Chapter Text
Selvarien era uma terra viva — vibrante, quente e, ao mesmo tempo, suave. Sempre foi considerada o lugar da espiritualidade, o ponto de reencontro com a própria essência. Qualquer um que a visitasse e sentisse sua terra e o sopro do vento suave saía de lá com a esperança renovada.
Ali, os dons borbulhavam. Brotavam como sementes férteis, cresciam fortes como os troncos das grandes árvores de Selvarien, manifestando-se com clareza e intensidade.
Foi nessa terra fértil, considerada o coração de Elarion, que a Casa Esperança foi fundada, no ano de 1118. Sua fundadora foi uma curandeira renomada, cujo nome até o vento sussurra — todos em Selvarien já ouviram falar dela. Seu nome? Aurenia Elenaleth. Uma mulher gentil e, ao mesmo tempo, inabalável.
Aurenia acreditava que Elarion precisava de um lugar onde crianças com dons — ou mesmo aquelas rejeitadas por suas famílias, órfãs ou perdidas — pudessem encontrar abrigo. Um lar. E assim nasceu a Casa Esperança: um refúgio regado por cura e recomeço, onde a esperança floresceu de geração em geração.
O que ninguém parecia imaginar era que as coisas mudariam para a Casa Esperança. Vou contar para vocês:
Era uma vez, em 1480, uma mulher em trabalho de parto. Suava e respirava ofegante na sua cama, assistida pelas curandeiras e parteiras. Horas se passaram e, após muitas trocas de água, nasceu Elenya. Seu nascimento foi especial: flores vibraram em cores e perfumes, surgindo pelas pilastras da casa e no quarto onde ela veio ao mundo — flores de todos os tipos e tons. Um vento suave percorreu a casa, carregando o perfume das flores. Todos ficaram maravilhados. As crianças não sabiam para onde olhar; corriam rindo de pilastra em pilastra para admirar as flores.
— Seu nome será Elenya… “Aquela que nasce com a luz das estrelas” — disse sua mãe enquanto olhava para o cabelo prateado da menina, brilhando como a luz das próprias estrelas.
Foi nesse momento que o pai dela chegou. Tharen se surpreendeu ao ver flores por todos os lados. Uma das crianças notou seu espanto e disse:
— Senhor Tharen, bem-vindo de volta.
— Obrigado, querida — respondeu ele, acariciando os cabelos dela. — Você pode me dizer o que aconteceu?
— O bebê nasceu, e a casa floresceu.
O coração de Tharen se encheu de emoções que nem sabia como expressar. Os olhos se encheram de lágrimas e, com a voz rouca, respondeu:
— Obrigado. Com licença.
Sem esperar resposta, cortou caminho para o quarto, tomando cuidado para não esbarrar em nenhuma criança. Ao entrar, viu sua esposa recostada na cama. Ela já havia se lavado, assim como a pequena Elenya. Ele permaneceu na porta, recuperando o fôlego, e então entrou.
Quando pegou a filha no colo, entendeu tudo o que havia acontecido.
— Qual o nome dela?
— Elenya.
— Perfeito... Minha filha, você será forte, corajosa, mas também gentil e compassiva. Será o pilar desta casa e guiará as crianças pelo melhor caminho — disse, beijando a cabeça da menina, selando suas palavras.
— Eu escreverei tudo o que sei em diários para ela, para quando estiver pronta — disse a esposa, recostando a cabeça no ombro dele e olhando para a filha.
— Ideia excelente. Eu também farei isso.
E Elenya crescia como seus pais esperavam: forte, mas gentil. Nunca se colocava acima das crianças, sempre orientando e brincando. Assim, com sua bondade, conquistou o respeito de todos.
O que Elenya não esperava era que, aos sete anos, seu pai falecesse. Ele era seu amigo, seu conselheiro, o homem que lia histórias incríveis para fazê-la dormir. Ela sempre o admirou. Em tão pouco tempo, ele lhe ensinará tanto — mas ela sentia que poderia ter aprendido ainda mais, só por tê-lo perto.
Depois do enterro, voltou devagar. Ao olhar para a casa, percebeu que as cores das flores estavam mais opacas.
“A casa já sente sua falta, pai”, pensou, melancólica.
Entrou, silenciosa, e atravessou os corredores sem ver ninguém. Parou diante da porta do escritório dele. Entrou, sentou-se na cadeira diante da mesa e chorou mais uma vez.
— O que eu faço agora, pai?... Eu sou só o seu brotinho — disse, olhando para a cadeira como quem espera por uma resposta.
Foi assim que sua mãe a encontrou. Uma criança de quatro anos, Dênili, veio timidamente, segurando a barra do vestido.
— Você quer falar com ela, querida? — perguntou a mãe, ajoelhando-se ao lado da pequena.
— Sim.
— Então vá.
Dênili entrou, parou diante de Elenya, que então a percebeu.
— Oi, Dên... o que houve?
— Eu estou com medo.
Ela olhava para baixo, ainda apertando a barra da saia.
— Medo de quê?
— O senhor Tharen se foi... E se você for embora também? Eu não quero isso — disse, com a sinceridade de um coração pequeno e puro.
Elenya enxugou as lágrimas e segurou sua mão.
— Eu não vou embora. Vou ficar aqui com vocês e com a mamãe.
— Sério?
— Pelo menos até ficar um pouco maior e ir para a escola... Mas até lá, vou estar aqui.
— Obrigada — disse Dênili com um sorriso discreto.
— Vamos.
Ao sair, Elenya olhou para trás e murmurou:
— Obrigada, pai.
Sua mãe a esperava em silêncio. Colocou a mão em seu ombro e saiu com ela e com a menina. Mesmo com o coração doendo, Elenya caminhava ao lado da mãe e de Dên, sem imaginar que um dia precisaria proteger aquela casa com tudo o que ainda lhe restava: força... e fé.
Anos se passaram. Ela crescia em beleza, força e gentileza — como o jardim que tanto amava cuidar. Suas raízes eram profundas, e foi nelas que encontrou a dedicação para ouvir e atender as crianças. Mas nem mesmo alguém atento e prudente poderia prever o que viria. Porque há dores que vão além da perda: há a dor da quebra de confiança. E foi assim que ele chegou.
Ninguém sabia ao certo quem ele era, nem quais eram suas verdadeiras intenções. E ninguém poderia prever o caos que traria.
Ele apareceu com gentilezas e uma inocência cuidadosamente construída. Era estudioso, dedicado, aprendiz de runas e sempre disposto a ajudar na restauração da casa e dos Orbes, que enfraqueciam lentamente. Elenya, movida pela compaixão e pela esperança que tentava renascer após mais uma perda, o acolheu.
Durante um tempo, seu comportamento foi exemplar. Prestativo, carismático, parecia amar as crianças. Quase parte da casa. Mas... a casa não confiava nele.
E como toda máscara que um dia resseca, a dele começou a rachar — fenda por fenda. Como erva daninha que se infiltra entre as flores, ele foi sufocando a luz ao redor. Runas desconhecidas começaram a surgir. Crianças passaram a ter pesadelos. E os Orbes… silenciaram.
Foi rápido. Brutal. Cruel.
Quando Elenya percebeu que algo estava errado, já era tarde.
Kael havia tentado forçar os Orbes — corrompendo-os para extrair um poder que só respondia à pureza.
A casa sobreviveu, mas se fechou.
Silenciou para proteger as crianças. Para preservar a essência da esperança.
Ela calou sua voz, ergueu sua luz apenas por dentro e permaneceu ali — pulsando, viva, esperando... como quem sabia que algo novo viria.
E nesse silêncio, Elenya cresceu.
Havia uma beleza nela que não pedia licença para existir.
Seus cabelos, prateados como se carregassem poeira das estrelas, caíam em ondas pelas costas. Sua pele clara guardava discretas sardas sobre as maçãs do rosto.
E os olhos… ah, os olhos.
Verde antigo. Olhos que já haviam visto alegrias e dores, mas que ainda carregavam promessas e recomeços.
A calma depois da tempestade.
Ela caminhava pelos corredores com a postura de quem aprendeu a ser forte, reparando o que podia, ano após ano. Mesmo com a casa vazia, sua presença era como um cobertor quente em um dia de inverno.
Mas dentro dela havia também um núcleo de ferro — pura força — reservada para os momentos em que as crianças estivessem em perigo.
Nesses momentos, seu olhar mudava. E era possível entender por que até mesmo alguns mestres de Selvarien lhe deviam respeito.
Ela era força.
Ela era abrigo.
Ela era sinônimo de... lar.
E foi nesse cenário de silêncio que ele apareceu.
Diante do portão que não se abria há anos, estava uma criança.
Roupas simples. Uma mochila pequena nas costas. Sandálias rasteiras nos pés cobertos de poeira, pés de quem andou muito para chegar até ali. Tinha um olhar puro, mas conhecedor. Como quem já havia visto mais do que devia, mas ainda assim… acreditava.
Respirou fundo, estendeu a mão e tocou o portão.
Ele se abriu.
E os Orbes… vibraram.
