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O tempo é o tipo do sujeito que adora mudar tudo

Summary:

"Amaldiçoado seja o dia em que fui entregar pizzas para um bando de adolescentes bêbados e acabei sendo convidado a me juntar a eles depois de soltar espontaneamente que era minha última entrega da noite… Abençoado, na verdade. Mas agora, completamente amaldiçoado. Muito."

Chapter 1: Ⅰ

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text


 

“Eu não vou largar duas semanas de trabalho só porque você 'tá sendo cancelado, cara. Me esquece.”

É domingo e, finalmente, o tempo está bom. O sol brilhando forte, mas passando timidamente pelo vitrô do banheiro, esquentando a pele de quem está curtindo o dia nas ruas. Até a brisa parece mais leve, dando aquele toque de frescor. 

Tudo mais tranquilo.

“Por favor”, o motivo de sua dor de cabeça atual choraminga. “São só duas semaninhas! Pega um atestado ou fala que algum parente morreu, sei lá!”

Ou quase tudo.

“'Tá fácil desse jeito.” Mike bufa. “Você nunca teve que trabalhar na vida mesmo, para não saber que ninguém liga se você está com o pé na cova ou se algum conhecido está na cova”, diz, limpando a mistura do descolorante que Jorel deixou escorrer para sua testa.

Ele deveria saber que seu amigo playboy não se disporia, de bom grado, a sair de sua mansão feita de ouro para vir até seu humilde apartamento ajudá-lo a retocar o cabelo por saudade ou algo bobo assim. Não, claro que não. Mike deveria saber que o pirralho (dois anos mais novo que ele) queria algo.

“Eu já fui CLT! E esse não é o ponto. Estão me linchado na internet por ter acabado com o show mais cedo ao invadir o palco! Ninguém se importa que acabei quebrando o braço!”, Jorel reclama, fazendo beicinho. “Jorge 'tá puto da vida comigo, e meus pais estão ameaçando me deserdar pela 'humilhação nacional' que eles estão passando pelo meu 'comportamento indisciplinado'.”

Mike encontra o olhar do amigo pelo espelho – pequeno e sujo, tão ridiculamente baixo que seria um incômodo se ele ou Jorel fossem altos. Suas sobrancelhas se franzem com o pensamento, e ele vê o outro fazendo uma careta ofendida para ele: “Estou pensando em outra coisa, idiota”, ele fala por e para o reflexo. “E faz o seu suborno direito, 'tô sentido que perto da orelha nem tem produto direito.”

“Não é suborno”, Jorel resmunga, mas aplica mais descolorante. “E você ouviu o que eu disse? Preciso mesmo fazer algo para contornar essa situação. Não parece tão ruim para quem é fora, mas—”

“Não. Parece ruim sim. Tem notícia sobre isso até na GR8, cara.”

“Mike, eu tô falando sério.”

“Eu também.”

Os dois têm uma competição nada séria de encarar, desafiando um ao outro a ser o primeiro a ceder, a piscar. O tempo parece esticar enquanto esperam pela falha do outro, até que, de repente, Mike percebe uma nova presença à porta pelo espelho. Um corpo alto encostado no batente, quase imperceptível, vestido completamente de preto, com os braços tatuados cruzados no peito. 

“Os idiotas já terminaram? Eu tenho que deixar sua bunda infantil em casa antes de voltar para o necrotério, Jorel”, Leandro diz, o tom tedioso como sempre.

Jorel se vira de relance ao ouvir o outro homem: “Eu 'tô tentando convencer o Mike ainda, aguenta aí que—”

“Me diz. Para que você vai tirar todos nós do trabalho para passar duas semanas em um acampamento fuleiro no meio do Paraná?”, Leandro interrompe, a ponta de hostilidade surgindo em sua voz como sempre acontece quando a pessoa com quem ele se dirige não é Lila e, ocasionalmente, Ricardo. “Tenho certeza que a Nathalia e a Lila bastariam para sua desculpa patética de ideia de apaziguação. Não sei porque a Melissa e a Shanyqua aceitaram ir, elas mal suportam você em um dia bom. E a Ayla, Breno e o Ricardo são legais demais para não te ajudarem na merda que 'cê fez com sua imagem pública.”

 

 

“De graça, maluco. 'Que é isso…”

“Você aceitou ir ao 'acampamento fuleiro'”, Jorel começa, zombando. “Além, é claro, de me trazer aqui sem eu precisar insistir muito”, continua, mas Mike é o único que percebe o quanto aquele comentário realmente desagradou o mais novo. Enquanto arruma o cabelo de Mike, Jorel puxa a franja com mais força do que o necessário, a irritação claramente disfarçada em seu gesto. O pincel com descolorante quase acaba indo parar em seu olho devido ao movimento impaciente de Jorel.

 “Presta atenção, seu porra—”

“Não começa a se achar, baixinho. Você teve sorte de estar junto da Lila na hora em que fui buscá-la. Se ela não tivesse insistido, teria te largado naquele meio fio”, Leandro recomeça, como se Mike não estivesse ali.

“Estou recebendo ameaças de morte! Como você teria coragem de largar um homem indefeso – com o braço quebrado – no meio do nada!” É dramático, assim como tudo em uma ex-criança de teatro é.

“Você”, Leandro diz com desdém, “é irritante. Uma criança.”

Mike não pode discordar.

“Temos quase a mesma idade, que droga!” Mas aparentemente, Jorel pode.

“Há uma diferença muito grande de maturidade em seis anos.”

“E, no entanto, você continua discutindo comigo—”

Mike suspira, é sempre a mesma merda de discussão.

Tudo começou no início do ano, mais precisamente no primeiro dia, quando Nathalia apresentou Jorel ao grupo. Era a primeira data comemorativa que todos os dez passavam juntos e ninguém esperava a chegada de mais um convidado. Claro, Jorge é irmão de Jorel, então alguns dos membros já sabiam da existência do adolescente, que, ocasionalmente, era visto na companhia de seu irmão e da amiga. No entanto, tudo mudou no Réveillon, onde Nathalia fez um pedido inesperado: que Jorel fosse incluído no grupo, já que ele completaria dezenove anos naquele ano, o que tornaria a diferença de idade menos notável e permitiria que se integrasse com mais facilidade aos outros.

Os Dez (Ayla, Breno, Jorge, Leandro, Lila, Melissa, Nathalia, Ricardo, Shanyqua e ele), nunca foram conhecidos por serem os amigos mais discretos ou harmoniosos. Suas relações eram marcadas por discussões frequentes e, muitas vezes, bobas. Havia a rivalidade esportiva (unilateral) constante entre Breno e Ricardo, a desinteligência ocasional de Melissa e Shanyqua, e o conflito de Jorge e Leandro com a maioria do grupo. Contudo, suas brigas nunca eram realmente graves. O período mais longo em que um deles ficou sem se falar com o resto do grupo durou apenas um mês e mesmo nesse caso, houve um pedido de desculpas coletivo, apesar de o conflito não ter envolvido todos os membros. Essas desavenças, embora frequentes, nunca chegavam a romper o laço que os unia, refletindo a natureza peculiar e, de certa forma, resiliente da amizade entre eles.

Mas… esses dois – essas pragas –, não se dão bem de jeito nenhum. Eles sempre estão discutindo. 

Sempre. 

Apesar das divergências, Jorel conversa e sai com todos os membros do grupo, incluindo Leandro, mesmo com as tensões que existem entre eles. E, de certa forma, Leandro segue cumprindo um papel extra de "cuidar" do outro homem, qualquer que seja a necessidade, algo que se tornou quase um hábito. Isso acontece com frequência, já que alguém sempre delega essa responsabilidade para Leandro, sem avisar nem a ele nem a Jorel que a missão é dele (ajuda que ele também é o segundo mais velho, o que tem um trabalho fixo, o único com carteira e um carro).

Jorel, por sua natureza, não é do tipo que participa das brigas com tanta emoção, e Mike entende que isso se deve mais ao seu desejo de agradar a todos do que a uma questão de educação. Na verdade, o que parece é mais um despeito disfarçado, uma atitude brincalhona que só serve para acirrar o mau humor constante de Leandro com o mundo.

Embora o grupo tenha se expandido para os onze, Mike sente que, na verdade, alguns dos membros, como Leandro, Melissa, Shanyqua, e até mesmo Jorge, prefeririam que as coisas tivessem permanecido com os dez originais. Há uma sensação persistente de que a dinâmica da amizade, antes mais coesa, ficou um pouco mais… bosta com a chegada de Jorel.

E ele não tem ideia do porquê, já que para Mike, pelo menos, Jorel é um cara bacaninha – um babaca subornador, mas gente fina.

Porém, nem isso é mais importante que sua paz de espírito. Ainda mais dentro de casa – sua casa.

“Ó, vão embora. Acabou. Estragaram meu 2022, meu final de semana, minha primeira folga em três meses. Sumam! Eu nem convidei vocês para vir aqui.” Ele se levanta do banquinho de plástico em que estava sentado e quase cai quando a porcaria desliza no piso.

(Ele fica um pouco constrangido pela forma que está vestido agora que está de pé, mas acredita que disfarça bem sua vergonha. A camisa que está usando é de "fazer merda no cabelo" – como ele chama carinhosamente –, ela é velha e está toda manchada. Mike tem sorte dela ser grande, porque ele não se incomodou de colocar nenhum short por baixo… Dado que estou na porra da minha própria casa, qual não chamei ninguém!)

Jorel o segura, não soltando onde sua mão do braço "não-quebrado" se prende no ombro de Mike. Anos de atuação garantem que a forma como a expressão cínica dele derrete para algo amável em questão de segundos não seja assustadora, mas sim um tanto admirável: “Desculpa, amigo. Pensa com carinho na proposta, 'tá? Lembra que a viagem é por minha conta e se algo der errado na pizzaria, eu pago sua faculdade até você arrumar outro emprego!”

Oi?

Mike nunca se acovardou diante de um desafio ou oportunidade em toda a sua vida. Quando pequeno, sempre foi daquelas crianças que cheiravam pó de suco e comiam giz ou lápis para juntar uns trocados no intervalo das aulas. E, sinceramente, talvez ele ainda faria isso se surgisse a chance. Não era algo do qual se orgulhasse, mas… Olha, não é que ele esteja passando necessidades – porque hoje em dia as coisas estão bem para ele! Mas, convenhamos, dinheiro é dinheiro e uma viagem com os amigos – ainda mais quando quem paga é outra pessoa – é, sem dúvida, uma viagem com os amigos. 

Simples assim.

Quanto ao Jorel, ele chegou a dizer que ele tem um talento real para subornos? Não? Pois é, parece que sim – o cara sabe exatamente o que está fazendo. 

Esse playboyzinho alternativo, twink desgraçado, atorzinho mixuruca que nem faz mais sucesso—

Mike não tem oportunidade de dar uma resposta real para Jorel porque Leandro agarra o pulso do garoto e o puxa para fora do banheiro. Xingamentos são lançados no ar durante todo o processo, até a porta de entrada, que se fecha com força quando os dois saem.

… Mike provavelmente se desconectou por alguns segundos e perdeu algo importante. Mas acontece, não se pode prestar atenção em tudo.

De repente, uma cabeleira roxa se faz presente na porta, íris verdes o encarando de forma apologética: “Eu também vou indo então. Até mais, Mike! Deixei uma amazonita na bancada da cozinha para você. Tchau!”, Lila – que estava ali desde o começo – se despede às pressas, a porta mal fazendo barulho quando ela saí.

 

 

Com toda a calma do mundo, Mike volta ao trabalho que havia sido abruptamente interrompido por Jorel, Leandro e Lila invadindo sua casa. Pegando o pincel que estava largado na pia, ele recomeça a retocar a metade loira de seu cabelo. Enquanto isso, o pote de manteiga que ele improvisou como recipiente para o descolorante acaba tombando, fazendo um pouco do produto escorrer para dentro da pia. Com um movimento ágil, ele o ergue rapidamente e resgata a mistura de volta para dentro do pote.

Deus é mais. Pó descolorante 'tá quase valendo meu rim, agora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Amaldiçoado seja o dia em que fui entregar pizzas para um bando de adolescentes bêbados e acabei sendo convidado a me juntar a eles depois de soltar espontaneamente que era minha última entrega da noite… Abençoado, na verdade. Mas agora, completamente amaldiçoado.

Muito.

 


 

“Basicamente, vai ser um vídeo para mostrar que eu continuo sendo um ser humano decente que não merece ser apedrejado quando saí de casa. Quando eu digo apedrejado, quero dizer que camisas da minha banda favorita estão sendo jogadas em mim – encharcadas de urina.”

“O que—”

“Que porra—”

“Puta que pariu—”

“Mas que caralho, Jorel—”

“Sim, amigos. Além das ameaças de morte, mas isso é natural. Acontece desde quando eu era criança, então isso não é tão importante quanto fluidos corporais de estranhos sendo jogados em mim e, foco, no meu braço quebrado.” Jorel acena desapaixonado para seu braço engessado, cheio de desenhos e assinaturas.

“E estaria tudo bem se não fosse de um estranho?”

“O que—”

“Que porra—”

“Puta que pariu—”

“Mas que caralho, Leandro—”

“Eu diria que depende mais do… tipo de fluido corporal, no caso”, Jorel responde, dando uma piscadela.

“O que—”

“Que porra—”

“Puta que pariu—”

“Mas que—”

Mike se levanta de seu assento na van, deixando seu boné cair pela ação abrupta: “Chega! Puta que pariu, meu deus!”, ele grita, depois de permanecer calado a viagem toda. “Já entendemos o propósito do convite e que você quer dar pro emo, Jorel! Agora cala a boca e deixa que o resto da viagem siga em silêncio!”

“Olha quem finalmente acordou. Pensei que você tivesse morrido de intoxicação alimentar”, Nathalia diz sem graça, se levantando um pouco no assento para poder olhá-lo.

“Pensei que uns dias fora de uma cozinha fedendo a gordura faria bem para o seu humor, mas você continua insuportável, garoto”, comenta Melissa de mau humor.

Mike estava usando os três últimos assentos da van como cama até perder a linha, então tudo que ele vê de suas queridíssimas amigas, são as pernas longas de Melissa que estão balançando para fora do terceiro banco, uma fileira à frente da sua; Ayla está no assento ao lado da janela, enquanto a loira usa a outra garota de apoio para cabeça, para esticar o restante do corpo para fora. E claro, ele pode ver Nathalia na primeira fileira, de joelhos no banco enquanto apoia os braços no encosto, Shanyqua no assento do meio e então Lila, à janela.

“… Parem de pensar. 'Tão fazendo isso errado.”

“Ninguém aqui tem culpa que você tá tão frustrado sexualmente que qualquer tipo de interação parece um pedido para transar”, murmura Leandro.

“Gente, não vamos discutir. Essa conversa não é relevante e muito menos conta de algum de nós”, Ayla tenta apaziguar. “Mike está apenas cansado, sabemos que o trabalho tem cobrado muito dele—”

Mike poderia beijar, platonicamente, Ayla pela eternidade.

“Eu trabalho com atendimento ao público e nem por isso vivo falando tanta merda quanto esse esquisitão!”, Shanyqua grita. 

Mike poderia bater, fraternalmente, em Shanyqua pela eternidade.

“É como minha vó sempre diz, 'saco vazio não para em pé'” Breno acrescenta, de seu lugar como motorista.

“… Acho que isso é sobre comida”, Ricardo diz.

“É o que ele tá precisando ser—”, Shanyqua mal termina de falar para todos estarem gritando e rindo por cima, o pequeno espaço da van se tornando um pandemônio.

Mike pisca.

Só pode ser castigo uma coisa dessas, ele pensa, antes de cair para o sono novamente – se é que é possível dormir agora.

 

Notes:

Eu não tenho ideia do que tô fazendo. Deixando os capítulos em aberto pq escrevi isso como descontração, apenas.