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Quer vir ver meu gato? A mensagem brilhava no celular em cima da escrivaninha há 5 minutos sem resposta, Han Taesan corria na ponta dos pés, arremessando roupas do armário pelo chão, borrifando perfume acima da cabeça, ensebando de gel os cabelos sujos, vestindo meias ao avesso e calçando as botas antes de botar as calças.
Quer vir ver meu gato? No minuto 1, completo choque, a mensagem iluminou o rosto sonolento em meio ao breu do quarto. Quer vir ver meu gato? No minuto 2, já tinha encaminhado a todos seus amigos, torcendo que algum viciado em CS GO estivesse entre uma pausa nas partidas e visualizasse a droga de mensagem logo . A resposta veio no minuto 3:
Código pra sexo.
Quem te enviou isso?
Bem que diziam que as três da madrugada era o hora do diabo!
Taesan sufocou um grito ao pisar na porra do brinco que caiu do armário na loucura de se ajeitar para transar.
Transar.
Foder.
SEXO.
A mensagem de Kim Leehan era sobre sexo .
Kim Leehan queria sexo com ele. Dentre umas 50 cadeiras fácil do curso de biologia marinha, toda lista de contato e seguidores do IG, de todas as pessoas que orbitam o tinder, grindr e apps mais obscuros de pegação. Dentre todos homens e mulheres e não-binários do mundo bizarramente grande e em expansão constante, Kim Leehan queria fazer sexo com Han Taesan.
O pé latejava sob a mão o apertando forte e a euforia baixava drasticamente, a parte racional de si dando ordem aos mil membros que agiam impulsivamente por comandos contraditórios.
Era a primeira mensagem desde semanas sendo ignorado. Semanas que se sucederam cheias de insônia e arrependimento de pesar o peito, memórias vergonhosas retornando o tempo todo a consciência se confundindo entre os cenários horríveis que se dariam com o fim da amizade.
Mas dia após dias dessas semanas, o pior cenário já se concretizava. Tinham se afastado sem menos. Leehan postava stories, Taesan respondia, Leehan visualizava e terminava aí. Taesan postava recomendação de música, Leehan reagia e só . Um gatinho toda reação. Estava tirando uma com sua cara?
Tomou medidas drásticas, mexeu na grade do IG já tão bem pensada, publicou a droga de uma foto. Era algo que se colocava num stories sexta à noite, sabe? Para desenrolar um date no sábado. Taesan postou uma frente ao espelho, rosto coberto e só os braços à mostra com a regata. Era o desespero batendo. Deixou os comentários abertos e um olho em cada notificação que chegava.
Quando os moleques começaram a zoar e a sessão de comentários tinha virado uma promoção gay esquisita de si, ele esperava no mínimo Leehan entrar na onda, colocar lenha na fogueira e depois zoar na dm com um elogio mascarado. Era como funcionavam, Taesan sabia chamar atenção do Leehan.
Ou imaginava que sabia.
Eles não se esbarravam mais na biblioteca, ou no refeitório. Não era pouca coisa, eles sempre se esbarravam nos mesmos lugares, mesmos horários, era biológico os dois aparecem às 11:45 na fila do R.U para pegar carne e um caldo grosso — não o ralo que sobra para quem aparece depois de 12:30, não — Leehan já o veria na fila para validar o cadastro, iam dar um aceno com a cabeça e sentariam juntos. Às vezes os outros colavam uns 15 minutos depois, mas eles, ritualísticamente, tinham aqueles minutos a sós. Estendiam o tempo com conversas sobre tudo, relacionamento, o tempo, faculdade, a skin nova de algum jogo.
Mas em um desses dias, para a pergunta que fazia de “e como vai o relacionamento?” só para jogar papo fora enquanto mastigava a carne amolecida, ouviu com desdém:
“Eu e a Minju terminamos.”
De um dia pro outro. Do nada.
Taesan engasgou com a comida, deu uma boa tosse para a carne voltar e conseguir deglutir o resto. Leehan continuou a garfar uns legumes sem se preocupar.
“Que merda.” Conseguiu abrir a boca meio cheia. “Ela nem era tão legal assim, cara.”
“Ela era sim, você sabe.”
“É… eu sei.” Todo mundo gostava mesmo dela, os caras apoiavam e tal.
Porra, até o Taesan apoiava. Aprendeu a apoiar com o tempo, queria o Leehan feliz, independente de quem fosse. E Minju era ridiculamente legal, fazia bem demais pro seu amigo.
Ficou um clima esquisito. Taesan não ia fuçar aquele assunto, não tava afim de aborrecer o Leehan se ainda era tão recente.
O pouco que descobriu do término foi quando Jaehyun chegou jogando um projeto inacabado de arquitetura em cima da mesa, exasperado.
“Você e a Minju terminaram ?” Mais antenado que qualquer um, enfiou o celular com a bio do IG da Minju sem a inicial L e o coraçãozinho com peixinho azul tão característico dos dois.
O negócio deve ter sido feio mesmo.
Taesan terminou a comida quieto enquanto Leehan desviava dos questionamentos do Jaehyun feito o peixe escorregadio que era. O Riwoo veio logo correndo atrás com duas arvorezinhas da maquete.
Taesan não queria mesmo ouvir aquele papo, deu um aceno aos dois, e perguntou se Leehan precisaria de carona ao fim do dia. Às segundas-feira os dois ficavam até o turno da noite e ficou acordado que era sempre assim, iam juntos para casa ouvindo My Chemical Romance.
Taesan deitou no chão do quarto, chutando a droga da bota para fora do pé e tateou ao redor em busca de uma calça que jurava ter arremessado para debaixo da cama.
Era sempre quieto essas viagens de meia hora, ouviam as músicas, e às vezes rindo do nada, do tempo gostoso, da noite gelada ao abaixarem os vidros. Se entendiam assim, mas aquele dia foi… diferente.
Leehan tinha terminado com Minju. Ou Minju tinha terminado com Leehan.
Como tinha acontecido? Já iam ser dois anos de namoro, e cara, e o pedido de namoro com a serenata vergonhosa que todos os 5 foram obrigados a se apresentarem como o coro idiota? Foi a maior situação ridícula que Taesan aceitou passar por um amigo, e lá estava, o primeiro dos 6 moleques a ter algo sério, sério mesmo. Nada como as fuleiragens não declaradas de Riwoo e Jaehyun, ou as pegações ocasionais do Sungho com um bonitinho de moda.
Não, Leehan era, dentre os caras, O Cara.
Precisava saber.
Porque, além de ser O Cara, era a primeira e única droga de paixão que Han Taesan teve. Paixão que perdurou o maldito ensino médio, ainda quando Leehan tinha um rosto redondo e cabelos longos e desgrenhados, vestindo calças independente da reclamação dos supervisores, até o rosto tomar forma masculina, a voz profunda engrossar muito mais e ser tornar quem sempre foi, mas que permaneceu por muito escondido entre identidades que não lhe cabiam.
Era agora Kim Leehan, apenas Kim Leehan.
Nada mudou nos seus sentimentos. Tá, ele teve que descobrir o que significava gostar agora de um cara, mas em maior parte dava créditos a psicóloga por desembaralhar a confusão da própria sexualidade.
Mas o ponto era: Leehan estava solteiro pela primeira vez desde que voltaram a se falar anos atrás.
Taesan não sabe porque diabos abriu a boca, agora debatia consigo que foi porque Leehan permanecia do mesmo jeito de sempre, murmurando no ritmo da música que já tinha sido esquecido por Han Taesan, só prestava atenção no respirar de cada pausa que Leehan fazia dentre os murmúrios. Leehan abaixou o vidro, pôs o rosto para fora e descansou os olhos, os cabelos claros voando com o vento e o sorriso foi aos poucos crescendo.
Era o sol do meio dia assim, já tarde da noite.
“Que sorte eu tenho de ter você.” Saiu do fundo do seu coração e desejo mais íntimo.
Taesan só se deu conta que sua boca tinha proferido as indevidas palavras quando Leehan voltou o rosto para dentro do carro e fechou a janela.
“Então, quer falar sobre né?”
Taesan virou o rosto para o trânsito como o maior motorista prudente que Seul conhecia.
“Sobre o que?” Seus dedos já estavam brancos de apertar o volante.
Leehan suspirou e diminuiu a música.
“Sobre o término, você quer saber.” Não era uma interrogativa.
“Só se quiser contar.”
Leehan afundou no banco e abraçou o próprio corpo.
“Eu não tô afim.”
“Então não diga nada, você não é obrigado.” Taesan suspirou. “Independente de quando quiser falar, eu vou continuar do seu lado sempre. Até se nunca quiser falar, eu vou continuar no mesmo lugar te esperando.” Como sempre estive.
Leehan riu e aumentou a música.
“Isso é alguma declaração, por acaso?”
“É, é sim.”
Taesan levantou o quadril para passar a droga da calça toda e a prendê-la com cinto.
Havia prometido que estaria ali, sempre por ele.
Mesmo que por semanas, Leehan não esteve para si, ainda iria atrás dele.
Idiota, sempre idiota por ele.
[...]
Taesan na casa da família Kim em questão de poucos minutos, sem trânsito ou qualquer noção que se esvaiu ao primeiro quilômetro rodado. Era que conseguia ver, bem ali no banco vazio, o rosto desviante da sua atenção, as semanas sendo ignorado, os desencontros e então a droga da mensagem o chamando para sexo ?
O que diabos Leehan pensava de Taesan?
Pulou para fora do carro.
Quis buzinar, arregaçar o portão de madeira atravessando com o carro e gritar que Leehan não poderia brincar com ele daquela forma, porra! Eram 03:20 da madrugada e —
Um miado de um gatinho, bem sofridozinho.
“Taesannie, continua com fome? Vou trazer carne de tubarão para uma próxima refeição.” O gatinho soltou mais um miado pequeno. “Oh! Não acredita em mim? Pois eu vou te provar, você vai ver. Sabe o que tenho aqui?”
Taesan abriu a porta do jardim e deu de cara com Leehan agachado no chão imitando uma barbatana com as mãos para um gatinho preto perambulando ao seu redor. Leehan levantou o rosto e lhe abriu um sorriso bobo.
“Você veio.” Levantou e pôs as mãos nos bolsos. “Fecha o portão pra ele não sair.” Taesan saiu do caminho e deixou Leehan fechar com cuidado. “E aí?” E deu uma risadinha descarada.
Taesan respirou fundo sentindo a droga do cheiro dos litros de perfume que se banhou para vir até ali, abriu os olhos e foi do gato preto até Leehan com pantufas no pé e vestido de pijama.
Precisava deixar claro. Aquilo era loucura , desde ignorá-lo por tanto tempo, a obrigá-lo a vir no meio da madrugada e confundi-lo com mensagens esquisitas e agora, um gato. Um gato de verdade.
Sim, ia dizer tudo aquilo, e ia embora. Merda. Ia embora, jurava que ia.
“É claro que eu viria.”
“As três da madrugada?”
“Eu não te falei que ia continuar do seu lado? É claro que eu ia vir!” Declarou com veemência dessa vez.
Estava no limite, nem a porra dos remédios de insônia davam conta das noites mal dormidas pensando que tinha feito algo de errado. Algo terrivelmente errado, ferrado com tudo de novo e de novo e de novo.
Só queria ter certeza que suas palavras fossem entendidas, independente da afirmação. Tinha que ser verdadeiro consigo, a droga da psicóloga deixou claro.
Leehan balançou a cabeça conformado e pegou a tigela funda suja de leite e pão molhado e o felino que cabia na palma da mão.
“Vem, Taesannie.” Leehan apontou com a cabeça para a lateral da casa. “É que você tá falando alto, não dá pra conversar aqui. Se acordar a Sumin, já sabe. Ela acorda todo mundo só pra me caguetar.”
Taesan suspirou fundo e foi atrás do amigo.
Ao encarar as costas dele, via o pijama que não esquentava muito, os braços estavam do lado de fora, já não tão magrelo quanto lembrava. Quase que não via os braços dele assim, à mostra. Quando Leehan começou a mudar fisicamente, achou que fosse ser fácil assimilar, mas quando se viu ainda mais atraído pelos braços que iam definindo, as bochechas dando lugar ao rosto angulado, viu estar mesmo ferrado. Não tinha o que fazer para deixar de se apaixonar por Kim Leehan.
Não sabia que gostaria tanto de ouvir a voz grossa lhe chamar em dias comuns.
Taesan quis estapear a cara e enfiar os dois dedos nos olhos para não fazer nada estranho de novo. Poderia acabar estragando tudo, que já não era muito o que tinha sobrado.
O jardim pequeno era longe dos cômodos dos quartos, a grama já crescia e a horta que a irmã pequena do Leehan plantava os tais feijões mágicos estavam ali, com folhas secas e terra esquecida pelo experimento de uma semana da criança.
O gatinho se contorcia na mão do Leehan querendo desvencilhar.
“Yah, Taesannie, te acalma.”
“Eu tô falando nada.” Reclamou e cruzou os braços.
“Não estou falando com você, Han Taesan.” Se agachou para deixar o bichano e agachou no chão, de costas ao Taesan
“Han Taesan? Han Taesan? Por que tá falando meu nome todo? Quem devia tá chateado aqui sou eu!” Suspirou. Lembrou do exercício de respiração, controle de raiva e as lorotas que a psicóloga o ensinou para não ser um cuzão sempre que algo lhe irritava, como Leehan se fingindo de vítima bem na sua frente. “Você sumiu, duas semanas . Eu sei que é do seu feitio, mas achei que alguns hábitos pudessem mudar.”
“Yah! Tem certeza que está indo na psicóloga, está agindo feito um babaca. Sabia?” Leehan não precisava levantar o tom para saber que tinha ultrapassado um dos limites estabelecidos por eles.
Não se falava de antigamente assim.
Taesan se virou, mesmo que o Leehan não o estivesse vendo, fez a droga do exercício.
Respira .
O Leehan não fez nada errado.
Inspira .
Leehan é o seu amigo, droga.
Respira .
Ele o chamou, está aqui pelo Leehan e não pelo seu próprio ego.
Inspira .
Se liga na droga do gatinho fofo! Leehan o chamou para ver a droga do gatinho fofo.
Taesan se virou e a bolinha de pelo pretinha se aninhava entre seus pés.
“O Taesannie gosta do Taesan, ein?” Leehan o viu pelo ombro, abriu um sorrisinho de quem já imaginava aquela cena.
Taesan não sabia o que fazer com aquele trocinho no meio dos seus pés, se abaixou para coçar a cabeça, bem… Taesan gostava, então seu xará poderia gostar também. E dito e feito, o filhote deitou-se no chão enquanto Taesan acariciava entre as orelhas macias.
Leehan se virou, rindo inacreditado.
“Isso é bom?” Taesan, o humano, ainda se sentia confuso com o jeito entregue demais do bichano.
“Eu demorei bem umas duas horas conversando com ele para convencê-lo a vir pra casa.” Confessou. “E também alguns petiscos da conveniência.” Foi um pouco mais verdadeiro.
Taesan não percebeu que já sorria também, avançando com os dedos para a barriguinha peluda do animal, a bolinha se fechou sob sua mão o atacando raivosamente fofo.
“Por que trouxe um gato de rua pra casa?” O filhote sem dentinhos roía a ponta do seu dedo.
Leehan tinha os braços apoiados nos joelhos e o rosto escondido, apenas os olhos brilhantes os assistindo.
“Sei lá, fui comprar cigarro, vi ele, lembrei de tu e peguei.”
“Voltou a fumar? Porra, cara.” Taesan tirou a mão da barriga do bichinho e no segundo depois — “Peraí, lembrou de mim?”
Ah… Taesan e Taesan. Fazia sentido.
Leehan confessou com um aceno de cabeça e se jogou para trás, braços esticados ao céu pedindo aos seus aliens da quarta dimensão o puxasse de volta para casa.
“N-não, mas volta aqui Leehan, lembrou de mim porquê?” Leehan ficou fazendo aquele barulho estranho com a garganta, invocando um buraco negro que o pudesse engolir. “Sério, Leehan. Tipo, o que o gato tem? Ou tava pensando antes e viu o gato, e aí quis pegar porque ele —” Leehan continuava gemendo com os braços para cima. “Yah! Eu respondi seu stories anteontem e você me ignorou! Se pensava tanto em mim, poderia ter respondido e teríamos conversado ao invés de você sair pegando um animal na rua que nem parece comigo!”
Leehan baixou os braços, parou com o barulho e levantou o pescoço para ver a fuça de raiva do Taesan.
“O gatinho fez essa cara pra mim quando tentei me aproximar.” Leehan voltou com a cabeça nas nuvens. “E eu não voltei a fumar, eu fui comprar só, mas vi o gatinho e imaginei que você ia me dar uma bronca. Daquele seu jeito esquisito de mostrar que se importa, mas ia. Daí estamos aqui, eu, o gatinho antifumo e você.”
“Mas porque diabos precisaria de cigarros, ein? Já não foi uma merda conseguir parar?” Taesan não estava a fim de discussão, era deprimente aquela situação.
As duas semanas distantes relembram os péssimos dias de quando ficaram tanto tempo longe um do outro, sem saber o que diabos passava na vida um do outro.
Apelar para vícios, cara . O que o Leehan estava passando sozinho nesses dias?
“Eu só queria dormir.”
A declaração veio depois de um suspiro cansado.
O filhotinho subiu na barriga do Leehan e passou pelo outro lado.
Ótimo, eram dois ferrados nesse quesito.
Taesan tinha aprendido, passado o turbilhão dos 19 anos, que de maneira geral, a vida era uma droga de montanha russa com intensas descidas e uma gana por voltar ao topo, para que naquele pico você pudesse gritar que a vida presta pra caralho. Aí na manhã seguinte, ressaca, provas, seminários e arrependimentos.
A vida era assim mesmo, conseguia ser menos pior medicado e com a terapia em dia, mas tinha aqueles dias que apenas eram ruins e pronto. Semanas ruins, quando não conseguia conversar com seu melhor amigo e se sentia constantemente que tinha feito a coisa errada. E a terapeuta estava de férias.
Senão teria resolvido bem antes.
“Da próxima vez me liga se precisar conversar. Não precisa mandar nada sugestivo pra eu vir correndo.” Taesan murmurou.
“Sugestivo?”
“Qual é, vir ver seu gato?”
Taesan se aninhou, deitando na costela de Leehan sendo tomado também pelo céu.
“Mas você o viu, não viu?”
“O Riwoo que falou, código pra sexo.”
Leehan riu alto que Taesan teve que levantar a cabeça até se aquietar de novo.
“Tipo, chamar pra comer Lamén, netflix and chill ?” Taesan confirmou com a cabeça. “Não sabia que tinham atualizado.”
“Nem eu.” Taesan suspirou. “Quem usou isso com ele?”
“Jaehyun.”
“Jaehyun, com certeza.” Os dois riram ao falar em uníssono.
Era um consenso no grupo que aqueles tinham algo, não era possível que em dois anos ainda não tivessem se dado conta do que todos faziam questão de dizer toda vez e —
“Peraí, código pra sexo?” Leehan ponderou em voz alta. “Você veio pra transar comigo?” Questionou como quem pergunta que horas são.
Taesan fechou os olhos e se esforçou para reorganizar a fala.
“Não, eu n-não vim pra isso. Eu vim porque é meu amigo e eu — tipo, eu vim pra gente… é conversar, sobre quem era esse gato. Já que gatos são, bom, eles definitivamente são algo, né, os gatos e você queria que eu visse ver, aqui na sua casa, então como eu sou curioso, quer dizer, eu vim ver e — Yah, Leehan! Diga algo, eu não sei mais o que tô dizendo.”
Leehan riu e passou a acariciar os fios do Taesan, acalmando o gatinho.
“Estou lisonjeado. É bom saber como fazer você vir correndo me encontrar agora.” Brincou.
“Não diz assim, eu não gostei.” Taesan suspirou e virou-se para ver os olhos brilhantes de Leehan. “Eu viria a qualquer hora, sempre que me quiser.”
Taesan precisava ser sincero consigo, com Leehan e todas as estrelas que o rodeavam naquela hora. Ele não queria mais se enganar.
“Eu sei, Taesan. Eu sempre soube.” Leehan o encarou no mesmo instante. “É o que me disse naquele dia, né? Que ia continuar me esperando.”
“Ah, no carro? Não, eu —”
“Não no carro, não agora. Tô falando do dia maluco com os meninos, você estava sangrando pelo soco do Sungho, aquela merda foi hilária. Hoje, pelo menos é.” Leehan voltou ao céu, compartilhavam da mesma visão, sabia disso. “Que você gritou tudo aquilo, me chamou de egoísta, lembra? Por eu ter sumido, daí eu gritei —
“Eu sou trans, seus viados!” Taesan riu relembrando a voz finamente histérica do Leehan. “Seu homofóbico.”
“Eu não menti, todos são mesmo.”
“Menos o Woonagi.”
“Não se sabe, entrou agora na Universidade. Vai que se descobre.” Leehan deu de ombros. “Enfim, naquele dia os meninos ficaram em choque e tal, daí antes de todo aquele falatório pra entender o que significava eu ser um garoto, você quem falou primeiro —”
“Eu continuo te esperando.”
“ Eu continuo te esperando! Mesmo que seja uma garota, ou um cara, ou finalmente um peixe coridora que sempre quis ser! Eu vou continuar no mesmo lugar, então só para de fugir da gente, de mim. Eu preciso de você, seja lá qual for o seu nome.”
Eles ficaram em silêncio, o gatinho preto os rondando, até a lua parou um instante para observá-los lá do alto, o astro brilhante que não gostava nada de se envolver, sentiu pena daqueles dois.
“Eu sabia desde lá, Taesannie.” Leehan confessou baixo. “Mas eu não podia, nem você. Você sabe, né? Que a gente não —”
Taesan levantou o tronco não acreditando no que ouvia.
Eram cinco anos cultivando o mesmo sentimento, se enfiando em relações com gente esquisita, transando com garotas que nunca eram o suficiente, homens que nunca levariam para outro lugar além de um banheiro insalubre de boate. Forçando dizer que era hétero, até que finalmente entender que não havia nada demais em ser quem de fato era, porra. Não precisava o seu querer por homens caber apenas em lugares escrotos.
Ele não precisava se esconder, nem seus amigos. Leehan era, dentre os caras, o mais exposto, nunca teve a opção de permanecer escondido, como Taesan que ignorou tentativas de relacionamentos passados até agora dois anos. Leehan então namorou uma garota linda desde o início da transição que servia quase como um reforço ao homem que era.
Um homem que nunca acompanhava as conversas sobre atração por outros homens, que ria das investidas fracassadas de Sungho num relacionamento e em como Riwoo era gay demais entre eles.
“Por que eu não poderia?” Taesan apertava a grama por entre seus dedos. “Você pode falar por você Leehan, que você era um covarde, medroso e não conseguiria sustentar se apaixonar por um homem, mas você não sabe o que eu faria para estar do seu lado esse tempo todo.”
Leehan sentou de novo, tocou no rosto vermelho. Era quente, os dedos a encontrar as lágrimas.
“Você tá louco, Taesan?” Ele não estava brigando, seus dedos tremiam a tocar. “Você nem era assumido…”
“Eu me assumia por você!” Taesan virou o rosto tirando as mãos de cima.
“Por mim? Pela sapatona que todos diziam que seria uma fase ? Grande revolução um casal hétero.”
“Porra de hétero, Leehan! Você sempre foi um homem.”
“Pra mim, pra você, pros nossos amigos.” Suspirou. “Você nem sabe porque eu tive que pedir transferência para outra Universidade.”
Algo grande se guardava ali, entre o olhar pesado e o canto dos dedos em carne viva.
“Você disse que não conseguia conciliar o horário de trabalho e transporte até a Universidade.”
Leehan riu e levantou o olhar, sustentando a Taesan. Não poderiam baixar mais, as verdades precisavam sair de todo jeito.
“Trabalho que eu tenho pra bancar minha mastectomia, Universidade em que eu era perseguido pelos babacas do dormitório, você não sabe as merdas que precisei ouvir depois que eu finalmente mudei meu nome. Já não era especulação, ou uma garotinha esquisita … não era fácil, só não era.” Esfregou os olhos vermelhos. “E eu não saberia o que fazer, se você, sem querer, me chamasse por um nome que não é meu, nunca foi meu. Eu não conseguiria aguentar, se tivéssemos dois anos de namoro, dois anos lidando com porra de testosterona, aplicações e agulhas que detesto, menstruações desreguladas, a merda das ocilações de humor do início, e se você estivesse comigo desde quando tudo começou e me chamasse por aquele maldito nome? E eu já precisando lidar com a curiosidade da minha maninha que vez ou outra me chama de unnie, e não é por mal, ela é só uma criança, mas aí tenho que dizer tudo de novo, daí ela sempre sorri banguela e chama de oppa depois. É tão rápido, mas me lembra alguém que eu não sou, eu não sou, eu só não sou aquela pessoa, eu não sou uma garota, eu sou um homem, eu sou o Leehan, eu só queria que ela entendesse, eu não sou mais quem ela quer que eu seja, eu não posso voltar atrás por ela, e ela pediu desculpas e eu não tô querendo culpar ela, deve ser normal se confundir, mas por que ela? Por que ela ainda tem essa memória de mim? Nós estamos tanto tempo juntos e—”
Taesan apertou Leehan num abraço forte, os braços que se machucavam, agora apertavam a cintura de Taesan, aceitava o carinho sufocante apenas para que conseguisse regular a respiração de novo.
Taesan inspirou o cheiro do cabelo de Leehan, era a mesma colônia de dois anos, quando foram andar por lojas juntos. Foram apenas eles para comprar coisas que o fariam cheirar a “homem”. Leehan disse isso, queria cheirar como o Taesan, era bom.
“Isso é besteira, se você é homem, o seu cheiro é de homem.” Taesan deu de ombros e colocou um dos frascos dentro da cesta. “Apenas recomendo esse porque deixa o cabelo mais solto, testa e vê.”
Taesan beijou os cabelos sedosos de Leehan.
“Se ela é quem estou pensando, saiba que não precisa aceitar desculpas nenhuma. Dá pra ser rancoroso às vezes, põe culpa na masculinidade se quiser, temos passe livre.” Taesan fungou recuperando suas lágrimas. “Não é normal alguém errar seu nome, Leehan. Você sempre foi tão incisivo com nome, ein Coridora?” Ouviu o sorriso abafado de Leehan no seu colo. “Te chamávamos de um nome de peixe porque odiava ser chamado pelo nome morto, e você agora está querendo arregar pra uma garota? Onde está o Leehan que acertou um caderno na cabeça do Jaehyun quando ele teve a audácia de querer falar o nome-que-não-deve-ser-pronunciado?”
Leehan o beliscou na costela.
“Assim parece que eu era horrível, credo.”
Taesan riu e pegou a mão do Leehan, trazendo para perto do peito.
“Você não era nada disso, não. Você é só o Leehan, sempre foi.” Acariciou as mãos machucadas.
Leehan desencostou de Taesan, o rosto agora levava um sorriso leve.
“Obrigado, Taesan.” Seus olhos corriam pela face. “Eu precisava disso.”
“Mas calma aí, voltando um pouco.” Deu uma leve tosse, ajeitando a postura. “Você gostava de mim?”
Leehan o empurrou de graça.
“Qual é, Taesan.”
Taesan o segurou pelo pulso, para não cair longe.
“Qual é, digo eu! Você já sabe que eu vim correndo porque queria transar com você! Pelo menos eu tenho que sair daqui com uma confirmação que existe alguma reciprocidade.”
Leehan ponderou o argumento, engoliu em seco e parecia que aquele tópico o deixava desconfortável. Por pouco não só voltava atrás e fingia que não tinha tentado mais uma vez e falhado de novo.
“Eu gostava de você… gosto.” Taesan prendeu o fôlego, esperando o que viria daquela expressão ainda nublada de Leehan. “Mas…” Claro que tinha um mas, porra. “Eu não dou conta de ter nada agora, e eu–”
“Mas gosta?”
“Sim, e…” Taesan sorriu orgulhoso, abriu o maior que conseguia e foi se levantando, sem mais. “Taesan?”
“Não precisa dizer mais nada, você gosta de mim. Isso é o suficiente, não vou te pedir em namoro agora, besta.” Taesan se movia de um lado pro outro, estendeu a mão. “Nem te beijar, se não quiser.” Sorriu sincero.
Leehan aceitou o apoio e levantou da grama, eles dançavam juntos uma música inexistente, uma orquestra de grilos e sorrisos bobos. Eles não deixavam de desviar o olhar um do outro, o sorriso, a boca bonita, tudo captado por olhos brilhantes. Eles reluziam um ao outro.
“Você sabe, né? Eu sempre fui muito bom em esperar.” Pôs as mãos nos ombros e seguiu pelo baile particular dos dois, encostou o queixo no topo da cabeça do Leehan. “Quando estiver pronto, só me diz. Tá bom?”
“Tá bom, te prometo.”
Eles ficaram assim, balançando juntos de um lado ao outro, feito dois bêbados pela lua, a noite tinha se passado num silêncio junto a dança, eram apenas eles no meio do universo em expansão, e eles, que eram o centro de tudo ali, juntos, mal davam conta. Foi só um comentário sussurrado dentre mais um dos flertes que eles trocaram ali no abraço que os tirou do calor compartilhado:
“E o gatinho, ein?” Taesan provocou um risinho, mas Leehan cravou os pés no chão.
“Taesan, cadê o Taesannie ?”
Leehan corria feito um doido ao redor da casa, miando pro gato até encontrar a terrível janela com uma fresta aberta e lá de dentro sair o grito ensurdecedor infantil.
“Ô MANHÊ!”
Realmente, Taesan era bom em esperar. Precisou continuar quietinho no sofá da família Kim enquanto os pais de Leehan descascavam o amigo, o filhotinho deitado no colo no seu melhor sono.
Quando o sol já havia acordado, a irmã pequena estava do lado do gato adulando ele e os pais já tinham desistido de discutir com o Leehan sobre o bichano, Taesan percebeu que o melhor nome para aquele bichinho era fácil demais.
“É, Tatpung , você é um tufão passando por aqui.”
