Work Text:
Castiel ajusta a seringa com cuidado, franzindo o cenho como se aquilo fosse uma ciência exata. Ele não diz nada, mas a tensão no ar é palpável. Para ele, ver Lynn assim — vulnerável, tentando ser corajosa mesmo quando está claramente nervosa — mexia com algo dentro dele que ele não sabia explicar.
"Você sabe que não precisa olhar, certo?" Castiel provocou, a voz carregada com seu tom habitual de sarcasmo suave. Ele virou a cabeça na direção dela, um sorriso ligeiramente torto aparecendo enquanto ajustava o ângulo da seringa.
"Como se eu estivesse planejando assistir!" Lynn respondeu, cruzando os braços e fazendo uma careta exagerada.
Castiel riu baixinho. "Então por que você está tremendo? É só uma agulha, não uma espada medieval."
"Você já olhou pra essas coisas? Parece enorme! E, além disso, dói." Lynn retrucou, emburrada.
Ele se aproximou e se agachou à sua frente, colocando a seringa em um pequeno pote ao lado antes de segurar gentilmente suas mãos. "Escuta aqui, drama queen. Eu prometi que ia fazer isso dar certo. E eu odeio ver você assim. Então, por favor, confia em mim, tá bom?"
Lynn sentiu os olhos se encherem de lágrimas, mas respirou fundo e sorriu. "Eu confio. Só... seja gentil, tá?"
"Eu sou sempre gentil," ele respondeu, piscando para ela antes de pegar a seringa novamente.
Com cuidado, ele deslizou a mão pela cintura dela, a palma quente contra sua pele exposta. Lynn fechou os olhos, concentrando-se na respiração, e tentou afastar o medo enquanto Castiel ajustava a posição da seringa.
"Pronta?"
Lynn respira fundo e assente. Ela sente o toque frio da agulha na pele, e seus dedos se fecham ao redor da borda do sofá. Castiel aplica a injeção devagar, os movimentos cuidadosos e precisos, enquanto murmura palavras tranquilizadoras que só Lynn consegue ouvir.
"Já acabou," ele avisa depois de um segundo, puxando a agulha e jogando fora com o mesmo cuidado de antes.
Lynn abre os olhos e solta a respiração que nem tinha percebido que estava segurando. "Foi menos pior do que eu imaginava," admite, olhando para ele com um sorriso tímido.
"Claro que foi," Castiel responde, levantando-se e jogando o cabelo vermelho para trás de forma exagerada. "O médico aqui é bom demais." Ele dá um passo para trás, mas não sem antes apertar de leve o quadril dela, um gesto que era tão típico dele quanto respirar.
Castiel jogou a seringa no lixo e lavou as mãos rapidamente. Quando voltou, encontrou Lynn ainda sentada no sofá, a camisa puxada para baixo, mas com aquele olhar que ele conhecia muito bem. Era o olhar que ela fazia quando queria ser mimada, o que o fazia rir baixo toda vez, mesmo que ele fingisse ser resistente.
"Tá com essa cara por quê? Quer que eu carregue você agora, princesa?" Ele perguntou, mas o tom tinha zero sarcasmo; ele já sabia que ia fazer o que ela quisesse.
Lynn fez um biquinho dramático, cruzando os braços. "Eu acho que eu mereço, depois de ser tão corajosa."
"Ah, você foi uma guerreira e tanto," ele respondeu com um sorriso de canto. "Sério, nunca vi alguém tão durona... até chorou na última vez, lembra?" Ele soltou uma risada curta, desviando de propósito quando Lynn jogou uma almofada nele.
"Você não ajuda!" Ela reclamou, mas havia um brilho de divertimento nos olhos dela.
"Tá bom, tá bom, vem cá." Ele caminhou até o sofá e estendeu a mão para ela. Antes que Lynn pudesse reagir, ele a pegou de surpresa, puxando-a para seus braços e a carregando como uma noiva — o que ele fazia de vez em quando só para provocá-la. "Vai querer jantar aqui no trono ou prefere que eu te leve pra cama?"
"Você é tão exagerado!" Lynn disse, rindo, mas se aninhando confortavelmente contra o peito dele.
"Exagerado, mas eficiente." Ele a colocou com cuidado no sofá de novo, esticando as pernas dela sobre o colo dele. "Agora, qual é a ordem do dia? Quer que eu cante uma música ou faça um chá?"
"Eu quero filme," Lynn respondeu, fazendo um gesto dramático com a mão. "E você vai assistir uma comédia romântica comigo, sem reclamar."
"Sem reclamar? Ah, aí já tá pedindo demais, ainda mais com esses filmes ridiculos que você gosta," ele provocou, mas pegou o controle remoto mesmo assim.
"Ridículos? Eu amo comédias românticas! São leves, divertidas e sempre têm um final feliz. Diferente desses seus filmes de gente explodindo e alienígenas invadindo a Terra."
"Touché," ele admitiu, apertando-a de leve antes de se afastar. "Vai lá pegar sua coberta, e eu escolho um que não seja tão ruim... Mas sem Diário de uma Paixão, já assistimos isso umas mil vezes."
Lynn revirou os olhos, mas obedeceu, pegando a manta favorita do casal – uma coberta macia com desenhos de estrelas que eles compraram juntos anos atrás. Quando voltou, Castiel já estava mexendo no controle remoto, as luzes do pequeno apartamento reduzidas, criando um ambiente acolhedor.
"Escolhi 10 Coisas que Eu Odeio em Você. Não reclamo tanto desse," ele disse, acomodando-se no sofá e batendo no espaço ao lado dele.
Lynn deu um sorriso satisfeito e se jogou ao lado dele, puxando a coberta sobre os dois. "Viu? Você também ama um clichê."
"Clichê ou não, eu tô aqui pela pipoca e pela sua risada irritante." Castiel a puxou para mais perto, encaixando-a debaixo do braço dele enquanto ela repousava a cabeça no ombro dele.
Ao longo do filme, Lynn relaxou completamente, rindo alto das cenas mais engraçadas. Castiel, por sua vez, observava-a mais do que a tela. Ele adorava aquele som. Mesmo que não fosse algo que ele confessasse facilmente, ver Lynn feliz fazia tudo valer a pena.
"Tá me encarando por quê?" ela perguntou, olhando para ele com as sobrancelhas arqueadas.
"Porque você fica menos irritante quando tá assim," ele respondeu casualmente, desviando o olhar para a TV.
"Ah, claro," Lynn resmungou, mas deu um sorriso pequeno. "Só não reclama quando eu começar a chorar no final."
"Já tô preparado," ele disse, erguendo o braço com o qual a abraçava. "Quando você começar, eu te enrolo nessa coberta e finjo que não ouvi nada."
Ela deu uma risada baixa e aconchegou-se ainda mais perto, sentindo-se segura e amada. Terminar o dia assim, no calor de Castiel, com risadas e distrações, era tudo o que ela precisava para esquecer os desafios que enfrentavam.
No meio do filme, ele sentiu que ela começou a ficar mais quieta. Quando olhou para baixo, viu que os olhos dela estavam quase fechados, o rosto relaxado contra seu peito.
"Ei, tá apagando já?" Ele perguntou, mas o tom tinha um carinho que ele raramente demonstrava para mais ninguém.
"Não tô," Lynn murmurou, mas a voz saiu arrastada.
"Claro que não," Castiel respondeu com uma risada baixa, ajustando a manta para cobrir os dois. Ele beijou o topo da cabeça dela de leve e se acomodou no sofá. Mesmo com todos os comentários que fazia, ele não se importava de assistir qualquer coisa com Lynn, especialmente se isso significava terminar o dia assim: com ela nos braços dele, tranquila e feliz.
E enquanto o filme continuava, com suas cenas românticas e clichês previsíveis, Castiel pensava que talvez, só talvez, ele não odiasse comédias românticas tanto quanto fingia.
_____
Os dias passaram lentamente, e a rotina de Lynn e Castiel começou a girar em torno do tratamento. A cada dez dias, lá estavam eles no pequeno ritual que haviam criado: Castiel preparando a injeção com a precisão de um cirurgião, enquanto Lynn respirava fundo e tentava ignorar o medo das agulhas. Ele sempre fazia piadas para aliviar a tensão, mas, com o tempo, até mesmo o humor dele começou a diminuir ao ver o quanto ela estava se desgastando.
Lynn, que sempre foi cheia de energia e brilho, parecia estar ficando mais apagada. Ela ainda tentava sorrir, ainda ria das piadas de Castiel, mas havia um peso em seus olhos que ele não podia ignorar.
No final de mais um ciclo, o dia de fazer o teste de gravidez chegou. Castiel acordou cedo, mas Lynn já estava de pé, sentada à mesa da cozinha com uma xícara de chá nas mãos. Ela olhava pela janela, perdida em pensamentos, e mal percebeu quando ele entrou no cômodo.
"Você tá acordada há muito tempo?" Castiel perguntou, caminhando até ela e pousando uma mão em seu ombro.
"Não consegui dormir direito," Lynn respondeu, forçando um sorriso pequeno. "Hoje é o dia, né?"
"É, anjinha. Mas, olha, você não precisa fazer isso agora. Se quiser esperar um pouco mais, tudo bem."
Ela balançou a cabeça, determinada. "Não, quanto antes, melhor. Assim eu tiro isso da cabeça."
Eles foram juntos até o banheiro, como sempre. Lynn pegou o teste com mãos trêmulas, mas não disse nada. Castiel ficou ao lado dela, tentando não demonstrar o quanto também estava nervoso. Ele sabia que precisava ser forte por ela, mesmo que por dentro estivesse tão ansioso quanto ela.
Depois que Lynn fez o teste, eles esperaram. Cinco minutos nunca pareceram tão longos. Castiel se apoiou contra a parede, os braços cruzados, enquanto Lynn andava de um lado para o outro, apertando as mãos nervosamente.
Quando o timer do celular apitou, Lynn olhou para Castiel, e ele assentiu. "Quer que eu veja pra você?"
Ela hesitou por um momento, mas acabou balançando a cabeça. "Não. Eu faço isso."
Lynn pegou o teste e olhou para ele. Por alguns segundos, ela não disse nada, mas o silêncio foi suficiente para que Castiel entendesse.
"Negativo," ela disse, a voz baixa e sem emoção.
Castiel se aproximou e puxou o teste de suas mãos, como se quisesse conferir, mesmo sabendo que ela não estava errada. Ele suspirou, colocando o teste de lado, e puxou Lynn para seus braços. Ela encostou a testa no peito dele, e ele sentiu o corpo dela tremer enquanto segurava o choro.
"Ei, tá tudo bem," ele murmurou, acariciando os cabelos dela. "Não é o fim, Lynn. A gente vai conseguir. Talvez não agora, mas um dia."
"Mas e se não conseguirmos?" Ela perguntou, a voz quebrada. "E se isso nunca acontecer? Eu tô tentando tanto, Castiel... tô tentando ser forte, mas parece que não importa o que eu faça, nunca é suficiente."
Castiel apertou os braços ao redor dela. Ele odiava ver Lynn assim, tão vulnerável, tão machucada. Ela sempre foi a pessoa mais otimista que ele conheceu, sempre acreditando no melhor, mesmo quando as coisas estavam ruins. Ver o brilho dela desaparecer aos poucos estava partindo o coração dele.
"Escuta," ele disse, segurando o rosto dela com as duas mãos, a forçando a olhar para ele. "Você é suficiente, Lynn. Sempre foi. Não é sua culpa, e não tem nada de errado com você. Eu não dou a mínima pro que a gente tem que fazer ou quanto tempo vai demorar. Se isso é importante pra você, então é importante pra mim, e eu vou estar do seu lado até o fim, entendeu?"
Ela assentiu, mas as lágrimas continuaram caindo, e tudo o que Castiel podia fazer era segurá-la e esperar que ela encontrasse algum conforto nele.
Os dias após o teste negativo foram difíceis. Lynn tentava manter a rotina, mas estava visivelmente abatida. Ela passava mais tempo em casa, mais quieta do que o normal. O sorriso fácil que ela sempre tinha parecia mais raro, e até mesmo sua risada tinha perdido um pouco da alegria de sempre.
Castiel fazia o possível para animá-la. Ele a levava para passear, cozinhava seus pratos preferidos (mesmo que não fosse o melhor na cozinha) e até evitava sair tanto com a banda para ficar mais tempo em casa com ela.
Uma noite, ele voltou de um ensaio mais cedo e encontrou Lynn sentada no sofá, segurando uma das roupinhas de bebê que eles compraram quando começaram a tentar. Ele parou na porta, observando-a por um momento. Não sabia o que dizer; qualquer palavra parecia pequena diante do que ela estava sentindo.
"Lynn," ele chamou suavemente, entrando na sala.
Ela levantou os olhos para ele, e o sorriso que tentou dar foi tão fraco que fez o peito dele apertar.
"Você tá aqui cedo," ela disse, colocando a roupinha de lado.
"Quis voltar pra casa," ele respondeu, sentando-se ao lado dela. Ele passou um braço ao redor dos ombros dela, puxando-a para perto.
"Castiel," ela começou, mas a voz dela falhou.
"Shhh, não fala nada," ele disse, beijando o topo da cabeça dela. "A gente vai passar por isso juntos, tá? Não importa o que aconteça, eu tô aqui. Sempre vou estar."
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As semanas continuaram a passar, trazendo consigo mais injeções e mais desânimo. Lynn decidiu que não faria mais testes de gravidez. Não fazia sentido, ela dizia a si mesma. Toda vez que segurava aquele pequeno visor nas mãos e via apenas uma linha solitária, sentia um pedaço do otimismo se despedaçar.
"Só vou fazer outro teste se eu realmente sentir algo diferente," disse ela uma noite, depois de mais uma aplicação.
Castiel, sentado ao lado dela no sofá, apoiou o cotovelo no joelho e a observou em silêncio por um momento. Ele não discutiu. Sabia que Lynn precisava desse tempo, dessa pausa, mesmo que ela não dissesse em voz alta.
"Tá certo," ele respondeu, o tom casual, mas o olhar fixo nela. "Mas isso significa que você vai precisar parar de pensar nisso o tempo todo. E, se depender de mim, você não vai ter tempo nem pra lembrar."
"Como assim?" Lynn perguntou, desconfiada, mas sem forças para argumentar.
Ele deu de ombros, cruzando os braços. "Você vai ver. Confia no mestre aqui."
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Nos dias seguintes, Castiel começou a colocar seus planos em ação. Ele sabia que Lynn precisava de distrações – e, mais do que isso, precisava sentir um pouco de alegria novamente.
A primeira surpresa veio em uma manhã ensolarada de sábado. Castiel acordou cedo (algo raro) e preparou um café da manhã completo: panquecas com calda de chocolate, frutas, e até suco de laranja fresco. Lynn desceu as escadas ainda de pijama, os olhos semicerrados, e parou no meio da cozinha ao ver a mesa arrumada.
"Você tá bem? Ou isso é algum tipo de truque pra me convencer a lavar a louça depois?"
Castiel ergueu uma sobrancelha e riu. "Senta aí, antes que eu coma tudo sozinho."
Ela obedeceu, ainda desconfiada, mas não conseguiu esconder um sorriso ao provar a primeira mordida. "Isso tá... perfeito," ela admitiu, olhando para ele.
"Óbvio. Eu sou bom em tudo o que faço." Ele piscou, mas a expressão suavizada no rosto dele deixava claro que o gesto não era apenas para impressioná-la.
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Outra tarde, Castiel apareceu com um par de ingressos para um show acústico no bar favorito deles.
"Não vou sair de casa hoje," Lynn protestou quando ele contou.
"Vai sim," ele rebateu, pegando a jaqueta dela e entregando-a com firmeza. "E nem adianta discutir. Já tá tudo planejado."
Lynn bufou, mas acabou cedendo. E, pela primeira vez em semanas, ela riu até chorar com as piadas do cantor no palco e a leve embriaguez da bebida que Castiel insistiu que ela experimentasse.
"Tá vendo? Você precisava disso," ele disse, no caminho de volta para casa, uma mão firme na cintura dela enquanto caminhavam pela rua deserta.
"Talvez," ela respondeu, e, embora não admitisse totalmente, havia algo no esforço dele que fazia o coração dela se aquecer.
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Mesmo dentro de casa, Castiel encontrou maneiras de alegrar o dia dela. Ele trouxe filmes novos para maratonarem, comprou uma coleção de quebra-cabeças para montarem juntos, e até tirou o violão do canto do quarto para tocar músicas que ele sabia que Lynn gostava.
"Você tá tentando me subornar?" ela perguntou uma noite, enquanto ele tocava os primeiros acordes de uma música antiga que ela adorava.
"Subornar você pra quê?"
"Pra eu esquecer o resto."
Ele olhou para ela por um momento, os dedos ainda dedilhando as cordas. Então, ele deu um meio sorriso. "Se eu conseguir fazer você esquecer só por cinco minutos, já valeu a pena."
Ela não respondeu, mas as lágrimas silenciosas que escorriam pelo rosto dela falavam mais do que qualquer palavra.
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Apesar de todos os esforços de Castiel, o brilho característico de Lynn ainda parecia distante. Era como se ela estivesse num piloto automático, tentando não pensar no que estava acontecendo.
As injeções continuavam. Castiel permanecia ao lado dela a cada aplicação, mesmo quando ela começava a ficar em silêncio. Ele notava como ela desviava o olhar, como evitava fazer perguntas sobre o progresso do tratamento.
"Tá tudo bem?" ele perguntou uma noite, enquanto pressionava a gaze no local da injeção.
"Tá," ela respondeu automaticamente, mas o tom vazio fez seu estômago revirar.
Ele não pressionou. Em vez disso, tirou o violão mais tarde e sentou-se no sofá ao lado dela, improvisando uma melodia que parecia combinar com o estado de espírito dela.
"Faz parte da música nova?" ela perguntou, a voz suave.
"Pode ser. Quer ajudar com a letra?"
Ela sorriu de canto, mas não respondeu. Castiel continuou tocando, esperando que, com o tempo, ela encontrasse a força para voltar a ser quem era.
Ele sabia que o caminho seria longo, mas não tinha dúvida de que ficaria ao lado dela, sempre.
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As semanas seguintes trouxeram mudanças sutis, mas importantes, para Lynn. Embora o tratamento continuasse, ela começou a se soltar mais, deixando de lado a obsessão com os resultados. Era como se, finalmente, ela tivesse aceitado que não podia controlar tudo e, em vez disso, focava em viver um dia de cada vez.
Castiel, por sua vez, continuava enchendo seus dias com pequenos momentos especiais. Ele ainda se preocupava com ela, mas estava aliviado ao vê-la rindo mais e recuperando parte do brilho que havia perdido.
Uma manhã, enquanto estavam tomando café na cozinha, Castiel recebeu uma mensagem. Ele olhou para o celular, suspirou, e depois levantou os olhos para Lynn com uma expressão meio hesitante.
"Tá tudo bem?" ela perguntou, secando as mãos no pano de prato.
Ele coçou a nuca, desviando o olhar, antes de responder: "A banda conseguiu uma oportunidade de última hora. Um show em Paris. É importante. Mas vou ter que viajar por uns três dias."
Lynn piscou algumas vezes, absorvendo a notícia. Era raro que Castiel tivesse que sair tão de repente, especialmente agora, com tudo o que estavam passando. Mas ela sabia o quanto a música significava para ele, e, apesar de sentir um aperto no peito, forçou um sorriso.
"Paris, hein? Parece chique," ela disse, tentando soar casual.
"Lynn..." Castiel começou, com a voz baixa. Ele sabia quando ela estava fingindo.
"Cas, tá tudo bem," ela o interrompeu, caminhando até ele e segurando suas mãos. "Você tem que ir. Eu vou ficar bem, sério. É só por três dias."
"Você sabe que eu posso dizer não, né? Não é como se isso fosse mais importante que você."
Lynn suspirou, apertando as mãos dele. "E eu amo que você pense assim, mas você também não pode parar a sua vida por causa disso. Vai. Arrasa no palco. E me manda uma mensagem quando chegar, ok?"
Ele ficou em silêncio por um momento, os olhos castanhos fixos nos dela. Finalmente, suspirou, inclinando-se para beijá-la na testa. "Você é incrível, sabia?"
"Eu sei," ela respondeu com um sorriso pequeno, mas genuíno.
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Na manhã seguinte, Lynn o acompanhou até o aeroporto. O clima estava frio, e ela usava um cachecol enrolado em volta do pescoço enquanto caminhavam lado a lado pelo terminal. Castiel empurrava sua mala com uma das mãos, e a outra descansava na cintura dela.
"Você tá mesmo bem com isso?" ele perguntou pela terceira vez, enquanto esperavam na fila do check-in.
"Sim, Castiel. Eu tô bem. Para de perguntar."
"Tá, mas só pra garantir, lembra de..."
"De trancar a porta? Ligar se precisar de algo? Não abrir pra estranhos? Já ouvi esse discurso antes, senhor pai de primeira viagem."
Ele bufou, mas sorriu. "Engraçadinha."
Quando o voo foi chamado, Lynn sentiu uma pontada de tristeza. Não era como se fosse a primeira vez que ele viajava, mas algo sobre ele estar longe enquanto ela ainda lidava com tantas emoções a deixava inquieta.
"Eu volto antes que você perceba," Castiel disse, parando diante dela. "E, enquanto isso, tenta se divertir, tá? Sai com as meninas. Sei lá, compra umas coisas inúteis online. Só... não fica aqui sozinha remoendo tudo."
Ela assentiu, segurando os punhos do casaco dele enquanto tentava segurar o nó que se formava em sua garganta. "Vou tentar."
Ele inclinou-se e beijou-a com delicadeza, mas com a intensidade que sempre fazia o mundo dela parar por alguns segundos. Quando se separaram, Castiel segurou o rosto dela com ambas as mãos e olhou diretamente em seus olhos.
"Te amo, meu anjo."
"Também te amo. Agora vai, ou vai perder o voo," ela disse, tentando soar leve, mesmo que quisesse que ele ficasse.
Ele deu um último sorriso antes de pegar a mala e caminhar em direção ao portão de embarque. Lynn ficou parada ali por um tempo, observando-o até que ele desaparecesse na multidão.
"Três dias," ela murmurou para si mesma, abraçando o cachecol mais perto do corpo.
Enquanto saía do aeroporto, Lynn decidiu que tentaria seguir o conselho dele. Afinal, não importava o que acontecesse, Castiel sempre voltava para ela.
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A primeira noite sem Castiel foi estranhamente silenciosa. Sem as provocações habituais, o som do violão no final do dia ou os comentários sarcásticos durante os filmes, o apartamento parecia maior do que realmente era. Lynn se aconchegou no sofá com uma manta, tentando assistir a algo para passar o tempo, mas acabou adormecendo ali mesmo, com a TV ainda ligada.
Quando o despertador tocou na manhã seguinte, ela acordou com uma leve dor no pescoço por ter dormido em uma posição desconfortável. Com um suspiro, levantou-se e foi para a cozinha preparar um café. Mas assim que deu os primeiros passos, uma onda súbita de náusea a atingiu, fazendo-a correr para o banheiro.
Ela se ajoelhou diante do vaso, segurando os cabelos para trás enquanto respirava fundo, tentando se recompor.
"O que foi isso?" murmurou para si mesma, enquanto se levantava com cuidado.
A náusea passou tão rápido quanto veio, mas a sensação estranha ficou. Lynn pensou em culpar o jantar da noite anterior – algo congelado e sem muito sabor que Castiel certamente criticaria – mas algo dentro dela plantou uma pequena dúvida.
Por semanas, ela se sentira mais cansada do que o normal. Na época, havia atribuído isso ao ritmo agitado que Castiel impôs para distraí-la, mas agora...
Seus olhos foram para o armário do banheiro, onde sabia que ainda tinha alguns testes de gravidez guardados. Seu coração começou a acelerar. Era cedo para tirar conclusões, mas a possibilidade, mesmo que pequena, fez uma pontada de esperança surgir.
"Só pra descartar," ela disse para si mesma, tentando não se deixar levar pelo otimismo.
Pegou um dos testes e o segurou por alguns segundos, hesitante. Fechou os olhos, respirou fundo e decidiu que faria aquilo de uma vez.
Os cinco minutos seguintes pareceram uma eternidade. Lynn sentou-se na beira da banheira, segurando o teste virado para baixo em sua mão, com o coração disparado no peito. Quando finalmente criou coragem, virou-o devagar.
Duas linhas.
Ela piscou, incrédula, achando que talvez estivesse vendo errado. Aproximou o teste do rosto, como se isso pudesse mudar o resultado. Não havia erro. Eram duas linhas claras.
Ela sentiu o ar sair dos pulmões em um misto de surpresa, alívio e alegria que mal cabiam dentro dela. Seus olhos encheram de lágrimas enquanto um sorriso se espalhava lentamente pelo rosto.
"Positivo..." ela murmurou, quase sem acreditar.
O momento pelo qual ela havia esperado por tanto tempo finalmente estava ali, nas suas mãos. Lynn se levantou e olhou no espelho, enxugando as lágrimas que escorriam pelo rosto. Um riso suave escapou de seus lábios, seguido por outro, até que estava rindo abertamente, sem conseguir conter a felicidade.
Por um instante, sua primeira reação foi pegar o telefone e ligar para Castiel. Mas ela parou, respirando fundo, enquanto olhava para o nome dele na lista de contatos.
"Não... eu quero contar pra ele pessoalmente," decidiu, mordendo o lábio inferior para conter a euforia.
Guardou o teste com cuidado e passou os próximos minutos andando de um lado para o outro no banheiro, tentando organizar seus pensamentos. As palavras não vinham. Como poderia contar algo tão grande e tão esperado para ele?
"Ok, calma," disse a si mesma, colocando as mãos na cintura. "Três dias. É só esperar ele voltar. Não pode ser tão difícil."
Mas Lynn sabia que os dias seguintes seriam uma tortura.
Ao longo do dia, ela mal conseguia se concentrar em qualquer coisa. Tudo ao seu redor parecia ter ganhado um brilho diferente, como se o mundo inteiro estivesse conspirando para mantê-la animada. Pela primeira vez em meses, ela sentiu que podia respirar de novo, que havia esperança.
A todo momento, pensava em Castiel e em como ele reagiria. Tentava imaginar a expressão no rosto dele, se ele ficaria tão surpreso quanto ela ou se agiria com aquela calma exagerada que ele sempre demonstrava nas situações mais importantes.
No entanto, Lynn sabia que, por mais que quisesse contar logo, queria que esse momento fosse especial. Queria estar com ele, ver seus olhos, segurar suas mãos e sentir sua reação.
A cada mensagem que ele mandava de Paris, perguntando como ela estava, Lynn respondia de forma casual, escondendo o entusiasmo.
>"Tudo bem por aqui. E você? Como tá o show?"
>"Bem. Só é estranho ficar longe. Você tem comido direito? Não esquece das injeções."
>"Já fiz hoje de manhã. Tô me cuidando, pode ficar tranquilo."
E assim continuaram as conversas breves, Castiel sem suspeitar de nada. Lynn não via a hora de vê-lo entrar pela porta do apartamento novamente para poder compartilhar a notícia que mudaria tudo.
Até lá, ela seguraria esse segredo com toda a força que tinha – e com um sorriso que ela sabia que Castiel notaria assim que a visse.
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Os três dias pareceram uma eternidade, mas finalmente o momento estava chegando. Castiel estava voando de volta para casa, e Lynn já estava contando as horas. Ela tinha passado os últimos dias tentando segurar a empolgação, e agora que ele estava quase de volta, a ansiedade parecia pulsar em seu peito.
O telefone vibrou na mesa da sala, e o nome de Castiel apareceu na tela. Lynn pegou o aparelho com um sorriso que não conseguia conter.
"Oi, amor," ela atendeu, tentando soar casual, mas sua voz tinha um tom animado que ela não conseguiu esconder completamente.
"Ei, anjinha," ele respondeu, e Lynn pôde ouvir o barulho de fundo do avião. "Já estou voltando. Vou aterrissar em umas duas horas."
"Que bom! Estou ansiosa pra te ver," ela disse, sentindo o coração acelerar.
"Você tá com uma voz diferente," ele comentou, e Lynn mordeu o lábio. "O que tá rolando? Você parece... animada."
"Nada, ué," ela disse rapidamente, tentando mudar de assunto. "E o show? Foi tudo bem? A plateia tava animada?"
"Não vem com essa, Lynn," Castiel comentou, com um tom desconfiado. "O que aconteceu enquanto eu tava fora?"
"Nada demais," Lynn respondeu rápido demais, e ela sabia disso. Tentou corrigir o tom, fingindo desinteresse. "Quero dizer... eu fiz o que você disse. Saí um pouco, comprei umas coisas pra casa. Nada fora do comum."
"Certo..." ele disse, claramente não convencido. "Mas você tá diferente. Tá animada. Quase como se... você tivesse um segredo."
O coração de Lynn deu um salto, e ela tentou abafar uma risada nervosa. "Segredo? Que tipo de segredo eu teria?"
"É isso que eu tô tentando descobrir." Castiel parecia sorrir pelo tom descontraído. "Tem certeza que você não tá escondendo nada de mim, bebê?"
"Claro que não," Lynn respondeu, agora andando de um lado para o outro pela sala.
"Hum. Ok. Eu vou descobrir quando chegar."
Ela tentou mudar de assunto, perguntando sobre o voo e o show, mas Castiel não parecia disposto a esquecer tão fácil.
"Tudo bem, Lynn," ele disse, suspirando. "Seja lá o que for, eu vou arrancar isso de você quando pisar aí."
Lynn revirou os olhos, mesmo que estivesse sorrindo. "Tá bom, Sherlock. Boa sorte no voo, e me manda mensagem quando pousar, tá?"
"Pode deixar. Te vejo daqui a pouco, meu anjo. Te amo."
"Te amo também."
Quando desligou, Lynn soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. Era difícil esconder algo tão grande, especialmente de Castiel, que parecia ter um radar para quando algo estava fora do normal. Mas agora que ele estava a caminho, ela sabia que precisava se preparar para o momento especial que tinha planejado.
Ela correu até o quarto e pegou o teste de gravidez guardado na gaveta do criado-mudo. Depois, passou os próximos minutos pensando em como dar a notícia de forma criativa.
Finalmente, decidiu que queria algo simples, mas significativo. Pegou um pequeno par de sapatinhos de bebê que tinha comprado anos atrás, muito antes de sequer começarem a tentar ter um filho. Era uma lembrança de um desejo que ela sempre teve, e agora parecia o momento perfeito para usá-los.
Colocou os sapatinhos em uma caixinha de presente pequena e delicada. Ao lado, escreveu um bilhete:
"Parece que nossos esforços finalmente deram resultado. Estou tão feliz que nem sei por onde começar a te agradecer por estar ao meu lado esse tempo todo. Bem-vindo a casa, papai. Com amor, Lynn e bebê."
Depois de ajeitar a caixinha na mesa da sala, ela olhou ao redor, verificando se tudo estava em ordem. A ansiedade a fazia mexer em coisas desnecessárias, como alinhar as almofadas no sofá ou ajustar o vaso de flores na mesa de jantar.
Quando finalmente tudo parecia perfeito, ela se sentou e respirou fundo, tentando conter a emoção que ameaçava transbordar.
"Só mais algumas horas," disse para si mesma, sorrindo.
Castiel, por sua vez, estava sentado no avião, com os fones nos ouvidos, mas os pensamentos longe. Ele não conseguia deixar de pensar na conversa que teve com Lynn. Algo estava diferente, ele tinha certeza.
"Ela tá escondendo alguma coisa," murmurou para si mesmo, um sorriso aparecendo no canto dos lábios.
Seja lá o que fosse, ele não tinha dúvidas de que descobriria em breve.
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O som da chave girando na fechadura fez o coração de Lynn disparar. Ela estava na sala, andando de um lado para o outro como uma tempestade de nervos, mas parou imediatamente quando a porta se abriu.
"Cheguei," Castiel anunciou, empurrando a mala para dentro enquanto equilibrava o violão no outro braço. Ele ergueu o olhar e, ao ver Lynn parada no meio da sala com um sorriso enorme no rosto, soltou a bagagem no chão e abriu os braços. "Vem cá, sua louca."
Lynn correu até ele, jogando os braços ao redor de seu pescoço. O cheiro familiar dele, misturado com o aroma do aeroporto, a fez fechar os olhos por um momento, aproveitando a sensação reconfortante de tê-lo de volta.
"Eu senti tanto a sua falta," ela disse, a voz abafada contra o casaco dele.
"Nem parece que foram só três dias," ele brincou, passando a mão pelos cabelos dela.
"Três dias é muito tempo," Lynn respondeu, afastando-se para olhar para ele. "Você comeu? Tá cansado? Como foi o voo?"
"Calma, anjinha. Eu nem entrei direito ainda," ele disse, com um sorriso divertido. "Mas, sim, comi. E tô bem. Só tava morrendo de saudade de casa... e de você."
Lynn sentiu o coração apertar ao ouvir isso, mas tentou se controlar. Ela não podia estragar a surpresa agora.
"Bom, eu tô muito feliz que você tá de volta," ela disse, pegando a mão dele e puxando-o para dentro. "E, por falar nisso, eu tenho uma coisinha pra você."
Castiel arqueou uma sobrancelha enquanto fechava a porta com o pé. "Coisinha, é? Isso explica o bom humor suspeito que você tava no telefone?"
"Talvez," Lynn respondeu, piscando para ele enquanto o guiava até a mesa da sala.
Castiel olhou para a pequena caixa de presente que estava ali, com um laço simples, mas bem feito. Ele lançou um olhar para Lynn, claramente desconfiado. "O que você aprontou?"
"Só abre," ela disse, cruzando os braços e mordendo o lábio para conter as lágrimas que já começavam a se formar.
Castiel puxou o laço e abriu a tampa da caixa com cuidado. Assim que viu os sapatinhos de bebê dentro, ele parou. Por um momento, ficou completamente imóvel, seus olhos se fixando no presente enquanto processava o que estava vendo.
"É sério?" ele perguntou, a voz baixa, quase um sussurro.
Lynn assentiu, sentindo as lágrimas escorrerem pelo rosto. Ela tentou falar, mas a emoção tornou impossível.
Castiel pegou os sapatinhos e os segurou na palma da mão, como se fossem a coisa mais preciosa do mundo. Ele então olhou para o bilhete e leu as palavras com atenção. Quando terminou, seus olhos estavam brilhando, e um sorriso lento e incrédulo se formou em seu rosto.
"Você tá brincando comigo?" ele perguntou, levantando o olhar para Lynn.
"Eu não tô brincando," ela conseguiu dizer, com a voz embargada.
Ele ficou em silêncio por um momento, antes de largar os sapatinhos cuidadosamente na mesa e dar dois passos rápidos para abraçá-la. O impacto foi tão forte que Lynn soltou uma risada entre as lágrimas enquanto ele a envolvia completamente nos braços.
"Eu não acredito," ele murmurou, escondendo o rosto no ombro dela. "Depois de tudo isso... finalmente."
Lynn acariciou os cabelos dele, sentindo o peso de todas as emoções acumuladas nos últimos meses finalmente se dissipar. "Finalmente," ela repetiu.
Castiel se afastou apenas o suficiente para olhar para ela, segurando o rosto dela com ambas as mãos. "Eu nem sei o que dizer," ele admitiu, com um sorriso que era uma mistura de felicidade e incredulidade.
"Só diz que tá feliz," Lynn respondeu, rindo suavemente.
"Feliz?" ele repetiu, balançando a cabeça. "Feliz não chega nem perto do que eu tô sentindo agora."
Ele a beijou com intensidade, como se quisesse colocar todas as palavras que não conseguia dizer naquele gesto. Quando se separaram, ele ainda a segurava firme, como se tivesse medo de que tudo fosse um sonho.
"Isso merece uma comemoração," ele disse, finalmente soltando-a. "E não me venha com desculpas. Hoje você quem decide a comemoração, porque, tecnicamente, você tá carregando algo muito mais importante do que eu agora."
Lynn revirou os olhos, mas riu, sentindo-se completamente feliz pela primeira vez em muito tempo.
