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**Capítulo 1: Neve e Silêncio**
A neve caía em véus densos, cada floco uma agulha de gelo que cortava o ar e se acumulava no chão, transformando o caminho de terra em um tapete traiçoeiro. O vento uivava, um lamento que parecia arrancar a alma do corpo, e Nobara Kugisaki, ômega, sentia cada rajada como um ataque pessoal. Seus braços estavam cruzados com força contra o peito, o uniforme de Jujutsu manchado de terra e sangue seco da missão, agora enrijecido pelo frio. Seus cabelos laranja, livres dos óculos que nunca usava, grudavam-se ao rosto, molhados pela neve derretida. Ela tremia, os dentes batendo em um ritmo irregular, enquanto tentava manter o passo firme. **"Que inferno de tempo!"** resmungou, a voz carregada de irritação, quase abafada pelo vento.
Ao seu lado, Maki Zenin caminhava com uma calma irritante. Alta, imponente, com o cabelo verde-escuro coberto por uma fina camada de neve, ela ajustava os óculos embaçados com um movimento preciso, como se o frio fosse apenas um inconveniente menor. Como alfa, seu corpo parecia imune ao gelo que torturava Nobara. O calor natural de Maki irradiava, quase visível na forma como a neve derretia ao tocar sua pele exposta. Seu uniforme, igualmente sujo, não parecia incomodá-la. Ela carregava a lança sobre o ombro, o metal brilhando sob a luz fraca da lua, e seus olhos verdes cortavam a paisagem com uma intensidade que fazia Nobara ranger os dentes ainda mais.
**"Se você parasse de reclamar, talvez andasse mais rápido"**, disse Maki, a voz firme, com um toque de sarcasmo que Nobara conhecia bem demais. **"O carro do Ijichi está logo ali. Não é tão longe."**
Nobara bufou, o vapor da respiração formando uma nuvem diante de seu rosto. **"Fácil pra você falar, alfa. Não é você que tá virando um picolé aqui!"** Ela tropeçou levemente em uma pedra coberta de neve, xingando baixo enquanto recuperava o equilíbrio. **"E por que diabos você tá tão calma? Essa missão foi uma droga, e agora isso? Eu mereço um banho quente, não uma caminhada no Polo Norte!"**
Maki revirou os olhos, mas um canto de sua boca se curvou em um sorriso que não chegou aos olhos. **"A missão foi um sucesso. Matamos a maldição, não matamos? Para de dramatizar. Você sempre faz isso."**
**"Dramatizar?"** Nobara parou de andar, plantando os pés no chão apesar do frio que subia pelas pernas. Seus olhos castanhos faiscavam com indignação. **"Você tá me chamando de dramática? Você, que passou a missão inteira me dando ordens como se eu fosse uma novata? 'Nobara, fique atrás', 'Nobara, não interfira', 'Nobara, cuidado com isso'. Eu sei me virar, Maki!"**
Maki virou-se para encará-la, a lança ainda equilibrada no ombro. Seus óculos refletiam a luz fraca, escondendo parcialmente a expressão em seus olhos. **"Se eu te dei ordens, foi porque você tava distraída. Lembra quando quase foi atingida por aquele ataque? Eu salvei sua bunda, ômega."**
A palavra "ômega" saiu com um tom que Nobara não conseguiu ignorar. Não era exatamente desdém, mas havia algo ali — uma ponta de superioridade que fez seu sangue ferver, mesmo com o frio. **"Não me chama assim como se fosse um insulto!"** retrucou, dando um passo à frente, o rosto a centímetros do de Maki. **"Você acha que por ser alfa pode mandar em todo mundo? Eu não sou uma das suas subordinadas!"**
Por um momento, o ar entre elas pareceu mais frio que a própria nevasca. Maki não recuou, mas seus lábios se apertaram em uma linha fina, e seus olhos se estreitaram. Nobara podia sentir o calor que emanava dela, um contraste cruel com o gelo que mordia sua pele. Algo no cheiro de Maki — terroso, com um toque de metal e fumaça — fez o estômago de Nobara revirar, não de raiva, mas de algo que ela se recusava a nomear. Ela deu um passo atrás, tentando ignorar a forma como seu corpo reagiu.
**"Você tá exagerando por nada"**, disse Maki, a voz mais baixa agora, quase como se estivesse tentando apaziguar a situação. Mas havia uma tensão em seus ombros, um leve tremor em sua mão que segurava a lança. **"Eu só quero que a gente chegue no carro antes que você congele de verdade."**
**"Exagerando?"** Nobara riu, um som cortante e sem humor. **"Você não entende, né? Você nunca entende. Sempre acha que tá no controle, que sabe tudo. Pois deixa eu te contar uma coisa, Maki: nem todo mundo quer seguir suas ordens só porque você é uma alfa forte e perfeita!"**
As palavras saíram antes que Nobara pudesse detê-las, carregadas de uma amargura que ela mesma não sabia que carregava. Maki ficou em silêncio, os olhos fixos nela. Por um segundo, Nobara pensou que ela responderia com outra provocação, mas então Maki falou, a voz fria como a neve ao redor: **"Talvez se você não fosse tão teimosa, não precisasse de alguém te salvando o tempo todo."**
O golpe acertou em cheio. Nobara sentiu o peito apertar, como se Maki tivesse enfiado a lança diretamente em seu coração. Teimosa. Fraca. Dependente. Era isso que Maki pensava dela? Depois de tudo que passaram juntas, das missões, das lutas, dos momentos em que Nobara provou seu valor? Ela abriu a boca para responder, mas as palavras morreram em sua garganta. Em vez disso, virou-se bruscamente e começou a andar em direção ao carro, os pés afundando na neve.
**"Nobara, espera—"** Maki começou, mas Nobara a interrompeu sem olhar para trás.
**"Não. Fala. Comigo."**
O silêncio que se seguiu foi mais pesado que a tempestade. Nobara caminhava rápido, ignorando as pedras escondidas sob a neve, ignorando o frio que fazia seus dedos doerem e suas pernas fraquejarem. Maki a seguia a poucos passos de distância, a presença dela como uma sombra quente e opressiva. Nobara podia sentir o olhar de Maki em suas costas, mas se recusava a virar. Ela não queria ver aqueles olhos verdes, não queria sentir o peso daquele cheiro que a fazia querer se aproximar, mesmo estando tão furiosa.
O carro de Ijichi finalmente apareceu à frente, uma silhueta escura contra o branco interminável da neve. O motor estava ligado, o escapamento soltando fumaça que se misturava ao ar gelado. Nobara acelerou o passo, quase correndo, desesperada para escapar do frio e da presença de Maki. Quando alcançou o carro, abriu a porta do banco traseiro com força e se jogou dentro, tremendo tanto que mal conseguia fechar a porta.
Ijichi, no banco do motorista, ajustou os óculos e olhou pelo retrovisor. **"Vocês duas estão bem? A missão—"**
**"Só dirige, Ijichi"**, cortou Nobara, a voz trêmula, mas firme. Ela se encolheu no assento, abraçando os próprios joelhos, tentando reter o pouco de calor que restava em seu corpo.
Maki entrou no carro em silêncio, ocupando o outro lado do banco traseiro. Ela colocou a lança entre as pernas, o metal tilintando contra o chão do carro, e cruzou os braços. Nobara não olhou para ela, mas podia sentir o calor que emanava de Maki, mesmo estando tão longe. Era enlouquecedor — o jeito como o corpo de Maki parecia zombar do frio, enquanto Nobara sentia cada célula sua gritar de desconforto.
O carro começou a se mover, os pneus rangendo contra a neve. Ijichi, percebendo a tensão, não disse mais nada. A tempestade lá fora parecia diminuir, os flocos caindo mais lentos, mas o silêncio dentro do carro era sufocante. Nobara mantinha o olhar fixo na janela, observando a neve se acumular nos galhos das árvores ao longo do caminho. Ela não queria falar, não queria pensar. Mas sua mente traidora voltava para as palavras de Maki. *Teimosa. Fraca.* Ela apertou os punhos, as unhas cravando nas palmas das mãos.
Maki, por outro lado, estava inquieta. Nobara podia ouvir os suspiros curtos e pesados que ela soltava, como se estivesse lutando contra algo interno. O cheiro dela — aquele maldito cheiro de terra, metal e fumaça — ficava mais forte a cada respiração, invadindo o espaço confinado do carro. Nobara mordeu o lábio, tentando ignorar a forma como seu corpo reagia, como seu coração batia mais rápido, como o calor de Maki parecia chamá-la, mesmo estando tão magoada.
Maki ajustou-se no assento, o couro rangendo sob seu peso. Ela passou a mão pelo cabelo, tirando a neve derretida, e seus olhos, escondidos pelos óculos embaçados, fixaram-se em Nobara por um momento. Nobara sentiu o olhar, mas se recusou a retribuí-lo. *Que olhe o quanto quiser*, pensou. *Não vou ceder.*
Mas então Maki suspirou novamente, um som baixo, quase um gemido, que fez Nobara enrijecer. Era o tipo de som que Maki fazia quando estava no limite, quando sua natureza alfa lutava contra sua disciplina de ferro. Nobara já tinha ouvido isso antes, em momentos de tensão durante missões, quando Maki estava prestes a perder o controle. Era perigoso, era tentador, e Nobara odiava o quanto aquilo a afetava.
**"Nobara"**, disse Maki, a voz mais suave agora, quase hesitante. **"Eu não quis—"**
**"Eu disse pra não falar comigo"**, interrompeu Nobara, a voz cortante. Ela se virou no assento, encarando Maki pela primeira vez desde que entraram no carro. Seus olhos castanhos estavam marejados, não de lágrimas, mas de pura raiva. **"Você acha que pode dizer o que quiser e depois pedir desculpas como se nada tivesse acontecido? Não funciona assim, Maki."**
Maki abriu a boca, mas fechou-a novamente, como se as palavras lhe escapassem. Seus dedos apertaram a lança com mais força, e ela desviou o olhar, fixando-o na janela. O silêncio voltou, mais pesado que antes.
A viagem até a escola Jujutsu pareceu eterna. Quando o carro finalmente parou no pátio, a tempestade havia cessado, deixando apenas uma quietude gélida no ar. Nobara abriu a porta antes mesmo que o carro parasse completamente e saiu, o frio mordendo sua pele com ainda mais força agora que o calor do carro havia desaparecido. Ela tremia visivelmente, os braços abraçando o próprio corpo enquanto caminhava em direção ao dormitório.
Maki saiu do carro em silêncio, a lança ainda sobre o ombro. Ela hesitou por um momento, como se quisesse dizer algo, mas Nobara não lhe deu chance. **"Boa noite, Maki"**, disse ela, a voz fria, antes de virar as costas e entrar no prédio.
Maki ficou parada no pátio, a neve caindo suavemente ao seu redor. Seu peito subia e descia com respirações pesadas, e um último suspiro baixo escapou de seus lábios, carregado de frustração e algo mais profundo, algo que ela não queria admitir nem para si mesma.
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**Fim do Capítulo 1**
