Work Text:
— Mãe, oi… a pia de casa quebrou, será que voc—
— Certo, Baekhyun, amanhã passe aqui em casa e pegue um cheque. Mais alguma coisa? Estou fazendo a unha, e esse telefone na mão não vai ajudar a secar mais rápido.
— Só isso mesmo. Obrigado.
Antes que terminasse a frase, ouviu o bipe seco do telefone. Será que a senhora Byun sabia que o filho estava mentindo — como sempre — Ou fingia acreditar só para se sentir um pouco melhor consigo mesma?
Era difícil dizer quem havia abandonado quem: os pais ao filho ou o filho aos pais. De qualquer forma, sempre foi assim. Eles davam dinheiro para que ele vivesse calado ou o mais longe possível, e Baekhyun aceitava. Os amigos diziam que ele desperdiçava a oportunidade de fazer um intercâmbio ou pagar uma terapeuta, mas Baekhyun gostava da cidade em que cresceu. Se sempre foi negligenciado, por que não devolver na mesma moeda?
Preferia trabalhar em uma fábrica qualquer, ganhando alguns trocados por carregar caixas, a gastar o dinheiro dos pais com algo útil. O que recebia ia direto para festas e bobagens. Não que a pia não estivesse realmente quebrada — Estava. Ele só não se importava o suficiente para consertá-la.
Falando em amigos, os dois batiam incessantemente na porta do apartamento.
— Jongin, você só vai entrar quando apagar essa merda.
— Eu avisei — disse Chanyeol, rindo enquanto tirava os sapatos para entrar. — Um clássico filhinho de mamãe.
— Você já mora num barraco e ainda quer reclamar de um cigarro? Inclusive, por que ainda tá de pijama? — Jongin, vestido como um rockstar revoltado, cruzou os braços, indignado com a falta de compromisso de Baekhyun. Afinal, ele mesmo havia marcado o encontro.
— Vinte anos e você ainda não entendeu que eu nunca vou estar pronto no horário combinado? Agora entra logo e SEM CIGARRO ACESO.
— Meu Deus, Madre Maria...
Ainda era cedo, não passava das 18h, e os amigos jogavam conversa fora antes de saírem. A conversa, inevitavelmente, virou em Chanyeol arrastando Baekhyun escada acima para que se arrumasse. Não conseguiu convencê-lo a tomar banho, mas minutos depois havia algumas opções de roupas espalhadas pela cama e um Chanyeol impaciente sentado em cima da maioria delas.
— Chanyeol, sabe aquele cara estranho do galpão?
— O que você e Jongin falam mal todo dia? — O homem olhava para o teto, buscando distração.
— Ele que deu a ideia desse lugar… Fiquei com dó e chamei ele.
— Eu tenho medo de saber como a conversa chegou nesse ponto, mas parabéns por ser um bom ser humano alguma vez na vida. Pelo menos vou descobrir se ele realmente fede.
— Ah, disso você pode ter certeza. O que você acha? Muito cafajeste? — perguntou Baekhyun, apontando para o próprio rosto.
— Você não usa essa jaqueta e calça de couro toda semana? Isso deve estar fedendo. Pode trocar, que nojo…
— Saiba que eu estou me sentindo extremamente ofendido. Não tenho culpa se você não consegue uma mamada nem pagando! Enfim, eu estava falando do lápis, no olho. Olha aqui.
— Sim, cafajeste pra porra. Só toma cuidado pra sabe, não te confundirem com um… Sabe…
— Cara, isso é estilo, não tem nada a ver com dar a bunda. As mulheres amam homens que se cuidam, você deveria parar de só fazer a barba e lavar o rosto com sabonete de corpo. — Virou rapidamente do espelho que com muita concentração tentando não perfurar os olhos.
— Bom, se eu fizesse isso nós estaríamos ainda mais atrasados, aposto que jongin está dormindo lá embaixo e não podemos deixar seu amiguinho triste…
— Cala a boca.
A casa de Baekhyun não era das maiores. Uma sala aconchegante, cheia de velas — só Deus sabia o que ele fazia com tantas —, uma cozinha com armários vazios, mas a geladeira cheia de bebidas e pizzas congeladas. O banheiro tinha um cheiro desgraçado, e Chanyeol desconfiava que o ralo estava entupido, especialmente depois de tentar urinar mais cedo e quase desmaiar com o odor. No segundo andar, um puxadinho improvisado abrigava um quarto completamente bagunçado, com Baekhyun em frente a um espelho rachado e Chanyeol jogado em uma montanha de roupas sujas. Os posteres rasgados nas paredes gritavam "anos 80", mesmo sendo na década passada, parecia que os dois não haviam superado a infância.
Ao descerem as escadas estreitas — com Chanyeol quase caindo —, encontraram Jongin, que aparentemente dormia no sofá velho da sala.
— Eu não queria dizer isso, mas não é porque seus pais pagam o aluguel que você não precisa consertar nada, ein, Baek? — Jongin de fato tinha os olhos fechados, todos se impressionavam pois o sofá estava caindo aos pedaços, mas tinha seu fiel isqueiro em mãos, acendendo e apagando.
— Por que você não vai se foder, ein? E para de acender essa merda vai queimar meu sofá. — Baek ainda lutava contra o fumante.
— Ei, ei, ei! Jongin, sabe para onde vamos? Para o Hard Bar— Disse Chanyeol com um sorriso malicioso, antecipando uma piada.
— Vai ter Black Sabbath?— Perguntou o mais novo, ajeitando a calça.
— Olha, boa pergunta, mas Kevin vai estar lá.
Chanyeol sentiu um molho de chaves sendo arremessado em sua direção, mas não perdeu a chance de provocar Baekhyun. Enquanto isso, foi fechar as janelas da casa, que, se dependessem do “dono”, ficariam abertas, vulnerável a chuvas aleatórias e ladrões de roupas.
A menção desse nome fez Jongin abrir os olhos de vez, largando o isqueiro no colo.
— NEM FODENDO! O fodido que fica comendo peixe com as chaves pra lá e pra cá? Como isso aconteceu? Volta aqui, Chanyeol!
— Em minha defesa, eu fui puxar papo com ele. Oras, todo mundo ignora o cara.— Era um desgraçado mas às vezes tinha coração
— Baek, todo mundo ignora ele porque ele é estranho pra caralho e fede. Se você fosse responsável e tivesse feito faculdade como o Chanyeol, poderia estar rodeado de estagiárias gostosas. Mas não, está aqui, saindo para o bar com seus amigos para se encontrar com os machos do galpão.
— Vai se foder, porra! E vamos logo. Enfim, eu perguntei a ele quais lugares ele frequenta, e ele indicou esse bar. Aparentemente, lá tem muita bebida barata. Combinamos de ir hoje.
— Espera aí, mas você deixou claro que era uma reunião entre amigos, ou esse cara tá achando que vocês vão…?— Jongin explodiu em risos enquanto Chanyeol trancava a porta principal rindo em silêncio.
A vizinhança da casa alugada era relativamente tranquila. Composta de casais pobres o suficiente para considerar o casamento um erro, idosas sustentadas pelos filhos e adolescentes rebeldes que acham maravilhoso gastar todo o dinheiro em maços de cigarro e packs de cerveja. Não que Baekhyun fosse muito diferente deles, mas ele ganhava como um adulto e gastava como uma família. Mesmo tendo o sonho de ser independente, acreditava que só conseguiria sair todos os fins de semana até os 30 anos. Logo, ainda teria seis anos antes de encontrar um rumo na vida. Talvez ele invejasse Jongin, que ainda tinha oito anos pela frente.
Falando em Jongin, Baekhyun podia não viver sem álcool, mas não entendia o amigo que não vivia sem nicotina. Odiava aquele cheiro, talvez mais do que o cheiro de peixe de Kevin. Sim, ele ria do colega, mas ainda se lembrava de quando não entendia muito bem para onde levar as pesadas cargas, e o mais velho sempre o orientava. Hoje, se lembraria de beber o suficiente para alertar que ninguém sentava com Kevin no almoço para não vomitar com o odor de sua marmita.
Quanto mais se aproximavam mais o sorriso de Chanyeol se abria. Ouviam ao longe Carrie, do Europe. Baekhyun não era o maior fã de baladas, mas reconhecia que era uma boa música, algo que condizia com a idade de Kevin. Ele e Jongin acreditavam que Kevin passava dos trinta, mas talvez ele só fosse feio mesmo. Kevin era estrangeiro, e Baekhyun ainda se lembrava de quando foi para os Estados Unidos, mais novo, e as senhoras queriam levá-lo para casa, mesmo ele já tendo 14 anos. Provavelmente era isso: Kevin parecia mais velho porque vinha de fora.
Jongin parou todos para fazer um anúncio de extrema importância — Vamos para outro lugar? O cinema lá de baixo ainda tá passando O Corvo. E vai que a gente encontra alguma garotinha inocente, fã de caras altas, que queira o Chanyeol?
— O chaminé ambulante! A gente sabe o quanto você odeia o Kevin, mas não precisa trazer a virgindade do Chan à toa. Você sabe que esse assunto é delicado para ele. — Baekhyun não deixaria baixo após toda a provocação de mais cedo.
— Se fodam vocês dois! Eu literalmente já comi a sua irmã, Baekhyun.
— Acho que você não deveria trazer esse assunto à tona se não quiser relembrar o soco— Disse Kai, tragando pela última vez antes de jogar o cigarro milimétrico no chão e arrumar a jaqueta surrada de couro. Ele se posicionou atrás dos mais velhos, com um braço em cada ombro. — E vamos para o pior encontro da sua vida, Baekhyun.
Os homens se preparavam para armar a mesma cena de sempre, tentando convencer os seguranças de que Jongin e sua pistola eram seguros. Mas o local não tinha seguranças, e, com mais tranquilidade, os três entraram. O bar estava realmente cheio, como Kevin havia alertado. As grandes placas na parede, escritas com giz já desbotado pela umidade do local, anunciavam preços realmente bons para dois trabalhadores e um recém-formado em economia.
A música mudou para algo mais animado: agora tocava Cherry Pie. Aqueles que estavam sentados ou apoiados nas paredes sujas se dirigiram para a pista de dança, que era esvaziada pelos casais esperançosos. Os homens agora saíam em busca de coisas diferentes: Chanyeol tentava ler a placa atrás do balcão para fazer seu pedido, Baekhyun procurava mulheres, e Kai, de forma irônica, procurava Kevin.
Em alguns minutos, todos estavam com suas bebidas, mas sem mulheres. Encontraram Kevin ao fundo do local. Diferente do trabalho, ele não usava seus grandes óculos, mas ainda brincava com as chaves do seu Escort 1990, não era feio, pelo contrário, tinha a mesma altura dos amigos de Baekhyun e os anos a mais no galpão lhe renderam um ótimo físico, mas os hábitos de Kevin eram definitivamente espanta sexo. Parecia decepcionado ao ver os homens junto de Baekhyun, mas não surpreso. Talvez ele disfarce bem, pensou Jongin junto das mil piadas que faria durante a noite.
— E aí, Kevin? Esse aqui você já conhece, e esse é Chanyeol, nosso amigo de infância.
— É um prazer conhecer você. Na verdade, eu fico muito feliz que vocês não se deixaram levar pela maioria daqueles babacas que ficam rindo de mim — disse Kevin com um sorriso que parecia genuíno, fazendo os mais velhos sentirem um nó no estômago. Afinal, eles também falavam mal de Kevin, até mesmo Chanyeol, que nem o conhecia direito. Assim que Kai tossiu, tentando amenizar o clima, os três se sentaram na mesa redonda: Kevin, Chanyeol, Kai, Baekhyun e Kevin novamente. Ele bebia uma cerveja que, a essa altura, já estava quase quente, e no meio da mesa havia alguns petiscos de peixe.
— Então, você frequenta muito aqui? — perguntou Baekhyun, lembrando-se de que era o extrovertido do grupo.
— Sim, quase todas as minhas sextas à noite são gastas aqui, nesse exato lugar. Conversar com as pessoas daqui foi o que melhorou minha pronúncia.
De papo em papo, acabaram descobrindo muito sobre o homem. Kevin era realmente mais velho, 35 anos, algo que chocou a todos. Ele também compartilhava o mesmo gosto musical que Baekhyun.
— Espera, espera... Você realmente gosta de Skid Row?
—Slave to the Grind? obra-prima! — Kevin aos poucos ganhava a todos.
— Finalmente alguém que entende! Chanyeol sempre diz que soa ultrapassado, mas ele não sabe de nada!
— Ei! Eu só disse que prefiro algo clássico quando é clássico. Mas sério, vocês vão passar a noite toda falando disso?
— Deixa eles, pelo menos não estão falando de filmes dos anos 30. — Jongin se pronunciou após boa parte da conversa.
— Por falar nisso, Jongin, você ainda curte aqueles thrillers psicológicos? — Disse o novato do grupo. O que fez Jongin erguer uma sobrancelha surpreso.— Você lembra disso?
— Sabia que isso ia acontecer. Bora buscar mais bebida, Baek. — Chanyeol aparecendo para salvar a noite de uma conversa que não os interessava mais.
— Boa ideia. Antes que comecem a debater sobre Alien.
Mesmo que a saída não tenha durado muito pois assim que as bebidas estavam pagas, baekhyun nem experimentou sua mistura antes de se livrar do amigo.
— Ei, Chanyeol, me espera na mesa que eu já volto, beleza?
Mesmo empolgado com a conversa anterior, Baekhyun ainda era um homem, e era difícil evitar a loira tingida que o olhou durante os cinco minutos de Sweet Child O' Mine. Ele não conseguiu evitar as curvas que se moviam durante o solo, quase como um instrumento a mais. Assim que levantou com o amigo, a viu espreitando perto do banheiro e se desvencilhou do grupo, indo em direção à sua mais nova distração da noite. Dois passos, e a garota havia entendido o aviso, indo até a saída de emergência, que ficava entre o banheiro masculino e feminino. Ela andava lentamente, com seu longo cabelo balançando de um lado para o outro, de forma não sincronizada com o traseiro marcado pela saia vermelha. Baekhyun não era idiota de esperar pelo corpo de uma estrangeira, mas valorizava as curvas da garota. Sentia-se ansioso para vê-la de frente, imaginando as pesadas alças do top e torcendo por seios que se encaixassem em suas mãos. O som dos saltos no pequeno corredor já o excitava, e ele torcia para que o caminho fosse ainda mais curto.
Assim que a grande porta foi aberta, Baekhyun sentiu o vento frio e acelerou o passo, segurando-a. Um leve ato de cavalheirismo, sentiu que precisava. Ambos fecharam a porta, e, sem diálogos, ele a pressionou contra a parede suja, com tantas camadas de urina que era a prova viva do tesão sentido pelos adultos.
Esfregavam-se em necessidade. Ele podia não ser muito alto, mas seu trabalho lhe garantia uma força que sobressaía à da garota. Enquanto puxava seus cabelos frágeis pela química, beijava-a profundamente, borrando seu batom vermelho sem piedade. Em troca, recebia arranhões em seu pescoço. Assim como sonhava, explorou o corpo da garota. Por cima do látex falso, apalpava suas nádegas sem se importar com o tamanho, acariciava sua cintura e beijava seu colo. Sabia ser um galanteador e tinha certeza de que era bom nisso, pois ouvia os mais belos gemidos. Deus, casaria com essa garota.
Não se importava em estar nos fundos do local, com apenas árvores os rodeando. A massagem que recebia por cima das calças o fazia esquecer de tudo. Resolveu se atrever e descobrir o que havia por baixo da justa saia da garota, encontrando nada além de pele. Não conteve o sorriso ao massagear seu clitóris com uma mão, enquanto a outra contornava seu corpo em apoio. Sentia a respiração pesada da garota em seu pescoço e poderia jurar que ela sussurrou um "mais" na voz mais delicada possível. Em poucos segundos, com uma massagem que rodeava a carne protuberante, sem nem mesmo penetrar um dedo, sentiu o corpo menor tremer e se apoiar ainda mais nele.
— Desculpa, eu agi como uma adolescente, mas você é gostoso pra caralho.
O ego do trabalhador cresceu mais do que seu pau, o que era difícil. Mas também não era a pessoa mais caridosa do mundo e levou a mão da menina até seu membro duro enquanto se desfazia do cinto.
— Tem algo que você pode fazer para que eu esqueça isso.
Sem escrúpulo algum, como se não tivesse sujado a mão do homem de porra um minuto atrás, ela se ajoelhou no asfalto bruto, auxiliando-o a afastar a calça apertada e a cueca que tanto o incomodavam. Então, encheu a boca, seus olhos brilhando enquanto passeava pelo membro com a língua, levando-o de um lado para o outro. Baekhyun poderia chorar. Era sua parte favorita. Ver uma mulher com seu pau na boca era como os anjos descendo com suas harpas. Talvez mulheres fossem anjos para Baekhyun.
Revirou os olhos em êxtase, mas pelo canto do olho viu um homem atrás da quina do muro. Virou o rosto rapidamente. Era Kevin? Não, precisava ser menos paranoico, ele não seria estranho a esse nível, certo? Seja lá quem fosse, olhar para o pervertido fez o intruso correr. Baekhyun não alertaria a garota para evitar o constrangimento, mas, em incentivo, guiou-a pelos cabelos, trazendo-a mais para o fundo e acelerando o processo. Sentindo o ápice se aproximar, afastou-a de seu membro e terminou o serviço com a própria mão, gozando naquele chão que logo seria ocupado por outra garota.
Sentia o rosto quente, e talvez sua maquiagem estivesse borrada, com vestígios do batom vermelho, mas não se importava. Apoiou-se na parede e se despediu da garota com o olhar. Refletiu por um instante enquanto observava a lua. Deveria arranjar uma namorada logo.
Voltou para o bar e logo se aproximou dos colegas, que tinham sorrisos nos rostos. Todos, menos Kevin.
— Então tá bom, senhor "vou ali e já volto" — Jongin já parecia mais embriagado, segurando o copo de baekhyun quase vazio.
— Vai se foder. Você tomou essa porra inteira. Pode ir me pagando, caralho.
— Pelos novos amigos que fiz, deixa que eu te pago uma bebida. Já vou lá mesmo — Kevin se ofereceu e saiu sem nem mesmo esperar uma resposta.
— Esse cara é realmente legal. Eu duvidei MESMO, mas, cara, ele realmente é um perdedor. O filme favorito dele é Jurassic Park e, na verdade, ele gosta de rap? Tipo, que aleatório. Mas ele é realmente legal, muito, muito mesmo — Kai falava demais quando bêbado. Chanyeol, por sua vez, tinha o olhar fixo no balcão de bebidas, mas, diferente do normal, parecia tenso. Seu olhar se demorava discretamente em Kevin, que conversava com o barman.
— Enfim, você ficou com quem mesmo? Aposto que foi aquela ruiva ali, do jeito que você gosta.
Antes que Baekhyun formulasse uma resposta, Kevin voltou, segurando duas cervejas. Havia algo estranho em sua postura, um nervosismo contido. Seus olhos desviavam de Chanyeol, que, ao notar o olhar culpado do outro, franziu o cenho. Como se algo dentro dele acendesse um alerta, levantou-se de repente.
— Preciso ir ao banheiro — disse, com a voz levemente arrastada pela bebida, mas seus olhos estavam nítidos, afiados.
Antes que Kevin pudesse entregar a cerveja para Baekhyun, Chanyeol trombou nele de propósito, acertando um dos copos, que caiu ao chão, espalhando o líquido. Kevin arregalou os olhos por um breve instante, mas logo forçou um sorriso.
— Droga, cara, olha por onde anda — resmungou, mas sua voz denunciava um leve tremor.
— Ops — Chanyeol respondeu, encarando-o sem humor antes de se virar para o balcão. — Acho que alguém vai ter que comprar outra, né?
— Caralho, o que foi isso? Você vai pagar, Chanyeol! Desculpa, Kevin. — Mesmo sem entender o que aconteceu o amigo em comum não estava afim de brigas.
— Não, tudo bem, pode tomar o outro.
O mais velho seguiu com os olhos bêbados o amigo que realmente foi até o banheiro e, estressado, sentou-se de volta à mesa.
— Calma, não é pra tanto, peixinho — o mais novo de todos riu descontraído.
— Me chamou de quê? — Kevin se levantou, mas percebeu que nenhum dos mais novos se importava, apenas riam mais ainda, muito bêbados para isso, ele se sentou novamente.
Baek tomou sua cerveja enquanto ria das piadas dos colegas, que aparentemente voltaram ao normal. Chanyeol se juntou à mesa e era como se nada tivesse acontecido. Jogavam conversa fora como velhos amigos, pediam mais rodadas e nem se preocupavam em dançar ou correr atrás de saias. Mesmo assim, quando "18 and Life" começou a tocar, Baek imediatamente se levantou e foi até a pista de dança sem esperar pelos outros. Logo, os homens o acompanharam, exceto Jongin, que saiu para fumar.
Fã da banda, Baekhyun gritava um inglês errôneo e dançava quase como uma garota. Chanyeol ria e tentava acompanhar os passos do amigo, enquanto Kevin, de maneira desconfortável, fazia alguns movimentos tímidos, como se não estivesse acostumado com esse tipo de ambiente ou dança. Assim que o solo começou, Baekhyun se juntou a um grupo de garotas que rebolava ao som dos tristes riffs, que não significavam muito para aqueles que não falavam inglês. Sem malícia, ele dançava com elas, rindo dos homens "machos" demais, que perdiam oportunidades incríveis por não se deixarem levar e o olhavam feio.
Sentiu algo em sua cintura e se surpreendeu ao ver Kevin, feliz até demais, encostando-se nele. Baekhyun era liberal, mas também tinha limites. Se fosse Jongin ou Chanyeol, riria sobre isso, mas Kevin parecia achar que tinha intimidade demais com ele só por terem conversado algumas horas em um bar aleatório. Não era de briga como Jongin, nem tinha o corpo de Chanyeol para enfrentar alguém, mas se desvencilhou do braço do mais velho com certa pressa e voltou para a mesa antes do fim da música.
O ato não passou despercebido por Chanyeol, que o seguiu. Os dois se encaravam de forma estranha enquanto esperavam a música acabar. Kevin logo voltou e os três mantiveram uma conversa constrangedora sobre o dia. Baekhyun informou que estavam de saída, pois já passava das três da manhã. Kevin sorriu de um jeito estranho, mas os outros apenas ignoraram. Ele, então, se apressou em dizer que iria embora antes deles e saiu rapidamente em direção à porta.
— Cara, não é por nada, mas toma cuidado com esse cara. Naquela hora do copo, eu vi ele colocando droga na tua bebida — Chanyeol disse com cuidado, tentando medir as palavras para não soltar um palavrão.
— Como assim? E por que você não falou antes? Que arrombado! Deveria ter ouvido o Jongin e ido pro cinema.— Estava decepcionado, talvez algumas pessoas não merecessem uma chance.
— Mas aí você não teria ficado com a loira.
— COMO VOCÊ-
— As mariquinhas podem parar de brigar? Ih, cadê o cara? — Jongin voltava, agora mais sóbrio.
— Ele vazou e eu vou também. Vocês vão embora? — Baekhyun já se levantava.
— Ah, agora que ele foi embora acho que vou terminar meu copo e já vou, mas pode ir na frente. — Respondeu Chanyeol com o copo pela metade.
— Também, ainda estou sem sono. Falou, Baek, até segunda.
Os três se despediram rapidamente. Baekhyun colocou as mãos nos bolsos e saiu. Morava na direção oposta de Kai e alguns quilômetros antes de Chanyeol, o que criava a tradição de se reunirem na casa do amigo como um meio-termo de tudo. O homem riu e começou a andar lentamente. Por algum motivo, rezava para que Chanyeol terminasse logo e o encontrasse rápido. O mais alto sempre andava muito rápido e, por isso, provavelmente acabariam se encontrando no meio do caminho. Enquanto isso, o menor caminhava como se não quisesse ir para casa, parando para observar qualquer coisa diferente que encontrava, como uma tampa de garrafa bonita ou um colar quebrado.
Quando estava perto de sua casa, terminando de percorrer uma longa rua escura e silenciosa, Baekhyun não se preocupou em olhar para trás. Já fazia pelo menos cinco minutos que não se virava, apenas aceitando a solidão daquela caminhada e a ausência de Chanyeol para conversar. No entanto, um incômodo começou a crescer em sua mente. Talvez fosse o efeito da cerveja, talvez apenas um reflexo do instinto de sobrevivência. Algo não parecia certo.
Decidiu, então, se virar uma última vez. Seus olhos, ainda um pouco turvos pelo álcool, enxergavam uma silhueta ao longe. Antes que pudesse reagir, um impacto seco atingiu a lateral de sua cabeça. A pancada foi forte, espalhando uma dor forte por todo o seu crânio. Cambaleou, quase caiu, mas o medo e a adrenalina o fizeram se agarrar ao único pensamento possível: revidar.
Seu agressor não esperava que ele ainda estivesse de pé. Baekhyun, agindo no puro reflexo da sobrevivência, avançou, mesmo que tudo girasse. Agarrou o homem pela cintura, usando todo o peso de seu corpo para derrubá-lo. O som do impacto dos dois contra o chão ecoou pela rua vazia. Não havia tempo para hesitar. Com os punhos cerrados, desferiu socos contra o rosto do desconhecido. Sentiu a pele rachar sob seus dedos. O agressor revidou, atingindo sua mandíbula e costelas, arrancando-lhe o ar e dobrando sua resistência.
O gosto metálico de sangue preencheu sua boca, mas Baekhyun não recuou. Tentou se levantar, mas foi impedido quando o homem agarrou seu braço e o puxou de volta ao chão. O peso do agressor era esmagador e a dor o desconcentrou. Cada golpe era mais desesperado que o outro. O chão frio do asfalto raspava contra sua pele, misturando suor e sujeira com o sangue que pingava dos ferimentos abertos.
Então, tudo mudou.
O cheiro forte veio primeiro, invadindo suas narinas antes mesmo que pudesse entender o que estava acontecendo. Um lenço foi pressionado contra seu rosto. O pânico se instalou instantaneamente. Chutou, tentou soltar os braços, mas a pressão era implacável. O cheiro enjoativo tomava seus pulmões. Sua visão começou a borrar. A força que antes o impulsionava agora o abandonava aos poucos.
A última coisa que viu antes de perder o controle do próprio corpo foi o carro estacionado. Um Escort? Que azar do caralho...
Baekhyun ainda conseguia ouvir vozes distantes. Tentou se concentrar nelas. "Baekhyun... Baekhyun..." Alguém gritava seu nome. Os sons vinham abafados, e pensava em como era idiota e provavelmente perderia seus órgãos. Seu corpo foi puxado, arrastado em direção ao veículo. As portas rangiam ao serem abertas. Mãos fortes tentavam colocá-lo para dentro.
De repente, um novo impacto. O corpo que o segurava foi arrancado de perto dele, jogado violentamente contra o asfalto. Baekhyun piscou, sua consciência oscilante tentando entender o que estava acontecendo. Seu agressor foi pego de surpresa pelo ataque inesperado e cambaleou. Uma nova figura se destacava na escuridão que aos poucos voltava junto dos sentidos de Baekhyun, Chanyeol.
O amigo o alcançou e não hesitou antes de acertar um soco potente no agressor. O barulho do impacto foi alto. Kevin— porque, sim, agora Baekhyun via e tinha certeza de que era Kevin— tentou se recompor, mas Chanyeol não lhe deu tempo. Socou novamente, fazendo o homem cambalear para trás. Baekhyun quis gritar, avisar que algo estava errado, mas não conseguiu.
Foi então que a lâmina apareceu.
Kevin, encurralado, puxou uma faca da jaqueta e a cravou no abdômen de Chanyeol sem hesitação. O som do ar escapando dos pulmões do amigo misturou-se ao choque do momento. Chanyeol tentou dar um passo para trás, mas suas pernas falharam, e ele caiu de joelhos.
O agressor não perdeu tempo. Aproveitou-se da fraqueza momentânea e pressionou o mesmo lenço contra o rosto do outro. Chanyeol lutou, tentando afastar o pano com as mãos trêmulas, mas a força começava a abandoná-lo, seus movimentos ficaram mais lentos.
Baekhyun assistia a tudo em desespero, tentando reunir forças para fazer algo, qualquer coisa. Seu corpo pesava, seus sentidos oscilavam entre a lucidez e a inconsciência. Tentou mover as pernas, mas elas não responderam.
Antes que pudesse reagir, tudo escureceu novamente.
.
Baekhyun estava sonhando. Soube disso no instante em que tudo pareceu mais leve. Não que fosse infeliz, mas, às vezes, desejava ter tomado um rumo diferente.
Observou de longe Jongin correndo atrás de um garoto que havia lhe acertado, enquanto Chanyeol perguntava se ele estava bem—mesmo sendo Baekhyun quem iniciara a briga e dera o primeiro soco. Foi então que percebeu: aquilo não era apenas um sonho, mas uma memória de um passado distante.
A cabeça de Baekhyun pesava, sentia-se pior do que quando passou três dias em uma festa hippie e acordou dentro da lixeira do vizinho. Pensou que talvez tivesse tido um daqueles porres, mesmo sem ter bebido tanto. Abrir os olhos era difícil, quase como se estivessem colados, e o zunido no ouvido só o fazia querer dormir novamente. Mas a dor no corpo o incomodava. Tentou se alongar, mas suas mãos não se separavam, era como se estivesse... amarrado?
As mãos começaram a tremer, e uma sensação de pânico pairava sobre ele como uma nuvem carregada. Por um momento, seu cérebro parecia não entender o que estava acontecendo. Seus olhos se abriram lentamente, tentando se ajustar à escuridão do ambiente.
Enxergou paredes velhas que não só aparentavam, mas cheiravam a mofo e peixe podre. A madeira estava coberta por um papel de parede esverdeado já desgastado, com manchas de umidade no teto alto. Uma lâmpada velha iluminava fracamente o ambiente. Ele tentou se levantar, mas a dor no corpo era afiada. Seu estômago estava embrulhado em ansiedade. Precisava se concentrar. Olhou ao redor e percebeu que parecia estar em um quarto, organizando a mente em busca de respostas. Havia saído com os amigos, encontrado Kevin, e porra! Ok, Kevin o tinha levado, mas não estava sozinho.
Os olhos de Baekhyun se adaptavam lentamente à escuridão. Seguindo o feixe de luz do sol que começava a nascer, encontrou Chanyeol — ou pelo menos quem ele acreditava ser Chanyeol. A luz somada da lâmpada iluminava apenas as botas e, sem muita clareza, o restante do corpo de quem parecia ser o amigo. Não parecia estar enganado quando viu pela camiseta branca a mancha de sangue que provavelmente vinha de um ferimento profundo na barriga. Baekhyun se lembrou vagamente dos últimos acontecimentos.
— Chanyeol... — Baekhyun sussurrou, tentando se levantar para correr até o amigo, mas a dor nas costelas o fez desistir. Como deixou isso acontecer? Havia superado inúmeras brigas de bar, e agora estava amarrado, com o amigo sem sequer responder. O pânico começava a tomar conta de sua cabeça. Nunca foi o mais controlado dos amigos.
— Chanyeol... — disse novamente, mais alto desta vez, tremendo. — Você está bem? — Seus dedos tocavam o chão frio enquanto ele olhava fixamente para o amigo.
— Baekhyun... O seu canivete... — Chanyeol disse pausadamente.
Isso. Chanyeol mal havia acordado, mas tinha dado a solução perfeita... Se não fosse um mero detalhe: ao olhar para o próprio corpo, Baekhyun percebeu que não estava mais com a jaqueta onde guardava o precioso canivete. Se xingou mentalmente por não tê-lo guardado melhor. Mas agora, ele tinha outra preocupação, tirar a si e ao amigo vivos dali. Afinal, ele mesmo o havia levado para essa encrenca, e a culpa começava a devorá-lo.
— Você não me respondeu. Está tudo bem? — Baekhyun perguntou, a voz embargada.
— Com dor pra caralho... — Chanyeol respondeu, mas sua expressão era vazia, como se estivesse apenas aguardando algo. Baekhyun normalmente faria uma piada, mas seu desespero só crescia. — Olha, eu não vou morrer... não acho que foi tão profundo... mas eu agradecería se fizesse algo ao invés de se desesperar. Esse chão não é confortável.
Mais uma vez, Baekhyun foi lembrado de sua situação. Olhava para o chão vazio, pensando no que fazer. Olhava para as mãos, amarradas uma à outra. Ignorando a dor, tentou rastejar até Chanyeol, mas se assustou ao ouvir o som alto de chaves girando. As chaves se aproximaram até a velha porta se abrir com um rangido.
Kevin, com seu irritante óculos, entrou com uma bandeja de comida. Seu olhar era tão pacífico que Baekhyun queria vomitar.
— Filho da puta! — gritou, com a voz rouca. — O que você quer da gente? Me solta, seu maluco, arrombado! — Baekhyun se levantou como um gato andando de duas patas, apoiando-se na parede, com os olhos fixos na bandeja. Planejava sair dali a qualquer custo.
Kevin, sem se alterar, colocou a bandeja na mesa próxima e o observou em silêncio por alguns segundos. Sem aviso, avançou com uma força imensa, agarrando Baekhyun pelo pescoço e pressionando seu corpo contra a parede, quase o fundindo ao objeto. Baekhyun tentou se desvencilhar, mas Kevin o segurava com uma força que o impedia de respirar direito.
— Eu não gosto de ouvir você gritar. — Kevin murmurou, permanecendo até que o rosto de Baekhyun adquirisse uma coloração roxa, afrouxando o aperto apenas quando estava prestes a perder a consciência.
A sala girava, e agora seu pulmão ardia. Tudo o que Baekhyun conseguia pensar era como aquele maluco estava prestes a matá-lo. Mas então, Kevin o soltou de repente, como se tivesse jogado Baekhyun de volta à realidade. Precisava assumir a responsabilidade de seus erros como um homem e tentou novamente ir até o amigo, como se seu agora frágil corpo fosse fazer alguma defesa.
— Um dia você vai entender tudo isso, Baekhyun... Mas até lá, eu preciso que você cale a boca e escute. Ninguém vai vir te buscar. Chanyeol? Ele foi só uma distração. Mas tudo já foi resolvido. É bom você se acostumar, meu amor...
Baekhyun queria gritar, queria se soltar, mas sua mente estava tão entorpecida pela dor e pelo susto que ele não conseguiu dizer nada. Ele apenas observava, impotente, enquanto Kevin se afastava lentamente, saindo do quarto e trancando a porta atrás de si. Nunca achou que se sentiria daquela maneira, quebrado, desesperançoso, machucado. Sua cabeça estava a mil, e ele estava com medo... de outro homem.
— Ei, você precisa comer, ou não vai nos tirar daqui. — A voz de Chanyeol era triste, talvez tão desesperançosa quanto a de Baekhyun.
Baekhyun não teve a capacidade de responder. Alcançou a bandeja o mais que pôde e comeu os peixes, mordendo-os como se estivesse tentando dilacerar as veias de Kevin. Escutou Chanyeol falar que já havia comido quando Baekhyun dormia, o que o fez se sentir ainda mais inútil.
O sol havia nascido por completo, e o quarto sujo se iluminava pelas várias frestas podres da madeira. A luz entrou como uma promessa de algo novo, mas Baekhyun não sentiu alívio. Ele estava perdido, mais perdido do que nunca. Seus pensamentos variam da mais profunda depressão para a mais nojenta vingança até o choro, pensando que deveria ter sido mais gentil com os pais, nunca teve tanto tempo livre e longe da bebida para pensar como estava sendo um desgraçado com as pessoas ao seu redor, falando com os amigos apenas quando envolvia sair e com os pais pagar o aluguel, seria esse seu karma divino?
Depois de muito se lamentar, ainda atordoado, levantou a cabeça. Seus olhos vermelhos e inchados finalmente viram o rosto de Chanyeol. O amigo estava pálido, o cabelo oleoso caía sobre os olhos opacos, quase sem brilho. Ele apenas o encarava. Para Baekhyun, parecia que Chanyeol o estava julgando. Afinal, ele o fez passar por tudo, a dor, o desespero. Nem mesmo sabia o milagre que impedia a ferida de sangrar mais.
— Ele falou que ninguém te encontraria, mas Kevin não parece ser o tipo de pessoa que tem casa à disposição... Você lembra onde ele mora?
Baekhyun, mais uma vez, quis morrer. Lembrava que o ex-colega disse morar longe, levando cerca de 20 quilômetros de distância, mas o nome da rua era small... stall... não conseguia nem se lembrar onde ele morava. Mas espera... Jongin. Jongin deveria saber e procuraria por eles. Precisava manter as esperanças.
— Chanyeol, o Jongin vai nos procurar, e a polícia vai nos encontrar. Nossos pais vão notar nossa falta, e ele é o único que sabe com quem estávamos. Certo, problema resolvido. Mas até lá, primeiro esse maluco precisa te trazer remédios. Eu não entendo dessas porras, mas acho que você precisa.
Algumas horas se passaram, e ambos os homens não se deixaram descansar. Os olhos de Baekhyun ardiam de tanto cansaço, mas ele não seria derrubado assim. Até que, finalmente, a porta do quarto foi aberta novamente. Baekhyun, já preparado, foi à frente de Chanyeol e manteve as mãos atrás do corpo. Kevin havia trazido vários objetos consigo, esbanjando um sorriso no rosto. Tirou de trás do bolso um papel.
— Está vendo? Eu consegui o que você tanto queria. Você está nas notícias, Baek. Desaparecido, 24 anos, natural de Bucheon, ótimo filho e amigo, que fofo. Mas por que colocaram essa mentira? Depois do que aconteceu com Chanyeol, devem te odiar para sempre. Bom, você está realmente bonito nessa foto. Precisamos que você combine com ela, certo? Hora do banho! — Com isso, o homem se abaixou, pegando o pesado balde cheio de água. Antes que Baekhyun pudesse reagir, o balde foi jogado sobre ele com uma força cruel. A água fria o atingiu em cheio, gritou pelo susto. A sensação gelada percorreu sua pele, o fazia tremer, a água escorrendo por seus cabelos e corpo. As roupas grudadas eram um pesadelo. Baekhyun estava cansado de apanhar, algo que nunca tinha acontecido, e ele não deixaria isso continuar.
Dessa vez, avançou sobre Kevin com mais força. Agora alimentado, Baekhyun conseguiu derrubá-lo, mas a vitória durou pouco. Kevin revidou, arremessando-o ao chão. As costas doloridas se curvaram com o impacto e, como se não bastasse a humilhação, o sequestrador simplesmente saiu sem dizer uma palavra.
Baekhyun permaneceu no chão, ofegante, o olhar antes otimista começando a se apagar. Não seria capaz de se defender sozinho?
De repente, lembrou-se do sonho que tivera mais cedo. Talvez nunca tivesse sido capaz de se defender. Na escola, sempre tinha seus amigos ao lado. Sua mente, agora um turbilhão, o fazia revisitar memórias antigas. Se até um dia atrás alguém lhe perguntasse sobre seus pais, teria dito que nunca sentiu o calor de seus abraços. Mas, agora, lembrava com nitidez de seu aniversário de sete anos, quando quebrou o braço tentando subir em uma árvore. Lembrava-se de sua mãe ao telefone... e de como, apesar disso, ela o abraçou e disse que tudo ficaria bem.
Pensamentos como esses não o deixaram dormir.
O som ritmado de uma goteira ecoava a centímetros de onde estava, enquanto ele oscilava entre lamentações e reflexões sobre como sua vida mudara em um piscar de olhos. Seria egoísmo desejar voltar algumas horas e reviver a bebedeira? Os minutos ao lado da garota de cabelo tingido? Talvez merecesse tudo o que estava passando.
A noite foi longa.
Kevin... estaria apaixonado por ele? Tudo isso aconteceu porque o convidou ou Kevin teria ido atrás dele de qualquer forma? Como Chanyeol conseguia dormir? Que horas seriam?
O dia finalmente amanheceu. Pelas suas contas, já fazia mais de 24 horas que estava desaparecido. Se Kevin não tivesse inventado aquele cartaz, talvez já houvesse tempo suficiente para que a polícia começasse a procurá-lo. Esse pensamento lhe trouxe um mínimo de alívio.
Mas não teve tempo de pensar mais sobre isso. O sequestrador retornou, preenchendo o quarto com seu cheiro.
— A refeição de hoje está servida — anunciou Kevin, empurrando um prato para o chão. — Mas não deveria... Você está fedendo, Baekhyun.
Ele sequer se preocupou em trocar de roupa, ainda vestindo as mesmas peças úmidas da noite anterior. O comentário sarcástico de Kevin fez sua raiva crescer, mas não revidou. Sentiu medo.
E isso o assustou ainda mais.
Seria como um hamster em um experimento? As surras anteriores haviam o transformado em um cachorro adestrado?
Não queria saber a resposta.
O silêncio no quarto era esmagador. Nenhum dos amigos tinha energia ou vontade de conversar. Baekhyun gostaria de dizer que se sentia culpado, mas não sabia ao certo se isso era verdade. Seria arrogância demais para admitir? Ou a culpa era tão avassaladora que tornava impossível encarar Chanyeol?
— Eu guardei isso para ele. — Baekhyun ergueu a colher que Kevin havia deixado para comer.
Chanyeol olhou para o objeto com ceticismo.
— Você não acha que ele vai perceber a falta de uma colher que ele mesmo trouxe?
— É pegar ou largar. Você não confia em mim?
A confiança na voz de Baekhyun ainda existia, mesmo que frágil. Mas o silêncio de Chanyeol, a ausência de uma risada ou de qualquer sarcasmo, fez com que ele se perguntasse se isso era um problema maior do que imaginava.
A exaustão finalmente o alcançou. Quando percebeu, já estava novamente imerso em suas memórias.
Dessa vez, soube que era um sonho assim que viu o muro reformado da escola onde estudou. As cores vibrantes pareciam mais saturadas do que na realidade, como se sua mente quisesse destacar aquele momento do passado.
— Isso fede mais do que eu imaginava.
— Se acha que fede, por que quer experimentar? — Jongin riu, soprando a fumaça para o lado.
— Porque todo homem que eu conheço fuma. Meu pai, você...
— Chanyeol não fuma.
— Chanyeol é diferente. Ele nunca faria isso para agradar os pais e, com certeza, me deduraria para minha irmã. Então... — Baekhyun esfregou as mãos contra a calça, nervoso. — De qualquer forma, me ensina logo. Você faz isso parecer tão fácil.
Jongin o encarou por um instante antes de estender o cigarro para ele.
— Só parece fácil porque eu não penso muito antes de fazer.
— Isso não me conforta.
— E não deveria. Mas, às vezes, você só tem que fazer... Só fazer.
Baekhyun pegou o cigarro e tragou com agressividade, apenas para se engasgar quase de imediato. A tosse veio forte, e Jongin, rindo, deu-lhe tapas nas costas. Mesmo sabendo que era um sonho, Baekhyun queria continuar. Queria chegar à parte onde o zelador os flagrou e os dois tiveram que correr cinco quarteirões inteiros, enquanto ele ainda tossia.
Mas não teve escolha.
A cena se desfez como fumaça, e a realidade o puxou de volta.
A porta se abriu abruptamente. Antes que pudesse reagir, o impacto gelado da água atingiu seu corpo. Outra vez.
Quando Kevin se abaixou para deixar o balde no chão, Baekhyun e seus dedos trêmulos se moveram até o bolso de sua calça, onde ele havia escondido a colher. No mais puro desespero, ele agarrou a colher como sua única chance de escapar.
— Vai se foder! — Baekhyun gritou, já com a colher levantada, usando toda a sua força para atacar. Ele se atirou para frente, tentando pressionar a ponta da colher nos olhos de Kevin. O movimento foi rápido, mas falhou. Não conseguiu cegá-lo, mas o machucou o suficiente para que Kevin levasse as mãos ao rosto, dando tempo o suficiente para Baekhyun correr para fora do quarto. Derrubando e pegando tudo o que podia, a casa cheia de velharias e estantes de filmes, tudo foi arremessado ao chão.
Baekhyun sentiu a dor espalhando pelo seu corpo, sua visão ainda embaçada pela água fria. Mas ele não desistiu, não ainda. Sua mente estava determinada a tirá-los dali. Ele sentiu uma pequena faísca de esperança enquanto corria pela casa.
A sala, antes silenciosa, tinha algo que chamou sua atenção no canto. Um telefone de disco, que parecia ter saído diretamente de um filme. Uma chance. Baekhyun agarrou o telefone com força, seus dedos escorregando de nervosismo, e discou o número da polícia. Ouviu os passos pesados de Kevin, mas era tudo o que podia fazer.
— Preciso de ajuda — ele disse, sua voz firme, com a adrenalina ainda o mantendo alerta. — Estou… estou sendo… — Ele não conseguiu terminar a frase. Antes que pudesse completar, um peso insuportável o derrubou no chão, de novo.
Não aguentava mais aquele forte cheiro sendo forçado em si. Como um animal, Kevin o arrastou violentamente pela sala, ignorando seus gritos e tentativas de se soltar.
— Você acha que vai escapar de mim assim? Que, assim como me zombava, eu vou deixar você rir de mim? — Kevin rosnou, pressionando a cabeça de Baekhyun contra a pia fria da cozinha. Com força, Kevin ligou a torneira, a água fria caindo de maneira cruel enquanto ele forçava a cabeça de Baekhyun para baixo, o transformando em uma perfeita tampa de ralo. Ele o empurrava e puxava pelos cabelos na água que se acumulava. Amava a sensação de controle, mesmo que machucasse seu "amado". Mas era uma punição merecida. A dor era intensa, cada movimento de Kevin mais forte e impiedoso. Baekhyun tentou resistir, mas seu corpo estava fraco, seus olhos se fechando pela dor.
— Estou muito triste com você, espero que não se repita — Kevin disse, com um sorriso no rosto, antes de puxá-lo de volta para o quarto, trancando a porta atrás de si.
Enquanto o quarto se fechava ao redor dele e a sensação de desespero tomava conta de sua mente, enquanto tossia era difícil dizer se estava chorando ou rindo, mas Baekhyun estava muito feliz.
— Eu consegui, Chanyeol, eu consegui! — Algo que Kevin não percebeu. Todo esse ato foi para encontrar uma saída. Ele havia guardado um grampo no bolso da calça, um grampo que encontrou na sala momentos antes e que, por sorte, ainda estava ali.
A noite não demorou a chegar, a escuridão invadindo o ambiente. A única luz vinha da mesma fraca lâmpada que iluminava vagamente os contornos do espaço. Baekhyun estava deitado ao lado do amigo, com os olhos fixos no teto enquanto seus pensamentos giravam em torno de uma única coisa: fugir. Ele havia fraquejado e pensado que não conseguiria, mas um único grampo era capaz de restaurar sua vontade de lutar. Ele não podia continuar ali, não podia e não queria viver com medo de um estranho. Ele tinha um plano, e era agora ou nunca.
Ele olhou para Chanyeol, que parecia ainda mais fraco do que antes. O ferimento na barriga do amigo o preocupava mais do que o amigo imaginava. Sua energia parecia drenada, seu olhar vago. Ele sempre olhava para o mesmo lugar onde Baekhyun estava. Esse não era o Chanyeol que Baekhyun conhecia, que sempre o protegia. Por que ele se mantinha calado? Baekhyun sabia que havia pisado na bola, mas estava animado ao pensar em voltar para sua casa, embora parecesse não ser um sentimento mútuo.
— Chanyeol, escuta. Não podemos esperar mais. Vamos sair daqui. Fica calmo, vai dar tudo certo.
Chanyeol olhou para Baekhyun com os olhos quase sem cor, tentando se concentrar no que o amigo dizia, mas sua voz era fraca, quase um sussurro.
— Eu… não consigo andar, Baek. Você… vai me deixar pra trás, não vai?
— Você tá louco? A gente vai sair junto.
— Você já me deixou, Baek. Pode ir.
Baekhyun entendeu a súbita melancolía. Analisando a situação, era impossível fugir com alguém que nem mesmo conseguia se levantar, mas ele iria ajudar o amigo.
— Olha aqui, quando eu sair, não se, mas quando, quando eu sair, eu vou buscar ajuda.
Chanyeol voltou para a posição anterior.
— Eu não tenho certeza sobre isso, mas confio que você vai fazer o seu melhor, garanhão.
— Isso foi gay para caralho. — De repente, riram silenciosamente, como se não houvesse um maníaco a alguns cômodos de distância. Riram como faziam quando adolescentes, escondidos na grande casa dos Byun, lendo algum quadrinho aleatório.
— Eu vou nos salvar, Chanyeol. Você só precisa me perdoar por toda essa merda.
— Eu nunca te culpei, Baekhyun.
As palavras de Baekhyun eram uma promessa. Ele sabia que o que se passava dentro dele não era apenas um desejo de liberdade, mas um compromisso com o amigo, com a lealdade que não quebraria.
A noite não se estendeu, e Baekhyun começou a se preparar mentalmente para o que teria que fazer. Ele sabia que Kevin era imprevisível, perigoso, e não tinha medo. A única coisa que lhe restava agora era coragem.
Quando o silêncio tomou conta da casa, Baekhyun percebeu que a hora havia chegado. Ele cuidadosamente retirou o grampo que havia escondido em seu bolso e, quase aos tropeços, foi até a porta, onde o fecho estava apenas parcialmente fechado. Com um movimento silencioso, ele começou a trabalhar no mecanismo. O som do metal rangendo era o único barulho que se ouvia enquanto ele manipulava a fechadura, seus dedos escorregando de nervosismo, mas também de determinação.
Finalmente, o clique da porta destrancando ecoou como uma explosão no silêncio da noite. Baekhyun deu um passo para fora, a porta se fechando atrás dele. Ele não olhou para trás. A sala estava na penumbra, o único som vindo do leve ronco de Kevin, que estava jogado em uma poltrona no canto da sala, aparentemente dormindo. A bagunça da tarde ainda estava por toda parte, mas Baekhyun não tinha tempo para observar. O que importava agora era sair de lá.
No entanto, o destino tinha outras intenções com Baekhyun.
Antes que pudesse dar mais um passo, o som de um estalo na velha madeira acordou Kevin. Ele abriu os olhos, fixando o olhar em Baekhyun com uma expressão de pura raiva.
— Eu já te dei chances demais.
Baekhyun, com o coração batendo forte e as mãos ainda amarradas, não tinha mais escolha.
A "luta" começou com uma violência brutal. Kevin atacou primeiro, um soco certeiro em direção ao rosto de Baekhyun. Sem conseguir desviar, ele caiu atrás do sofá e a batalha virou um jogo de gato e rato até que ele conseguisse voltar aos seus sentidos. Usou tudo ao seu redor: abajur, toca-discos, o que estivesse ao alcance. Até mesmo os objetos quebrados espalhados pelo chão foram arremessados, mas nada disso o salvaria. Baekhyun já havia acertado Kevin antes, na noite anterior. Ele reuniu todas as suas forças, agarrou o corpo maior e conseguiu derrubá-lo com facilidade, socando-o duas vezes. Mas, inferno, ele estava fraco demais.
Kevin logo se recuperou e atacou novamente, seus punhos pesados batendo contra Baekhyun. Um soco certeiro atingiu o estômago de Baekhyun, fazendo-o se dobrar de dor. Sem hesitar, Baekhyun mordeu o braço de Kevin, seus dentes afundando na carne do homem, enquanto suas mãos procuravam algo — qualquer coisa — que pudesse ajudá-lo a ganhar vantagem.
Kevin urrava de raiva, tentando afastá-lo, mas Baekhyun não desistiu, estava grudado como uma pulga. Era asqueroso, e ele não se orgulhava disso. Com um movimento rápido, agarrou uma lâmina quebrada que estava sobre a poltrona e, num ato de desespero, fincou-a no braço de Kevin, fazendo-o soltar um dos braços.
Com o outro, Kevin de alguma forma agarrou Baekhyun pelo pescoço, pressionando-o contra a parede com toda a sua força. Baekhyun sentia sua visão ficando embaçada, o ar lhe faltando, mas ele não estava derrotado. Seu orgulho e instinto não o deixariam morrer assim. Precisava lutar pelo amigo, por si mesmo. Precisava parar de depender dos pais, parar de arrumar brigas para poder correr até os amigos depois, parar de pedir dinheiro às namoradas e mudar de número. Precisava lutar por si mesmo.
Com a força que ainda tinha, Baekhyun alcançou o pedaço de vidro quebrado no braço de Kevin. Puxou-o com precisão e cravou-o no pescoço de Kevin, empurrando com todas as suas forças. O som do vidro cortando a carne foi seguido pelo grito sufocado de Kevin. Ele tentou se afastar, mas Baekhyun não o deixou. Empurrou com mais força até que o corpo de Kevin caiu no chão, inerte. A raiva tomou conta do homem. Ele não seria como as "final girls" dos filmes de terror, não daria chance para o acaso. Foi lentamente até a cozinha, sentindo todos os ossos do corpo fraquejando, mas sem escolha. Pegou a maior faca que encontrou e acertou as costas de Kevin, já morto, repetidas vezes.
Baekhyun ofegava, seus olhos arregalados, a respiração entrecortada. Ele havia vencido. Havia finalmente derrotado aquele monstro. Não ousava falar uma palavra, mas pensava no amigo. Não podia voltar sem sua liberdade em mãos.
Com as mãos sujas de sangue, Baekhyun se levantou, seu corpo tremendo, mas a adrenalina ainda percorrendo suas veias. Ele olhou para Kevin, caído no chão, e respirou fundo. As chaves do maldito carro estavam sempre em suas mãos, mas agora estavam no cinto. Com certo nojo, Baekhyun pegou-as e foi em direção à saída, apenas para descobrir que o carro estava completamente sem gasolina. O que diabos aconteceu? Por que agora? Sabia que o amigo aguentaria mais uma noite. Sem rumo, vendo que havia quebrado o telefone anteriormente usado, saiu com um único objetivo em mente: ajuda.
A escuridão da noite parecia infinita enquanto Baekhyun caminhava pela estrada deserta, seus pés arrastando-se sobre o asfalto irregular. O frio da madrugada cortava sua pele machucada, mas ele não sentia nada além do cansaço. O sangue seco manchava sua roupa e seus dedos tremiam com a adrenalina que começava a desaparecer, deixando apenas a exaustão e a dor no lugar.
Ele não olhava para trás. Cada passo que dava parecia um esforço impossível. Seus músculos protestavam, seus pulmões queimavam e sua cabeça latejava, mas ele não podia parar. A estrada era interminável, os quilômetros se estendiam à sua frente como um pesadelo que não acabava. Ele tropeçava a cada poucos metros, sentia suas pernas falharem, mas se forçava a continuar. Precisava chegar à cidade. Precisava de ajuda. Sentia ódio ao não ver sequer um carro na estrada.
Baekhyun perdeu a noção do tempo. O único som ao seu redor era o canto distante dos grilos e o vento frio que soprava pelos campos abertos. Seu corpo doía em lugares que ele nem sabia que podiam doer, e a imagem de Kevin morto ainda estava gravada em sua mente. Mas ele estava livre. Ele havia sobrevivido.
Quando o sol finalmente começou a nascer no horizonte, pintando o céu com tons alaranjados e dourados, Baekhyun já mal conseguia se manter de pé. Seus olhos estavam pesados, sua garganta seca e seus pés descalços cobertos de feridas. Mas então, ao longe, ele viu os primeiros sinais da cidade — postes de luz, alguns carros passando, e, mais adiante, uma viatura policial estacionada perto de um posto de gasolina.
Ele usou as últimas forças que tinha para correr, quase desabando no asfalto. Quando os policiais o viram, seus rostos se encheram de choque. "Será que é um drogado?", pensaram.
— Meu Deus, garoto! O que aconteceu com você? — Um dos oficiais perguntou, sua voz carregada de urgência.
Baekhyun tentou falar, mas sua voz saiu fraca, quase inaudível. — Me ajudem… por favor…
Os policiais o colocaram no meio-fio enquanto chamavam uma ambulância. Nem na viatura ele podia sentar. Sentia seu corpo cada vez mais leve, sua visão escurecendo aos poucos.
O tempo passou de forma confusa enquanto ele recebia os primeiros socorros e os policiais se comunicavam e trocavam informações sobre quem era Baekhyun. Sua mente estava nebulosa, sua consciência oscilando entre o presente e os resquícios do trauma. Mas então, uma frase dita por um dos policiais fez com que ele despertasse por completo.
— Os pais dele estão no velório de Park Chanyeol.
As palavras atingiram Baekhyun como uma faca no peito. Ele piscou várias vezes, sentindo um nó se formar em sua garganta. Seu coração começou a acelerar, sua respiração ficando instável.
— O quê? Não, Park Chanyeol está machucado, mas vivo. Ele está na casa de Kevin. — Sua voz saiu arranhada.
O policial olhou para ele com um misto de compaixão e confusão.
— Kevin? Realmente seu amigo não estava mentindo, mas você precisa descansar, garoto. O velório está acontecendo agora. O corpo de Chanyeol foi encontrado onde você foi sequestrado.
Baekhyun congelou.
— Você é um idiota. Como dá uma notícia dessas assim? E perdoe, senhor Byun, uma psicóloga vai falar com você.
Baekhyun sentiu seu estômago revirar, sua cabeça girando. Sua mente se recusava a processar o que acabara de ouvir.
Mas Chanyeol estava com ele. Ele viu Chanyeol, falou com ele, prometeu que o tiraria dali... Não. Não podia ser verdade.
O ar ao seu redor parecia desaparecer. As memórias começaram a voltar com força total, os detalhes que ele havia ignorado, os momentos em que Chanyeol não se movia, em que sua presença parecia estranhamente distante… Ele estava sozinho o tempo todo. Chanyeol nunca saiu daquele asfalto frio após a facada...
Baekhyun soltou um soluço sufocado, suas mãos tremendo descontroladamente. Seu amigo estava morto desde o início. E ele... Ele conversou, discutiu, brigou, prometeu que o salvaria. Tudo não passou de uma alucinação desesperada de sua mente quebrada.
As lágrimas desceram quentes por seu rosto sujo. Ele queria gritar, queria negar, queria voltar no tempo e mudar tudo. Mas era tarde demais.
O reencontro com seus pais foi um borrão de lágrimas, abraços e palavras sufocadas entre soluços. Sua mãe caiu de joelhos dramaticamente ao vê-lo, apertando seu rosto entre as mãos trêmulas, repetindo "meu menino, meu menino", como se tentasse convencê-la de que ele ainda era real. Seu pai, sempre tão rígido, com os braços firmes ao redor dele como se nunca mais fosse deixá-lo partir. Baekhyun não sabia o que dizer. Ele só queria se sentir vivo, mesmo quando tudo dentro dele parecia morto.
Mas Jongin... Jongin não chorou. Seu rosto estava abatido, os olhos vermelhos de luto e cansaço, mas não havia lágrimas. Havia algo diferente nele — uma amargura silenciosa, uma dor que parecia maior do que tudo. E quando Baekhyun finalmente encontrou coragem para encará-lo, tudo que viu foi um olhar frio e cheio de mágoa.
— Você sabe o que fez? — A voz de Jongin era baixa, quase um sussurro, mas carregava um peso esmagador. — Você tem ideia do inferno que colocou a gente? Eu… Eu ri com ele, Baekhyun, eu chamei aquele cara de amigo… e ele...
Baekhyun engoliu em seco. Queria falar, queria se justificar, mas nada saía. Ele não sabia por onde começar. Como poderia explicar algo que nem ele entendia completamente?
— Chanyeol morreu naquela noite. — Jongin continuou, a raiva crescendo em sua voz. — A facada... Ele não sobreviveu, Baekhyun. Um cara aleatório o encontrou sangrando na rua, e quando eu soube o que aconteceu, já era tarde. A polícia soube quem era o desgraçado que fez isso, mas ninguém sabia onde esse filho da puta morava. Você desapareceu, Baek. A gente achou que estava morto também. Não é justo.
Baekhyun queria vomitar. Seu corpo tremia, o peito apertado em um torpor horrível. Ele abriu a boca para dizer algo, qualquer coisa, mas só conseguiu sussurrar:
— Eu não sabia. Eu... Eu achei que ele estava comigo... Eu matei Kevin, Jongin, eu…
A expressão de Jongin mudou. Confuso e ao mesmo tempo horrorizado. — O quê? — Os policiais agora o olhavam com expectativa. Aos poucos, Baekhyun transparecia sua loucura enquanto falava que havia matado Kevin.
— Chanyeol... Ele estava comigo esse tempo todo. Eu vi ele. Eu falei com ele... Eu prometi que ia tirá-lo de lá... — Ele riu, um riso quebrado e vazio. — Mas ele já estava morto, não estava? Sempre esteve... Que porra, Jongin.
Um silêncio cruel se instalou entre eles. Os pais de Baekhyun pareciam ainda mais destroçados ao ouvir aquilo. Nunca foram os melhores pais, mas mesmo eles não compreendiam. Jongin apenas o olhava, o olhar com algo entre pena e exaustão, se pudesse diria que a culpa era do amigo, mas não conseguia, mesmo sentindo o mais puro ódio da situação, não poderia colocar esse fardo na maior vítima, aquele que pra sempre vai viver sabendo o que fez.
E então, Baekhyun quebrou. Ele deslizou para o chão, segurando a própria cabeça com força, como se pudesse arrancar da mente as lembranças, a dor, o sangue, a ilusão de um amigo que nunca esteve lá. Lágrimas silenciosas escorriam pelo seu rosto, misturando-se à sujeira e ao sangue seco. Tudo parecia girar ao seu redor, como se estivesse sendo engolido por um buraco sem fim.
Ele matou Kevin. Ele sobreviveu. Mas a que custo? Teria ele realmente matado Kevin? Ele nunca deveria ter ido para aquele bar. Se tivesse prestado atenção...
— Se eu pudesse voltar no tempo... Eu teria feito tudo diferente. — A voz dele era um sussurro rouco, dirigido a ninguém além de si mesmo. — Eu nunca teria deixado Chanyeol e você saírem naquela noite. Eu nunca teria sido tão burro. Eu nunca teria... nunca teria…
Agora só resta a culpa. Baekhyun fechou os olhos e permitiu se afundar na dor. Pois era só isso que restava dele.
