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A Mais Bela Estrela de Newton

Summary:

— As estrelas — Nikola pendeu levemente a cabeça para o lado. — Podemos ver as estrelas, se você quiser.

— Simples, mas significativo. Eu aceito o convite.

— Se você sobreviver…

— Eu vou sobreviver — Tesla sorriu docemente. — Eu prometo.

Notes:

O mundo precisa de mais histórias de Tesla x Newton. Que bom que eu tive uma ótima ideia para fic, não é? Apesar de ser uma one, espero que aproveitem! 😌

Tem muito assunto de nerd que eu fritei o cérebro pra colocar aí. Se tem algo que não faz sentido, lembrem-se: ✨ ficção científica ✨

Boa leitura!

Work Text:

Existem pessoas que estão sempre com a cabeça na Lua, enquanto outras estão com a cabeça nas estrelas. Não literalmente, mas no caso de Isaac Newton é quase isso.

Ele sempre gostou de observar o céu noturno, principalmente as estrelas, é o que mais chama a atenção dele. Mesmo no pós-vida, ele ainda podia fazer o que sempre gostou, então estava tudo bem. Observar o céu noturno das terras sagradas de Valhalla era ainda melhor. Podia ver tão claramente que o seu telescópio era quase inútil, mas ainda assim gostava de usá-lo, afinal trabalhou muito na criação daquela bugiganga duas vezes. Na segunda vez foi mais fácil, mas o trabalho ainda foi longo. Bem, o resultado era o que importava, certo?

O “problema” era passar tempo demais suspirando como um adolescente apaixonado por aqueles pontinhos brilhantes no céu e esquecer que o mundo ainda estava girando. Quem liga? Ele já estava morto mesmo. Se trabalhasse sozinho, isso realmente não seria um problema.

A teoria da gravidade sempre se mostrou verdadeira para ele, mais vezes do que gostaria. Não é porque ele apresentou aquela ideia ao mundo, que ela precisava ficar provando a todo momento o quão estava presente até nas terras divinas. Inferno, quem foi o idiota que derrubou um apagador cheio de giz na cabeça dele?

— Não teve graça — ele resmungou, tossindo um pouco por conta da poeira que levantou. Olhou para trás e encontrou o pequeno Nostradamus sobre uma cadeira, o sorriso brincalhão e nada inocente presente em seu rostinho fofo. Aquele garoto não era um profeta, era um demônio. — Eu te derrubo.

— Você não tem coragem.

Newton deu um chute nas pernas da cadeira, fazendo o garoto cair em cima dele. Não calculou aquela parte, devia sentir-se envergonhado. Empurrou Michel para o lado, vendo-o se espernear como um inseto que caiu de costas no chão e não conseguia mais levantar sozinho.

— Newton, você poderia prestar um pouco mais de atenção? — Thomas Edison apareceu no cenário, talvez ele sempre esteve ali, mas o homem da teoria da gravidade não percebeu antes, assim como não percebeu Nostradamus atrás de si. — Estamos trabalhando em um projeto muito sério!

Newton piscou em resposta, mais mudo que uma planta. Retirou o seu chapéu e bateu a poeira acumulada ali por conta do ataque do pequeno profeta. Bateu a mão nos cachos loiros também para tirar qualquer resquício de que foi pego de surpresa. Estava muito calmo, porque tinha escapado da realidade novamente, mas infelizmente o arrastaram de volta para lá.

De repente, as palavras de Edison fizeram muito sentido e ele lembrou o que estavam fazendo; o projeto para o Ragnarok. Nikola Tesla — lê-se o azarado que recebeu o convite para participar daquele evento suicida — convidou diversos gênios da humanidade para ajudá-lo no desenvolvimento de sua volundr — não tinha certeza se todos concordaram, talvez tenham sido trazidos à força. Lá estava ele, Isaac Newton, que teoricamente deveria ajudar no projeto, mas acabou se distraindo com as estrelas novamente. Elas estavam particularmente lindas naquele fim de dia.

— Sim, é verdade — Newton colocou o chapéu na cabeça novamente, após retirar uma florzinha que certamente Nostradamus colocou ali sem que ele percebesse.

— Com essas atitudes, a derrota é o único futuro que teremos — o garotinho cantarolou, como se não tivesse acabado de falar algo horrível e nada animador.

— Por que você está aqui? — Edison perguntou para Nostradamus, o péssimo humor evidente em sua voz e rosto. — Está nos distraindo. Não estamos nem na metade do caminho!

— Vocês se distraem sozinhos.

Tinha certeza que o garoto se referia a ele. Foi apenas um deslize, Newton não tinha planos de permitir que acontecesse novamente.

—Tecnicamente você está mais atrapalhando do que ajudando — Newton se levantou de seu lugar extremamente confortável do chão. Ele espreguiçou as costas, sentindo os ossos cantarem.

— Estou verificando o andamento do trabalho, meu bom homem — o garoto também se levantou em um pulo. Perto daqueles homens, ele era uma figura bem baixinha, chegava a ser engraçado quando ele lembrava a todos que era o mais velho daquele lugar. — Mas não estou vendo muito progresso. Talvez esteja com vontade de ir no lugar do Tesla e socar a cara de um deus?

— Quer que eu conte a cara de quem eu vou socar?

— Vão parar de brincar e vão ajudar?! — A voz de Marie Curie chamou a atenção de todos. Ela era uma figura muito respeitável ali, por suas conquistas em vida e claro, a única mulher em meio a tantos homens. Ninguém ousava diminuí-la e menos ainda desrespeitar, ela tinha aquela autoridade que mães têm sobre crianças que aprontaram e escondem as mãos atrás das costas quando levam bronca. Todos ali se sentiram exatamente assim, menos Nostradamus, é claro. Ele não era uma criatura que dava para fazer parar.

— Newton, venha aqui, por favor! — Tesla o chamou e o homem de cabelos loiros se aproximou.

Tesla estava parado diante de um grande quadro negro — a valquíria Brunhilde separou vários para eles, para que fizessem todas as suas anotações e essas coisas. O Filho da Luz estava finalizando alguma coisa na superfície escura, o giz arranhava freneticamente o quatro, enquanto os olhos azuis se mantinham concentrados nas anotações e cálculos. Estava tão imerso no trabalho que nem se incomodou com uma pomba descansando sobre a sua cabeça, fazendo dos cabelos castanhos quase vermelhos o seu novo ninho.

— Estava verificando sobre a gaiola de gravidade — Tesla começou, finalizando as suas anotações. — Mas algo ainda não está certo. A estrutura matemática funciona até certo ponto, mas se quisermos suportar o impacto de uma arma divina, precisaremos de um campo estável de contenção… e uma fonte absurda de energia — ele finalmente olhou para Newton. — O que você acha?

Newton olhou lentamente para o quadro, analisando superficialmente tudo o que foi escrito.

— Eu acho que sua caligrafia está horrível.

— Ah, bem, um pouco — Nikola pigarreou, olhando para o que havia escrito. — Ela já teve dias melhores, é verdade. Mas sobre a volundr…

— Hm, deixa eu ver… — ele olhou para um lado qualquer, pensativo, como se a resposta estivesse escrita em algum lugar. — Campo de contenção estável, arma divina, energia absurda…

Ele levou uma mão até o queixo, assumindo uma pose de um verdadeiro pensador. Ele não estava exatamente pensando em uma solução segura, queria apenas buscar uma resposta aceitável. Toda aquela situação envolvendo o Ragnarok era algo complicado de lidar, afinal o futuro de Tesla — e da humanidade inteira — estava dependendo deles. Salvar o mundo era difícil.

— Se criarmos um ponto de colapso gravitacional artificial, como um microburaco negro controlado, ele poderia servir como núcleo para a gaiola de contenção…

— Isso é brilhante! — Os olhos de Tesla brilharam.

— É meio suicida brincar com buraco negro — Curie se aproximou dos dois, olhando para toda aquela bagunça nos quadros. — Precisaremos estabilizar a radiação gravitacional. Se passar dos limites, vai consumir o Tesla e, se formos azarados, tudo.

— Que tal pensarmos em algo que vai matar um deus? — Edison sugeriu, ainda com um péssimo humor. Querendo ou não, ele estava certo. A volundr precisava ser utilizável e segura.

— Brunhilde disse que teremos todo o material necessário assim que a teoria estiver pronta — Nikola comentou, recebendo olhares.

— Isso parece promissor demais — Newton respondeu, coçando o queixo e recebendo o olhar brilhante de Tesla. Ele parecia muito animado para quem estava com uma lâmina de guilhotina na mira do pescoço. Ele sempre foi assim, um verdadeiro homem que sabia viver. — Se for verdade, temos chances.

— Se colocarem a teoria de Newton em prática, as taxas de sucesso são de 23,7% — Nostradamus informou com um belo sorriso no rosto. Sorriso esse que não condizia com a péssima notícia. — Se tivermos sorte, Tesla não vai morrer pela própria volundr.

— Que número específico e… pessimista — Marie se virou para o garoto, franzindo o cenho. — O que de ruim poderia acontecer?

— Ele explooooode!

Breve silêncio. Até mesmo Nikola ficou levemente perturbado com aquele pensamento.

— Vai dar tudo certo — Nikola comentou, como se para convencer de que realmente iria sobreviver.

Newton olhou para Tesla, que voltou a analisar o quadro. Ele era muito otimista, mesmo que houvesse um pequeno medo escondido nas íris azuis, só percebeu isso porque estava bem próximo dele. Perto o suficiente para sentir o cheiro de poeira vindo das penas da pomba na cabeça do cientista. De perto assim, percebeu o quão bonito ele era, mesmo que fosse algo facilmente observável de longe. Secretamente, lamentou muito por Tesla ter aceito aquele pedido para que participasse do Ragnarok. Não queria que ele morresse, não sabia qual deus iria ser o oponente de Nikola Tesla, pois se soubessem seria muito mais fácil criar uma arma específica para derrotar a divindade.

Queria que ele sobrevivesse. Queria muito que a sua mais bela estrela continuasse brilhando.

— Pensamento ridículo — resmungou para si mesmo, alto o suficiente para chamar a atenção de Tesla ao seu lado.

— Hm? Disse alguma coisa?

— Nada.

As conversas continuaram, teorias sendo expostas e vários contra para atrapalhar. Nikola decidiu chamar tantos cientistas e gênios justamente por isso, porque eles eram criativos, inteligentes e loucos o suficiente para sugerir um microburaco negro. Era loucura, muita loucura, mas estavam consideravelmente otimistas, apesar do tempo curto e o trabalho estar pela metade. Precisavam de um tesouro divino que funcionasse e não fosse fritar ou explodir Nikola Tesla. Ele já estava arriscando a própria cabeça ao desafiar um deus sem uma arma pronta, isso por si só já era muita coisa.

Newton não prestou atenção no que estava sendo dito, apenas observou com certo pesar no coração Tesla trabalhando. Ele era muito corajoso, mas não era um lutador. O que tinha na cabeça quando aceitou aquilo? A curiosidade realmente valia todo aquele risco? O mundo podia perder uma das mentes mais brilhantes da história, era ridículo e egoísta. Todos estavam sendo egoístas, mas Isaac ainda mais. Sentiu um gosto amargo se espalhar em sua boca, mas felizmente não era aquele gosto ácido e horrível de bile. Não era o momento certo para vomitar e o seu corpo reconheceu isso. Foi só uma sensação ruim mesmo, de tristeza.

— Tesla.

— Hm? — O acastanhado murmurou, sem desviar a atenção de seus novos cálculos. Estava concentrado, mas ouvindo.

— Se isso der certo, o que você fará depois?

O giz parou no meio do caminho e foi como se o próprio Tesla tivesse sido congelado naquele momento. Os olhos dele ainda estavam cheios de determinação maluca, mas algo em seu rosto ficou um pouco sério e até incerto. O Filho da Luz abaixou um pouco o braço e olhou lentamente para Newton, as sobrancelhas levemente franzida naquela expressão costumeira de curiosidade.

— Depois? — Ele repetiu, como se experimentasse a sonoridade daquela palavra em sua língua.

— Sim, depois. Quando vencer. Se vencer… — Newton cruzou os braços e desviou o olhar para o lado. O seu pessimismo era irritante, mas somente para ele mesmo.

— Depois — mais uma vez repetiu, olhando para baixo e então para o rosto de Newton novamente. — Vou continuar trabalhando, é claro.

— Não vai descansar um pouco?

— Um homem como eu não precisa de descanso, meu amigo! — O sorriso dele foi encantador. Newton precisou respirar fundo. — A não ser que você tenha alguma sugestão.

Desista do Ragnarok, ele sentiu vontade de falar, mas se manteve quieto. Não podia pedir isso, foi decisão de Tesla participar. Cada um com o seu egoísmo.

— As estrelas — Nikola pendeu levemente a cabeça para o lado. — Podemos ver as estrelas, se você quiser.

— Simples, mas significativo. Eu aceito o convite.

— Se você sobreviver…

— Eu vou sobreviver — Tesla sorriu docemente. — Eu prometo.

Newton preferiu acreditar que eles realmente iriam ver as estrelas juntos.

Isso nunca aconteceu.