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Onde os cães andam

Summary:

Eles se encontram quando menos esperam — e talvez o acaso, ou o cachorro certo, saiba exatamente o momento em que dois corações precisam de colo.

Entre petiscos, truques e uma perna de ferro, Sirius começa a perceber que talvez ainda haja espaço para novas conexões — mesmo quando a vida insiste em deixá-lo hesitante.

Chapter 1: O Golden Preto

Summary:

Era sábado e Sirius levou seu cão para um passeio no parque.

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

“Uau!” gritou uma voz fina de criança ao lado de Sirius “Ele é um GOLDEN RETRIEVER PRETO!” 

Sirius tirou os olhos do arquivo que estava lendo e viu um garotinho ofegante com as bochechas vermelhas e olhos arregalados em frente ao seu cão , Feijoada , que brincava distraidamente com seu mordedor. 

Sirius normalmente se sentava em um lugar mais isolado do parque, Feijoada não era um cão desobediente, mas se quisesse correr nessa área ele poderia sem colocar medo em pais desavisados — afinal, ele tinha 26 kg de pura excitação. 

“Bem, na verdade ele é um flat coated retriever, mas golden preto também serve.” Sirius  respondeu sorrindo para o garoto que ainda estava encantado. “O nome dele é Feijoada.” Ele fala o nome devagar para que o pequeno entenda.

“Féi-jyo-adá?” Repetiu. “O que é isso?”

“É o nome de uma comida, o nome dele quase foi brócolis,” Sirius arregalou os olhos de forma engraçada “Ele comeu um pé inteiro de brócolis quando era filhote, mas acho que Feijoada ficou mais legal, não é?!” ele passa a mão na cabeça do cachorro e vê a criança concordar.

“Ele é tão lindo e grande! Posso fazer carinho?” o pequeno recém chegado perguntou, pulando de um pé para o outro. “Ele não morde?”

Normalmente as crianças não pediam para fazer carinho só ficavam olhando, porém esse menino estava entusiasmado e também sozinho. Ele passou os olhos ao redor, mas não havia nenhum pai ou mãe vindo em direção a eles.

“Ele não morde, mas primeiro precisamos da autorização da sua mãe. Onde ela está?” ele não queria ser repreendido novamente por algum pai desatento que não gostava de cães grandes perto de suas crianças. Semana passada uma mãe gritou, só por ele ter abanando o rabo próximo ao carrinho de bebê — QUE ELA — trouxe para perto de onde estavam.

“Eu não tenho mãe, só o meu papai, ele está vindo dali” apontou para a trilha à esquerda no parque. 

E como se fosse um chamado, apareceu um homem meio andando, meio correndo com uma bengala e possivelmente irritado. 

“Teddy, o que eu já disse sobre correr na frente? Eu não consigo te acompanhar assim.” o pai da criança falou severamente. “Eu não gosto quando você faz isso, vamos ter que conversar de novo.” ele diminuiu os passos quando foi se aproximando dos três. 

“Desculpa, papai.” disse a criança olhando para os pés. Sirius observou o olhar culpado no rosto da criança se transformando em hesitação. “Mas é um golden retriever PRETO!” Teddy, como o adulto declarou, começou a pular novamente em direção ao pai. “O moço disse que eu preciso perguntar para o senhor se posso passar a mão em féjuadá ” ele pronunciou o nome do cachorro com sotaque tão fofo que Sirius riu, fazendo o homem virar para ele. 

“Desculpe, ele é meio agitado” 

Sirius encarou o homem que tinha os olhos cor de âmbar, uma cicatriz que passava na lateral da bochecha até o maxilar, a boca em um sorriso de canto, mão na nuca e a pele bronzeada brilhando no sol. 

O suéter de tricot estava desfiado nas mangas e a bengala com adesivos de cachorros, gatos e coelhos. 

E talvez ele estivesse encarando mais do que o necessário.

“Sem problemas?” sua voz saiu e parecia mais uma pergunta que uma afirmação.

“Então papai, posso fazer carinho? É um golden e é PRETO?” Teddy exclamou pulando e apontando para Feijoada. Ele para por um momento “Achei que não existissem deles preto.” seus olhos estavam arregalados e ele olhava de um adulto para o outro.

“Certo, er...” ele olhou diretamente nos olhos de Sirius para ter certeza que era permitido. Sirius assentiu. “Pode fazer carinho filho. E não existem, ele não é um golden, ele é só parecido.”

“Que maneiro.” o pequeno se virou para o cachorro.

A essa hora o brinquedo de mastigar já havia sido esquecido na grama e o cão já estava observando o garoto agitado com um leve abanar em sua cauda. Apesar da intensa animação, o garoto ofereceu primeiro a mão para cheirar e quando Feijoada se levantou e agitou o rabo completamente, a criança afagou sua cabeça e ofereceu a outra mão para ele lamber. 

Sirius observou Teddy animadamente se ajoelhar e Feijoada pular em volta, antes de começar a lamber seu rosto ou o que estivesse a seu alcance. O pai da criança olhava a brincadeira com um sorriso no rosto. 

“Ele adora labrador e goldens no geral. Mas um flat coated retriever é a primeira vez que ele vê. Com licença.” disse o homem indo se sentar ao lado de Sirius no banco.

Sirius acenou com a mão em direção ao banco, o outro apoiou a bengala na lateral do banco para que ela não caísse. “Acho que você é a primeira pessoa que sabe a raça do Feijoada.” sorriu encantado. “Sirius.” estendeu a mão em comprimento.

“A estrela mais brilhante.” sorriu com os cantos dos olhos se enrugando e apertou sua mão por alguns segundos a mais. “Aquele é Edward, Teddy.” Apontou. “Sou Remus, além de veterinário, sou um grande apreciador de labradores, consequentemente fazendo Teddy gostar também.”

“Poucas pessoas sabem sobre a estrela também.” sorriu impressionado. “Sou advogado,” ele levanta a pasta em sua mão “Estou aqui para que Feijoada possa correr um pouco, ele fica entediado no escritório às vezes.” 

“Acho que ele está se divertindo.” voltando o olhar para Sirius ele sorri, “Preciso perguntar, que tipo de nome é Féi-féiju-ya-da?” Remus dá uma gargalhada tentando pronunciar o nome do cão. 

Sirius riu, encantado com o cara na sua frente, é tão divertido e suave que ele tem vontade de tocar. 

“Ah sim, ele adora crianças, mas os pais aqui no parque parecem detestar cachorros grandes.” ele fala gesticulando para uma área distante com mais pessoas e guardando a pasta em sua maleta de couro em seguida. “Já me xingaram bastante por não ter colocado uma focinheira em meu cachorro gigante e raivoso.”

Eles observam Feijoada correr e rolar no chão verde enquanto fazia Teddy rir e correr atrás.

“Raivoso?” Remus questiona com uma careta divertida. “Acho que estamos vendo animais diferentes.”

“Feijoada mal late” ele ri. “Mas ficam com medo por ele ser grande.”

“Besteira.” balança com a cabeça.

“Sobre o nome. É Fei-jo-a-da.” Ele falou as sílabas separadamente para que Remus pudesse entender. “É uma comida típica do Brasil com carne de porco e feijão preto. Tenho um amigo brasileiro e quando a mãe dele vem visitar, ela sempre faz para comermos.” Ele coloca as pontas dos dedos na boca e beija “É uma delícia.”

“Féijuada.” Ele tenta. “Nunca experimentei comida brasileira. Deve ser bom!” 

A conversa entre eles fluiu naturalmente, indo de raças de cães de grande porte até a diferentes tipos de comportamento das raças pequenas, aproveitaram a tarde de quarta feira ensolarada e a brisa fresca passando pelas árvores do parque, as risadas de Teddy, os resmungos e latidos de Feijoada. Teddy também veio pegar petiscos com Remus, que sempre tinha alguns no bolso, para treinar truques com o cão.

 

“Papai! Olha o que ensinei para o Féjuada.” gritou Teddy depois de um tempo, enquanto corria em direção ao banco. “Vejam.” 

Nesse momento Teddy pediu para Feijoada sentar e rolar, o que o cachorro fez de bom grado e depois ganhou um petisco. Mas esse já era um truque que Sirius ensinou a ele. 

“Féjuada, durma!” com isso o cão cruzou as duas patas da frente, deitou a cabeça e ainda bufou.

“Como você fez isso em tão pouco tempo?” Sirius disse com os olhos arregalados de surpresa.

“Eu sou um encantador de cães!” se orgulhou, “E eu tenho petiscos.” ele riu e correu de volta para o meio do parque chamando o amigo de quatro patas.  

“Teddy é incrível, sabia? Demorei uma semana para ensinar ele a sentar.” 

“Ele tem a quem puxar.” Remus piscou e Sirius pensou que isso poderia ser um flerte e seu sorriso se abriu mais ainda.

“Aposto que sim.” Ele falou levantando uma das sobrancelhas e seus olhares se cruzaram.

Quando o sol estava se pondo no horizonte, fazendo o ar ficar mais frio, Remus disse que era hora de ir. 

“Vamos Teds, precisamos dar um passeio com Bonnie!” Remus se apoiou na bengala e se levantou com um gemido de dor. “Antes que fique mais frio.”

“Quem é Bonnie?” Siriu perguntou, enquanto tentava pegar sua muleta embaixo do banco.

Sirius observou Remus olhando com curiosidade quando ele transpassou a alça da pasta e ajustou a muleta no braço direito para levantar. 

“Nossa golden idosa de doze anos.” Deu de ombros. 

“Doze anos?” Assobiou Sirius e se levantou. “Muito tempo, mais tempo que Teddy ali provavelmente.” Apontou para o garoto que vinha com Feijoada a tiracolo.

“Eles têm seis anos de diferença, ela foi minha primeira filha. Já está andando com dificuldade.” Remus olhou para cima enquanto uma brisa soprava seus cachos cor de areia. 

Sirius conseguia sentir a tristeza em sua voz e ver seus olhos brilharem, ele ainda não conseguia pensar em perder Feijoada. 

“Sinto muito, tenho certeza que ela está tendo uma boa vida ao lado de vocês.” Sirius conteve a vontade que sentiu de confortar o homem ao seu lado.

Teddy e Feijoada chegaram pulando.

Sirius bateu na coxa para chamar atenção do cão e Feijoada se enroscou um pouco em suas pernas e ele viu Remus sorrir.

“Obrigado, estou preparando Teddy para a hora.” Teddy olha para o pai. “Quando ela tiver que partir.” ele estende a mão e aperta o ombro de Teddy. “Não é garoto?!”

“Bonnie precisa ir para o céu dos cachorros para não ter mais dor nas juntas e voltar a ser filhote.” Murmurou Teddy se soltando do aperto do pai e indo abraçar Feijoada.

 

Eles caminharam a passos lentos e hesitantes até a entrada do parque, com Teddy segurando a guia de Feijoada. Sirius não queria se separar da dupla, foram poucas horas perto e já parecia que os conhecia a anos. 

“Por que você usa essa muleta?” A voz de Teddy o tirou de seus pensamentos. 

Não era a primeira vez que lhe perguntavam isso, normalmente era um adulto curioso ou uma criança com uma careta torta e ele sentia que era uma pergunta invasiva. 

Mas com Teddy foi diferente, era interesse genuíno, não tinha estranheza.

“Edward!” Remus repreendeu. “Sinto muito Sir-” Sirius o cortou com um gesto da cabeça.

“Tudo bem.” Ele acalmou Remus. “Veja, Teds!” Ele puxou um pouco a calça que usava pra cima e Teddy arregalou os olhos. “Tenho uma perna de ferro.” Bate sua muleta na canela de ferro exposta. “Ganhei ela faz pouco tempo, preciso da muleta pra conseguir andar direito.” Soltou a calça para que cobrisse sua prótese.

Sirius notou que a apreensão de Remus se tornou um sorriso suave, de compreensão e conhecimento.

“Nossa! Isso é tipo um super poder?” Teddy pareceu maravilhado. Era natural.

“Tipo isso. Mas eu tô aprendendo a usar ainda.” Sirius riu. 

“Você é igual ao homem de ferro, então??” Teddy pulou na frente de Sirius. Feijoada circulou em volta deles animado.

Sirius gargalhou “Só que com menos poder de fogo. Mas pode me chamar só de Sirius, pra ninguém desconfiar.” Piscou para o garoto que deu risada.

Eles voltaram a andar pela calçada do parque e chegaram até um Ford Puma prata que Remus apontou e disse que era o carro deles. Sirius começou a pensar em como pedir o número dele ou marcar outro encontro, se usava a amizade de Feijoada e Teddy ou uma consulta para vacina como desculpa quando Remus destrancou o carro. 

“Papai não quero que o Féjuada vá embora,” Teddy se abaixou perto do cachorro e o abraçou “Ele é meu novo melhor amigo.” Ele enterrou o rosto no pescoço peludo.

“Filho, precisamos passear com Bonnie também, ela é sua primeira melhor amiga, lembra?” Remus olhou suavemente entre os dois e Sirius.

“Eu sei.” sua voz saiu falhada pois ainda estava se esmagando no pelo do Feijoada, esse que sem entender, abanava o rabo e lambia Teddy.

Sirius mais uma vez sentiu que deveria falar algo sobre se verem ou de marcarem alguma coisa, mas não queria parecer desesperado ou deixar as coisas desconfortáveis. 

Ele se moveu um pouco pra frente e bagunçou o cabelo do Teddy. “Relaxa garoto, o Feijoada gostou muito de você.” 

“Sabe, a gente costuma vir todo sábado à tarde no parque…” Remus comentou, com um sorriso tímido crescendo.

“Talvez eu comece a vir também” Sirius respondeu. E foi simples, ele realmente queria dizer isso, queria conhecer aqueles dois. 

“Então vamos nos ver no sábado, Sirius?” Teddy levantou a cabeça. “Vou poder ensinar mais truques para o Féjuada, papai?” Ele olhava de um adulto para o outro.

Remus o olhou esperançoso e Sirius notou, ele também estava nervoso, movendo a chave do carro nas mãos, ele também parecia querer um novo encontro. Então Remus sorriu e disse sim, que estaria no mesmo banco no próximo sábado.

Sirius os viu se distanciando, com Teddy dando tchau pelo vidro traseiro e Feijoada choramingando. Ele ficou um tempo parado no lugar.

Sorrindo ele dá um tapinha na cabeça do cão. Talvez James estivesse certo sobre Feijoada…

Ele chegou em seu apartamento em uma curta caminhada, tinha muita coisa pra pensar sobre o trabalho, mas sábado seria o dia de Remus e Teddy e ele iria ao parque esperar os dois novos amigos. 



Mas eles não apareceram.

Notes:

Não sei em quais dias os capitulos serão lançados, mas estou confiante que não iram demorar.