormes já fazem parte de um estilo que venho adaptando, para me sentir bem e confortável, os livros que antes eu forçava como parte da minha personalidade se tornou um hobbie prazeroso e divertido.

Quando cheguei no Ensino Médio eu havia mudado de escola, pelo meu maior prazer caí em uma sala cheia de esquisitos como eu, meninas que gostavam de jogos, arte e luta, meninos que falam de anime, RPG e música. Durante os 2 anos que estudei lá fiz novos amigos, descobri mais sobre minha sexualidade, fiz parte de um clube de teatro e cinema, comecei a pegar paixão por desenhar, saí mais de casa, fortaleci minha amizade com a Lara e o Davi (um tópico futuro), que tinha começado a andar de verdade no 8º/9º ano, bebi pra caralho, me apaixonei, pessoas se interessavam por mim, tive um drama adolescente... foi um sonho enquanto durou, mesmo com os perrengues seguintes, são memórias que guardo com carinho.

Durante meu ensino médio tive um contato maior com toda a pauta LGBT, a Júlia se assumiu pan, o Victor gay e fui me vendo cada vez mais dentro da comunidade. Eu nunca tive problemas em me ver com uma mulher, saindo mais de casa conheci pessoas diferentes que me interessavam, nunca passou pela minha cabeça que eu não poderia me atrair por mulheres, a questão é que acho qualquer pessoa atrativa se ela for interessante o suficiente, então logo descobri que poderia ser bissexual.

Mesmo estando cercado por pessoas que se pareciam comigo, eu ainda não me sentia dentro do grupo de meninas, as relações eram próximas, nos entendíamos, por que o abismo não foi embora? Por que me sentia diferente? Quando a Júlia começou a sair com uma pessoa não binária, algo que eu não sabia começou a surgir em mim, uma leve compreensão, entendimento. Na época eu estava a fim de um menino, que descobri mais tarde ser uma admiração (obsessão, cof, cof), ele era tudo o que eu gostaria de ser, era amigo dessa pessoa que a Júlia saia, cuja qual não me aproximei pois tinha uma leve regra de não me aproximar dos interesses amorosos dos meus amigos, mas nossa, como eu tinha vontade de conversar com elu, nunca troquei mais de três palavras, mas essa pessoa nunca saiu da minha cabeça. Enquanto isso estava caído de amores pelo menino, em que saímos algumas poucas vezes, ficamos mas não durou muito, ele acabou passando por um problema pessoal que nos afastou, fui considerado um "bom momento" e ficou tudo por isso mesmo.

Quando fiz 17 anos fui pra rua, enchi tanto a cara com o Davi que precisei ir pro hospital e fiquei tão envergonhado que não apareci na rua de novo por um bom tempo. Quando virou o ano era 2020, e todos sabemos a essa altura o que aconteceu. Fiquei em casa com a minha própria companhia e querendo ou não descobri muito sobre mim. Nessa época eu já estava mais engajado no twitter (RIP), lendo as notícias e assuntos que me interessavam, caí em muitas discussões e pautas sobre política, sexualidade, religião e raça e querendo ou não me informei bastante por fontes confiáveis fora da rede e dentro também, todo mundo 'tava no twitter. Um dia, minha irmã mais nova desenhou bandeiras, coloriu algumas, mas me lembro de pan, bi, ace e não binário e com a última tive um flash de que não sabia o suficiente sobre, entrei pra pesquisar, até porque gostaria de saber melhor se por acaso minha irmã se identificasse com ela.

Pela primeira vez me vi, mergulhei tão profundo nas pesquisas, me emocionei, me assustei e depois tive medo. Durante todo o ano eu procurei mais sobre pessoas trans, binárias e não binárias. Me convenci de que estava me relacionando com eles porque havia pesquisado demais, que era coisa da minha cabeça, que não poderia afirmar algo tão importante sem um tipo de certeza.

Me neguei por 2 anos, enquanto descascava lentamente a cebola, camada por camada: "Roupas não definem gênero, eu posso ser uma mulher que gosta de roupas masculinas, lésbicas não são assim?", "Meu desejo de me parecer mais com um menino não definem meu gênero, não é toda mulher que gostaria de ter a liberdade de um homem?", "Meu desconforto com meus quadris e peito é só porque sou gorda, só queria que fosse menor", "Uso apelidos andróginos nos jogos porque ser mulher em game online é uma bosta, não é só porque gosto de que achem que sou um menino, rs". Pois é, todas essas afirmações são verdade. Roupas, físico e o desejo de não sofrer machismo e assédio em ambientes sociais não definem meu gênero, porém me considerar mulher já não parecia certo pra mim, soava como uma atuação, as palavras tem peso, e essa em específico estava me sufocando de uma forma não prazerosa.

Não binário é o termo guarda chuva que uso hoje em dia, pois ainda continuo a tirar camada por camada, com mais paciência e amor, mesmo chorando de vez em quando, faz parte do processo de descascar a cebola, também porque estou fugindo de me enfiar em alguma caixa que não me cabe, se conhecer é um trabalho contínuo e pelo menos tenho ajuda profissional para me auxiliar no progresso.

Hoje estou em busca de começar minha transição, me parecer um homem será um alívio, me sentir bem com meu corpo é um desejo e experimentar outros estilos será um privilégio para uma pessoa como eu que deseja se expressar com confiança através da moda e da arte. "Mas Gabe, tem certeza de que é isso que quer?" Estamos em 2025, estou debatendo sobre isso todos os dias da minha vida desde que me aceitei em 2022, comecei as consultas com a psicóloga no ano passado pois finalmente tive certeza da minha escolha.

Perguntas frequentes:

Se você emagrecesse já resolveria sua situação por conta do desconforto sobre as proporções do seu corpo?

R: Não, achei que isso resolveria por um tempo e foi um grande questionamento enquanto me negava, mas depois de algumas sessões com a psicóloga descobri que realmente gostaria de me parecer mais com um homem, voz grossa, passar pela mastectomia, usar packer, fazer a barba (!!)

Você é um homem trans?

R: Por enquanto não me vejo como um, como eu disse, ainda retirando as camadas, mas pelos meus desejos e sentimentos até o momento eu estaria mais como gênero fluído do que alinhado completamente ao masculino.

O que você espera do seu parceiro em um relacionamento?

R: Flexibilidade, minha roupa não vai definir como eu gostaria de ser tratado, como ativo ou passivo na relação por exemplo, somente como expresso meu gênero, uma boa conversa e compreensão é o que eu preciso.

Você acha que passar pela transição é só um desejo de estar entre as opções do seu amigo gay, que por um acaso tem uma atração? (assunto sensível!)

R: Essa é uma ótima pergunta, porque também me neguei acreditando nisso por um tempo, mas a sensação de estar deslocado no meu próprio corpo persistiu mesmo quando meu amigo estava/está se relacionando com outras pessoas e tecnicamente eu não vou ter o que eu acredito que ele quer, admito que seria muito bom se ele tivesse algum interesse em mim ao mesmo tempo que não, mas as vezes parece que ele já tem mesmo agora, então ¯\_(ツ)_/¯