Chapter Text
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O som suave e repetitivo do motor do jatinho particular contrastava violentamente com o caos que ainda ecoava na mente de Chloé Bourgeois. Sentada sozinha em uma das poltronas revestidas de couro creme, ela encarava a janela com uma expressão vazia, como se o céu nublado do lado de fora oferecesse alguma resposta.
Sua mãe, Audrey Bourgeois, estava a poucos metros de distância, ocupando duas poltronas com sua presença imponente e um tablet nas mãos, os olhos protegidos por óculos de sol escuros mesmo dentro da cabine. Ela folheava os relatórios de moda com a ferocidade de quem se recusava a reconhecer a própria filha a bordo.
— "Lembra-me de nunca mais permitir que a palavra 'Paris' apareça na minha agenda pessoal. Que vexame." — murmurou Audrey, sem desviar os olhos da tela. — "E trate de não sujar esse jatinho com suas lágrimas dramáticas, Christine."
Chloé não respondeu. Nem se incomodou em corrigir o nome errado. Christine, Clarisse, Charlotte... tanto fazia. Para Audrey, sua filha era apenas uma peça decorativa que falhou em sua função.
Ela deslizou os dedos pelo braço da poltrona com nervosismo contido. Estava acostumada com o desprezo, mas agora... agora era diferente. Ela havia sido banida. Expulsa da cidade que outrora se curvava aos seus caprichos. A rainha caiu. E ninguém sentiu falta.
“Paris te odeia,” sussurrou uma voz dentro dela, fria como o ar-condicionado da cabine. “E, no fundo, você também odeia Paris. Porque ela te viu vulnerável.”
Os últimos acontecimentos passavam como relâmpagos pela sua mente. Lila. Monarch. Ladybug. Todas as peças desse tabuleiro a haviam abandonado — ou usado. Ela não era mais a Queen Bee. Nem mesmo a Rainha Prefeita. Era só... Chloé. Uma sombra dourada do que já foi.
Lutava para manter o queixo erguido, mesmo que ninguém estivesse olhando. Ainda usava uma jaqueta de grife, calças perfeitas, sapatos recém polidos — mas a verdade é que se sentia nua. Despida de tudo que a definia.
— "Você vai estudar em algum colégio conceituado de Londres. Não cause problemas. Não chore em público. E pelo amor de Dior, se alguém perguntar... você estava em Paris por 'viagem educativa'."
Chloé ouviu a voz da mãe como se fosse um ruído de fundo. Cada palavra era um prego no caixão da identidade que ela ainda tentava salvar. Quando o jato pousou, ela segurou a bolsa como um escudo e deixou que os assistentes carregassem suas malas — afinal, era assim que as coisas funcionavam no mundo de Audrey Bourgeois. O carro a esperava, silencioso e negro, e durante o trajeto até o apartamento, os prédios de Londres se erguiam como tumbas douradas. Tudo ali era perfeito. Tudo ali era uma mentira.
Ela nem mesmo lembrava de ter entrado no carro. Quando percebeu, já estava diante do prédio, seu reflexo no mármore tão distorcido quanto o lugar que chamaria de 'casa'.
Os saltos de Chloé ecoaram no saguão silencioso do edifício, cada passo como uma lembrança da vida que deixava para trás. O lugar era tudo que Audrey Bourgeois consideraria aceitável: uma cobertura luxuosa no Upper East Side, cercada de vidro, mármore branco e obras de arte modernas que pareciam mais estar ali por obrigação estética do que por gosto real.
O porteiro nem teve tempo de dizer “boa noite” — Audrey já havia passado por ele como um furacão de perfume caro e desprezo. Chloé a seguiu, arrastando discretamente a mala, tentando ignorar os olhares curiosos de funcionários uniformizados que pareciam saber, mesmo sem palavras, que ela não pertencia mais a lugar nenhum.
O elevador era todo espelhado, refletindo uma versão cansada de si mesma. Seus olhos, antes tão vivos de arrogância, agora apenas sustentavam um orgulho forçado. Ela ajeitou o cabelo loiro automaticamente. Um velho hábito — manter as aparências.
Ao chegarem à cobertura, Audrey digitou o código da porta sem sequer olhar para a filha.
— "Quarto do fundo. Tem varanda. E uma escrivaninha, caso milagrosamente resolva estudar."
Chloé entrou no apartamento como quem pisa em um palco sem público. A decoração era clean, minimalista, cara — e absolutamente fria. Nenhuma foto. Nenhum traço de vida. Tudo parecia alugado, mesmo sendo da família.
Ela passou os olhos pelos detalhes: o sofá de veludo bege, os quadros abstratos, o silêncio. Londres pulsava do lado de fora, luzes vibrando em janelas infinitas, mas ali dentro… só o eco da solidão.
No quarto indicado, encontrou malas que haviam sido enviadas antes da viagem. Roupas dobradas por outras mãos, perfumes alinhados como soldados em prateleiras. Tudo organizado, tudo perfeito — como se a perfeição pudesse disfarçar o fracasso.
Ela abriu as janelas da varanda. A brisa de Londres era diferente da de Paris. Mais fria. Mais distante. As buzinas, os gritos, os ritmos de outra vida. Nenhum deles a chamava.
A noite londrina era viva, pulsante, cheia de luzes e sons — mas no quarto de Chloé, reinava o silêncio. Um abajur aceso lançava uma luz amarelada sobre as paredes brancas. Ela estava sentada na escrivaninha, mas o caderno aberto diante dela permanecia em branco. Nenhuma palavra vinha. Nenhuma queria vir.
O celular vibrava com notificações que ela ignorava. Mensagens não lidas, chamadas perdidas. Não eram de amigos. Não mais. Eram curiosos, jornalistas, talvez alguém da escola tentando "ver como ela estava", o que normalmente significava “o quanto você afundou?”
Chloé girou lentamente a cadeira, encarando seu reflexo na janela. Ali, entre a escuridão do céu e as luzes dos arranha-céus, via uma estranha. A maquiagem ainda intacta, o cabelo alinhado — mas os olhos… os olhos não mentiam. Havia algo quebrado ali, algo que nenhum gloss dourado poderia esconder.
Ela se perguntou, não pela primeira vez: Em que momento tudo desabou?
Não foi só um evento. Foi uma sucessão de erros, feridas mal cicatrizadas, orgulho mal interpretado como força.
Ladybug nunca confiou em mim. Nem mesmo quando eu tentei...
Mas também... eu estraguei tudo, não foi?
Lembranças vinham em flashes:
A transformação como Queen Bee, o breve orgulho no olhar dos outros.
O desprezo da Ladybug, as palavras ditas sem piedade.
A queda. A humilhação. A raiva. A escolha de ser odiada — porque ser odiada era melhor do que ser ignorada.
Ela apoiou a cabeça nas mãos. O quarto estava em silêncio, mas dentro dela, tudo gritava.
Paris estava longe. Muito longe.
E a garota que partira de lá já não existia mais.
O problema era... o que sobrou no lugar?
Chloé se levantou devagar e foi até a varanda. A cidade parecia zombar dela com seu brilho. Cada luz era uma lembrança de que o mundo seguia em frente. Sem ela.
A noite se arrastou como um vestido pesado de organza — desconfortável, mas impossível de ignorar.
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Quando o primeiro raio de sol cortou o vidro fumê da cobertura, já era tarde demais para dormir. Do outro lado do apartamento, os passos de Audrey Bourgeois anunciavam que o teatro da perfeição havia começado.
Alta-costura antes do café da manhã, óculos escuros mesmo sem sol. Sentada à mesa da sala de jantar, ela folheava revistas de moda e respondia chamadas em francês, inglês e italiano com a mesma indiferença impecável.
"Sim, darling, aquela campanha da Versalini? Totalmente descartável. Quero algo mais cru, mais... desesperado, sabe? Paris está morta. Londres é o futuro. Estou pensando em vitrines vivas. Manicômio chic."
Ela riu de seu próprio comentário, estalando os dedos para a assistente invisível que tomava notas do outro lado da linha.
Chloé entrou na sala em silêncio, os passos nus quase inaudíveis no piso polido. Ela hesitou por um segundo, observando a mãe como se a visse de fora — uma atriz no auge do papel, sempre em performance, sempre distante.
Sentou-se à ponta da mesa, longe demais para ser notada e perto demais para ser ignorada.
"Bom dia", murmurou.
Audrey sequer olhou. "Celeste, por favor, não se senta com essa postura. Ombros retos. Você está em Londres, não numa república estudantil."
Chloé suspirou. Nem se deu ao trabalho de corrigir o nome.
"É Chloé, mãe."
"Claro que é." Audrey deslizou os óculos escuros para a ponta do nariz e finalmente a encarou. "Você pretende ir à escola com essa cara de… protesto? Porque eu posso ligar para o colégio e dizer que a senhorita está emocionalmente indisponível. Seria mais honesto."
"Estou indo. Só pensei que talvez… a gente pudesse conversar."
Audrey ergueu uma sobrancelha, como se a palavra “conversar” fosse um idioma antigo que ela não falava mais.
"Conversar? Sobre o quê? Moda? Política? Suas últimas conquistas escolares?"
Ela voltou a folhear as páginas diante dela, o sorriso cortante como lâmina. "Ah, é verdade. Você foi exilada, não premiada."
Chloé apertou os punhos sobre o colo. Sentiu algo no peito que não era exatamente dor. Era um cansaço velho, um incômodo sem nome. A vontade de gritar — e a certeza de que não adiantaria.
"Eu não sou uma falha de projeto, mãe."
Audrey tirou os óculos, dessa vez completamente. Seus olhos azuis, frios como vidro, encontraram os de Chloé com uma calma cruel.
"Querida, você é uma Bourgeois. Você não tem permissão para falhar. Mas já que fracassou… o mínimo que pode fazer é aprender a parecer bem enquanto isso."
Por um instante, silêncio.
Depois, Audrey voltou aos seus papéis. O momento havia passado — ou talvez nunca tivesse existido.
Chloé se levantou devagar, encarando a mãe por um último segundo antes de sair da sala. Não disse nada. Mas pela primeira vez, não abaixou os ombros.
Chloé fechou a porta do apartamento sem fazer barulho. Um carro preto já a esperava na calçada, motor silencioso como um servo bem treinado.
Do outro lado da porta, Audrey ergueu os olhos por meio segundo - tempo exato para verificar sua própria expressão no reflexo da janela - antes de voltar a assinar documentos. Nem uma ruga no vestido Carolina Herrera, nem um fio de cabelo fora do lugar. Como se a filha nunca tivesse estado ali.
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No caminho, Chloé imaginou mil maneiras de incendiar aquele colégio. Nenhuma tão satisfatória quanto a expressão que Audrey faria se ela simplesmente... desaparecesse.
O colégio particular que Audrey escolheu para Chloé ficava no Upper East Side. Tão sofisticado quanto entediante — ou pelo menos essa era a primeira impressão de Chloé ao descer do carro com seus óculos de sol de grife e o uniforme impecável (e insuportavelmente insosso).
Ela puxou a saia padrão com desprezo, franzindo o nariz.
"Cinza. A cor da mediocridade institucionalizada," murmurou para si mesma. "Nem um corte digno, nem um detalhe dourado. Audrey quer mesmo me enterrar viva."
Passou pelas grades do portão principal com a postura de quem entra num funeral, exceto que nesse funeral, a morta era sua reputação. Ninguém a encarava com medo, bajulação ou inveja. Ninguém cochichava seu nome. O anonimato foi como um tapa frio no rosto.
A primeira aula? Literatura Inglesa. Clássicos — porque, é claro, nada melhor que discutir a tragédia de Macbeth enquanto se vive a própria decadência em tempo real.
Chloé sentou-se no fundo da sala, ainda ajustando a gravata do uniforme com nojo quando ouviu uma voz ao lado dela:
"Você parece pronta pra processar o estilista do colégio."
Chloé virou o rosto, surpresa. Uma garota com cabelos castanho-avermelhados presos em dois coques malfeitos e uma caneta presa no moletom a olhava com um sorriso — não zombeteiro, não bajulador, só... casual.
"É uma observação válida," respondeu Chloé. "Esse uniforme me faz sentir como parte de um exército derrotado. E não no bom sentido."
"Existe um bom sentido pra isso?"
A garota riu. "Sou Aerin. Nova também. Segunda semana. Ainda testando se dá pra sobreviver sem perder a sanidade."
Chloé analisou a garota por um instante. Nada na postura dela sugeria que sabia quem ela era. Nem os escândalos. Nem Paris. Nem Queen Bee. Um rosto limpo, um passado limpo. Quase insultante.
"Chloé Bourgeois," disse, com a cadência natural de quem esperava reconhecimento — mas ele não veio.
"Legal. Você prefere lugar na janela ou no fundo mesmo?"
"Fundo. Assim posso observar a decadência sem participar tanto."
"Ah. Cínica. Gosto disso."
Aerin se virou para anotar algo enquanto a professora começava a chamar os nomes. Chloé desviou o olhar para a janela. Londres seguia cinza, barulhenta e indiferente.
Mas... por um instante, ela não se sentiu tão só.
As aulas passaram como um borrão sem brilho. Nomes que ela não pretendia decorar, professores que não se impressionavam com sobrenomes. A escola parecia girar em um eixo próprio, onde o mundo de Chloé Bourgeois nunca havia existido — e talvez nunca devesse.
No fim do dia, ela se encontrou no topo do prédio, onde havia um terraço restrito aos alunos do último ano. A porta estava destrancada. Ela não se importava se era permitido.
O vento ali era frio e constante, cortando sua pele como lembrança de que ela ainda existia. As ruas lá embaixo pareciam minúsculas. Nenhuma com o glamour de Paris. Nenhuma com o peso da memória.
Chloé se apoiou no parapeito de mármore, os dedos apertando com força. O celular dela continuava em silêncio — nada de Sabrina, nada de… ninguém. As redes sociais estavam desertas. Comentários congelados no tempo, como se até os haters tivessem perdido o interesse.
Ela suspirou. Pesado.
E finalmente, sozinha, murmurou:
"Eu era alguém. Eu fiz diferença. Mesmo que... mesmo que tenham odiado isso."
O céu começava a mudar de cor, com tons arroxeados se misturando ao dourado distante do pôr do sol. Por um instante, ela achou bonito. E isso a irritou.
"Não é justo que ainda existam coisas bonitas," sussurrou. "Depois de tudo."
Ela não chorou. Não era esse tipo de momento.
Mas, enquanto caminhava de volta para ‘casa’, em silêncio, Chloé sentiu pela primeira vez uma rachadura fina — quase imperceptível — se abrir dentro dela. Como se o verniz estivesse começando a ceder.
