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Manual de sobrevivência para médicos e ex-assassinos por Damian Wayne

Summary:

Damian Wayne tinha 14 anos quando foi enviado a Gotham para treinar com seu pai — Bruce Wayne, o Batman — e provar ser digno de herdar o legado da Liga dos Assassinos.

Oito anos depois, ele não é mais o jovem impulsivo disposto a eliminar qualquer um que cruzasse seu caminho. Suas metas mudaram — e suas certezas também.

Em vez de seguir os passos do pai ou da liga, Damian traçou seu próprio caminho. Deixou o manto de Robin para trás e, pela primeira vez, tentou viver como alguém normal. Ou o mais próximo disso que um ex-assassino bilionário pode ser.

Buscando redenção pelas vidas que tirou, fez uma escolha improvável: tornar-se médico. Agora, é o mais novo residente do Gotham General.

Mas Gotham é Gotham — trocar a capa por um jaleco talvez não o afaste da loucura da cidade. Afinal, como todo Wayne, paz nunca foi uma opção.

Entre diagnósticos ousados, colegas excêntricos e a sombra da identidade secreta, Damian terá que enfrentar seus próprios demônios e o julgamento alheio.

No fim das contas, vai perceber que ser médico pode ser tão mortal quanto ser vigilante — com mais plantões e muito mais drama.

Notes:

Um belo dia, eu estava pensando em como eu queria que a DC seguisse com essa ideia de dar ao Damian uma "vida normal", em que ele é médico — mas, claro, que eles nunca desistiriam do personagem desse jeito.
O que era um desperdício, porque eles poderiam usar isso para fazer uma HQ em que o Damian tem uma vida civil, mas a família dele continua arrastando o pobre coitado para suas confusões, e ele sempre acaba envolvido em alguma coisa.

Imediatamente, comecei a escrever algumas ideias sobre isso. Uns três dias depois, vi um post no TikTok falando sobre o Damian médico e tomei isso como um sinal do universo para escrever essa fic. Então, aqui estamos.

Espero que vocês se divirtam tanto lendo quanto eu me diverti escrevendo.

Chapter 1: Como sobreviver quando todo mundo acha que você é um nepotista (e você é mesmo).

Summary:

Primeiro dia de Damian no Gotham General. A equipe acha que ele só conseguiu a vaga porque é rico. (Spoiler: ele realmente pagou por ela.) Mas ele também é infinitamente melhor e mais talento do que todos ali, entre seu talento nato pra medicina, seu treinamento extenso com a liga dos assassinos e sua longas horas de treinamento robin, Damian Wayner esta convencido que tem potencial pra ser o maior medico da história. Então, Que comece os jogos.

Notes:

Bom, embora eu tenha tentado apresentar o contexto do mundo o máximo possível dentro do capítulo, aqui vai um resumo rápido do que aconteceu com o Damian antes da história:

Nessa fanfic, Damian tinha 14 anos quando chegou a Gotham. Porque, se ele tivesse chegado ainda criança, teria se passado muito tempo entre a chegada dele e o ponto atual da nossa história — e aí não daria para brincar com os traumas mal resolvidos dele.
(Sem contar que, desse jeito, ele tem uma idade mais próxima da do Tim, o que traz uma dinâmica diferente entre eles.)

Dito isso, a linha do tempo e os eventos canônicos estão uma bagunça. Peguei algumas coisas que gosto e ignorei o resto. Mas prometo que vai fazer pelo menos algum sentido.

Voltando à linha do tempo:
Damian tem 14 anos quando chega a Gotham. Por ter sido educado na Liga por professores particulares a vida toda, ele acaba sendo muito inteligente e pula algumas séries, terminando a escola aos 16 anos.

Nesse ponto da história, rola aquele arco da morte, e quando ele volta à vida, começa a ver o mundo de outro jeito.

É a partir daí que ele começa a querer cursar Medicina e abandonar o manto de Robin.

Ele e o Bruce brigam por causa disso (Bruce sendo Bruce...), e Damian acaba passando um tempo morando com o Dick e a Babs (que, aliás, são casados aqui), até se mudar para o campus.

Eventualmente, o Bruce percebe que está sendo um idiota e os dois fazem as pazes. Quando Damian se forma, ele volta a viver na mansão.

E é aqui que a história começa.

(See the end of the chapter for more notes.)

Chapter Text

Mesmo depois de um mês de se mudar de volta, ainda era estranho para Damian acordar na Mansão Wayne. Claro, essa era sua casa muito antes da faculdade de medicina e atualmente é a sua residência. Mas, depois de 6 anos alternando entre o seu dormitório, a mansão e a casa de Dick, a sensação de ter um lugar fixo de novo trazia um sentimento agridoce. Ele meio que estava acostumado com os bates e voltas ao longo da semana. "Como na Liga", ele pensou, se recordando de algumas de suas longas viagens de treinamento. 

Sacudindo a cabeça para afastar o pensamento, ele se levantou da cama. Já que estava acordado tão cedo, poderia muito bem fazer algo produtivo em vez de ficar perdido em pensamentos. Damian então fez a cama, seguiu sua rotina matinal de cuidados e, em seguida, desceu para alimentar Titus, Alfred (o gato) e cuidar da Batcow. Ele não tinha nada programado para hoje e não estava com fome agora, então resolveu entrar em uma das academias de combate da mansão para treinar e esvaziar a mente – bater em algumas coisas sempre fez maravilhas para acalmar seus nervos. Claro, ele não precisava treinar agora que não era mais Robin, mas velhos hábitos se recusam a morrer, e deixar a capa não parecia uma desculpa plausível o suficiente para permitir que seu corpo atrofiasse e se tornasse fraco. 

Damian ainda precisava do seu corpo forte e preparado. Ele não era ingênuo; sabia que, por mais que quisesse uma vida normal, ele morava em Gotham — era só uma questão de tempo até haver outra situação grande o bastante para que todas as mãos do Bat-clã fossem necessárias, e ele precisasse vestir a capa de novo se não quisesse que sua família morresse. Ele mesmo vestia a roupa de Robin por vontade própria ocasionalmente, quando Jon ou Dick precisavam de sua ajuda — embora Damian tivesse uma séria suspeita de que, no caso de Dick, era uma desculpa para passarem um tempo juntos. Então sim, mesmo que não fosse mais Robin, era compreensível que ele ainda mantivesse o treinamento. "E eu tenho que estar preparado para o caso de o avô voltar."  

Então, após três boas horas de treinamento, que variaram entre alongamentos, musculação e um pouco de arte marcial (só para drenar a adrenalina das etapas anteriores), Damian se deu por satisfeito e decidiu encerrar por enquanto. E, como previsto, ele se sentia mais centrado e preparado para começar o dia. 

Quando passou próximo a um espelho, viu o quanto estava suado — seu cabelo grudado na testa e as roupas molhadas. Ele também tomou consciência de que provavelmente não cheirava nada bem, visto que, na noite anterior, não havia se lavado antes de dormir. Então, suspirando, ele voltou para seu quarto e tomou um banho gelado. 

Já limpo e vestido, Damian olhou para um relógio que ficava à beira de sua escrivaninha. Quando viu que ainda faltavam cerca de 30 minutos para a hora oficial do café da manhã, puxou a cadeira e decidiu aproveitar esse tempo para checar suas redes sociais. 

Nada fora do normal. Algumas marcações no Twitter e no Instagram feitas pelos habituais "fãs" dos Wayne. Três memes enviados por Jon que ele responde rindo. Algumas mensagens aleatórias de Dick (que tinha o hábito de fazer do contato de Damian uma lista de compras). E 56 mensagens no grupo "bat-papo, mas sem o Bat" — que era basicamente um grupo em que ele e seus irmãos (e os "agregados") tinham para discutir besteiras e falar mal do Bruce pelas costas. (Não que eles já não fizessem tudo isso na cara dele.) 

O debate do dia consistia em Jason tentando explicar por que Elizabeth e Darcy eram o melhor casal de toda a ficção, enquanto Tim e Shep — em um raro momento de concordância — defendiam que, em circunstâncias reais, eles nunca se apaixonariam. Dick ocasionalmente bancava o advogado do diabo, jogando argumentos dos dois lados apenas para aumentar o discurso — embora todo mundo soubesse que Dick muito provavelmente nunca chegou nem perto do livro. Damian decide seguir o exemplo de Babs e Cass e não entra na discussão, que de alguma forma evoluiu para uma conversa sobre os tipos mais desconfortáveis de sapato. 

Em resumo, não tinha nada fora do comum, até que ele notou em sua caixa de notificações um e-mail inusitado. 

+1 notificação de Gotham General – Hospital de Gotham City.  

Damian franziu a testa em confusão. Ele não havia feito nenhuma consulta recentemente, então não poderia ser o resultado de algum exame. Ele puxou seu notebook para mais perto de si e então abriu o e-mail. O conteúdo o deixou mais confuso ainda. 


Assunto: Convite para Entrevista – Programa de Residência Médica  

Prezado Damian Wayne,  

É de seu conhecimento que o processo seletivo para o Programa de Residência Médica do Gotham General Hospital foi iniciado há aproximadamente dois meses. Na ocasião, entendemos que o senhor ainda se encontrava em período de provas finais da graduação, o que impossibilitou a entrega da documentação exigida para inscrição no programa.  

No entanto, considerando que os médicos recém aprovados no processo seletivo iniciaram suas atividades há apenas uma semana e, tendo em vista seu histórico acadêmico exemplar, com 100% de aprovação e desempenho máximo em todas as disciplinas, a diretoria do hospital está disposta a considerar uma exceção para a sua inclusão no programa, levando em consideração suas habilidades excepcionais.  

Caso ainda tenha interesse em integrar a equipe de residentes, convidamos o senhor para uma entrevista seletiva com o Conselho Médico, que ocorrerá amanhã, às 14h, nas dependências do hospital. O objetivo é avaliar a viabilidade de sua entrada no programa e sua possível integração ao grupo dos dois residentes já selecionados.  

Atenciosamente,
Coordenação de Residência Médica
Gotham General Hospital 


 

Ler o e-mail pela segunda vez não o tornou menos confuso que a primeira. Claro que Damian se lembrava do programa de residência referido. Sempre que alguém da sua família lhe perguntava quais eram os planos quando ele terminasse a faculdade — eles perguntavam muito isso, mesmo no INÍCIO da faculdade — era sobre esse programa que Damian tagarelava. 

Gotham General é o maior hospital público de toda Gotham, e, graças a uma parceria de longa data com as Empresas Wayne, o atendimento lá era basicamente gratuito, salvando assim diversas vidas que, sem o hospital, não teriam outra esperança. Damian queria fazer parte disso. Para ele, Gotham General representava tudo em que ele acreditava, e era a chance de compensar cada vida que tirou. 

Então, quando o programa abriu as vagas antes de Damian terminar o semestre final, ele ficou frustrado ao saber que teria que esperar mais um ano para se candidatar à vaga, já que seus diplomas e certificados ainda não estariam prontos. Ele odiava concordar com Jason, mas tinha que admitir que "a papelada é realmente uma desgraça" — embora o ódio de Jason fosse muito mais motivado pelo fato de ele AINDA estar legalmente morto (e, portanto, inexistente em qualquer registro que ele precise) do que pela complexidade dos processos burocráticos. 

Mas agora o próprio hospital estava entrando em contato com Damian para uma entrevista. O que não fazia sentido algum! 

Primeiro de tudo: um hospital tão grande como o Gotham General não abre exceções, principalmente se o programa já tivesse iniciado (mesmo que só há uma semana). 
E segundo: como eles sabiam do histórico de Damian? E pior, para ele ir direto para a fase da entrevista, muito provavelmente já tinham os documentos que comprovavam a legalidade do diploma de Damian, assim como provas de sua habilidade e ética médica. Eles só poderiam ter tido tudo isso se alguém tivesse entregado e... 

Um pensamento cortou o raciocínio de Damian. Logo ele estava de pé, correndo para a mesa de café da manhã para encurralar o seu suspeito. Se a sua teoria estivesse correta, ele iria matar seu pai. 

Ele passou voando pelos corredores e, com a pressa, quase derrubou um vaso egípcio antigo. Foram apenas seus reflexos afiados por anos de treinamento que impediram o pobre vaso de se despedaçar no chão. 

Quando chegou à mesa, Alfred estava de pé terminando de servir o café da manhã. Ele levantou uma sobrancelha em reprovação com a correria desesperada de Damian, mas não o repreendeu por isso. Em vez disso, o cumprimentou com um leve sorriso. 

— Bom dia, mestre Damian. O senhor dormiu bem? — disse, enquanto colocava os pratos na mesa de café da manhã tamanho G, como de costume. Embora atualmente ele, Damian e Bruce fossem os únicos moradores fixos da mansão e, portanto, pudessem muito bem usar uma mesa menor. 

— Onde está o pai? — ele pergunta com a voz levemente alterada, ignorando a pergunta de Alfred. 

— "Nem mesmo um bom dia antes? O senhor costumava ser um dos mais educados" — agora Alfred o repreende, e sinceramente Damian acha que merece. Não era a intenção dele ser mal-educado; ele se encolhe um pouco com a culpa. 

— "Me desculpe, Alfred. Eu estava com pressa" — Damian diz, agora mais calmo — "bom dia" — ele diz por fim. 

— "Tudo bem, mestre Damian. Desculpas aceitas" — Alfred sorri levemente para Damian, ainda montando a mesa. — "Quanto ao mestre Bruce, ele saiu durante a madrugada para uma missão urgente com a Liga da Justiça." — Damian abre a boca para perguntar sobre o pai, mas Alfred o intervém antes disso, prevendo suas perguntas: — "Nada de perigoso ou alarmante. Pelo que mestre Bruce relatou, era mais uma questão de ser necessário um especialista em furtividade." 

Damian acena com a cabeça. Seu pai não precisava da sua preocupação; ele ficaria bem. — "Tudo bem. Eu queria falar com ele, mas suponho que terei que esperar" — diz ele, suspirando. 

— "Bom, todos dizem que a paciência é uma virtude, mestre Damian, e visto como o senhor estava correndo pelos corredores, talvez esteja precisando exercitá-la." 

Enquanto zombava de Damian, Alfred terminou de montar a mesa de café da manhã e se retirou, alegando que tinha outras tarefas que precisava concluir. Considerando que hoje é uma quarta-feira, "outras tarefas" significa que Alfred quer ir ao mercado o mais rápido possível comprar frutas do carregamento que chegou na madrugada, para garantir a melhor safra. Damian não consegue conter um sorriso ao pensar sobre isso. 

Ele se senta à mesa e começa a comer. Enquanto se serve com um copo de suco de laranja e uma fatia de pão integral, pensa que agora terá que esperar o pai para poder falar com ele, visto que só pode entrar em contato com o Batman em emergências — e, por mais irritante que fosse, dificilmente a situação se encaixava em uma emergência. Droga. 

Bom, se Damian não pode falar com Bruce, ele pode ir à mente mais próxima da dele. Assim, pega seu telefone do bolso e começa a digitar uma mensagem para Tim que — se as suspeitas de Damian estiverem corretas — com certeza saberá de alguma coisa. 

Considerando a hora, Timothy já deve estar acordado e de pé em sua sala na Wayne Enterprises. Então, Damian não se surpreende quando ele responde quase imediatamente. 

Damian: Drake, a Wayne Enterprises fechou algum negócio recentemente com o Gotham General? 
Tim: Bom dia para você também, pequeno demônio. 

Damian não consegue conter uma revirada de olhos. É a segunda vez que é repreendido pela mesma coisa hoje. Ele precisa colocar a cabeça no lugar. 

Damian: Desculpe. Bom dia. 
Damian: Agora responda à pergunta. 
Tim: Só se você me disser antes do que se trata. 
Damian: Justo. Você se lembra daquele programa de residência que eu estava interessado? 
Tim: Sim, me lembro. 
Damian: Acabei de receber um e-mail do Gotham General me convidando para uma entrevista. Então... 
Tim: Ah, entendi! Um minuto, eu preciso checar alguns registros. 

É claro que Drake entendeu imediatamente. Seu irmão pode ter inúmeros defeitos — os quais Damian ficaria mais que feliz em apontar —, mas ignorância nunca foi um deles. Há um motivo para ele ter sido nomeado "detetive" por Ra's Al Ghul. Drake sempre teve uma das mentes mais afiadas da família — não que Damian vá dizer isso a ele, é claro. 

Tim: Ok, tudo bem. Estou de volta. 
Tim: Não, o Gotham General não fechou nenhum novo negócio com a empresa nos últimos 3 meses. 
Tim: E, tirando o programa de saúde pública, não houve qualquer interação legal entre a empresa e o hospital. 
Tim: No entanto... eu dei uma olhada nos arquivos pessoais de Bruce, e ontem de manhã ele fez uma visita ao hospital. 
Tim: Após isso, o hospital recebeu uma generosa doação "anônima". 
Tim: Então sim, Bruce provavelmente comprou sua vaga. 

Bem, Damian tinha cerca de 86% de certeza desde o momento em que recebeu o e-mail. Não que fosse impossível que o convite realmente fosse mérito seu, mas era bem mais provável que não fosse. Mesmo assim, ele não pode deixar de sentir um pouco de amargor com a confirmação. 

Como Damian não responde imediatamente, Tim deve ter deduzido que ele ficou chateado. Então, como é típico dele, tenta "neutralizar" os fatos — isso significa que, embora já tenha certeza, vai tentar manter o jogo em aberto para não descartar outras possibilidades, mesmo não acreditando nelas. 

Tim : Mas claro, sempre pode ser só uma coincidência. 

Damian não resiste ao impulso de revirar os olhos diante de quão previsíveis são os comportamentos de todos os seus irmãos. 

Damian: Nós dois sabemos que não é

Damian: Eu vou matá-lo.
Tim: Tenho certeza de que ele tinha a melhor das intenções.
Damian: Mas mesmo assim, foi uma droga.
Tim: É, foi uma droga...
Tim: Você está bem?
Damian: Sim, só um pouco irritado com o Bruce.
Tim: Eu podia insistir que ele não fez por mal, que tinha boas intenções e blá blá blá, mas eu também odeio quando ele tenta "ajudar" no meu trabalho.
Tim: E além disso, todos nós sabemos que o Bruce às vezes é um.
Damian: Sim, ele é.

Damian: Obrigado pela ajuda, Drake.
Tim: Pra que servem os irmãos mais velhos, se não for pra hackear seu pai pra você?
Tim: ;)

Damian bufou, rindo baixo da piada, enquanto terminava de comer o café da manhã e ponderava sobre suas opções. Embora não tivesse nenhuma prova concreta de que sua vaga for a comprada — apenas uma sequência de "coincidências" suspeitas —, ele não era ingênuo o bastante para ignorar os fatos. Ainda mais agora que Drake concordara com sua teoria. 

Pelo menos não precisava se preocupar com Drake. Tim entendia mais sobre a importância de segredos do que qualquer outro morcego — provavelmente porque era o que tinha alguns dos mais sombrios. 

Mesmo sem que Damian pedisse, e sem que Tim prometesse, Damian sabia que o irmão não diria uma palavra até que ele decidisse o que fazer. E, mais importante, não o pressionaria com perguntas. Tim respeitaria sua privacidade. E ele era secretamente grato por isso. 

Com uma preocupação a menos no bolso, ele voltou a analisar a situação. Claro, é uma oportunidade incrível para qualquer médico recém-formado fazer parte de um hospital tão grande como o Gotham General e ainda fazer parte de algo em que ele acredita. 

Mas Damian queria entrar por mérito próprio. Ele já sofreu muito com os comentários de seus colegas da faculdade sobre ele ser "só um riquinho entediado" que precisava de um hobby e decidiu cursar uma faculdade. 

Não que ele se importasse com a opinião deles — ele provou, em mais de uma situação, que era mais do que competente para a função. A parte do e-mail que falava sobre "100% de aprovação e desempenho máximo em todas as disciplinas" meio que comprovava seu ponto. Mesmo assim, uma parte dele queria provar para si próprio que era digno e conseguiria entrar por conta própria. Que ele era mais do que o filho do seu pai.  

Mas, por outro lado, se ele recusasse, teria que esperar mais um ano para o processo seletivo abrir novamente e finalmente entrar — ele tinha certeza de que passaria se fizesse o teste. A única razão para ele já não estar trabalhando no hospital era só porque perdeu a inscrição das vagas. 

No fundo, essa entrevista é mais uma mera formalidade, para o hospital tentar mascarar as ações de seu pai. Damian já entraria sem problemas usando só sua habilidade. O suborno de Bruce só serviu para adiantar sua entrada — e sim, Damian faria questão de usar a palavra "suborno" para se referir ao caso e não deixar Bruce esquecer que, tecnicamente, ele cometeu um crime. 

Sendo assim, tudo se resumia ao que Damian queria fazer. Ele poderia preservar seu orgulho e esperar até o ano que vem, ou assumir a persona de filhinho de papai e salvar vidas enquanto isso. 

Não foi uma escolha difícil. Mesmo assim, ele ainda acha Bruce um idiota.

 

~•~  

 

Reconhecido: Batman B-01 

Eram quase horas do jantar quando Bruce finalmente chegou à Batcaverna. Na noite anterior, durante sua patrulha habitual, a Torre de Vigilância emitiu um alerta e solicitou sua presença. Como Gotham estava tranquila – um evento raro –, Bruce avisou Alfred que responderia ao chamado da Liga e provavelmente se atrasaria. O que ele não previu era que esse "pequeno atraso" se transformaria em quase um dia inteiro. (Bruce tem a sensação estranha de que está esquecendo algo importante) 

Para ser justo, não foi exatamente uma missão difícil – só longa e cansativa. O que ocorreu foi que Superman identificou uma pequena nave alienígena desconhecida sobrevoando a cidade de Smallville, o que, em geral, significa problemas, mas nada que o Superman não pudesse lidar sozinho. Mas como a nave parou próxima ao local onde a nave de Kal-El estava "escondida" – isso é claro, se enterrar algo em um milharal contar como esconderijo –, o kryptoniano achou melhor buscar respostas de uma forma mais sutil em vez de um confronto direto, e por isso solicitou a ajuda do Batman. 

Embora trabalhar com Clark nunca fosse a mesma coisa que trabalhar com alguns de seus filhos, Bruce tinha que admitir que formavam uma boa equipe: Batman tomava as decisões estratégicas e Superman seguia sem questionar – vai ver era por isso que não era a mesma coisa, obediência nunca foi um traço forte de nenhum de seus filhos. 

Sob as ordens de Batman, Superman organizou uma distração para que ele pudesse se infiltrar no interior da nave. Seria um jogo rápido, e ele sairia antes mesmo de Superman liberar os alienígenas. Mas a vida nunca é fácil quando se é um super-herói... 

Os alienígenas tinham um mecanismo de enviar a nave para sua base remotamente em caso de emergência. E, aparentemente, um encontro com Superman estava classificado como uma emergência, o que fez com que a nave decolasse – com ele ainda dentro dela. 

Imediatamente, a voz de Superman soou no comunicador avisando que já estava a caminho para "resgatar" Batman (o que, francamente, foi ofensivo). Mas se os alienígenas estavam tentando alcançar a antiga nave de Kal-El e estavam dispostos a ficar presos na Terra, obviamente estavam escondendo alguma coisa. 

Então, em vez disso, Batman decidiu que esperaria na nave até ela chegar à sua base para se infiltrar, e Superman deveria segui-la à distância para uma possível retirada de emergência. Para o horror do super, que achou o plano perigoso, mas acabou concordando, já que o que os aliens estavam fazendo certamente não era coisa boa. 

O que nenhum deles esperava era que a base estivesse na galáxia vizinha. Portanto, mesmo em alta velocidade, demoraria horas para chegar lá. Mas, uma vez dentro, não tiveram mais surpresas desagradáveis. Como Batman suspeitava, era uma base ilegal de caçadores de tecnologia interplanetária. Sendo assim, eles acionaram a Tropa dos Lanternas Verdes, que enviou o responsável pelo setor para lidar com a situação – que, graças aos céus, não era Hal Jordan! 

Quando ele e o Superman chegaram à Torre de Vigilância, Batman calculou que levaria cerca de 20 min para terminar o relatório e enfim retornar para casa. Isso, é claro, se Diana não estivesse na torre e perguntando sobre a missão deles, o que abriu brecha para Clark tagarelar sem parar. Segundo ele, a decisão de permanecer na nave foi "imprudente" ("E ele quis ficar na nave depois que a retirada de emergência foi ativada!!"), e, como Diana era uma traidora, ela concordou com ele ("Bruce, eu não posso acreditar que você realmente permaneceu dentro de uma nave alienígena desconhecida em movimento"), o que iniciou um longo debate entre os três ("Vocês chamam de imprudente, eu chamo de 'plano adaptável'!")

No fim, o relatório levou mais de uma hora para terminar. 

Batman suspira e tira o capuz. Em seguida, vai ao Batcomputador para checar se ocorreu tudo bem na sua ausência. Logicamente, ele sabe que, se tivesse ocorrido alguma emergência, seria comunicado, e até lá, seus filhos são mais que capazes de lidar com situações. Mas Bruce sabia que só relaxaria depois de checar por si mesmo. 

Só quando o silêncio da caverna parece... cheio demais, Bruce percebe a presença de Damian. Ele culpa o cansaço por não ter notado Damian imediatamente. Agora que tomou ciência de sua presença, era óbvio que ele já estava ali desde quando Bruce chegou – Bruce estava cansado demais para perceber alguém já presente, mas não o bastante para deixar de notar alguém entrando – e imediatamente alarmes começam a soar em sua cabeça. 

Só existem três hipóteses possíveis para Damian estar aqui embaixo, na caverna. 

Primeiro: ele precisou vestir o manto de Robin. Levando em consideração que não houve nenhuma emergência na ausência de Bruce, e que a última vez que Damian vestiu o traje por vontade própria foi há cerca de seis meses, para ajudar Jon Kent em uma missão especial dos Titãs, então é pouco provável que seja isso. 

Segundo: ele está aqui por vontade própria simplesmente porque quis, o que é ainda menos provável. Desde que voltou a morar na mansão, há um mês, Damian tem evitado a caverna como uma praga. Ele só desceu algumas vezes para ajudar Alfred a tratar alguns ferimentos – Bruce e Dick têm a teoria de que Damian não confia em si mesmo para se manter for a da ação, então evita vir à caverna para não se arriscar a voltar a se envolver nos casos. 

E terceiro: ele estava esperando por Bruce. 

Ironicamente, essa é a hipótese que mais assusta Bruce. Damian não é exatamente do tipo que espera o pai apenas por saudade (ainda mais considerando que tem evitado a caverna). Então, se Damian está aqui esperando por ele, significa que algo não está certo. E provavelmente é culpa de Bruce. 

Antes que qualquer um dos dois possa falar alguma coisa, Bruce fecha os olhos e tenta lembrar o que pode ter feito para irritar seu filho mais novo, na tentativa de ganhar alguma vantagem sobre a onda de gritos que sabe que o espera. 

Bem, ele não teve nenhum desentendimento com algum dos outros filhos recentemente – outro fato raro –, então Damian não está tomando as dores dos irmãos, e é algo sobre ele. 

Bruce separa mentalmente a vida de Damian em "categorias" para tentar identificar o que pode ter feito para deixá-lo irritado. Tem certeza de que não fez nada com os animais de estimação de Damian e já desistiu há muito tempo de tentar interferir nas suas relações amorosas ou de amizade. Então, o que quer que tenha sido, não foi na sua vida pessoal, e sim na profissional, e... 

Ah. De repente, Bruce se lembra do que ele esqueceu na noite anterior. 

— "Boa noite, pai" — Damian diz, quebrando o silêncio — "você tem algo que queira me contar?" 

É, Damian sabe, e agora iria matá-lo. Pelo menos Bruce viveu o suficiente para ver seus filhos adultos, o que já era mais do que ele esperava, dado seu estilo de vida "pouco convencional". 

— "Boa noite, filho" — ele responde, tentando não transparecer o medo que sente. — "Será que eu poderia retirar a armadura antes dessa conversa?" 

Damian arqueia uma sobrancelha. — "Então você sabe do que se trata?" — ele pergunta de uma maneira tão neutra que faz Bruce tremer. 

— "Eu tenho uma suspeita." — Damian o encara e solta um suspiro cansado antes de ceder: 

— "Tudo bem, você pode se acomodar primeiro. Estarei esperando por você na sala de estar da ala leste." — E, com isso, ele se retira da sala e sobe as escadas para a mansão. 

Enquanto Bruce se troca, ele torce para que haja uma emergência em Gotham e ele tenha uma desculpa para evitar Damian até pensar no melhor curso de ação para interagir com ele. Como os bandidos de Gotham só servem para causar problemas, nenhum deles vem ao seu resgate, e Bruce se vê obrigado a encarar as consequências de suas ações. 

Para ser justo, ele sabia desde o começo que Damian reagiria mal ao "incentivo" que Bruce deu ao hospital — e não, não era um suborno, porque ele não exigiu nada, só perguntou se eles poderiam abrir uma exceção. — Mas ele esperava ter tempo de contar a Damian, e não que ele descobrisse por conta própria. 

Não que ele duvidasse da capacidade de Damian de entrar na vaga por mérito próprio, mas Bruce achou que poderia ajudar o filho a conseguir a oportunidade. Quando Damian falou pela primeira vez sobre como estava considerando deixar o manto de Robin e se dedicar a uma vida civil, Bruce não teve exatamente uma boa reação. Se, por um lado, ele estava feliz que pelo menos um de seus filhos estivesse disposto a ter uma vida tranquila e segura, por outro, temia que Damian ficasse perdido e sem propósito se abandonasse a fantasia. E como Bruce nunca foi o melhor em expressar sentimentos, eles acabaram tendo uma briga feia, ao ponto de Damian passar algumas semanas hospedado com Dick. 

Hoje Bruce reconhece que estava projetando seus próprios medos em Damian — e não era porque ele precisava ser o Batman que Damian precisava ser o Robin. Damian já tinha idade suficiente para tomar suas próprias decisões e saber o que era melhor para si mesmo. O "incentivo" que Bruce deu ao hospital era sua tentativa de mostrar que o amava e apoiava, independentemente da sua decisão. Mas, claro, ele fez isso da pior maneira possível — e estragou tudo. De novo. 

"Como raios eu posso ser melhor em impedir invasões alienígenas do que em me comunicar com meus próprios filhos?", ele pensava enquanto subia as escadas ao encontro de Damian, após terminar de se trocar. 

Antes de ir à sala combinada, ele parou na cozinha para pegar uma maçã — porque estava com fome, e não porque estava tentando adiar o encontro o máximo possível — onde encontrou Alfred, que tinha acabado de colocar uma travessa de salmão no forno. 

— "Boa noite, mestre Bruce" — ele o cumprimentou ao notar sua presença. — "Ocorreu tudo bem na sua missão? Algum ferimento com o qual eu deva me preocupar?" 

— "Boa noite, Alfred" — ele se permitiu sorrir levemente. — "Não. Apesar de algumas complicações não previstas, foi uma missão relativamente simples e nem chegou a envolver combate direto. Então, estou bem." 

Alfred acenou com a cabeça em concordância. 

— "E na mansão? As coisas correram bem na minha ausência?" — ele decidiu tentar sondar a situação para saber o tamanho do problema que o aguardava. 

Alfred o encarou por dois segundos, como se soubesse exatamente o que Bruce estava fazendo, mas não comentou sobre. 

— "Ocorreu tudo bem, mas Lady Cassandra ligou durante a tarde avisando que a visita dela à mansão terá que ser adiada por alguns meses." 

Bruce sentiu uma onda de frustração percorrer todo o corpo e estava bem ciente de que, nesse momento, estava com uma carranca no rosto. Em sua defesa, ele tinha total direito de sentir falta da sua filha — mesmo que, mês passado, ela tivesse vindo para a formatura de Damian e ficado duas semanas hospedada na mansão. 

Vendo que Bruce não disse nada em irritação, Alfred acrescentou: 

— "Aparentemente, Lady Cassandra foi convidada por um grande teatro local para um papel de destaque em um espetáculo tradicional do país." 

Isso fez Bruce sorrir. 

— "Bom, isso é bom" — ele disse. Cass era uma lutadora fascinante, mas era na dança que ela podia verdadeiramente ser livre. Bruce sempre se emocionava ao vê-la dançar, e estava feliz que mais pessoas reconheciam o talento da filha. Ele fez uma nota mental para enviar flores parabenizando-a pelo papel, e também limpar sua agenda para assistir à estreia do espetáculo. 

— "Fora isso, eu também acredito que o mestre Damian tem alguns assuntos para falar com o senhor" — Alfred disse de repente, com a sombra de um sorriso malicioso nos lábios. 

— "É... eu sei. Ele veio me encurralar na caverna" — Bruce suspirou. 

— "Se me permite dizer, mestre Bruce... eu avisei." — E agora ele definitivamente estava sorrindo. 

— "Eu sei, Alfred. Eu sei." — ele admitiu, quase em sussurro. E quando Alfred não acrescentou mais nada à conversa, Bruce decidiu acabar logo com aquilo e ir conversar com Damian de uma vez. 

Fiel à sua palavra, Damian estava esperando na sala de estar, sentado perto da lareira acesa, enquanto Alfred — o gato — estava em seu colo, sendo escovado. A cena era tão caseira que quase fez Bruce rir. Ele teve um breve flashback de quando Damian adotou o gato em seu primeiro ano na mansão. Tentou não pensar demais em como o menino raivoso de 14 anos havia dado lugar a um homem de 22, que estava seguindo seu próprio caminho. 

Sentindo o olhar demorado de Bruce sobre si, Damian se virou e acenou com a cabeça para que ele se sentasse à sua frente. Bruce obedeceu. Em vez de dizer algo, Damian o encarou em silêncio, esperando que ele tomasse as rédeas da situação — e, considerando que tudo era culpa sua, Bruce decidiu fazê-lo. 

— "Presumo que você já saiba sobre minha visita ao hospital" — ele disse por fim, tentando começar de forma neutra. 

— "Bem, considerando que eles me enviaram um e-mail, não tinha como eu não saber." — As palavras foram neutras, mas Bruce conseguiu ler o subtexto por trás delas: você agiu pelas minhas costas; você não me contou. 

— "Sinto muito por isso. Eu esperava conversar depois da partilha da noite anterior, mas com os imprevistos que surgiram, acabou não sendo possível" — justificou-se. 

— "Timothy disse..." — Ah, então foi assim que Damian descobriu. Ele deve ter pedido a Tim para checar os arquivos de Bruce. — "... que sua reunião com o hospital foi durante a manhã." 

E mais uma vez Damian estava usando subtexto para dizer o que realmente queria: você poderia ter me contado antes de sair em patrulha. 

— "Eu estava com medo da sua reação e, por isso, estava adiando" – ele resolve ser honesto. Como Damian não fala nada para contradizê-lo, ele logo acrescenta: – "Espero que você saiba que eu tinha a melhor das intenções." 

"De boas intenções o inferno está cheio, pai. Eu estive lá, eu sei disso" – ele diz, elevando a voz, e Bruce se encolhe um pouco. 

Não pela elevação de voz – ele já está acostumado com seus filhos gritando com ele –, mas pela lembrança da morte de Damian. 
Seus filhos não percebem que, mesmo que já tenham se passado anos desde a morte de Jason ou Damian, a imagem do corpo sem vida deles ainda aparecia nos pesadelos de Bruce. Os meninos, por outro lado, para horror de Bruce, adoravam fazer piada sobre isso. 

Depois de alguns segundos de silêncio, Damian finalmente fala novamente: 

"Você não acha que eu teria entrado sozinho?" – sua voz é metade raiva e metade tristeza, e Bruce mais uma vez toma consciência de como ele estragou tudo. 

"Não, Damian, você sabe que não é isso" – ele diz rapidamente, se aproximando do filho. – "Nós dois sabemos que você é mais do que capaz de conseguir isso sozinho, você sempre foi excepcional e sabe disso." 
Como Damian olha para ele e não grita, Bruce vê isso como um incentivo para prosseguir. – "Eu só... queria ajudar, sabe? Você sempre falava sobre esse programa e, quando ele abriu as portas apenas um mês antes de você se formar, você ficou tão chateado..." 
Bruce sabe que, ao citar as emoções de Damian, está entrando em terreno perigoso, mas também sabe que ser honesto agora é a melhor opção. – "E, claro, você mencionou brevemente fazer outros trabalhos enquanto esperava as inscrições abrirem novamente, mas está óbvio que não era bem isso que você queria. Eu tinha que pelo menos tentar ajudar." 

"Então você subornou o hospital?" – ele eleva uma sobrancelha. Sua voz ainda estava meio irritada, mas agora continha uma dose de humor, como se zombasse de Bruce. 

Bruce geme. – "Não foi um suborno, foi um incentivo" – ele tenta, mas sabe que seu filho jamais vai aceitar isso (e Deus, que ele não conte isso para Jason). 

"Bom, oferecer dinheiro para uma instituição quebrar uma regra em seu nome enquanto mantém sigilo parece um suborno pra mim." – E agora ele definitivamente está zombando de Bruce. 

Eles ficam em silêncio por alguns segundos, como se nenhum dos dois soubesse quais palavras usar para evitar uma briga. 
Como Bruce é o adulto da situação – tecnicamente Damian também é um adulto, mas não comparado a Bruce –, ele decide fazer a parte difícil de conduzir a conversa. 

– "Bom... você vai tentar a vaga?" – ele volta para o elefante da sala. 

– "Você fala como se eles não fossem me aceitar de qualquer forma." – Embora seja uma piada, há uma vulnerabilidade em sua voz que faz o coração de Bruce doer um pouco. 

– "Não, Damian, eu te garanto que eu nunca iria fazer isso com você. Tudo o que eu fiz foi pedir para que eles fizessem uma entrevista fora de época." – E Damian está o encarando com olhos arregalados. – "Eu sei o quanto fazer as coisas por mérito próprio era importante para você. Eu apenas queria garantir que você tivesse a chance de tentar." 

– "Nós dois sabemos que, mesmo que essa não fosse a sua intenção, o seu 'incentivo' vai ser muito mais significativo do que o previsto." 

Antes que Bruce pudesse falar qualquer coisa, Damian o interrompe: 

– "Mas, visto que essa não era a sua intenção, eu posso perdoar isso." 

Bruce sorri. – "Obrigado, filho." 

– "Eu suponho que Alfred já deve ter terminado o jantar. Vamos, você deve estar faminto após uma missão tão longa." – Damian diz rapidamente, enquanto se levanta. 

Bruce não consegue deixar de rir da tentativa nada discreta de seu caçula de fugir da conversa agora que ela estava entrando em um campo mais emocional – algumas coisas nunca mudam. 

Pelo menos Damian não iria matá-lo essa noite. 

 

~•~  

 

Como na manhã anterior, Damian acorda mais cedo do que deveria. Mas, se na noite anterior ele culpou a estranheza da mansão, agora ele poderia culpar a onda de ansiedade que percorre todo o seu corpo. 

"Bom, pelo menos hoje o sol já nasceu", Damian pensa enquanto olha a hora em seu relógio, que dizia que ainda faltavam cerca de 8 horas para a sua entrevista na Gotham General. Ele até tentou permanecer dormindo um pouco mais, mas a voz na sua cabeça continuava ecoando, mandando-o se levantar e começar sua rotina de treinamento. E, embora ele não tenha intenção de treinar hoje, a voz é alta o bastante para tirá-lo da cama. 

Titus estava dormindo na beira de sua cama, então Damian tomou o cuidado de não o acordar enquanto se locomovia. Já que ele não iria treinar hoje, Damian não se incomodou em tirar o pijama. Em vez disso, apenas se aconchegou com um grande casaco verde de camurça que tinha a imagem de um peru estampada nas costas – foi um presente de Dick, que, imediatamente quando viu, pensou em Jerry, o peru. 

Dick achou que Damian acharia engraçado e gostaria de algo para se lembrar do seu falecido mascote. Damian odiava admitir, mas, por mais horroroso que o casaco fosse, ele realmente o adorava. 

Devidamente aquecido, ele foi caminho pela mansão em direção aos fundos do terreno, onde estava localizado um pequeno estábulo onde morava a Batcow. 

— Bom dia, garota — Damian disse, acariciando o rosto dela e, em seguida, pegou um banquinho e um balde que estavam no fundo do estábulo e se aproximou novamente da vaca. — Sabe, eu ainda não te perdoei por isso. 
A vaca muge como se protestasse, enquanto Damian se senta no banquinho e começa a ordenhá-la. 
— Sim, também foi culpa do Jon, mas você também não é exatamente inocente nessa história. 

Um pouco mais de um ano atrás, Damian estava fazendo uma de suas visitas à mansão quando notou que a Batcow estava apresentando um comportamento estranho. Ele então pediu a ajuda de Jon, já que ele supostamente tinha crescido em uma fazenda e entendia tudo de animais rurais. 

Jon, de alguma forma, o convenceu de que sua querida Batcow estava estressada pela solidão. Desde que Damian passou a morar no campus da universidade, ela permanecia sozinha por longos períodos. ("Estou te falando, Dami! Ma sempre diz que as vacas precisam socializar. Ela só precisa de um tempo com amigas.") 

Damian não tinha certeza se acreditava que vacas pudessem ter amigas, mas concordou que passar uma tarde na fazenda, com ar fresco e bastante espaço, faria bem a ela. E se Ma Kent disse algo, você acredita. Então, ele deixou Jon voar com ele e sua vaquinha para a fazenda Kent — o que, a propósito, foi uma cena bem ridícula. 

Quando eles chegaram lá, soltaram a Batcow no pasto com as outras vacas e bois, observaram até concluir que ela ficaria bem e entraram na casa da fazenda para beber alguma coisa. Cerca de meia hora depois, Kon chegou e logo se juntou a eles na cozinha. Quando Damian explicou a situação, ele arregalou os olhos, o que deixou Damian e Jon bastante confusos. 

Então, em meio aos risos, ele falou que, pelos "sintomas", o problema da Batcow não era estresse, mas cio — para o horror de Damian. 

Depois disso, os três saíram correndo em direção ao pasto, apenas para encontrar sua querida vaca em pleno ato impuro com um dos brutos de Martha Kent. Jon se desculpava sem parar, enquanto o clone, em meio aos risos, começou a filmar toda a situação para enviar a Tim. 

Damian torceu para que a Batcow não tivesse engravidado, mas, como o universo o odeia, a fecundação foi bem-sucedida e, nove meses depois, nasceu o Batzerro — como Jon o nomeou. 

Ma Kent foi um anjo durante toda essa situação e concordou em ficar com o bezerro na fazenda após a fase do desmame. Então, agora o Batzerro morava junto com seu pai na fazenda Kent. "Igual a mim", ele pensou, mas franziu a testa quando percebeu que estava se comparando a um bezerro. "E a Batcow jamais mataria seu filho."  

Agora, o problema é que, mesmo que o Batzerro não estivesse mais aqui, a Batcow continuaria a fabricar leite por pelo menos 10 meses. Então, mesmo quando ainda morava no campus, Damian tinha que ordenhá-la diariamente para impedir que ela desenvolvesse mastite. 

O que fez com que ele estivesse na mansão com muito mais frequência do que gostaria na época, visto que Bruce ainda estava tendo dificuldades em aceitar a escolha de Damian de abandonar o manto. Mas, com as visitas de Damian mais frequentes, ele e seu pai eventualmente acabaram fazendo as pazes. 

Então, quando Damian enfim se formou, parecia natural que ele voltasse para a mansão para cuidar da Batcow em vez de procurar seu próprio lugar — tudo isso porque decidiu seguir os conselhos de Jon. 

Damian suspira e observa o balde quase cheio. O cheiro morno do estábulo e o vapor leve do leite o trazem de volta ao presente. 

— "Eu deveria fazer ele te ordenhar" — Damian diz à vaca — "para ele aprender a lidar com as consequências de seus atos." 

Falar com seus animais não era bem novidade para Damian, mas, durante as ordenhas, ele acabou criando o hábito de falar para a Batcow qualquer coisa que o estivesse incomodando. É estranho, ele sabe, mas não planejava parar, uma vez que a Batcow se mostrou a melhor ouvinte que Damian já conheceu — que Dick não descubra sua preferência, senão Damian terá que lidar com muitas horas de drama. 

— "Sabe, garota, eu vou fazer a entrevista hoje" — ele diz enquanto continua a ordenhá-la — "eu sei que o pai tinha a melhor das intenções, mas eu ainda estou chateado" — ele suspira — "além disso, mesmo sabendo que as coisas vão ir bem, eu não consigo evitar de me sentir ansioso." 

A Batcow o encara e Damian sabe o que ela está perguntando — "Por que eu não vou treinar pra aliviar a cabeça? Ora, garota, não seja boba!" — Damian retruca — "Agora que as coisas estão finalmente caminhando como eu planejei, eu vou fazer o possível para viver uma vida normal. E isso inclui deixar de treinar também." 

A Batcow muge mais uma vez e Damian revira os olhos — "Não, Batcow, Jon e o Batzerro não vão parar de vir te visitar só porque não somos mais parceiros super-heróis, embora, honestamente, eu não saiba por que você ainda quer falar com aquele desqualificado" — Damian diz enquanto se levanta, uma vez que terminou de ordenhar. Antes de guardar o banquinho e o balde, ele bate uma foto e envia para Jon — só para ele se sentir culpado novamente. 

Como Jon é um completo desocupado, ele responde imediatamente: 

Jon: Você poderia simplesmente dizer que está com saudades como uma pessoa normal, em vez de apelar para o meu complexo de culpa. 
Damian: Não, assim é bem mais divertido. 
Jon: Eu te odeio. 

Sorrindo, Damian se despede da Batcow e volta para a mansão, carregando o balde de leite em silêncio – não que haja perigo de ele acordar alguém na mansão tão grande, ele precisaria de um exército interno para ser ouvido. Mas é que, após uma vida inteira treinado para ser sorrateiro, você começa a fazer isso inconscientemente. 

Ele foi em direção à cozinha e passou o leite para garrafas antes de guardá-lo na geladeira. Provavelmente, Alfred o usaria para fazer alguma receita, porque não tem como eles beberem a quantidade absurda de leite que a Batcow produz todo dia. 

Como se invocado pela menção do pensamento de Damian, Alfred se materializou na cozinha. 

"bom dia, mestre Damian", ele diz sorrindo. "Vejo que hoje o senhor prestou serviços à Batcow mais cedo do que costuma." 

Embora seja formulado como uma observação, Damian consegue ler a pergunta invisível na frase: por que você não foi ao estábulo à tarde como de costume? 

"Bom dia, Alfred" – dessa vez, ele não esquece o cumprimento. "Eu me acordei mais cedo do que pretendia esta manhã. Como a entrevista será à parte da tarde, resolvi adiantar algumas atividades, já que tenho muito tempo livre e nada urgente para me ocupar." 

Alfred pode não ser um vigilante, mas é tão morcego quanto qualquer um da família, então Damian sabe que ele vai entender o subtexto do que Damian quer dizer. 

"Nesse caso, talvez o senhor pudesse me ajudar com uma questão?" – Alfred oferece, diplomático. Ele entendeu a mensagem e sabe que Damian está desesperado para ocupar a cabeça com algo, mas, mesmo assim está lhe dando a oportunidade de recusar. 

"Claro, Alfred, qualquer coisa" – diz Damian sorrindo. 

"Bom, Titus ontem acabou destruindo uma almofada da sala de cinema" – antes que Damian possa se desculpar em nome de Titus, Alfred acrescenta – "o que não é um grande problema, mas eu acredito que isso é um sinal de que ele está com energia acumulada. O senhor poderia levá-lo ao parque de cães por algumas horas depois do café da manhã?" 

Damian sorri, isso é exatamente o que ele precisa, algo para manter sua mente focada até a hora da entrevista, mas que, ao mesmo tempo, o deixe respirar. 

Agora ele pode traçar um passo a passo do seu dia em sua mente. Ele irá tomar café com seu pai, depois levará Titus para o parque por até o horário do almoço. Então, já de volta à mansão, ele pode se preparar para a entrevista. E quando todas as suas atividades acabarem, será finalmente a hora do encontro. E ele não precisará pensar em nada em como 

"Claro, Alfred, será um prazer lhe ajudar" – ele diz por fim. 

 

~•~  

 

Algumas horas depois, sentado em uma sala de espera do hospital, Damian suspirou baixinho pensando em como as coisas mais uma vez estavam diferentes do que ele esperava. 

Como planejado, Damian seguiu sua pequena rotina montada e, quando retornou à mansão, começou a se preparar para ir ao Gotham General. Ele entrou em um dilema com as roupas: se por um lado precisava se manter profissional, por outro, se fosse arrumado demais, só reforçaria a imagem de herdeiro mimado que ele estava tentando evitar. Depois de alguns minutos de agonia, ele acabou vestindo uma camisa social verde escura combinando com uma calça de alfaiataria cor de creme. 
E, já com todos os seus documentos e certificados em uma pasta, ele finalmente seguiu ao hospital. 

Damian tinha previsto que toda a situação duraria no máximo cerca de algumas horas. Ele não poderia estar mais errado. 

Acontece que, contrariando tudo o que ele acreditava, Bruce REALMENTE estava falando a verdade. O suborno que ele ofereceu ao hospital não garantiu a vaga de Damian; em vez disso, iniciou uma longa sessão de reuniões entre os diretores hospitalares para saber se eles estavam dispostos a abrir uma exceção a um médico recém-formado. 

Claro, o fato de Damian ser nada menos que excepcional estava funcionando a seu favor, mesmo assim a bancada de direção do hospital estava dividida. 
Em preparação para essa reunião, Damian pediu para Gordon acessar alguns arquivos de registro do hospital para que soubesse quem eram os membros da banca. Assim, ele facilmente conseguia identificar os diretores com uma postura mais conservadora — leia-se: corrupta — que não pensariam duas vezes antes de abrir uma exceção para cair nas graças de Bruce Wayne. E os que tinham um caráter mais idealista defendiam que, ao abrir uma exceção, estariam traindo tudo que o hospital acredita. 

Então, depois da entrevista com Damian, a banca se trancou para uma LONGA reunião para decidir se ele poderia ou não começar no programa. Damian se sentiu tentado a espionar a reunião, mas concluiu que isso quebraria todo o conceito de "vida normal", então permaneceu sentado na sala designada para ele. 

Damian tinha sentimentos ambíguos sobre tudo isso. Claro, ele obviamente queria entrar no programa e estava começando a se sentir frustrado com a espera. Mas, por outro lado, era bom saber que, embora o sobrenome dele ainda tivesse peso na decisão, não seria o fator decisivo final e a banca realmente estava considerando suas habilidades. 

Ele soltou um suspiro alto quando sentiu seu celular vibrar, e, ao olhar, viu que havia uma mensagem de Grayson. 

Dick: Fica angustiado não vai fazer eles tomarem a decisão mais rápido 
Dick: então acalma-se 

Damian olhou ao redor da sala em que estava, e, em cima de uma bancada de café, viu a câmera que estava procurando. Olhando diretamente para a câmera de modo que ela captasse sua expressão facial, Damian revirou os olhos em irritação e digitou uma resposta para seu irmão. 

Damian: primeiro de tudo, eu não estou angustiado, só entediado com a espera 
Damian: e segundo, não acredito que você fez Bárbara entrar no sistema do hospital para você me espionar 
Dick: ei! Não é espionagem se você sabe que eu estou fazendo isso 
Dick: e sinceramente a culpa é sua 
Damian: como você me espionar e minha culpa? 
Dick: bem, você não me deixou acompanhá-lo na entrevista 
Damian: então você pede à sua esposa para lhe ajudar a me espionar? 
Dick: sim :) 

Damian bufou, típico de Grayson. Quando Damian ligou para ele na noite anterior para atualizá-lo sobre tudo, ele havia insistido em acompanhá-lo para fornecer "suporte emocional". Após uma longa argumentação, ele acabou aceitando que era importante Damian fazer isso sozinho, embora não gostasse disso. Damian deveria ter previsto isso. 

Damian: você é impossível, Grayson 

Antes que Dick pudesse responder, Damian se levantou de onde estava sentado e começou a caminhar em direção à câmera. Quando estava na frente dela, pegou seu celular e desligou, de modo que ficasse claro que ele não iria mais trocar mensagens. 

Sabendo que a reunião da banca não terminaria nos próximos minutos e que tinha permissão para se locomover, Damian decidiu dificultar a espionagem de Grayson e passou a caminhar pelo hospital para que ele precisasse alternar entre as câmeras — não que fosse adiantar muito, Gordon sempre foi mais que eficiente em seu trabalho, e se ela tinha ajudado Grayson, com toda certeza já tinha acesso a todas as câmeras. 

Por dois segundos, Damian considerou ficar com raiva dela, mas como ela o havia ajudado de boa vontade a ter acesso aos registros do hospital, ele resolveu concentrar sua ira em seu irmão intrometido. 

Damian já havia memorizado o layout do hospital através da sua planta — que também era cortesia de Bárbara — então, ele se viu vagando pelo hospital, se permitindo imaginar como seria trabalhar lá. 
Fechando os olhos, ele se via ajudando pacientes a melhorarem, tratando lesões e feridas, confortando sobreviventes de tragédias antes de oferecer socorro, e salvando vidas. 

Ele segue pelos corredores de maneira quase automática, saindo do setor administrativo do hospital, cruzando a recepção, até chegar à ala de atendimento onde cada paciente era diagnosticado e, posteriormente, encaminhado para o tratamento que precisava. 

No fim do corredor, ele pôde observar duas figuras conversando, que ele reconhece dos registros que Gordon lhe enviou como os dois médicos residentes que entraram no programa de residência este ano — inicialmente Damian só queria os registros da banca de diretores, mas já que Bárbara estaria dentro dos arquivos do hospital de qualquer forma, ele achou que poderia aproveitar para saber um pouco mais de seus dois possíveis colegas de trabalho. 

O primeiro residente é um homem que, segundo os registros, se chama Henrique. Assim como Damian, ele é supostamente jovem demais para já ser médico — o que indica que ele pulou algumas séries na escola, como o próprio Damian — e, como os registros também dizem que ele concluiu sua faculdade com 96% de aprovação, é seguro presumir que ele é uma espécie de jovem prodígio. Ele tem exatamente 1,75 metros de altura, um porte levemente atlético e cabelo loiro escuro. 

A segunda figura é uma mulher alta, de pele parda, e longos cabelos escuros. Damian a reconhece como Verônica. Os registros dela indicam que, aos 26 anos, ela é um pouco mais velha que Damian e Henrique, mas igualmente talentosa. Ela foi a laureada de sua turma e possui um certificado em fisioterapia com especialização em fisioterapia muscular — isso significa que ela não só conseguiu as melhores notas de toda a sua turma, mas, paralelamente a isso, estava cursando outro curso. 

Mas, honestamente, a parte que mais impressionou Damian foi que, diferente de Henrique, que estava totalmente alheio, ela notou que Damian os observava e se virou para encará-lo com um olhar tão frio que faria qualquer um que não fosse um morcego se arrepiar. Ele tem certeza de que, de alguma forma, aquela mulher sabe exatamente quem ele é, ao julgar pela forma em que ela levanta a sobrancelha como se o desafiasse — não simpatiza com ele. 

Notando que a atenção de Verônica foi desviada, Henrique finalmente nota Damian no final do corredor e o cumprimenta com um aceno de cabeça. Damian se perguntou se deveria ir falar com eles, mas, antes que pudesse se decidir, uma enfermeira se aproxima e conduz Verônica a outra sala. "Provavelmente um paciente dela apresentou complicações", ele pensa, enquanto a vê se afastando depois de trocar algumas palavras com Henrique e a enfermeira. 

Damian estava prestes a continuar a sua caminhada, mas percebe que Henrique está indo em sua direção. Se ele parar para falar com Damian, as suspeitas dele estavam corretas e Henrique e Verônica sabem quem ele é e o que está fazendo no hospital — ótimo. 

— "Olá", — Henrique diz se aproximando — "você é Damian Wayne, não é?" 

Damian resiste à vontade de bufar. E formulado como pergunta, mas é uma afirmação, ele obviamente sabe quem ele é. Independentemente de onde Damian ou seus irmãos forem por Gotham, eles sempre acabam sendo reconhecidos, faz parte de ser filho de Wayne. 

— "Sim", — ele responde diplomaticamente — "e você é?" 

Claro, graças aos artigos hackeados, Damian sabe o nome dele, mas isso não é exatamente uma informação que ele pode revelar, então, em vez disso, ele se faz de alheio e finge que não conhece seu nome e várias outras informações pessoais. 

-"Henrique Castelan, prazer" — ele estendeu a mão para Damian, que a aperta com firmeza — "Eu presumo que você esteja aqui para a entrevista para a residência?" — ele pergunta sem rodeios. 

— "Sim, vejo que as notícias voam por aqui" — Damian diz tentando se manter neutro, tentando descobrir o que eles sabem. 

Henrique sorri — "Bom, a formatura do filho caçula de Bruce Wayne não foi exatamente um segredo" — isso é verdade, a graduação de Damian foi citada em pelo menos cinco blogs de fofocas diferentes e dois jornais — "Quando surgiu o boato de que talvez o hospital contratasse um terceiro residente após a visita do seu pai, não foi difícil juntar 2 + 2." 

Damian se sente azedo novamente. Mesmo que a maioria das pessoas não soubesse da doação "anônima" de Bruce, ainda não era difícil presumir o que o magnata bilionário estava fazendo no hospital se você tivesse um cérebro minimamente funcional. "Obrigada, pai", ele pensa sarcasticamente. 

Henrique deve ter percebido sua alteração de humor, porque logo retorna a falar. 

— "Bom, eu preciso voltar ao meu plantão. Eu só parei para dar um olá e desejar boa sorte a você, não que você precise, é claro" — as palavras dele são inesperadamente sinceras e simpáticas. 

— "Bem, obrigado" — Damian responde — "Eu não vou mais te segurar, foi um prazer conhecê-lo, Henrique." 

E como um aceno de cabeça como despedida, Henrique segue pelos corredores voltando ao que quer que ele estivesse fazendo anteriormente, deixando Damian sozinho novamente. 

Ele continua o seu mini tour pelo hospital, passando pelos berçários, área psiquiátrica e enfermaria, perdidos em seus próprios pensamentos antes de começar a fazer o caminho inverso para retornar. 

Quando chega novamente à ala de atendimento, ele nota que está acontecendo uma confusão próxima à recepção. 

Ele ouve um grito e, de repente, um menino de aproximadamente 14 anos está inconsciente e tremendo no chão, com movimentos desordenados. 

Ele começa a se aproximar e vê um médico indo socorrer o paciente — não Verônica ou Henrique, esse é alguém que ele não reconhece dos registros dos residentes, então é um médico interno do hospital. 

Pelas olheiras embaixo de seus olhos, Damian acredita que ele deve estar nas últimas horas de um longo plantão, e consequentemente exausto.  

O médico — a quem Damian se refere mentalmente como Red, por causa de sua cabeleira ruiva — se aproxima do menino e começa a examiná-lo, enquanto pede algumas informações à acompanhante dele.  

— "O que ele estava sentindo quando chegou aqui?" — Red pergunta calmamente, enquanto examina os olhos do menino com um oftalmoscópio, que estão claramente revirados. 

A acompanhante do menino — que Damian presume ser sua irmã, porque, embora haja semelhança física, ela aparenta ser muito jovem para ser sua mãe, então Damian passa a chamá-la assim — está visivelmente abalada demais, mas se esforça para fornecer as informações de que o médico precisa.  

— "Somente uma, com a perna inchada" — ela diz, tentando não soar desesperada — "a enfermeira tinha classificado como não urgente e..."  

— "Senhora, eu preciso que você se acalme" — o médico a interrompe, enquanto se senta no chão e coloca a cabeça do garoto cuidadosamente em seu colo — "o garoto está bem, ele está tendo uma convulsão, não está relacionada ao inchaço em sua perna." — Os olhos da "irmã" se arregalam, mas o médico a interrompe antes que ela se desespere novamente — "Eu sei que parece assustador, mas acredite em mim, desde que ele não bata a cabeça, vai ficar tudo bem."  

A "irmã" do menino não fala nada e o médico logo continua a acalmá-la.  

— "Como a senhora parece assustada, estou presumindo que ele nunca teve uma convulsão antes." — A mulher acena com a cabeça. Isso acende um alerta na mente de Damian, que começa a se aproximar mais do garoto. — "Durante um episódio epiléptico, não podemos mover o corpo dele, mas as crises geralmente duram menos de 10 minutos. Então, nós vamos levá-lo para fazer alguns exames e descobrir o que desencadeou a crise, ok?"  

— "Ok" — a "irmã" acena fortemente — "tudo bem."  

Só que Damian não acha que está tudo bem. Já sentindo a adrenalina tomar conta, ele inconscientemente começa a repetir os três passos da ODA que Batman ensinou a cada um de seus Robins: Observar, Deduzir e Agir. 

  

Observar: 

O médico estava tão focado em distrair a "irmã" do garoto para que ela não entrasse em um ataque de pânico, e tentando manter a situação controlada entre as várias pessoas que começavam a cercar o garoto, que estava perdendo alguns sinais óbvios de que o que quer que estivesse acontecendo não era uma simples convulsão.   

Agora de perto, Damian consegue observar que, além dos espasmos e dos tremores do corpo, o movimento do peito está irregular demais e a respiração do garoto está sendo mais atrapalhada do que deveria.  

Os lábios dele também estão levemente arroxeados, o que poderia ter sido apenas um inchaço de quando o garoto caiu no chão antes de iniciar a crise. Mas, levando em consideração o problema respiratório mencionado antes, isso é um sinal de que os órgãos internos não estão recebendo oxigênio adequadamente.   

A "irmã" do garoto também mencionou um inchaço na perna. De onde Damian está, consegue ver claramente a perna esquerda do garoto. Red descartou isso, considerando uma coincidência. Mas a intuição de Damian está em alerta máximo. 

  

Deduzir: 

Há muitas coisas que poderiam fazer a perna do garoto inchar, entre elas... um coágulo. E se esse coágulo estiver bloqueando alguma artéria, o oxigênio não estaria circulando pelos órgãos internos do garoto.  

Respiração obstruída sem asfixia mecânica, cianose severa, perda de consciência com atividade motora desordenada... Isso não é só uma convulsão. É hipóxia.  

As convulsões não eram causadas por epilepsia. O cérebro dele estava desesperado por oxigênio, e os neurônios, sem energia, começaram a disparar em pânico — como uma última tentativa do corpo de sobreviver. 

  

Agir: 

O cérebro humano só suporta cerca de 5 minutos antes de as células cerebrais começarem a morrer. Damian precisa começar a se mexer.   

— "Não é convulsão" — ele diz de repente, atraindo olhares de todos que estavam no local.   

— "O quê?" — Red pergunta, mais atordoado do que curioso.  

— "Não é uma convulsão" — ele repete — "ele está tendo uma hipóxia, causada por um coágulo na perna esquerda, que é o que está fazendo ela inchar."   

— "Você é médico?" — a "irmã" do garoto pergunta, com a voz voltando ao desespero.  

— "Não, ele não é" — Red diz antes que Damian possa dar qualquer resposta — "ele não trabalha no hospital, senhora. Acredite em mim, dentro de alguns minutos o garoto vai ficar bem."   

Damian queria discutir. Ele sabe que Red só está fazendo o seu trabalho, que ele não tem razões para ouvir um garoto dando um diagnóstico absurdo para um caso que, naturalmente, ele tem razões para ignorar. Red provavelmente é um médico competente; Damian sabe que, em uma situação normal, ele não perderia tantos sinais, e assim que a "convulsão" não parar no tempo previsto, ele vai saber que algo está errado e vai perceber o que está acontecendo com o garoto.   

Mas Damian também sabe que o garoto está ficando sem tempo. Não dá para esperar o protocolo padrão. Ele poderia ficar e tentar explicar ao médico o que está acontecendo, mas já se passaram 3 minutos desde o começo da crise epiléptica, o que significa que o garoto só tem mais 2 minutos antes de correr riscos de sequelas graves. Cada segundo que ele desperdiça agora significa uma possível morte cerebral.  

Ele podia esperar. Podia tentar convencê-los. Mas o tempo não ia esperar.  

Então, em vez de continuar argumentando, Damian sai correndo pelo hospital. Ele mal registra o percurso, seu cérebro está desligando tudo que não tenha a ver com o garoto em hipóxia, e seu corpo está tremendo de adrenalina.   

Ele chega à farmácia e a invade sem explicações. Ouvindo vagamente gritos de enfermeiras chamando os seguranças para detê-lo, mas não importa. Ele já tem o que precisa. Ele pega Alteplase, uma seringa e, ainda enquanto corre, prepara o medicamento.   

Quando ele volta ao local, consegue escutar os passos e gritos dos seguranças alguns corredores atrás dele. Então, ele se joga ao lado do garoto antes que qualquer pessoa possa reagir. Ele está usando os joelhos para estabilizar os braços do garoto — que ainda está tremendo — e injeta Alteplase em uma veia. 

Só após isso, Damian consegue respirar novamente, o mundo volta ao foco e ele registra os gritos e a confusão ao redor dele.   

— "Se o coágulo não começar a se dissolver agora, ele tem dois minutos de vida. No máximo." — ele diz, olhando para Red.

– "O quê? O que você fez, garoto?" – Red pergunta com a voz elevada. – "Segurança! Socorro!" – ele grita, chamando ajuda.  

Damian não responde. Ele vê os seguranças que corriam atrás dele finalmente o alcançando e se aproximando. Ele poderia fugir se quisesse, mas, em vez disso, continua ali, esperando o garoto reagir.  

Se ele estivesse errado, teria acabado de piorar tudo. Mas Damian sabia que não estava errado.   

O corpo do menino ainda está tremendo, mas cada vez mais devagar. De repente, sua respiração começa a se estabilizar, e ele fecha os olhos — não porque está inconsciente, mas porque agora consegue respirar novamente.   

Damian, ainda agachado perto do garoto, deita a cabeça em seu peito para tentar ouvir se seus pulmões estão reagindo. E sente alívio quando percebe o movimento pulmonar.   

– "Eu administrei 10 ml de Alteplase para dissolver o coágulo" – ele diz, olhando para o médico, que acena com a cabeça como se finalmente entendesse o que Damian está dizendo. 

Então Damian vira o olhar para a "irmã" do garoto. – "Desde que ele receba cuidados quanto aos possíveis efeitos colaterais, ele vai ficar bem."   

Damian estava prestes a começar a listar os possíveis efeitos quando o garoto ao lado dele se mexe um pouco e abre a boca para falar.  

– "Mana? O que aconteceu?" – ele pergunta com a voz baixa e atordoada.   

Ela riu e chorou ao mesmo tempo, como se estivesse soltando todo o ar que segurou desde que ele caiu. E começa a se aproximar do garoto para abraçá-lo.  

Nesse momento, o cérebro de Damian registra duas coisas diferentes: 

  

  1. Ele estava certo em sua teoria de que a acompanhante era irmã do garoto e não sua mãe.
  2.  A sala toda está aplaudindo.  

É um sentimento estranho para Damian, que está acostumado a heroísmo sem reconhecimento, ser aplaudido por uma pequena multidão. Mas ele não pensa sobre isso por muito mais tempo, porque os seguranças finalmente chegam e começam a escoltá-lo pelo hospital. 

Ele vê que vários celulares estão voltados para seu rosto e pensa que, em alguns minutos, as imagens estarão por toda a internet como "o mais novo escândalo Wayne".  

Ele sente os flashes mesmo de olhos fechados. Um estalo de câmera. Um celular gravando bem perto do seu rosto. As hashtags estão nascendo agora. Ele sabe disso. Sabe que, em cinco minutos, o mundo vai conhecer sua "façanha", e Bruce também.  

"O pai vai surtar quando vir isso", Damian pensa, deixando os seguranças o guiarem para a do corredor. Ele sabe que seus métodos estão longe de ser ideais, e, se a bancada dos diretores do hospital estava dividida antes, agora tem mais um motivo para não o aceitar. 

Mas ele também sabe que, sem isso, o garoto morreria. Então, ele não se arrepende. 

Esse era o tipo de coisa que a medicina dizia para ele não fazer. Mas também era o tipo de coisa que o fez querer ser médico em primeiro lugar. 

 

 

 

 

 

 

Notes:

"Você prometeu uma fanfic hospitalar, mas mais da metade acontece fora do hospital!"
Eu sei, eu sei. Honestamente, o plano original era começar no primeiro dia de trabalho do Damian e fazer tudo isso ser um flashback. Mas, como eu disse antes, a linha do tempo está um pouco bagunçada e eu queria organizar isso antes das coisas que tenho planejadas começarem a se complicar.

E sim, o capítulo terminou no meio da confusão, mas eu prometo que a situação vai ser resolvida rapidamente — e aí sim nós vamos começar as travessuras médicas do Damian.
(Eu ando fazendo promessas demais...)

A missão do Bruce foi, com certeza, a minha parte favorita. Eu tentei brincar com as nomenclaturas: usando "Batman/Superman" para os momentos em que eles estão agindo como heróis, e "Bruce/Clark" quando estão sendo apenas dois amigos.
Também tentei manter que, sempre que o lado alienígena do Clark fosse mencionado, ele fosse chamado de "Kal-El" ou "kryptoniano".
E, assim que o Batman tira o capuz, ele passa a ser chamado só de Bruce ou de pai.
São detalhes idiotas, mas que eu me diverti muito pensando.

Eu tinha planos de trazer a Batcow e o Batbezerro em cena bem mais pra frente na história, mas não faria sentido ele ignorar ela por tanto tempo, então aqui estamos nós.
E, sem contar que, eu prometi “os animais de estimação do Damian” em uma tag, né? (Eu cumpro promessas, tá vendo!)

E por falar em “aparecer mais tarde”: o Tim não deveria aparecer nesse capítulo. Mas ele é meio que o meu favorito, e quando vi, ele já tinha uma cena só dele — e acabou ficando.
(Não é minha culpa que ele é um reizinho.)

Aliás, eu tentei dar uma pequena cena de destaque pra cada um dos irmãos Wayne.
(Não, Shep não conta como filha de Bruce.)

Então, todos tiveram pelo menos uma cena focada em si e dando um contexto de onde estão na fic.
(E sim, Cass está em Hong Kong, mas eu prometo que ela aparece no futuro.)

Todos tiveram seu pequeno momento de glória... menos Jason.
Então, pra corrigir essa injustiça, o próximo capítulo será focado nele. Haha!