Work Text:
Com uma certa frequência anormal, Yoongi sonha que está matando Seokjin durante o sono.
Isso não seria tão estranho se Seokjin não fosse seu marido.
Yoongi o ama. É um tipo de amor que dura desde sempre, desde o momento em que trocaram as primeiras palavras na pior missão de todas — imagina estar em seus plenos dezesseis anos de idade e ter que manusear uma arma de calibre alto para estourar a cabeça de um zumbi de sangue, aquele que estava mais do que disposto a devorar um outro garoto de dezesseis anos, este que não sabia desenhar um ritual no chão de terra. O primeiro encontro deles foi assim; Seokjin dando o tiro no zumbi de sangue, enquanto Yoongi tremia para desenhar seu ritual. Na época, os rituais estavam entrando na moda , por assim dizer. Yoongi suspeita que ele foi um dos primeiros agentes a manusear rituais para fins benéficos.
Então, eles começaram a explorar o mundo. Saíram da Coreia e foram para a Austrália, Rússia, China, Brasil, México e França, conhecer alguns agentes na luta contra o paranormal. Eles moraram alguns anos na cidade do amor, um lugar com bastante ocorrência paranormal — a membrana tende a ser mais fraca em países que foram palcos de guerra, mesmo após anos. Depois, Yoongi decidiu que era hora de voltar para sua terra natal e foi exatamente em Seoul que Seokjin o pediu em casamento. Desde então, eles estão juntos. Quase quinze anos juntos.
Eles são agentes importantes na ordem do distrito de Nam-gu, em Busan. Por serem os agentes mais experientes, eles têm muito para ensinar aos mais jovens que integram mais e mais equipes. Yoongi passou a última semana ensinando rituais para Taehyung, seu mais novo aprendiz que tem uma estranha afinidade com a Morte. É interessante e, claro, um pouco assustador. Yoongi não gosta de morte.
Ele pensa que talvez seja por isso que ele está tendo esses sonhos estranhos. Ele consegue fazer uma correlação disso porque, coincidentemente, os sonhos só começaram depois que começou a mexer com uns rituais que ele nunca tinha visto antes. É estranho porque Yoongi nunca pensou que o paranormal poderia afetar seus sonhos, um lugar tão longínquo do subconsciente enquanto os seres humanos estão em um estado de espírito tão vulnerável. Talvez seja essa realmente a intenção. O paranormal age de forma traiçoeira também. Qualquer coisa que fomente seu medo.
E é óbvio, Yoongi tem muito medo de perder Seokjin.
— Você sabe que vai ser pior se você não dormir — Seokjin aparece no escritório de Yoongi, em plenas três horas da madrugada. Ele usa um pijama fofo com frutinhas estampadas. Nem parece um agente de elite. — Vem pra cama, amor.
Yoongi tem que resistir muito. Ele tomou cinco xícaras de café forte e foi para seu escritório, ocupar a cabeça até ficar naquele estado letárgico de sono, o que faz ele capotar de sono e não lembrar de nada do que sonhou. Ele se conhece, sabe o que funciona para isso acontecer. Basta uma grande dose de estímulos até seu corpo ceder ao cansaço, ele escolhe focar no trabalho. Assim, Yoongi consegue terminar o que precisa terminar e de brinde perde uma grande carga de energia para dormir feito pedra. Dois coelhos numa cajadada só.
— Só vou terminar e já vou, hyung. — Ele responde, tentando voltar o foco nos papeis na mesa, ignorando seu lindo esposo na porta.
— Você disse isso há três horas atrás.
— Dessa vez eu tô quase terminando, de verdade — Não é bem uma mentira. Yoongi tem bocejado cada vez mais em um curto espaço de tempo, além das pálpebras pesadas. Todos os sinais de sono estão aí, ele só precisa de um pouco mais para apagar por completo. — Pode ir dormir, eu não vou ficar aqui por muito mais tempo.
Seokjin olha para ele consideravelmente. Yoongi tenta não se sentir culpado.
Ele não contou sobre os sonhos. Como poderia? Como contar ao seu marido que sonhou mais de três vezes que o matou enquanto dormia? Yoongi se sente enjoado só de pensar. Ele não quer preocupar Seokjin, não porque ele acha que o marido vai ficar com medo dele ou algo do tipo. Na verdade, é o oposto. Seokjin pode negligenciar isso ao ponto de não perceber os perigos de se ter um assassino em potencial dormindo na mesma cama que ele. Tudo porque ele o ama. Seokjin não vai pensar na possibilidade de Yoongi matá-lo.
Isso se deve também ao fato de que Seokjin, apesar de estar anos lutando contra o paranormal, ele não é muito ligado nisso. O Kim nunca procurou entender o paranormal e definitivamente nunca vai. Ele é bom com armas, táticas e investigações. É péssimo em entender rituais e entender com o que está lidando. Por esse motivo ele e Yoongi formam uma excelente dupla — toda equipe precisa de alguém tão tático e inteligente quanto Seokjin, e alguém intuitivo e sensitivo como Yoongi.
Por estar tão alheio a isso, Yoongi sabe que seu marido não vai entender as implicações de sonhos tão horríveis quanto esses. Ele vai ignorar.
Até que seja tarde demais.
É tão estranho porque não há motivo algum para Yoongi querer matá-lo, é claro. Ele é seu marido! Ele o ama para todo o sempre. Um casamento não é perfeito, obviamente há defeitos que Yoongi preferia que não houvessem. E, às vezes, Seokjin o tira do sério. Yoongi fica irritado quando seu marido não chega no horário correto para o jantar, é tão irritante porque ele não consegue imaginar o porquê de se atrasar dez minutos, não há uma justificativa acurada. Também ele fica além da irritação quando Seokjin usa a xícara errada para tomar café. Existe a xícara de chá e a xícara de café, elas têm funções diferentes! Por que usar a errada quando se tem a certa?! Yoongi não consegue ficar calmo quando Seokjin age de maneira tão leviana para algum acontecimento que poderia ter sido evitado, como quando eles estavam em uma missão e um civil se machucou na tentativa deles de protegê-lo contra um zumbi de sangue. Ele disse “acontece, não tinha como a gente evitar”. Yoongi só conseguia pensar que é claro que tinha! Por que ele estava sendo tão indulgente?
Todas as irritações de Yoongi fazem ele se questionar se apenas isso é necessário para ter esses pesadelos. Quer dizer, é tudo isso mesmo? Seu amor não é mais forte que isso?
— Se eu acordar e te encontrar aí, vou te colocar para dormir na cama do Holly — Seokjin resmunga enquanto sai, e Yoongi só consegue pensar: não seria uma má ideia.
Infelizmente, ele tem que agir como se nada estivesse acontecendo. Yoongi não ficou à toa no escritório, ele realmente pesquisou a possibilidade de alguma criatura estar mexendo com seus sonhos. Pode ser uma criatura de conhecimento — é a sua maior teoria. Para lidar com o conhecimento, precisa ter um excelente bloqueio mental. É por isso que Yoongi vai fazer um teste esta noite, ou pelo menos o resto da noite.
Ele vai para a cama alguns minutos depois. Seokjin está dormindo pacificamente, Yoongi não quer perturbá-lo. Sendo assim, ele coloca o dispositivo perto da cama, onde vai conseguir se monitorar. O dispositivo vai conseguir captar se o quarto encontra atividade paranormal durante seu sono, só assim ele vai descobrir se tem alguma criatura mexendo com a sua mente.
Se não for isso, então Yoongi de fato tem algum desejo de matar seu marido, um desejo tão forte que aparece nos sonhos. Ou isso pode ser uma metáfora para o amor? Sonhos com morte tem significados?
Como esperado, assim que Yoongi deita seu corpo na maciez do colchão, sentindo o quentinho do corpo de seu marido junto com seu perfume suave, ele simplesmente apaga. Ele está tão exausto que não percebe quando dorme, exatamente do jeito que esperava que acontecesse. É quase aliviante.
No entanto, no meio da escuridão por trás de suas pálpebras, Yoongi é rapidamente retirado do mundo dos sonhos. Seus olhos se abrem abruptamente, o que ele vê em seguida é nada mais que puro sangue. Sangue em sua roupa, em seus lençois, em tudo. Ao seu lado, o corpo de Seokjin jas taciturno sobre o colchão, com vários furos de facada no peito. Ah, a faca. Ela está na mão de Yoongi.
Um grito quer sair do peito dele, fica preso na garganta. De novo essa sensação. Ele a conhece muito bem, mas agora está mil vezes pior do que as outras vezes. Parece que alguém vai pegar seu coração a qualquer momento e esmagá-lo, comprimir ele até não restar mais nada além do vazio. Yoongi não quer esse vazio, ele nunca mais quer sentir esse vazio. Nunca, nunca, nunca.
— Amor?
Tudo ao redor se desfaz como uma onda do mar destruindo um castelo de areia. Yoongi pisca os olhos e ele ainda está em sua cama, mas a luz do abajur está acesa. E Seokjin está ao seu lado, tocando seu ombro, chamando-o gentilmente. Completamente intacto e vivo.
— Me diz o que você tem — Ele pergunta suave, tentando acalmar o corpo de Yoongi que treme sem que ele perceba. Seokjin dá um beijo suave na sua testa, trazendo-o para a realidade. — Calma, está tudo bem.
— Hyung… — Yoongi respira fundo, tentando se recompor. Esse sonho foi o pior de todos. Ele tenta procurar algum som vindo do dispositivo paranormal, mas não encontra nada. Está intacto.
Não tem atividade paranormal aqui.
— Hm? O que foi? — Seokjin pergunta, dócil. Yoongi não sabe como agir.
— Acho que… — Ele pensa, sem de fato raciocinar. — Acho que tem um monstro debaixo da nossa cama.
É a primeira coisa que seu cérebro calcula. Seokjin arqueia uma sobrancelha, rindo para ele.
— Um monstro?
“Eu sou o monstro”, Yoongi pensa, voltando aos poucos ao seu normal. Se é que isso existe.
— Não consigo dormir, hyung — Yoongi suspira, cansado. — Esses pesadelos são horríveis.
E Seokjin entende. Ele entende porque ele olha para Yoongi como se ele fosse a criatura mais linda que existe na fase da terra, no universo inteiro. Ele entende porque ele enxerga além do que o próprio Yoongi pode.
— Eles vão passar, a gente vai resolver isso — Seokjin segura seu marido no meio do abraço, deitando ele. Yoongi praticamente derrete. — Nós dois, juntos.
É engraçado porque Yoongi sente que, nos braços de Seokjin, absolutamente nenhum demônio, monstro, criatura, nada pode atacá-lo. É o lugar mais seguro do mundo.
— Você não se cansa dessas minhas loucuras, não? — Yoongi resmunga, com o rosto enfiado no pescoço do marido, onde ele pode sentir o seu perfume tão reconfortante. Como pode merecer isso? — Toda vez isso. É cansativo.
— Não canso, não. Eu te disse quando a gente se casou, é pra sempre — Seokjin bufa uma risada. Ele faz parecer tão fácil.
Talvez seja realmente fácil.
— Amanhã vamos ao médico, pegar um novo medicamento.
Yoongi faz uma careta. — Pra que médico se a gente tem rituais…
— Rituais te deixam doido — Seokjin repreende. — Enquanto eu estiver vivo, você só vai usar rituais para salvar pessoas, não a si mesmo.
Seokjin pode não procurar entender muito de conceitos do paranormal, mas uma coisa é certa: é perigoso e ele prefere a morte do que perder Yoongi para isso.
Felizmente, Yoongi começa a entender cada vez mais. Ele ia argumentar que os medicamentos mundanos também o deixam doido, mas definitivamente não o faz pensar em matar ou machucar quem ama.
— Tudo bem — Yoongi murmura quietamente. Ele volta a se deitar, sentindo o coração voltar aos batimentos normais. — Você poderia…
— Hm?
— Poderia me abraçar enquanto eu durmo? — Yoongi pergunte embolado, atropelando as palavras. É constrangedor. Ele se sente uma criança.
Mas Seokjin nunca o faz se sentir patético.
Ele não diz uma palavra sequer, apenas volta a deitar e abraça o corpo do marido, aconchegando-se na posição mais confortável para dormir. É o suficiente para Yoongi. Com o sono tomando conta de todo seu corpo, ele olha uma última vez para o dispositivo perto da cama, completamente intacto sem alertar perigo algum.
Ele percebe que mesmo se tivesse alguma criatura paranormal nesse quarto, ele não se sentiria como se fosse o fim do mundo.
