Chapter Text
19h23
Bar Rey Alexandre
Seulgi nunca se considera uma pessoa sortuda. Pelo contrário, se fosse para contar cada caso particularmente suspeito de ser uma dose de um carma gratuito, poderia dizer que um jovem universitário tinha um talento sofisticado em encontrar desastres não tão naturais.
Por isso, quando ela pisou na entrada do bar e pegou dois relâmpagos rasgando o céu, soube que gastou suas moedas da sorte daquele mês. Não pegará uma chuva torrencial no único dia que sairá sem guarda chuva? O que era isso, o seu aniversário?
Ficou mais feliz ainda por ter conseguido uma carona com Kyung, pois odiava andar de moto em tempo de chuva.
Assim que entrou no local, a mudança de temperatura quase que se arrependeu. Enquanto o lado de fora tinha um clima fresco, com uma brisa fraca pelo começo da tempestade, o local coberto parecia estar pronto a congelar. Ela abriu sua jaqueta contra o corpo, escondendo as mãos nos bolsos.
Por favor, gatinho da sorte, que essa chuva pare antes de eu ir embora .
Levar em conta a temperatura do lugar é uma grande chance de levar um banho na saída, pois as chances de uma gripe acabar com o seu sistema imunológico nos próximos dias eram preocupantes.
O bar estava cheio. Uma banda tocava nos fundos e a pista de dança improvisada parecia animada. Tanta gente, barulho e suor, como esse lugar estava tão gelado?
No balcão, assim que entrou com atenção, um jovem garçonete acenou para ela.
Jail se apoiou no mármore quando se mudou, brilhou o suficiente para que uma de suas covinhas aparecesse. O rapaz parecia nutrir uma felicidade sincera sempre que interagiam. Descobriu-se que para ele, o mais jovem e único gay que encontrou no bar, Seulgi era meio que sua outra metade do balcão, já que ela, como lésbica e segunda mais nova, era a outra única peça colorida que encontrou ali.
-Seulgi! Você está cobrindo o turno de novo?
- Não, apenas vim receber o acerto de ontem - Ela quase riu ao ver o brilho se apagar com um sopro de seus olhos - Talvez semana que vem.
Ele invejoso, fazendo um sinal de oração com as mãos. Já foi questionado sobre porque não pediu para devolverem-na como funcionária, na qual pacientemente explicou que esse bico era apenas para emergências.
O jovem sempre bufava dramaticamente alto quando negava, murmurando algo sobre como ela ainda conseguiria respirar entre empregos, bicos e o último ano da faculdade. Seulgi ria, também sem saber qual era o segredo.
Talvez um pouco de determinação com ódio de si mesma?
- Certo, vou avisar o Jeon - Jail chamou um barman que estava nos fundos, seguindo até a porta que levava ao segundo andar.
- Uau Seul-Gi! - Kim Tanabe se mudou, juntando as mãos em agradecimentos.
A menor traição enquanto se sentou na banqueta da bancada - Como seu irmão está?
- Está melhorando. Aquela sopa deu certo, consegui colocar-lo na cama mais cedo pela primeira vez em dias - Ela sorriu largamente, transmitindo um agradecimento gentil.
Tanabe, de trinta e cinco anos, tinha a guarda do irmão mais novo e três gatos adoráveis. Elas se conheceram no primeiro período de sua faculdade, em um clube em comum, enquanto Seulgi cursava medicina, a mais velha era do segundo período do departamento de engenharia civil, seu segundo curso.
- Eu costumava ficar com muita dor de cabeça quando pegava gripe, então minha madrasta deixava meu estômago pesado o suficiente para dormir em sono profundo - Explicou sua tática.
Foi anteontem, quase duas da manhã, quando sua veterana mandou mensagem pedindo para que a cobrisse no trabalho. Um raro pedido de ajuda da mulher. Precisando comprar um conjunto novo de colchas, não pode deixar a oportunidade passar.
- Muito obrigada pela dica e por ter me coberto ontem - Agradeceu, estendendo a mão para a copa na parte de trás, buscando algumas coisas - Aqui, deixa eu te servir esta noite, tudo por minha conta.
- Ah, que nada! Não precisa, já estou de saída - Tentou recusar e ser poeticamente ignorada.
- Eu insisto! E você não pode, ou ousar negar o agradecimento da sua veterana - Colocou o copo vazio da sua frente, apoiando as mãos em volta - Há quanto tempo você não sai para curtir uma noite? Nem precisa dizer, deixa eu adivinhar… Uns dois anos?
Woo revirou os olhos. As duas nunca se adaptaram às cordialidades de suas respectivas idades, então sabiam que era mais uma implicação do que uma canção real. Agora, o detalhe de Seulgi é uma crônica anti-social nem tanto.
Fazia muito tempo.
E não é que Woo não gostasse. Particularmente, as bebidas que Tanabe conseguia montar eram divinas. Beber era algo divertido para ela, ajudava a relaxar em seus raros momentos de férias, então, assim como tudo que gostava, sempre deixava para quando surgisse uma oportunidade para realmente aproveitar.
Agora, naquele exato momento, a ideia de ficar bêbada e acordar de ressaca… dava preguiça.
- Não tem tanto tempo assim - Tentou se fazer de despreocupada, evitando o olhar da maior.
Kim deu uma tapa no balcão tão de repente que Seulgi deu um pulo.
- Sim, Woo Seul-gi! Quem te ensinou um mentiroso para sua veterana? - Embora seu tom fosse duro, um sorriso divertido brincava em seu rosto.
A menor estendeu um punho fechado para ela, se segurando, olhando em volta com uma vergonha repentina de outros clientes que foram escutados.
- Ta, ta, calma… - Fingiu pensar na última vez que saiu com ela - Acho que foi naquela vez, quando Yeon teve que ser carregado para casa…
- Até eu sei o quão longe isso foi - Jail passou por trás do balcão, soltando a informação (não solicitada) por cima do ombro enquanto ia atender outros clientes.
Garoto maldito.
- Ele está certo, isso foi no seu segundo período, Seulgi - Deslizou o copo vazio na sua frente, insinuando para escolher o sabor - Por favor, aproveite.
Woo ia recusar de um jeito um pouco mais grosseiro quando sentiu seu celular vibrar no bolso.
Parceira de impostos Kyung: Seulgi, não fique brava…
mas você poderia demorar um pouco para voltar?
Uma semana de faxina por minha conta
Seulgi suspirou alto, quase achando graça do tempo perfeito da sua falta de sorte. Pelo menos Choi era mais educada quando pedia um momento a sós com a namorada, o oposto de Yeri que, se não mandasse apenas um emoji de tesouras como aviso, simplesmente deixava uma meia na maçaneta de fora quando Seulgi chegava.
Kim a olhou com curiosidade, quase como se diabolicamente soubesse o motivo de sua frustração.
Isso é mentira.
Parceira de impostos Kyung: Ok, três dias?
E Topokki
Parceira de impostos Kyung: Fechado! Avise quando chegar e tome cuidado.
Não confie em estranhos!
Quando guardou o telefone, Seulgi tentou evitar o olhar da bartender à sua frente, justamente para evitar dar a ela a satisfação de ver sua frustração com a bomba que suas colegas de quarto jogaram em seu colo. Tanabe, obviamente, percebe imediatamente, mantendo aquele sorriso irônico.
- Mudanças de planos?
Deu de ombros por fim, desistindo - Você tem algo com sabor de uva?
A música pelo menos era boa.
Woo estava no seu segundo copo, terminando uma pequena porção de queijinhos, enquanto lia um livro salvo no seu celular.
Ignorando o olhar fulminante de Kim, cuja sua descrição de “aproveitar a noite” não era essa , aproveitou o momento livre para botar uma de suas leituras em dia.
Em alguns momentos ela tirou a atenção da história para bisbilhotar o ambiente à sua volta. Por mais cheio que parecia ficar, os funcionários estavam dando conta. Até pensou em se oferecer para ajudar, mas assim que ameaçou se levantar, Tanabe, do outro lado do lugar, cruzou um único olhar que fez Seulgi desistir na hora.
Então a universitária ficou ali, julgando a escolha da playlist daquela noite, bebendo e observando as pessoas. O bar não era muito afastado dafaculdade e do centro, sendo um ponto noturno muito bem animado; Felizmente, não encontrou muitos rostos familiares, apenas um ou dois passageiros.
Até que um ponto colorido chamou sua atenção.
Uma mulher na outra extremidade, sozinha, cabelos longos e rosa, parecendo focada no pequeno cardápio da mesinha. Dolorosamente familiar. Seulgi não teve muito tempo para reparar mais, pois, como se sentiu o seu olhar, a estranha quase a pegou olhando por reflexo.
Seu coração acelerou momentaneamente.
Jesus Cristo.
Ela chacoalhou a cabeça. Estranho.
Sua mente corria. O perfil dela… Seu rosto parecia ter sido carimbado na sua memória de forma leve, desgastada com o tempo, mas não conseguiu se lembrar, seja pela distância da memória e do álcool já amortecendo seus pensamentos. Tanabe não sabe o significado de fraco, como sempre .
Talvez ela já tenha vindo ao bar em um dos dias que trabalhou, certo? Talvez.
O braço de Woo se arrepiou repentinamente.
Ela tomou um gole longo da sua bebida.
O fluxo parecia pior que do dia anterior. A pista improvisada, depois de uns quarenta minutos desde que chegou, estava prestes a explodir gente tal como um balão.
Todas as banquetas ao seu redor estavam vazias, no entanto. Quando alguém vinha beber, sequer se dava ao trabalho de sentar para esperar o preparo. Sexta-feira, em. Agradeceu por aquela rua ser lotada de bares e baladas, se não o ambiente com certeza não fosse insuportavelmente pior.
Acabara de pedir outro copo quando sentiu alguém ao seu lado, fazendo um pedido rápido com Jail antes de se acomodar no assento à direita. Um cheiro doce, chamativo, mas leve como leite de morango fez cócegas em seu nariz.
De todos os assentos vazios, escolheram logo ao seu lado?
Seus olhos não saíram do livro virtual, rezando aos céus e terras que não estivessem bêbados daquele jeito.
Passou-se alguns minutos e sua paz ainda estava intacta, embora sentisse um olhar queimando sua lateral.
Seulgi brincava de rodar a ponta do dedo indicador na borda do copo, uma mania comum de quando estava concentrada.
E então veio aquela sensação.
Começou com um sopro gelado em suas costas, subindo até o pescoço. Estava sendo vigiada, nada de novo, mas, de alguma forma, a sensação era diferente. Não era uma pressão assustadora de um professor, um olhar admirado de caloros em busca de orientação, nem mesmo a gentileza doce de seus entes próximos ou aquele desconforto da estranheza e desejo de estranhos.
Seulgi sequer sabia descrever. Tentou pescar um olhar rápido ao lado, embora sua mente ansiosa e repentinamente tímida tenha enviado o comando atrapalhado aos olhos, pois nem conseguiu manter a visão da mulher por, o que, um segundo? Patética. Culparia o álcool e Tanabe se questionada.
Minutos depois, a bebida da estranha foi entregue.
E ela não foi embora.
A queimação contínua.
Woo levantou brevemente os olhos para o grande espelho que ficou atrás da vidraçaria do balcão. Cabelo rosa. O rosto dela estava virado para sua direção, não fazendo questão de disfarçar. Isso é irritante. Estava quase derretendo naquele banco de puro desconforto! Isso, desconforto. E a desconhecida parecia totalmente à vontade em secá-la desse jeito.
Seulgi não queria papo, o que era óbvio devido a sua distância do resto do local, os ombros curvados e a atenção no celular. Qual é a dela?
- O que? - Questionou alto pela música, reunindo sua coragem raivosa.
Não recebi uma resposta, embora ainda sinta o olhar sobre si. Percebeu que mesmo com a cara de poucos amigos, quando finalmente a olhou nos olhos, a mulher não recuou.
Olhos azuis.
- O que foi?
Novamente aquela sensação de familiaridade brincou em seu peito.
Ela não respondeu.
Enquanto se encaravam, Seulgi permitiu-se observá-la com cuidado. Seus olhos… Com os diferentes núcleos de led das luzes noturnas do bar, pensou se sua mente já estava muito atrasada pela bebida ou se a mulher estivesse usando lentes.
A estranha de um sorriso lateral. Uma covinha pequena marcada apareceu. Esse sorriso. O arrepio voltou com força, alastrando um calor doentio por seu peito.
Deuses, já estou tão bêbada assim?
- Perdeu alguma coisa? - Perguntou novamente, sem doçura na voz
A mulher se ajeitou no banco, apoiando-se no mármore enquanto se inclinava quase que imperceptivelmente em sua direção.
Que cheiro bom.
– Lugar inusitado para ler “Harrow, a nona”, não acha? - Sentiu suas bochechas esquentam sem motivo aparente. Quando ela conseguiu ler o título em seu celular? Talvez ela usasse lentes para ajudar na visão.
Seulgi não respondeu.
Voltou sua atenção para o livro, reafirmando sua falta de interesse em jogar conversa fora.
Maldita Kyung. Maldita Tanabe.
- Particularmente prefiro o livro de Gideon - a desconhecida insistiu.
Ela conhece a saga e está usando isso para chamar sua atenção?
Seulgi sempre teve um pé atrás sobre conhecer pessoas em bares. Já viu diversas situações desconfortáveis que se desenrolaram por coisas banais, principalmente onde o álcool é um fator dominante.
Ela não era hipócrita ou nutria algum ressentimento. Apenas era mais reservado. Tímida . Gostava de aproveitar sua bebida e música boa na própria companhia ou com amigos.
Normalmente ela faria isso em casa, o que ,no momento, não seria possivel por conta da sua imprestável colega de quarto que a odeia. Então aqui estava, tendo que passar por uma provação inesperada; uma mulher muito bonita para sua sanidade.
De todas as pessoas, a irmã da princesa jujuba tinha que escolher logo a mais inexperiente em fazer amigos por conta própria do bar?
Embora a citação do livro tenha sido curioso.
- Começo de sagas sempre são melhores, fazem parte da nostalgia - Disse calmamente, ainda distante.
- Discordo em partes. Gostei muito de como toda complexidade desse universo foi apresentado e o final… - Ela fez um movimento de explosão na cabeça - Mas eu prefiro porque acho cativante e hilário a dinâmica odiosa das duas - Ponderou por um tempo, inclinando o rosto em pensamento - O segundo também é muito bom, o limbo que a Harrow entra pela Gideon é… interessante.
Seul sorriu, escolhendo suas próprias palavras para descrever a relação das duas protagonistas.
- Romanticamente trágico? - Fez uma pergunta retórica, retribuindo um brilho de conhecimento mútuo dela.
- E doentio - Nisso não poderia discordar. A estranha responde quase triunfante com o aceno de concordância - Eu gosto de romances peculiares.
- Eu descreveria mais como obsessivo - Disse lentamente, deixando aquele tom de drama cair sobre a sentença.
O brilho nos olhos da mulher a fez suar frio - É um charme atraente.
Woo concordou meio envergonhada, entendendo bem o peso daquelas palavras sobre a trama. A mulher continua encarando fixamente. Sem pudor. Sem vergonha. Tentou voltar a ler, implorando mentalmente para que fosse apenas uma conversa banal e, mais uma vez, tendo suas preces ignoradas.
A mulher parecia até mais tranquila do que antes, mais à vontade. Woo se obrigou a respirar fundo e beber um pouco de sua bebida, esperando que o relaxamento do álcool a salvasse.
Não iria.
- Você precisa de alguma coisa? - questionou.
A Jujuba olhou em volta com cuidado, enrolando. Parecia que havia total noção da pequena tortura que a menor estava passando.
- Você não parece gostar de lugares como esse - Seu tom era nada mais que curioso, beirando a preocupação.
Seul desligou o aparelho, cruzando os braços sobre o balcão - Lugares como esse?
- Barulhentos.
- Não me importo muito com o barulho - Disse simplesmente.
Era verdade. Não foi uma habilidade desenvolvida com o tempo ou que teve que aprender na pressão devido a algum vizinho barulhento. Era algo quase natural para Seulgi.
Tinha uma facilidade em se concentrar em algo, de focar ao ponto de todo seu redor parecer um segundo plano em volume baixo, como se estivesse debaixo d'água e todo som indesejado fosse abafado pela superfície.
Não era algo novo ou admirável para ela: era uma vantagem.
A estranha inclinou-se um pouco, olhos atentos como os de um gato aventureiro - Sua concentração é impressionante.
Seulgi sentiu novamente aquele nervosismo. Seu pescoço esquentou. Ela piscou várias vezes, estranhando a falta de palavras.
Sorriu fraco, pensando em qualquer resposta - A música também não é ruim.
A mulher riu um pouco, percebendo sua confusão momentânea.
Como se quisesse piorar sua condição, ela se inclinou um pouco mais em sua gravidade. Apenas um pouco, quase impossível de notar de longe, mas assustadoramente perceptível para Seulgi.
- Eu te vi trabalhando aqui ontem.
Ao mesmo tempo que isso esclarecia um pouco suas dúvidas, injetava outras centenas em sua mente sofrida. Woo definitivamente não se lembra de ter atendido alguém de cabelo rosa, ou sequer reparado de canto de olho, embora isso pudesse ser facilmente explicado ao se lembrar do quão cheio o local estava.
Mesmo sentindo que sua perna esquerda poderia começar a tremer a qualquer momento, tomou um fôlego de coragem para sorrir enquanto se inclinava.
O jeito que os olhos azuis ficaram repentinamente inquietos, desfocados em seu rosto, como se quisesse captar cada sinal em sua pele, fez sua curiosidade sobre ela pular, retorcendo-se em um nó apertado.
- Isso é um pouco assustador - Abaixou o tom da voz, como se fosse um segredo recém-descoberto - Você está me perseguindo?
A desconhecida não ficou muito atrás, pintando algo inocente em sua feição - Prefiro o título de admiradora.
Todo o ambiente em volta delas estava um caos, o inferno na terra, mas entre as duas, rodeadas por uma bolha subaquática, um silêncio intenso se formou por breves segundos.
Quando a maior sorriu novamente, trazendo sua covinha à vista, os olhos de Seul se fixaram ali.
Sentiu novamente aquela impressão nostálgica.
Ela é tão linda. Seulgi quis contornar a curva do seu nariz com o dedo mindinho. Ela me lembra o oceano .
Seu sorriso se alargou com a análise evidente e, por um momento, Woo não se importou com a vergonha. Não parecia fazer sentido sentir isso quando a linha do sorriso dela era simplesmente cativante.
Sentia como se estivesse correndo em direção a uma parede.
A estranha não parecia bêbada; na verdade, parecia que esse jeito relaxado e zombeteiro era o seu normal. Em uma condição mais sóbria, a universitária com certeza acharia muito irritante.
- Sou bartender reserva, estava cobrindo um turno apenas - Respondeu por fim, se lembrando do último assunto posto.
Aliás, em que momento ela simplesmente decidiu manter uma conversa com a estranha?
- Então você não trabalha aqui? - Questionou antes de beber sua bebida.
Os olhos de Woo foram diretamente para o seu pomo de adão. Reparou mais afundo em sua vestimenta, que consistia em um suéter com gola alta e uma calça jeans larga. Ela não está com frio?
- Às vezes - Disse a tempo de evitar outro silêncio estranho - Isso deve ter frustrado seus planos.
- Não muito - Deu de ombros, ajeitando o cabelo atrás da orelha - Pelo contrário, está indo muito bem e ainda posso te conhecer melhor.
Seulgi brincou com a borda do seu copo, ignorando como a atenção da outra se fixava rapidamente nos movimentos que fazia no utensílio.
- Quanta confiança.
- Até agora você não foi embora ou me mandou ir - Ela inclinou a cabeça - Estou errado?
Seul não pode argumentar, embora quisesse dar várias respostas bastante grosseiras por pura birra.
Ambos ficaram em outro silêncio levemente amigável, com a universitária observando a outra terminar sua bebida em um último gole longo.
Sua curiosidade falou alto.
- Por que? - Recebeu um “hum?” doce com uma expressão confusa - Melhor dizendo, o que chamou sua atenção?
Era uma questão plausível, certo? Veja, por anos Woo praticou sua habilidade mais preciosa e única: passar despercebida.
Não era exatamente uma insegurança. Seulgi gostava desse lado solitário.
Mesmo que sua timidez não o impedisse de ser suficientemente sociável, a ideia de chamar a atenção e ser destacável eram pontos que tentava a todo custo evitar. Tanto que, quase como se fosse natural, sempre entrava em um lugar, seus olhos captavam automaticamente o lugar perfeito para se manter fora de vista.
Era quase um instinto.
O que não foi diferente nessa noite, visto que ela escolherá um canto com a maior falta de luz de todo o balcão.
O lugar estava cheio. Pouca claridade e o aroma de diversos perfumes caros formavam um mar de opções.
Mas a mulher escolheu ela.
Reparou nela. Duas vezes.
Mesmo que você já tenha recebido alguns números aqui e ali, que sempre foram ignorados, sua mente girava sobre o porquê dessa insistência.
Uma luz passou pelos olhos azuis novamente. O álcool brincava com a sua mente. Não podia não ser lente, não parecia… se encaixar. Era como se sentisse falta de um castanho nunca visto ali.
A maior se inclinou. Sua mão subiu calmamente até sua, apenas para que a ponta da unha do seu indicador raspasse bem de leve sobre seus dedos.
- Você prefere que eu diga porque achei seu gosto literário muito bom ou porque te achei muito linda? - Disse em uma confusão fingida com o tom grave e reconfortante.
O toque foi rápido. Foi um convite? Uma provocação? Um gesto amigável?
Embora a tensão fosse quase asfixiante, como uma cobra enrolando-se em sua caixa torácica, existia uma leveza na sua feição. Algo calmo e paciente.
Normalmente, Seulgi se sentiria nervosa pelo rumo da conversa. Estava há poucos minutos atrás, inclusive.
Mas ali, agora, com aquela melodia tranquila de sereia em sua mente, elogiando-a e brincando com os seus foras, sua postura rígida e palavras distantes… ela se sentiu em transe.
- Eu sinto que você é familiar - A expressão da maior não vacilou - Você vem muito aqui?
Deu de ombros calmamente - Ontem foi a primeira vez.
Seulgi realmente gostaria de lembrar. Precisava. Pela primeira vez praguejou pelo seu foco excessivo no trabalho.
A outra, no entanto, não pareceu entender seu silêncio repentino
- Eu ouvi como você lidou com aquele casal bêbado - Disse como se queria provar que realmente esteve ali.
Seu rosto queimou ao lembrar da pré-confusão que se meteu ontem.
Estavam perto de fechar quando um casal obviamente bêbado entrou no estabelecimento como se fossem personagens de uma série de comédia americana antiga extremamente ruim. Barulhentos e insuportáveis.
Jail parecia perdido sobre o que fazer, pois os dois queriam adiantar três rodadas de bebidas e cinco porções de aperitivos faltando exatamente vinte minutos para fecharem. Espera, ela ficou até tão tarde assim?
A cozinha já tinha encerrado suas atividades e, levando em conta que quando entraram, esbarraram em um grupo que saia e por pouco não arrumaram uma confusão ali mesmo, não queriam ter que lidar com uma briga possível.
Seulgi foi mais rápido.
Enquanto caminhava do outro lado do lugar até eles, tirou o avental e o boné, se passando por uma cliente sabichona, contando para os dois que o bar há cinco ruas abaixo estava com uma oferta de bebidas de graça para a madrugada. Eles saíram imediatamente.
Não existia nenhum bar naquela área, apenas um restaurante cujo dono egocêntrico nutria um ressentimento estranho pelo seu chefe.
O desfecho disso com certeza teria sido divertido de se assistir.
Quando o momento foi mencionado, mais uma vez surgiu aquele dilema de não ter visto a desconhecida por perto.
Woo apenas concordou sem graça - Assim que eles entraram aqui perceberam que dariam trabalho.
A maior parecia impressionada e divertida.
- É uma habilidade de bartender, avaliar perfil e adivinhar se vão dar trabalho ou não?
- Mais ou menos. Com eles era quase óbvio, com outros acho que consigo apenas dizer se vou precisar ficar de olho ou não - Bebeu um pouco do seu copo, ainda sentindo o olhar - A clássica questão; estão aqui apenas para curtir ou me fazer arrepender de trabalhar com atendimento ao público?
- E eu? - Seulgi a olhou confusa - Acha que minha conduta pode ser suspeita?
Engoliu em seco, tentando não gaguejar quando a viu sorrir mais abertamente, mostrando os dentes. Ela percebeu que estava nervosa.
- Meio termo.
- Que má - Apoiou o queixo sobre a mão - Quer jogar um jogo comigo, Bartender?
- Não gosto de apostas.
Ela riu alto.
- Não esse tipo de jogo e com certeza sem apostas - Seus olhos brilharam - Vamos fazer suposições sobre a outra, quem errar, bebe uma.
- Uma estranha, meia stalker, recebendo informações sobre minha vida assim? - Se inclinou um pouco mais - Achei que os assassinos tinham planos mais discretos.
A maior riu, gostando do estilo do seu humor.
- É de benefício mútuo; eu consigo te conhecer melhor e te ajudo a sair um pouco desse tédio.
Woo se sentiu levemente ofendida, embora não fosse mentira.
- Não foi você que disse que meu gosto era bom? Não estou entediada.
A estranha a olhou com uma expressão zombeteira.
- Então.. você quer que eu saia e te deixe ler?
Sua resposta hesitou na ponta da língua. A pergunta em si não parecia séria. O sorriso curto, os olhos calmos, tudo nela não transmitia algo próximo de decepção ou desistência. Não . Ela parecia muito bem confiante sobre isso.
Essa confiança a irritou de um jeito estranhamente nostálgico. Não é possível, o que Tanabe colocou nessa bebida?
Não foi apenas a confiança e o achismo. Era a verdade. Por mais que ela tivesse essa postura beirando a arrogância, o que irritou Seulgi foi a verdade por trás dela, o fato dela estar certa. Woo a queria ali, percebeu. Queria nutrir esse pequeno broto de curiosidade sobre ela. E, sejamos francos, que lesbica patética ela seria se simplesmente dispensasse aquele anjo sobre a pele de um demônio na sua frente.
Seu silêncio pareceu ser uma resposta boa para a maior, que foi rápida em chamar Jail e pedir uma garrafa de algo que Seulgi não prestou atenção. O perfil da mulher, somando a porra do pomo de adão dela subindo enquanto falava praticamente estapearam sua cara.
- Não precisa ser coisas sérias.. Exemplo, você acha que sou uma pessoa de gato ou de cachorro?
Woo soltou uma risadinha nasal, respondendo com uma certeza atrevida;
- Gato.
Ela sorriu largamente. Outra vez aquela sensação familiar. Apontou para o copinho.
Seulgi revirou os olhos, tomando o shot.
Fez uma careta feia - Deuses, mais fácil comprar álcool setenta.
- Pode pedir outra coisa se quiser - Ofereceu rindo. Woo não perdeu tempo, chamando o amigo novamente. A expressão de espanto com admiração da desconhecida foi divertida - Cachaça de abacaxi?
- Gosto que tenha o sabor de uma fruta - Virou o copo, mal fazendo uma expressão dessa vez - Você acha que sou uma pessoa de hamster ou de peixe?
A estranha arregalou os olhos, um brilho divertido com a constatação de que Seulgi não jogaria fácil.
- Peixe?
Woo inclinou a cabeça, fazendo um breve suspense antes de indicar o outro copinho para ela.
O jogo se desenrolou com facilidade. As horas foram passando e a população no bar começou a se despistar.
Em algum momento, a mulher perguntou se ela gostaria de ir para um lugar mais tranquilo. Seulgi, depois de cinco copinhos daquela caipirinha, sentia que seus pensamentos estavam leves o suficiente para simplesmente ir.
Aproveitar.
Ela concordou, sentindo uma mão segurando a sua logo em seguida, gentil e macia, guiando-a até uma área mais afastada do pequeno palco e balcão. Era mais isolado, mas visível, com assentos estofados para grupos, trios, duplas e individuais.
Escolheram uma de três lugares, deixando um espaço considerável entre elas. Woo reclamou da distância internamente, depois se questionou se era a intenção da outra.
A estranha parecia focada no atendimento, esperando o garçom deixar outra jarra de bebida na mesa de centro, fingindo ignorar o olhar travesso que ele enviou a Seulgi tímida ao seu lado.
- Acha que prefiro nadar com tubarões ou andar em uma floresta cheia de hienas? - Questionou enquanto apoiava a lateral da cabeça sobre seu braço encostado no banco.
Seul fez um bom trabalho em ignorar o modo como ela parecia se elevar sobre si, inclinando seu corpo na sua direção. Os olhos dela, mesmo parecendo inquietos para percorrer seu corpo, se mantinham fixados em seu rosto, famintos por cada micro expressão.
- Tubarões - Woo devolveu com confiança.
A estranha fez uma expressão de espanto antes de buscar outro copo - Como?
- Intuição - Deu de ombros, se divertindo com a visão da careta que a outra fez ao virar a bebida.
- Como você faz parecer tão tranquilo? - Reclamou com a língua para fora, rindo em seguida. Seulgi quis gravar aquela risada.
- Mesmo que eu não goste tanto de lugares assim, gosto de beber sozinha - Em um momento de mente nublada e uma pequena falta de controle, Woo se aproximou muito dela, narizes quase se tocando, sussurrando sobre a bochecha - Sabia que existe uma bebida secreta no cardápio?
Isso pareceu despertar ainda mais o fascínio da mulher de olhos arregalados, que sorriu de um jeito igualmente travesso, acompanhando o movimento levemente.
– Eu que criei - Piscou antes de voltar um pouco.
– Por que é secreta? - sussurrou.
– Está em fase experimental - Deu de ombros, soltando uma risadinha enquanto se servia de outro copo - O dono é super criterioso.
– Se eu conseguir conquistar sua aprovação depois de hoje, você me convidaria para beber no dia que for para o cardápio? - O convencimento em sua língua intensificava o flerte.
Por um momento, antes de virar o copo, Seulgi se prendeu um pouco em como ela enrolava uma mecha de cabelo com os dedos. Familiar de novo. Por fim, sorriu com arrogância.
– Talvez.
Mais meia hora de rodada depois, era a vez da estranha novamente.
- Terror ou comédia?
Algo pulou em Seulgi - Porque algo me diz que a sua comédia é o terror?
- Ah.. você é boa - Disse com um bico, virando mais uma.
Após duas vitórias da moça de cabelo rosa, seu tom adquiriu uma sintonia mais baixa.
– Bartender reserva - A chamou pelo apelido travesso.
– Hum? - Piscou atenta, beliscando uma bolinha de queijo que pediram.
– Posso me aproximar de você?
A mulher quase engasgou, tossindo rapidamente enquanto se recompõe. A outra sorria, esperando uma resposta obviamente positiva.
Se fosse em circunstância mais sóbria, Seulgi não teria poupado o linguajar na resposta que poderia oferecer. No entanto, nesse momento, com o álcool e seu coração andando juntos nessa missão fodida de arruiná-la, sua reação mais patética possível foi um simples movimento com a cabeça.
– Certeza? - Doce e rastejante . Seu sorriso malicioso não dava espaço para alguma ideia inocente daquilo.
Ela se aproximou ao ponto de exatos dois centímetros separarem suas coxas.
Se o conjunto de fermentação alcoólica já estivesse prejudicando seu senso de razão, o cheiro dela a levaria diretamente à ruína. Doce e quente.
Por dois segundos, Seulgi se lembrou do tempo escolar.
E então sua mente voltou para a voz tranquila da mulher - Sua vez agora.
Ao todo, Seulgi ganhava por duas. A cada partida, ela percebia como o pequeno espaço entre elas sumiram tão rápido quando a bebida da jarra na mesa.
Ou a mulher se inclinava em uma risada, escondendo o rosto em seu ombro, ou começava a brincar com a gola larga da sua blusa social. Woo também deixará de hesitar, não ficava tão tensa quando sentia o peso de seu rosto em seu espaço ou quando ela falava tão perto da sua bochecha. Não. Ela se inclinava cada vez mais.
Nem se importava mais com aquela sensação de nostalgia. Em dado momento, ela mesmo começou a retribuir essa atração. Sua mente parecia perfeitamente nublado com o quão divina era essa mulher para se limitar.
Seulgi estava fascinada. Não sabia se era pelo álcool ou pela presença estonteante dela, sequer ligava a essa altura, mas todo o seu corpo parecia pender em sua direção.
- Café ou capuccino?
- Hum? Ah! - Seulgi desviou o olhar, se lembrando do jogo e fugindo da expressão convencida da conhecida.
- Capuccino? - Woo respondeu com hesitação, observando a breve frustração com divertimento passar pela feição da maior.
- Qual é! - A observou virar outro copo com um olhar tranquilo, relaxado, se divertindo com aquele mesmo tom incrédulo. Ela parecia realmente frustrada - Você é muito boa nisso.
- Não me diga que você não gosta de perder? - Seulgi perguntou.
A desconhecida inclinou o rosto, parecendo pensar - Você gosta?
Deu de ombros - Na maioria das vezes, não.
A mulher soltou uma risadinha - Então essa é uma exceção? Não me diga que sou especial.
- Estou meio bêbada - Seulgi sorriu, repousando a cabeça sobre o braço dela, fechando os olhos momentaneamente.
Uma sensação de tranquilidade, mesmo com o ambiente caótico, se apossou de seus ombros, como espreguiçar um músculo dolorido. Quando foi a última vez que sentiu esse alívio emocional?
- Acaba sendo nostálgico, não é? - O sussurro veio ao lado do seu ouvido. Contemplativo. Perdido em algo próximo a uma reflexão.
Seu coração errou uma batida. Merda . Seulgi não reagiu de primeira. Seu peito batia devagar, processando tão lentamente quanto sua mente. Ela disse da boca pra fora? Pode ter se referido às outras rodadas que jogaram? Porque, pelos céus, porque ela disse isso como se já a conhecesse?
Elas ficaram em silêncio por um minuto. Seulgi mantinha a cabeça em seu braço, evitando seu olhar. A mulher parecia tranquila, paciente e um pouco tensa ao mesmo tempo? Não sabia dizer. Lentamente, a bartender ergueu o rosto, observando a expressão bonita e singela da mulher. Próximas.
- Qual era o seu nome mesmo? - Perguntou, fingindo uma voz um pouco mais arrastada.
- Eu nunca disse meu nome - Respondeu com a voz grave - É Jae
Nada. Seulgi finalmente a encarou novamente. Suas órbitas pareciam fixadas no canto da sua boca. Sua covinha devia estar marcando.
Garganta seca. Ela é tão linda.
Woo a assistiu engolindo em seco, fixando-se no movimento de sua garganta. Jae sorriu minimamente, apenas levantando a lateral dos lábios. Ela também tem covinhas, percebeu há um tempo.
Uma súbita frustração subiu em sua boca. Misturou-se com um desejo acumulado, uma vontade quase odiosa de desmanchar aquele sorriso. Sufoca-lo. Beijá-la.
- Escuta, eu..
Seulgi não lhe deu tempo para se explicar ou pensar. Ela subiu o rosto, alcançando seus lábios rapidamente. Em primeiro instante foi apenas um selo demorado, quieto, firme, quase hesitante. Quando se afastou, levando um pequeno arrepio com o barulho de seus lábios se desconectando, coisa de um centímetro, apenas para esperar uma resposta, toda intensamente do momento pareceu triplicar. Pesar e desabrochar.
Seus olhos alternavam quase freneticamente entre os diamantes de grafite escondidos e os lábios avermelhados. Uma sensação de realização subiu sua garganta, velha e desgastada, um sentimento enterrado muito fundo para ser de uma única noite.
O grafite desceu para a sua boca. Uma voracidade mal contida, juntando suas testas, Jae suspirou contra seus lábios, liberando algo perto de um som quebrado e carente. Deuses. Se existe um jeito de implorar, sem preces e joelhos firmes contra o chão, era aquele som.
Curto e carnal.
Sua mente, já entorpecida, se revirou com o jeito que o lábio dela tremeu .
Ao mesmo tempo que aquela boca, molhada, faminta e amarga colidia com a sua, mãos firmes e inquietas puxaram a cintura de Woo para mais perto.
Quando a menor alcançou seu pescoço, mãos trêmulas, acabou raspando um pouco forte demais com as unhas. A mulher estremeceu. Seu pedido de desculpas foi abafado pela fome. Sua boca tinha gosto de maldição, desejo e abacaxi. Seu cheiro era o começo da profecia de sua ruína.
Existia saudades naquele calor.
Litros de luxúria nostálgica.
Seus dedos brincaram com a raiz dos fios em sua nuca. Jae se afogou momentaneamente contra o seu gosto, fornecendo o momento perfeito para aprofundar aquele ato profano de um jeito mais lânguido e molhado. Seul sentia as mãos dela fechadas fortemente contra a sua blusa, puxando-a com os resquícios de controle.
Era como estar na ponta de uma montanha. Debaixo do oceano. Respiração rasa, queimando. O começo de uma erupção. Quente e excitada.
Em dado momento, Jae tomou um avanço mal calculado sobre ela, aproveitando sua sensação de estar desnorteado. Ela a segurou com tanta força, com tanta vontade de tê-la, que fez Seulgi se inclinar um pouco para trás, levando-a se apoiar com uma mão no estofado.
O sobressalto foi divertido. Ambas sorriram quando tiraram um curto tempo para respirar. A tensão em volta delas era uma mistura louca de tesão e saudades acumuladas.
Nós nos conhecemos essa noite.
Então por que..
– Quer ir para outro lugar? - Jae a encarou com expectativa.
Essa voz. Esse olhar lunar.
– Sim.
Esse era um dilema. Ela não deveria ter concordado.
Seulgi definitivamente não deveria estar naquele apartamento.
Ela não deveria gostar tanto de como a altura de Jae era perfeita para elas se beijarem contra a parede da sua sala de estar.
Woo não queria se importar com as suspeitas ou alertas.
Então não o fez.
Não quando conseguiu guiar a anfitriã até perto do sofá, fazendo-a se sentar.
O jeito que ela a olhava, as órbitas famintas, boca levemente aberta, vermelha em líquidos, e mãos firmes contra a sua cintura mesmo de longe; tudo era uma profecia pronta para destruí-la.
Quando Jae a puxou para o seu colo, lábios buscando os seus com a sede de um pecador. As mãos da universitária raspavam sua nuca em um carinho gostoso, detalhe perceptível cada vez que a mulher se derretia cada vez mais em sua língua. Então ela ofegou, respiração rasa, quebrando brevemente o beijo apenas para chupar seu lábio inferior dolorosamente lento.
Seu foco se voltou para pele do pescoço sensível, seguido por um sussurro quando seus dedos subiram até a gola da sua blusa
- Posso, Seulgi-ah?
Tão carente e trêmulo.
- Rápido - Respondeu, inclinando o rosto para trás quando sentiu seus dentes começarem a raspar sua pele, primeiro beijando de boca aberta, quente, e então mordendo e sugando, com fome - Caralho, que gostoso..
Jae sorriu contra a sua clavícula, deslizando a língua pela marca do osso - Você que é muito gostosa, Seulgi.
Suas mãos trabalhavam juntas na blusa de Seulgi e nada, repito , nada a teria despertado tanto daquela neblina quanto a visão completamente desesperada e sem fôlego de Jae quando finalmente abriu o tecido.
Quando percebeu que Seul não usava sutiã.
Quando seus olhos cravaram no piercing em seu mamilo esquerdo.
Quando sua voz quase quebrou ao perguntar - Woo Seul-gi, há quanto tempo você o tem?
Ainda nublada, respondeu baixinho - Quase três meses.
Nada a teria preparado para o momento em que sentiu seus olhos se revirando, uma prece carente de luxúria escapando de sua língua, quando aquela boca alcançou seu seio. Jae soltou um gemido de aprovação, agarrando ainda mais sua cintura com a mão livre, os lábios deslizando pela extensão da pele até o mamilo, prendendo-o levemente antes de chupa-lo.
- Ah, porra.. - Meio sussurrou, meio gemeu, não sabia mais. Sua mão apertou as raízes daquele cabelo macio, arrancando outra aprovação da anfitriã abaixo de si.
Seulgi mordeu o próprio lábio para abafar outro som. Seus olhos se abriram apenas um pouco para assistir a outra mulher devora-la com vigor. Também observou a visão deliciosa que estavam, sendo Seulgi inclinando para trás, apoiando-se com a mão direita sobre o joelho de Jae para dar-lhe mais espaço.
Uma mão livre alcançou seu seio livre e carente, deixando a ponta dos dedos brincarem com o bico de leve. Woo ficou ainda mais inquieta. Se remexendo. Contorcendo sobre o colo dela. Levou a própria mão até a da anfitriã, orientando-a a apertar o acúmulo de carne com um pouco mais de força. Sentiu os lábios se erguerem em um sorriso contra a sua pele úmida, segundos antes da língua molhada se balançar contra o detalhe metálico presente ali.
Algo chato puxou em sua mente. Eu não disse meu nome completo.
Ela ignorou.
Tudo ficou confuso e intenso demais depois disso. Woo puxou Jae para cima de novo, desesperada para sentir seu gosto novamente.
Elas se beijaram até suas bocas ficarem desleixadas por dormência.
Em algum momento, Seulgi suspirou. Jae aproveitou para voltar para a sua nova obsessão suculenta. Dessa vez, ela preferiu explorar o piercing com a ponta dos dedos, memorizando pelo tato, enquanto sua língua circulava o seio direito.
- Seulgi-ah, você é tão perfeita… - Sussurrou com a boca cheia, guiando sua cintura contra a sua perna em um movimento leve - agonizante - que fez um choque passar por sua garganta - Tão quente.. Tão macia.
Seulgi sorriu, perdida. Acariciou os cabelos de jujuba suavemente. Jae olhou para cima, sorrindo maliciosamente antes de chupar lentamente o bico de seu peito olhando diretamente para ela. A cabeça de Woo pendeu para trás.
- Você também tem uma sensação de que não deveríamos… Ah, porra, calma .. - Suspirou alto quando sentiu uma leve mordida no bico.
A boca de Jae mudou de rumo, subindo por sua clavícula até o pescoço. Beijos, lambidas, mordidas. Inferno de mulher. Sua mão começou a descer pela sua barriga. Seulgi segurou a respiração. Sim, finalmente.
– Acho que sim… Talvez.. - Disse desfocada, mas sorrindo. Ela afastou a boca da carne quente, sua mão parou, fingindo recuar, olhando-a com uma breve hesitação - Quer que eu pare?
Woo não gostou deste tom de brincadeira e muito menos de como ela mesma não conseguiu segurar sua expressão desesperada.
– Se você parar… eu juro… - Puxou um pouco do fôlego, buscando o maxilar da mulher com a mão que estava em seu cabelo - Eu mesma me dou um orgasmo na sua frente e vou embora.
Seus olhos escurecem ainda mais, se é que era possível. Seulgi queria reclamar daquele azul falso. Queria a escuridão do castanho de volta.
Embora fosse nítido que a primeira parte de sua ameaça não parecesse tão ruim para Jae, seu aperto possessivo e um vislumbre de uma carranca brevemente insatisfeita lhe deu o calor necessário para que voltassem ao plano original.
Seulgi a puxou para outro beijo.
Quando percebeu, estavam em uma cama, ainda trocando salivas, Seul puxava seu suéter para fora, mal tendo tempo de admirar as pequenas tatuagens na clavícula dela quando a sentiu empurrando-a para trás.
O quarto estava um completo forno . O cheiro de Jae, delas, do suor, do álcool, de cada orgasmo, de cada gemido, tudo ajudava a transformar aquele cômodo em uma sala privada do próprio inferno .
Elas se perderam.
Em nenhum momento a bartender se importou em todas as vezes que a mulher gritou seu nome completo com tamanha familiaridade.
Nem mesmo quando a própria Seulgi, às vezes implorando e às vezes amaldiçoando, acabou chamando Yoo Jae-yi consecutivamente.
Ela realmente não se importou nem um pouco.
Uma semana e dois dias - em negação - depois
Seul-gi se sentia um caco maltratado.
Como se o apocalipse zumbi tivesse acontecido, ela foi infectada, mas esqueceram de avisá-la. Por um lado, seria uma merda que já tivesse virado uma marionete de fungos tão cedo - sim, ela só aceitaria ser derrotada pelos mais fodas - mas pelo lado bom, seria o fim do capitalismo e da sua miséria.
Yeri deu um tapa no balcão enquanto passava ao seu lado, fazendo questão de acordá-la de seu pequeno momento de criatividade depreciativa. Woo nem podia xingá-la pelo susto.
Agradeceu a todas as forças existentes que o movimento na cafeteria estivesse fraco naquele dia. Era isso. Se sua rotina de trabalho não a matasse, as toneladas de exames marcados em seu calendário iriam.
Cinco xícaras de café. Sequer estavam perto do meio-dia e ela já tinha extrapolado seu limite de cafeína do dia.
Seulgi estava caindo de sono.
Além de ter ficado até onze e meia na biblioteca do campus estudando na noite anterior, completou sua carga de estudos em casa com mais três horas, esquecendo completamente que era segunda-feira, ou seja, turno extra .
O cheiro confortável e a maciez do seu edredom em sua cama ficaria unicamente em seus sonhos - junto com o apocalipse zumbi - até, no mínimo, dez da noite.
De novo; não era nem meio dia ainda.
– Woo Seulgi, precisamos de mais cannolis! - Ela ouviu a voz de Jung, outro funcionário do estabelecimento, passando pelo corredor para os fundos
– Segundo forno! - Respondeu ainda focada em arrumar a fileira do balcão e não dormir contra a vitrine de novo.
O cheiro doce e aquecido das guloseimas inundaram a área principal assim que o rapaz supostamente os retirou do forno. Nesse momento, quando ela podia se deleitar com a fragrância familiar, era um dos raros que a mantinha sã.
Mesmo que o fluxo estivesse meio parado, o ritmo de saída dos cannolis sempre era o suficiente para que eles terminassem antes do almoço. Felizmente, como era uma receita antiga de família, Woo conseguia prepará-los rapidamente.
- Você deveria testar aquele kit de maquiagem que eu te dei de aniversário, sabia? - A voz de Yeri, presunçosa e divertida com o seu sofrimento, ecoou do outro lado do balcão.
- E você deveria testar aquele pregador que dei a Kyung e colar essa sua boca intrometida, o que acha? - Respondeu com a paciência de um buda.
A mulher riu um pouco, conhecendo bem o seu humor nesses momentos.
Além de ter que compartilhar o apartamento com Kyung, ainda aturava Yeri por meio período na cafeteria. Se Seulgi soubesse o buraco que se colocaria por ser a ponte entre as duas, ela teria pulado.
- É, sério. Você está destruída. Já pensou em dormir?
Não joga um copo nela. Não joga um copo nela.
- Yeri, não estou com cabeça para isso.
- Bom, você nunca está com cabeça para nada que não seja responsabilidades e destruir sua saúde física e mental, mas tudo bem - Passou ao seu lado outra vez - Isso porque você é médica e atleta.
- Isso era para ajudar?
- Kyung que gosta de ajudar. Eu gosto de jogar verdade sutis na sua cara. - Sorriu satisfeita enquanto arrumava uma porção de copos. Seulgi imaginou jogando-a pela janela.
- Não tão sutis.
- Você deixou de merecê-las há muito tempo - Silêncio - Inclusive, estávamos pensando em sair amanhã com uma galera do trabalho de Kyung, está afim?
- Hah! Nunca.
Yeri bufou, embora já esperasse essa resposta - Podemos assistir algum filme quando voltarmos, então? Quase não vejo minha amiga mais!
- Mas a gente se vê todo dia? E eu ainda moro no quarto ao lado da sua namorada.
- Tempo de qualidade, Seulgi!
Woo suspirou, rindo um pouco - Ok, podemos ver um filme se eu ainda estiver acordada.
Yeri sorriu, apontando com o dedo ameaçador para ela - Você vai estar - E então ela se aproximou, abaixando-se ao seu lado - Aliás, quando você desmaiar em algum bueiro por falta de sono, posso ficar com a sua coleção de discos?
Seulgi começou a ponderar as consequências de um caso de homicídio no currículo pela terceira vez naquele dia. Ela respirou fundo. Alcançou o relógio de pulso e enviou seu olhar mais falsamente entusiasmado possível.
- Olha o horário! Seu expediente acabou.
Yeri riu de leve, se afastando para os fundos enquanto retirava o seu avental. Que rápida.
Próxima das uma e meia da tarde, Seul-gi atualizava a planilha de suprimentos no fundo quando ouviu o sino da entrada. Tão obsoleto, mas útil.
Trocou um olhar com o seu colega, que mostrava o semblante de cachorrinho mais horroroso que ela já vira.
– Um minuto! - Disse do fundo, fazendo uma expressão de pânico dramática para Jung, que recheava uma porção de cookie na bancada principal ao lado.
Ele lhe enviou um olhar agradecido, sendo recebido por uma referência de cavaleiro enquanto a mais velha passava pelo corredor.
- Boa tarde! No que posso ajudar? - Sua voz amigável ecoou primeiro do que a visão do novo cliente.
Esse foi o seu primeiro erro.
– Woo Seul-gi
A bartender congelou. Seus olhos provavelmente - e vergonhosamente - se arregalaram sem qualquer sutileza.
Ela nao estava em perigo, então porque seu corpo descarregou uma dose de adrenalina como se tivesse a porra de um lobo na sua frente. Se bem que, nessa altura, ela preferia o animal.
Seu choque realmente deve ter sido cômico, visto que o olhar de Yoo Jaeyi mudou para um convencimento irritante rapidamente.
- Um café puro e um bolinho de chocolate, por favor - Sua voz era calma e educada.
Seulgi piscou. Raiva subiu desde a ponta de seus dedos até sua garganta, ela se recompôs e começou a preparar o pedido, apertando firmemente os utensílios entre os dedos.
Isso não podia estar acontecendo.
Dizem que um raio nunca cai no mesmo lugar, um dilema que ela sabia que era mentira, mas, nossa , como queria que fosse verdade. Melhor ainda, poderia ser sobre como um demônio não vai atrás da mesma vítima.
Sua voz praticamente vomitou o valor com escárnio. Os olhos de Yoo sorriram ainda mais.
Marrom. Marrom escuro, beirando ao preto diamante. Grafite puro. Caralho.
Ela entregou o dinheiro e se afastou até uma mesa próxima ao balcão.
Woo Seul-gi tremia.
Quando alcançou o corredor, toda tranquilidade fingida - que não enganava ninguém - se desfez em um estalo.
Ela correu até seu colega, praticamente arrancando o saco de recheio da mão do rapaz com puro desespero nos olhos.
– Jung, preciso de um favor - Os ombros dele caíram um pouco, feliz que ela não começasse com um infortúnio pior.
– Por que você parece que viu a personificação do diabo? - Perguntou com cautela, sabendo o quão raro era ver sua unnie tão inquieta.
– Vi a filha dele - Ele quase acreditou - Preciso que atenda a mesa seis por mim.
Antes que ele conseguisse responder, seu telefone tocou. Seulgi viu o vislumbre do nome quando ele puxou o aparelho.
Não.
Sua madrasta.
Só pode tá de sacanagem com a minha cara.
– Sim, senhora? A recarga chegou mais cedo? - Jung recitou alto para que Seulgi ouvisse. Ela quis chorar ali mesmo - Estou indo.
Woo não teve forças para reagir. Em um instante ele estava ali, no outro jogava seu avental no ombro dela e saia pelo corredor.
O universo a odiava mesmo, em. Ela riu um pouco, quase em desespero.
Seulgi estava tão, tão puta que seu corpo não parecia ter espaço para nervosismo. De repente, toda sua linguagem corporal ficou fria.
Um surto silencioso. Um dom dos mais desesperados.
Respirando fundo, voltou ao trabalho.
Ela levou o pedido até a mesa de Jaeyi, que parecia focada demais em seu celular para percebê-la.
Bom.
Seu cabelo já estava de outra cor, recordou-se que era o tom natural, embora não soubesse se era um castanho escuro ou preto. As unhas pintadas e bem cuidadas. Brincos. Woo tentou não se abalar tanto com o pescoço exposto, com uma manchinha minúscula perto da orelha, em um tom beirando ao normal.
Ninguém repararia de longe, era quase inexistente. Seulgi apenas reparou porque foi ela quem fez. Praticamente ordenou que o vermelho de suas orelhas voltassem antes mesmo de esquentarem. Agora não.
Continue concentrada, por favor.
Jaeyi estava vidrada no aparelho, sua salvação em forma de tecnologia. Ela só iria colocar a comida ali e voltar para os fundos. Rápido e fácil.
Só precisava de uma gota de sorte.
Assim que Woo ia se virar, a sombra de alívio pairando sobre ela, uma mão segurou seu pulso de leve.
Puta que pariu, caralho, em.
– Podemos conversar? - Aquela mesma voz baixa e educada.
Seulgi respirou e afastou o braço, controlando a força para não parecer muito desesperada . Afetada demais.
A mulher a olhava diretamente.
Castanho.
Deus , aqueles mesmos olhos castanhos escuros de novo. Um flash rápido de sua mente traiçoeira; eram tão diferentes daqueles azuis opacos.
Eram os mesmos da escola, aqueles curiosos e interessados, cheios de arrogância e tão aterrorizantes.
Sempre calculistas.
Woo vacilou, não sabia se conseguiria lidar com tanto agora.
– Precisa de algo mais? - Sua voz não hesitou, firme e educada - Quer que eu traga o cardápio?
Estava trabalhando. Ela era uma atendente e Yoo Jaeyi o cliente.
Uma bela e irresistivelmente charmosa freguês.
– Woo Seul-gi, quero conversar com você - Pediu mais uma vez, a floresta escura em seus olhos suavizando como em uma manhã morna.
Como ela queria vacilar.
– Não precisa - Deu uns passos para trás.
Yoo não desistiu. Óbvio que não.
– Você saiu antes que eu chegasse com o café da manhã - Sua voz suavizou ainda mais, os dedos buscando a pequena colher da xícara - Fiquei preocupada.
O nariz de Seulgi franziu. Café da manhã? Preocupado?
– Não preciso, foi apenas uma transa - deu de ombros, fingindo simplicidade.
Essa palavra “apenas” não parecia existir quando envolvia a maior.
Jaeyi não respondeu imediatamente, mas se a frase lhe causou algo, não deu nenhum sinal visível.
Seu olhar era examinador. Diferente. Seulgi parecia estar olhando para a garota do bar, a princesa jujuba que conheceu, e não Yoo Jaeyi do ensino médio.
– Mas eu queria mesmo assim.
Gentileza?
Ela queria rir. Tipo, ria de verdade. Seulgi sabia o quanto ficou por fora das fofocas escolares, focado em sua visão particular de estudos e estudos, mas, sério, o que ela tinha perdido?
A universitária cruzou os braços, o rosto sério e frio, testando-a;
– Seu cabelo - a pontou.
Jaeyi sorriu quase timidamente. O estômago da mais velha se revirou, se arrependeu instantaneamente de dar essa corda.
Sua freguês indicou o assento livre à sua frente.
– Senta um pouco comigo e eu explico tudo.
– Tenho que trabalhar - Tentou negar, sustentando o olhar indiferente.
A mulher olhou de volta, fingindo procurar algo. A nuca da universitária esquentou. A desculpa foi vergonhosamente fraca, pois duas eram literalmente as únicas no estabelecimento todo.
OK. É uma conversa rápida e só.
– Cinco minutos e você me deixa em paz, pode ser? - Seu pedido pendia mais para uma ordem do que um acordo.
Jaeyi não se incomodou, embora não resistisse a brincar com sua paciência.
– Falando assim realmente parece que você me odeia - Seu tom era quase inocente.
Seulgi sentou-se à sua frente, cruzando os braços sobre a mesa.
Aquela conversa era por pura curiosidade, nada mais.
– Porque você se disfarçou?
Jaeyi deu um sorriso sem graça, ainda brincando com a colher de açúcar – Não foi proposital ou planejado para chegar até você.
Silêncio. Woo não sabia se deveria acreditar, se poderia. A maior suspirou.
– Eu prometo - Sua expressão, embora controlada, parecia transmitir uma quantidade exata de exasperação - Você é a primeira pessoa que me viu daquele jeito e sabe que sou eu.
Seulgi não expressou se acreditava ou não.
– Isso não me tranquiliza. Você está envolvido em algo ilegal, é isso? - Jaeyi riu um pouco, mas voltou a seriedade assim que viu que um bartender falava sério – E então?
Yoo ponderou um pouco, como se procurasse as palavras certas.
– Você conhece a reputação que minha família tem. Às vezes, quando quero sair sem aqueles holofotes, faço isso - Disse quase casualmente, brincando com a borda do copo.
Era quase cômico.
– O cabelo era uma peruca?
– Achei que tinha percebido que não - Ela bebeu um pouco do café, abafando seu tom malicioso. Seulgi queria jogar a bebida na cara dela - Estive fora nos últimos tempos e quis mudar um pouco.
Woo riu, achando ainda mais engraçado a coincidência - E já voltou com a cor natural?
– Tenho que voltar para os negócios - Deu de ombros.
Silêncio. Mesmo que ainda lutasse um pouco contra aquele sentimento estranho, a universitária já tinha em mente que a mulher era… questionável.
Ela não confiava em Jaeyi.
Seulgi cometeu um deslize. Se precisasse, colocaria a culpa no álcool, no tesão acumulado e, obviamente, em Yoo Jaeyi.
Ela estaria sendo uma babaca hipócrita? Muito provavelmente, mas na corrida contra a jujuba ali, quem poderia culpá-la?
– Então foi tudo por acaso?
Yoo Jaeyi levou cinco segundos para responder.
– Sim.
Seulgi suspeitou, despejando mais perguntas;
– Você também não se lembrava de mim?
Ela inclinou o rosto. Uma mecha de cabelo deslizou pelo meio do nariz. Seul fingiu ignorar.
– Você era fortemente familiar - Deu de ombros - Não lembrei até você me beijar.
– Você me beijou.
A freguês soltou uma risadinha – Posso argumentar contra isso.
Seulgi enterrou a cabeça entre as mãos, frustrada. Na verdade, dessa parte ela se lembrava muito bem. - Que inferno…
– E você, quando você se lembrou de mim? - A pergunta só prejudicou seu surto interno.
- Hum? - Woo fez o som de questionamento sem tirar o rosto do esconderijo.
– Você me chamou. Nome completo. - Inclinou a cabeça - Várias vezes.
Sua cabeça doeu com o outro puxão de memórias; no meio da madrugada, ambos pingando de suor, emaranhadas, tremendo, ofegantes, voláteis e insaciáveis.
Yoo Jae-yi, Yoo Jae-yi, Yoo Jae-yi, Yoo Jae-yi.
Não.
– Ok, boa conversa - Se levantou abruptamente, puxando a pequena bandejinha vazia da mesa - Até nunca mais.
Yoo Jaeyi a segurou pelo pulso novamente, com mais firmeza.
– Calma, eu estava brincando! - Quase implorou, largando sua mão, como se tivesse confiança suficiente de que Seulgi não fugisse de verdade - Porque você está tão arisca? Nunca nos falamos antes.
Céus e terra, como alguém tão rotulado como gênio poderia ser tão lerdo assim?
Seulgi sentou-se outra vez, abaixando o tom da voz.
– Exatamente! Eu tive um trabalho árduo para evitar qualquer interação com você na época da escola, para o pior acontecer agora? - Era uma pergunta retórica, sem destinatário em específico.
A mulher se encostou em seu assento, uma expressão séria, quase descontente, mesmo que sua voz ainda tenha aquele toque insuportável de zombaria.
– Não chamaria de “o pior”.
– Yoo Jaeyi - Seu olhar firme encontrou algo sinistro da mulher, mas não recuou. - Apenas esqueça o que aconteceu.
Os olhos dela, os verdadeiros, frios e desafiadores, seguiram até seu pescoço, onde a última marca e mais teimosa permanência. Praguejou pela hipersensibilidade de sua pele.
Mas Seulgi não vacilou. Não podia, não com ela.
– Eu não sou uma má pessoa, Seul-gi - Sua voz saiu firme, totalmente o contrário da rara vulnerabilidade presente nessa frase, como se ela realmente não gostasse dessa alegação - E se passou quase seis anos, eu não sou mais aquela pessoa - s eus olhos mudaram um pouco. Seu sorriso… Ela estava mentindo - Pelo menos não por completo.
Woo bufou, mordendo o interior da bochecha. Outro jogo.
– Eu ouvi os rumores sobre você, sua irmã.
Perigo.
Jaeyi manteve aquela curva dos lábios, inclinando em sua direção enquanto cruzava os braços sobre a mesa.
Estavando desafiando-a. Aquele tom gentil que lembrava Seulgi da princesa jujuba do bar não existia mais.
Yoo Jaeyi, aquele Yoo Jaeyi, estava lá novamente.
Pela primeira vez, a bartender quis sorrir.
– Se sua opinião se baseia tão facilmente em boatos, é mais ignorante do que eu pensei, Woo Seulgi.
– Então me diga, eram mentiras? O bullying que sua irmã fez, suas ameaças e chantagem, a acusação assassinato do seu pai?
Jaeyi desviou o olhar, revirando os olhos, quase rindo. Ela estava se divertindo. Deu de ombros.
– Sobre mim e minha irmã, talvez metade - Se inclinou contra a cadeira novamente, em outro piscar, algo mais sério em seu rosto - Meu pai foi julgado e está morto. Eu não sou ele. Ponto.
– Será que não?
A mandíbula de Jaeyi abriu enquanto sua língua estalava.
– Não sabia o quão ingrata você é, Seulgi - Um fantasma de um bico brincou em sua boca rosada.
Isso irritou Seulgi. Ingrata? Seus dedos se apertaram contra a bandeja, ficando brancos. Mesmo que os olhos de Yoo não saíssem dos seus, teve a impressão de que ela prestava atenção em cada centímetro do seu corpo.
Um escárnio saiu de seus lábios.
– Tem razão, você não é ele. E eu não te odeio, Jaeyi. Eu não acho nada sobre você - Foi franca, sabendo exatamente onde cutucar.- Eu apenas não quero problemas.
Desde a escola, desde a primeira vez que as duas empataram no primeiro lugar e todas as vezes seguintes, Seulgi sabia o quanto Jaeyi queria sua atenção.
Fora um jogo das duas. Sem palavras. Sem testemunhas. A cada empate, Woo via seus olhares, seu maxilar trincado, sua cobiça mal disfarçada, sua sede.
Por quase dois anos, Woo Seulgi olhou para ela e via um espelho , ao mesmo tempo que existiam duas realidades entre elas, dois mundos.
O bartender sempre se encontrava entre as sombras daquela floresta presentes em seus olhos por um breve momento em cada pequeno confronto de desafio.
E ainda assim se manteve distante. Era mais seguro.
Era loucura.
Um jogo.
Era viciante.
Era estranho.
E ainda assim, elas nunca chegaram a ter uma conversa de verdade.
- Você nem me conhece, como pode presumir que sou um problema? - Outro desafio.
Seulgi não segurou a risada sarcástica – Tudo em você e na sua recepção exala problema.
- Posso ser um tipo bom de problema.
Seulgi queria pular no pescoço dela.
- Sério?
A graça pareceu morrer naquele instante.
– Você diz tudo isso por minha causa ou pela minha família? - Deu ênfase em si.
– Os dois.
Ela a encarou por um tempo, seu rosto mudou para uma espécie de descrença e voltou para diversão.
– Sabe, Woo Seulgi, pelo o que eu me lembro, você também não é a boa moça que tenta se passar - Seu olhar não vacilou, entornando a cabeça com palavras envenenadas na língua que tanto saboreou dias atrás - Somos mais parecidos do que você pensa, tanto agora quanto antes.
Seul engoliu em seco. Sabia do que se tratava. Pior, se lembrava exatamente de como foi sua adolescência.
– Eu não tento me passar por nada - Disse baixo, controlado, enquanto se levantava - Só não quero problemas.
Jaeyi riu sem humor, mordendo o lábio com um pouco de força. Inacreditável.
A autoconsciência do esforço que uma universidade teve que fazer para não encarar aquela àrea lhe causou um desconforto.
A mulher se levantou, pegando o bolinho ainda intacto com uma raiva controlada. Quando eu estava prestes a passar por Seulgi, parou, inclinou seu rosto para perto de sua orelha com um sorrisinho provocativo, sussurrando.
– Como quiser.
