Chapter Text
O universo estava desabando e aquilo era sua culpa.
Ver os céus se abrindo não estava na lista de coisas que Peter esperava ver antes de morrer de novo, era como um filme com efeitos especiais desnecessariamente bem feitos, com rachaduras bem visíveis no espaço, linhas de cortes brilhantes que abriam para um fundo tema de galáxia de 2015, era assustador e interessante ao mesmo tempo, principalmente quando sua cabeça começou a se perguntar como diabos aquilo era possível, devia quebrar todas as leis da física existentes, talvez funcionasse como um buraco de minhoca, mas algo dizia que não estava necessariamente conectado a algum lugar de seu universo.
Peter tinha um TDAH enorme, maior do que admitiria, ele deveria estar discutindo como impedir aquilo com Doutor Estranho invés de pensar em como aquilo funcionava, mas dessa vez ele nem tomou a iniciativa.
“Peter.” Doutor Estranho o chamou, sua voz visivelmente tensa.
Peter olhou para trás, Doutor Estranho, Ned e MJ estavam ali, não todos juntos obviamente, Ned e MJ estavam ainda mais distantes, seus olhos grudados naquela bagunça espacial, eles trocavam palavras sobre como diabos resolveriam aquilo, Ned disse que não se importa em ter o céu aberto assim, enquanto MJ respondeu que traria muito turismo para Nova York. Infelizmente, agora não era hora de prestar atenção neles — Duhh, não me diga, Parker! —, então ele se virou para o mago e acenou, só para demonstrar que estava ouvindo.
Doutor Estranho segurou os ombros dele firmemente e olhou no fundo dos olhos de Peter com a expressão mais séria do mundo.
“Preciso que me escute com atenção, okay?” Ele esperou um segundo e Peter ia responder, mas Estranho foi mais rápido e voltou a falar. “Eles estão aqui para te pegar, Peter. E vão te pegar aonde quer que você vá. Nós temos uma alternativa e uma chance, se não o nosso universo se vai”
Peter parou quieto.
“O que eu preciso fazer? Você vai me apagar? Me matar não seria suficiente, seria? Fazer com que ninguém se lembre de mim não me torna menos existente aqui, então–”
“Peter, nunca pensei em te matar, mas apagar vai ser um caminho. Eu vou te mandar para outro lugar, um universo diferente, onde falta um Peter Parker, você completará a sua ausência lá e eles não irão atrás de você e você poderá ter uma vida normal lá, mas…” Ele olhou para os dois garotos atrás dele.
Peter sacou na hora o que Strange queria dizer.
“Mas eu nunca poderei voltar.” Sua voz soou pequena, isso o deixou um pouco incomodado, havia pouco tempo, Doutor Estranho estava certo, não havia para onde fugir em seu universo e daqui a pouco ninguém para se importar com ele. Peter sabia, não dava para salvar o mundo sem um sacrifício e dessa vez precisava ser ele, porque aquele fim do mundo era culpa apenas dele, então não podia fingir que tudo ficaria bem, porque aquele seria o fim, seu fim como Peter Parker, seu fim como Homem-Aranha, ele iria para um lugar com possibilidades infinitas. “Tudo bem. Tudo bem, eu posso me despedir pelo menos? Não sobraram muitos, mas ainda há algumas.”
“Vá dizer adeus a eles enquanto eu preparo o feitiço, quando estiver pronto volte aqui.”
Peter acenou levemente e correu o mais rápido que um humano geneticamente modificado e radioativo machucado poderia correr até seus amigos. Havia muito o que queria falar, mas pouco lhe vinha à cabeça naquele momento.
“Peter! Então? Como vamos resolver isso?” Ned perguntou animado, MJ fingia não prestar atenção, mas Peter sentia ela ouvindo.
“Uh, a gente não vai… Bem, mais ou menos, eu vou resolver isso, meio que fui eu que fodi tudo com aquele feitiço maluco e complicado, aquele buracão tá aqui para me pegar, mas está tudo bem, porque eu vou para outro universo e ninguém vai se lembrar de mim! Sem sofrimento, poder 100% eficaz do Doutor Estranho, então não se preocupem!” Conforme ia falando, Peter foi vendo o rosto de seus amigos cair cada vez mais em uma preocupação, não era esse seu objetivo, mas entendia, se Ned ou MJ chegasse nele e começasse a falar aquilo, ele surtaria.
“Então ele vai te… apagar?” MJ perguntou, sua voz dura com um toque de emoção, ela tendia a fazer isso quando ficava nervosa.
“É. Mais ou menos isso. Quero dizer, acho que vou sumir da memória de todos, não sei como isso afetará a internet! Mas, ei, se você se lembrar, destrua meu computador e ! Ele tem mais info do que uma bomba nuclear!”
“Peter, corte as piadocas, você realmente vai…” MJ disse segurando os ombros dele.
Ele piscou algumas vezes, sua expressão caindo.
“Sim.” Disse mordiscando seus lábios por dentro. “É o único jeito, então–”
“Foda-se, vamos achar outro jeito! Não vou perder você! Aquele merda nem tem meu consentimento para apagar minhas memórias, quem ele acha que é?!” Ela exclamou já ficando irritada, largando seu namorado para trás.
MJ bufou, mas não foi confrontar o Doutor, ela apenas resmungou e deu um abraço forte em Peter, durou um segundo, mas foi suficiente para ele sentir um calor no peito. Ele retribuiu e, quando se soltaram, sussurrou:
“Eu sei que você não gosta quando eu sou meloso, mas eu gosto de você, realmente gosto.”
MJ deu um tapinha fraco no ombro de seu namorado, era doce e era a cara dela, era bom, como se nada tivesse mudado, como se nada estivesse mudando. Agora, Peter foi para seu amigo, seu melhor amigo de todos os tempos.
“Acho que não vamos conseguir construir a nova coleção de lego Star Wars que estava para sair.” Ele disse baixinho, olhando para baixo.
Ned abraçou Peter o mais forte que pode.
Era estranho, dar adeus a um amigo nunca é fácil, mas Ned era mais que um amigo, ele como família, esteve com Peter desde que se conhecia como gente, foi literalmente a primeira pessoa a saber que ele era o Homem-Aranha, foi o cara na cadeira dele por muito tempo e ainda era de tempos em tempos, quando dividia espaço com Karen e a ensinava sobre as nerdices do mundo. Era estranho e fazia seu coração coçar.
“Obrigado por tudo.” Sussurrou.
“Eu que deveria agradecer, sem você eu teria ficado sozinho em todos os momentos mais ferrados da minha vida.”
Quando se afastaram, Peter olhou para eles por alguns segundos quietos.
“Eu… Eu deveria ir.”
Ele engoliu algumas lágrimas — Droga, ele havia estragado o clima ainda mais — e voltou para Doutor Estranho. O mago estava no mesmo lugar que antes, agora com os braços dobrados para frente com um tipo de bolha flutuando em suas mãos, rodopiando como se estivesse em um redemoinho e a sua frente também havia um pequeno círculo de faíscas, semelhante ao que ele usava para se teletransportar, mas dessa vez roxo. Peter chegou a conclusão que passaria pelo portal e sumiria, sem machucar mais ninguém, sem May e sem ninguém. No fundo, Peter se sentia feliz, não machucaria mais ninguém com sua sorte destrutiva e perigosa, May havia sido a última a sofrer, um mundo sem ele seria o mais adequado, não seria surpresa se uma utopia se instalasse no planeta após seu desaparecimento.
“Está pronto?” Perguntou Strange, abrindo seus olhos.
Peter olhou para seu amigo e sua namorada pela última vez.
“Sim… E, obrigado por tudo, eu não sei, eu… O que eu quero dizer, é obrigada, Doutor Estranho.”
“Hah… Me chame de Stephen, garoto.”
“Obrigado, Stephen.” Peter disse lentamente.
“É, ainda soa estranho.” Ele disse e o garoto concordou.
O portal começou a se abrir lentamente e, antes de deixá-lo passar, Stephen segurou seu ombro levemente.
“Só uma coisa, eu não sei como a tecnologia do Stark vai funcionar depois disso, não sei se ela vai ser afetada pela viagem ou pelo feitiço para todos se esquecerem.” Ele pausou e abriu um minúsculo portal laranja e dele caiu uma carteira. “Não é muito, espero que você caia em um universo que isso tenha algum valor, tem cerca de 100 dolares ai, é tudo o que posso fazer. Sinto muito, Peter.”
Peter segurou a carteira com cuidado e olhou para Stephen, o clima pesou ainda mais e aquilo o fez lacrimejar, não era legal chorar, mas não se conteve e apenas deixou tudo sair, ele não se lembraria mesmo. Ele abraçou Strage com força.
“Tá tudo bem…”
“Agora vá, garoto.”
Peter esfregou os olhos levemente vermelhos. Adeus eram realmente a pior coisa do mundo! MJ estava certa em ser tudo tão dramático, mesmo não podendo evitar esse final inevitável. Ele segurou com força a carteira e passou pelo portal brilhante.
