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Summary:

Quando Caitlyn, uma bailarina talentosa cujo sonho na dança foi interrompido, decide aceitar um trabalho voluntário no interior, ela não esperava se envolver com a vida dura e apaixonante de Violet Lane, herdeira de uma fazenda que enfrenta inúmeros problemas financeiros. Entre dívidas, dores do passado e recomeços, as duas descobrem que o amor pode florescer mesmo nos campos mais áridos.

Notes:

Nesta história, o emoji de sapatilhas de balé 🩰 será utilizado para indicar passagem de tempo entre as cenas.

(See the end of the work for more notes.)

Chapter Text

Riacho do Cedro - Fazenda Lane

Faturas, faturas e mais faturas. Números extensos, distantes, quase inalcançáveis, era tudo o que Violet enxergava à sua frente. Boletos de compras, salários a serem pagos, reparos básicos da fazenda, a montanha de papéis parecia crescer mais e mais a cada dia. Ela suspirou fundo, recostando-se na cadeira do escritório e fechando os olhos, permitindo-se apenas um instante de respiro.

O turismo na cidade do Riacho do Cedro havia diminuído muito com os anos, e junto dele a procura pelos chalés e atividades da Fazenda Lane. Para evitar a falência, seus pais recorreram a um empréstimo bancário, decisão que garantiu a sobrevivência da propriedade, mas também a amarrou a uma dívida sufocante. Desde a morte deles, há três anos atrás, Violet carregava sozinha o peso desse compromisso.

Ela não os culpava, afinal a fazenda era seu lar, e sabia que seus pais haviam feito de tudo para mantê-la de pé. O que doía, de verdade, era ver os outros empreendimentos da região prosperarem. A vinícola Dorn, por exemplo, vendia seus vinhos para cidades vizinhas, fortalecendo-se a cada safra. Enquanto isso, Violet se via perdida, sem saber como impedir que sua própria terra desmoronasse.

Alguns funcionários já haviam pedido demissão. E embora vender os animais fosse uma opção lógica, para Violet era impensável: eles eram parte da fazenda, parte da sua história. Parte de quem ela era.

— Ainda enfiada nessa papelada? — uma voz grave ecoou pelo cômodo, fazendo Violet abrir os olhos e encarar a porta. Vander, seu tio de criação, estava parado recostado sobre o batente.

—Infelizmente. — Ela respondeu, ajeitando sua postura.

Vander soltou uma risada abafada e se aproximou, sentando-se na cadeira em frente a mesa.

— Você precisa dar um descanso pra sua cabeça, garota. — Vander comentou, cruzando os braços. — Essa papelada não vai desaparecer de uma hora pra outra.

— Se eu não olhar pra ela, parece que cresce ainda mais. — Violet retrucou, passando a mão pelo rosto.

Ele a observou em silêncio por alguns segundos, até balançar a cabeça com pesar.
— Você está carregando mais peso do que devia. Eu já disse, se precisar, posso tentar conseguir mais algum dinheiro com uns conhecidos.

— Não, tio. Você já fez mais do que podia. — Violet ergueu o olhar, firme. — Não vou deixar queimar suas economias por minha causa.

— Violet... — Vander suspirou, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Essa fazenda é sua, mas também é da família. Eu vi você nascer aqui, correr entre esses estábulos, crescer nesta terra. Não pense que é um fardo só seu.

Ela ficou em silêncio, apertando os lábios. Parte dela queria aceitar a ajuda, se encolher no abraço de Vander e esquecer da montanha de dívidas. Mas outra parte, a determinação que herdou dos pais, se recusava a admitir a derrota.

Vander sempre fora uma figura de apoio para Violet e sua irmã mais nova, Powder Lane. Um homem de coração generoso e mãos calejadas pelo trabalho duro, Vander foi um amigo de longa data dos pais das meninas, havia crescido ao lado deles e compartilhado parte da própria juventude entre aquelas terras. Há alguns meses, ele havia estendido a mão mais uma vez, colocando uma parte das suas economias na fazenda para ajudar Violet a quitar uma parcela dos empréstimos bancários. O dinheiro trouxe um alívio temporário, mas não foi o bastante para balancear o caixa e estancar o sangramento das dívidas que continuavam a se acumular como uma sombra sobre o futuro da Fazenda Lane.

— Eu vou dar um jeito, Vander. — disse, enfim, a voz baixa mas carregada de convicção. — Nem que seja a última coisa que eu faça.

Vander esboçou um meio sorriso triste, levantando-se da cadeira.

— Pois trate de não ser a última coisa, mocinha. — respondeu, pousando a mão no ombro dela antes de sair do escritório. — Porque essa fazenda ainda precisa de você aqui, firme, de pé.

🩰

Violet passou horas mergulhada na papelada sem notar o tempo passar. Só percebeu quando a luz suave do entardecer invadiu o escritório, tingindo o horizonte de tons alaranjados que logo dariam espaço à lua e às primeiras estrelas da noite. Ela suspirou, permitindo-se por um instante admirar a paisagem pela janela ao lado da mesa desorganizada. Ela amava aquele lugar, cada pedaço daquela fazenda, não é à toa que nunca quis sair dalí, diferente de Powder que se aventurou na faculdade de Marketing na cidade de Ravencrest. Violet, por sua vez, preferiu ficar ali, cuidando de cada detalhe da fazenda Lane.

Um barulho familiar a tirou dos pensamentos: o arranhar leve de unhas no assoalho. Trovão, o vira-lata caramelo e branco de pelo desgrenhado, empurrou a porta entreaberta com o focinho e entrou trotando, a língua de fora e o rabo abanando animado. Ele se aproximou de Violet e apoiou a cabeça em seu colo, como se pedisse um pouco de atenção. Ela sorriu, passando os dedos pelo pêlo áspero do cachorro.

— Você também acha que eu preciso de uma pausa, né, garoto? — murmurou, coçando atrás da orelha dele.

Antes que pudesse se perder no carinho, uma batida leve na porta fez Violet se virar. Powder apareceu no batente. O cabelo azul estava preso em duas tranças longas, que balançavam sobre o shorts jeans desbotado e a regata simples. Nos pés, as botas de cowboy em marrom avermelhado eram quase idênticas às que Violet costumava usar.

— O tio Vander preparou o jantar.— contou, com um sorrisinho. — Ele pediu pra vir te chamar. Disse que sabia que você nem ia perceber a hora.

Trovão levantou as orelhas, como se entendesse a seriedade da conversa que se iniciava, e ficou deitado perto dos pés de Violet, atento e silencioso, aguardando o fim daquele momento entre as duas irmãs. Violet soltou uma risada breve.

— Eu mal vi o tempo passar... estava um pouco ocupada. — respondeu, apontando para a pilha de papéis espalhada pela madeira clara da mesa.

Powder inclinou a cabeça e sorriu de canto, divertida.

— Sabe que você não precisa fazer tudo sozinha, não sabe? — Powder perguntou em um tom suave, quase melancólico.

Violet desviou o olhar. Por mais que todos em Riacho do Cedro soubessem da situação da Fazenda, ela se recusava a falar sobre isso abertamente com a irmã. No fundo, ainda a enxergava como a garotinha que corria atrás dos cavalos no pasto, sempre rindo e com os joelhos ralados. Afinal, Powder era a sua irmã mais nova.

— Não quero que você se preocupe com essas coisas, Pow. — murmurou, recolhendo alguns papéis e empilhando-os de forma distraída. — Essa responsabilidade é minha.

Powder deu um passo à frente, o sorriso de antes havia se apagado, substituído por uma expressão firme.

— Você pode me poupar de muitas coisas, Vi. Mas não pode me deixar de fora. Eu moro aqui tanto quanto você. Essa fazenda também é minha casa.

Powder já não soava como a garotinha que ela se lembrava; havia peso, convicção e uma pontada de mágoa nas palavras. Violet abriu a boca para responder, mas a voz da irmã a pegou de surpresa.

— Eu só não quero que você carregue esse fardo sozinha. — completou, num tom mais baixo, quase implorando.

Um silêncio denso pairou entre as duas, e tudo que podiam ouvir era a respiração pesada de Trovão que indicava que ele havia passado o dia todo correndo pela fazenda. Violet suspirou fundo, fechando os olhos por um instante. Queria abraçá-la, dizer que tudo ficaria bem, mas a verdade é que nem ela mesma tinha essa certeza. Powder cruzou as mãos na frente do corpo, enquanto mexia os dedos e encarava a irmã. Violet a encarou devagar analisando, sabia que Powder tinha algo para falar, e estava esperando o momento certo, ela fazia isso desde a infância.

— Você está com algo na cabeça, não é? — Violet murmurou, quase resignada.

Powder deu de ombros, mas um leve sorriso surgiu em seus lábios.
— Talvez. — Ela respirou fundo e Violet balançou a cabeça, concordando para que ela continuasse — E se a gente abrisse vagas para voluntários na fazenda?

Violet arqueou uma sobrancelha, surpresa.
— Voluntários? Quem é que viria até aqui trabalhar de graça?

Powder bufou, como sempre fazia quando Violet a questionava. Rapidamente puxou o celular do bolso, desbloqueando e deslizando o dedo pela tela com agilidade até encontrar o que queria. Aproximou-se da mesa e girou o aparelho para que Violet pudesse ver.

— Olha só. — disse, apontando para a tela. — Existem centenas de vagas assim. Casas de repouso, projetos de preservação, até fazendas ecológicas. Muita gente procura por esse tipo de experiência.

Violet inclinou-se, analisando a página aberta mas ainda com um olhar cético. Era um site de voluntariado, repleto de vagas e algumas já preenchidas.
— Não sei, Pow... parece... improvável.

— Não é. — a irmã rebateu sem hesitar. — Aposentados buscam um propósito pra se ocupar, jovens querem contato com a terra, e até estudantes de faculdade podem se interessar. Pra muitos deles, isso conta como honras no currículo na hora de se formar.

Violet passou a mão pelos cabelos, pensativa.
— Eu não tenho certeza se seria prático, entende? — admitiu.

Powder apoiou as mãos na mesa e a encarou de frente.
— Então a gente faz um teste. Só uma vaga, pontual, pra ver como funciona. Precisamos de alguém que possa ajudar com os animais, alimentação e limpeza. Se não der certo, tudo bem, a gente não perde nada. Mas se der... pode ser a ajuda que precisamos. E você sabe tão bem quanto eu que estamos com falta de funcionários.

O silêncio voltou a preencher o cômodo. Violet deixou o olhar correr da irmã para a pilha de papéis na mesa, e de volta para ela. Alguns funcionários haviam se demitido, pois não viam futuro na fazenda e acreditavam que ela iria falir em breve. O coração dizia para não se iludir, mas a lógica da ideia era clara.

— Uma vaga pontual... — repetiu baixinho, quase para si mesma.

Trovão soltou um latido baixo, abanando o rabo como se aprovasse a ideia. Powder riu, quebrando a tensão enquanto se abaixava para acariciar o cachorro à sua frente.

— Tá vendo? Até o Trovão acha uma boa. — Powder sorriu, enquanto o vira lata recebia carinho atrás das orelhas e abanava o rabo. — Não temos nada a perder, Vi.

Violet respirou fundo, por um instante, quase conseguiu se permitir acreditar que talvez, só talvez, fosse possível reconstruir aquilo que parecia perdido. E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu um fio de coragem se acender dentro dela. Ela olhou para Powder e sorriu, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa. Parecia o começo de algo novo — e ela estava pronta para enfrentar o que viesse.

— Tudo bem. Vamos fazer um teste.