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Sebastian Vettel bebericou seu chá fumegante, o cheiro de morango e baunilha e mel acariciavam seu nariz e a xícara aquecia os dedos frios e os músculos repuxados e endurecidos. Seu olhar divagava, através da janela, no laranja outonal do quintal da casa, nas folhas ressecadas que caiam e se amontoavam em diversas pilhas, enquanto sentia a mente falhar.
Com o passar dos dias, lembrar-se tinha se tornado difícil: móveis, itens, qualquer pequeno e simples objeto da casa tinha um post-it colado, com o nome referido escrito com caligrafia bonita do marido.
No auge dos 32 anos, os primeiros sintomas tinham aparecido. Perder-se no tempo, esquecer-se de coisas básicas e diárias, até que o azul-gélido dos olhos do marido começou a não fazer sentido, a não ser reconhecido em lapsos de momento.
Fora questão de meses para que a doença progredisse com velocidade assustadora, arrancando-os do mundo adocicado em que viviam.
Kimi se tornou mais presente, atencioso em cada detalhe, lembrando Seb sempre que ele esquecia de algo ou quando suas pernas não queriam mais se mover como deveriam, ele estava lá.
Foi assustador no início, saber e sentir que estava se perdendo em uma espiral sem volta, onde as memórias estilhaçavam como um vidro frágil e tudo que importava...deixava de importar.
Sebastian ouviu o ranger do assoalho de madeira da biblioteca, olhou por cima dos ombros − o movimento fazendo o pescoço rígido doer −, quando um soluço assustado, terrível, zarpou pelos lábios, e seus adoráveis olhos claros aumentaram de tamanho. A xícara rolou por seu colo, molhando suas roupas, bateu no chão e espalhou cacos por todo lado.
Tinha um estranho em sua casa, encarando-o.
— Sebastian! — O homem chamou alguém, o tom era baixo e rouco contra seus ouvidos.
— Não, não, vá embora, essa é a minha casa! — Gorgolejou cada palavra, duras demais contra a língua.
— Seb, sou eu, Kimi, olha — Respondeu, ainda no mesmo lugar, uma das mãos erguidas, palma para cima, a outra agarrava o crachá que pendia do pescoço. — Olha, somos nós, amor.
Sebastian direcionou os olhos para a fotografia que adornava o crachá. Dois homens sorridentes, abraçados, vestindo ternos escuros com flores na lapela.
O nome “Kimi-Matias Räikkönen Vettel” brilhava em letras escuras e grandes logo acima.
— Oh, Kimi — O nome dançou pela boca de Vettel, doce e salgada contra a língua, uma delicadeza exaustiva quando a lembrança retornou. — Kimi, Kimi, meu Kimi?
— Sim, seu Kimi, Seb.
— Eu...esqueci...de você. Eu esqueci. — Um sorriso triste repuxou seus lábios trêmulos e ressecados quando Räikkönen se aproximou com passos rápidos, desviando de cada caco de porcelana no piso, e tomando Sebastian nos braços, despejando beijos suaves em sua têmpora.
— Já passou, estou aqui.
