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As Menininhas (Im)Perfeitas

Summary:

"A cidade de Towsville, lar das menininhas perfeitas, feitas pelo Professor Utunium, de açucar, tempero e tudo que há de bom, agora são mulheres que devem lidar com os novos desafios que os terriveis vilões da cidade preparam para elas, porem a chegada de antigos inimigos mudou a dinamica do campo de batalha. Como nossas menininhas lidaram com os novos desafios..."

Bobagem, o que esconde atrás das mascaras de perfeição? Quem será necessário para derruba-las?

(Uma trilogia de one-shots todos conectados e no mesmo universo, todas as fanarts teram os artistas mencionados)

Notes:

Primeira vez publicando, qualquer erro me reportem, eu li isso centenas de vezes mas um erro pode passar sempre, gostei muito da dinâmica dos blues e gostaria de desenvolver de outro ponto de vista, se você analisar a fanart poderá ver certos pontos adicionados a trama, sinceramente as duas coisas foram feitas em simultâneo então meio que se misturaram.
Eu optei por usar os nomes em inglês pois o nome dos meninos em portugues é bem ruim, serio, e por custume tambem já que eu escrevo a verão em ingles ao mesmo tempo.
Eu até iria mencionar algumas inspirações mas foram muitas, então não sei quem exatamente mencionar.
Não garanto quando sai, mas tentarei publicar toda semana.
Se algum gringo estiver lendo isso e traduzindo com o google não se preocupe que vai ter a versão em inglês.

Chapter 1: O azul é o mais hardcore

Chapter Text

 

(Arte feita por: Pudd - instagram)

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Capítulo 1: O azul é o mais hardcore

 

As pessoas sempre me viram de forma infantil, a “açúcar” da fórmula das meninhas perfeitas. No início não me incomodava tanto, elas normalmente diziam isso de forma positiva, porém isso começou a me incomodar quando começou a soar como ofensa, ou pior, quando definitivamente era uma forma subestimar. Posso não ser tão fã de violência como a Buttercup, mas não significa que não tenha o meu próprio lado mau.

Isso se aplica também aos relacionamentos, por algum motivo que eu nunca entendi direito, minha bondade e facilidade em fazer amigos era interpretado como se eu fosse fácil, alô!? Bubbles Utunium é muita coisa, uma eterna romântica? Sim, mas eu não sou uma mulher fácil.Os caras na época da escola achavam que podiam fazer qualquer coisa minimamente romântica que eu facilmente me renderia a eles, e não foram poucos caras que fizeram isso. Não posso negar que eu acabei caindo naqueles que se dedicavam mais, porém algo que a Buttercup me disse uma vez era verdade: esses eram os mais entediantes.

É surpreendentemente difícil achar parceiros interessantes quando todas as coisas “másculas” que eles podem fazer são insignificantes para alguém que tem poderes. Carregar coisas? Posso levantar um prédio, passeios com o carro do papai? Eu voou, me defender de estranhos? Bem, não preciso continuar.Acabaram sobrando poucas opções no mercado de namorados de Townsville, e os bons não surpreendentemente já estavam fora de estoque, até mesmo meus colegas do jardim de infância não era opções, a Buttercup tentou namorar o Mitch uma vez, a coisa de superpoderosa ocupada salvando o dia e com poderes sobre humanos não fez bem ao ego dele e não ao relacionamento deles. 

A partir desse ponto, o anjinho no meu ombro já estava amordaçado, sinceramente, eu sabia a resposta para minhas dúvidas, só queria ter o direito de dizer que esgotei todas as cartas da doce Bubbles, agora era a vez da Hardcore assumir.

E é por isso que acabei nessa situação, esperando meu par do lado de fora de um pub local, o clima estava bom, era final de tarde e as luzes amareladas da parte comercial da cidade já iluminavam o ambiente.

— Desculpe a demora, foi difícil convencê-lo a me deixar sair por hoje.

Ali estava, meu pedaço de mau caminho, meu ticket de passagem direta para o chaos, meu demônio pessoal filho direto do diabo que graças a Deus tinha tirado aquela barbicha loira ridícula. Ele não era mais o garoto loiro fofo que brigava comigo para chamar minha atenção no jardim de infância, ele era um rapaz, quase um homem formado, bem mais alto que eu, largo nos ombros mas magro no abdômen, o rosto dele já estava se acinzentado da barba como aqueles galãs dos filmes de ação dos anos 80 que a Buttercup era louca.

— Sem problemas, acabei de chegar, não vai ter problemas faltar mesmo? Podemos remarcar…

— De jeito nenhum, foi difícil marcar esse encontro, aquele irlandês barrigudo está muito longe de conseguir fazer um desordeiro fazer algo que não quer, já ameacei ele, se ele não me deixasse sair hoje eu iria embora, sou o melhor músico de qualquer forma.

Eu amava isso, a facilidade que ele falava absurdos, era muito discrepante das diversas máscaras que eu tinha que utilizar, especialmente na frente das câmeras.

— Podemos ir, madame? — disse ele enquanto tirava uma flor do bolso do casaco.

— Oh Boomer, não precisava, é lindo!

— Foi um pouco difícil de achar do tom certo, elas combinam com seus olhos, o Brick disse que eram Mio alguma coisa.

— Miosótis — disse enquanto pegava o pequeno ramo um pouco amassado.

— É, isso aí! Como você sabe?

— Além de serem uma das poucas flores azuis, ela é chamada de não-me-esqueças, simboliza amor, fidelidade e recordação.

O rosto dele não tardou em se avermelhar como o pôr do sol atrás de nós, esse lado fofo e tímido dele sempre me ganhou, desde a primeira vez que eu o encurralei de porque brigavamos tanto e ele teve que se render e dizer que era só para me ver.

— Exagerei?

Eu respondi com um selinho na bochecha, Boomer era um pouco lento às vezes, mas acho que ele entenderia.

Com o pequeno ramo em mãos, criei uma bolha azul nas mãos para protegê-la. Uma aura azul claro me envolveu, borbulhando conforme uma ave surgia dela.

— Vá e deixe isso na minha bancada.

A ave apenas concordou com a cabeça, apanhando a bolha com as garras e decolando em direção a minha casa.

— Tinha esquecido que você podia fazer isso.

— Tem muitas coisas que você não sabe sobre mim, sr. Jojo.

Ele me olhou por poucos segundos, enquanto caminhava até mim, seus olhos estavam ligeiramente diferentes.

Tinha uma coisa que as pessoas ignoravam no Boomer, os olhos, mesmo com um deles sobre as bandanas, eu conseguia vê los, eles eram azuis como de metade das pessoas nos Estados Unidos, mas eles eram expressivos, eu conseguia prever as emoções dele, se ele estivesse mais escuro que o normal, ele estava angustiado, se estivessem claros, ele estava animado, porém quando eles estavam em um tom pastel, era desejo, vontade, era comum ver ele assim quando entravamos em lojas de instrumentos musicais no shopping, ou quando ele me via.

— Eu estava pensando em irmos de trem dessa vez, inaugurou a pouco tempo e eu queria ver.

— Estamos na temporada de não voo e eu não soube?

— Você não acha super romântico, nós dois juntos andando de trem ao pôr do sol? Igual aqueles desenhos japoneses que a gente assistiu.

Enquanto eu dizia isso, eu enroscava o braço dele no meu, diminuindo a distância entre nós. Os anos me fizeram bem, não posso negar, não era tão em forma quanto a Buttercup, nem tão esguia quanto a Blossom, mas eu sabia me cuidar, e com os ensinamentos que a Sr. Bellum nos passou no início da adolescência, não era difícil convencer qualquer garoto de alguma coisa, especialmente o Boomer.

— São animes Bubbles, e você tem razão.

Podiamos só voar aonde quisessemos, e podiamos chegar mais rapido do que qualquer avião comercial, mas quando se tem superpoderes, você começa a aproveitar esses momentos mais ‘pé no chão’ (mas não significa que eu queira viver eles sempre, tipo, eu amo meus poderes e a liberdade, é só um pouco de romantismo, ok?)

— Alguma novidade na vida de super heroína modelo de Townsville?

— Podemos não falar disso agora? Está realmente cansativo toda essa mídia em cima de qualquer coisinha que fazemos.

— Me irrita demais ver essas pessoas falando mal de você, mesmo entregando tanto.

— A gente se acostuma, salvar o dia tem seus lados bons e ruins, esse é o ruim.

Caminhar até a estação de trem era rápido, não era muito distante de onde estávamos, mas eu gosto de aproveitar esses momentos de ligeira normalidade, apenas um casal caminhando de mãos dadas na rua, era o mais normal que eu conseguiria tendo em vista minha vida, e sinceramente, estava bom. Pessoas normais não valorizam a normalidade, por isso os momentos com Boomer são tão valiosos, quando sua vida é repleta de anormalidades, um passeio repleto de flertes não tão inocentes e reclamações sobre as anormalidades das nossas vidas, deixa tudo mais fácil de lidar.

— E você, lidando bem com a vida de heroísmo?

— O Brick fala que somos apenas prestadores de serviço, e é um porre, como vocês faziam isso com 6 anos? E pior, de graça!

— A Buttercup reclamava muito disso, foi bem difícil convencer a Blossom, mas quando ela viu as despesas da faculdade ela mudou rapidamente de ideia.

As escadas para o trem estavam à nossa frente, era subterrâneo a início, o que dava um charme quando se saia pelo túnel dando vista direta para a baía de Townsville, a melhor parte é que eu não pareceria uma louca solitária encarando o mar como um velho.

— Para onde você quer ir depois? Faz umas horas que eu não como.

— Que bom que você perguntou, eu tenho um roteiro completo para o nosso encontro, — enquanto dizia, tirei um papel feito com muito empenho, cheio de glitter e letras coloridas — primeiro vamos pegar o trem em direção a Cityville, veremos o pôr do sol, depois vamos fazer um lanche naquela praça onde eu posso pedir banana split e você pode pedir seu sanduíche monster turbo duplo da Rose.

O sorriso que ele estampou, foi encantador, um pouco perturbador, mas acho que ter contato com ELE deixa mais difícil demonstrar emoções de forma certa.

— É tão fofo e perturbador você me conhecer tão bem.

A entrada da escadaria não era nada impressionante, Townsville não era especializada em uma boa arquitetura, principalmente a frequência que ela era reduzida a escombros. Pessoas normais simplesmente desceriam as escadas degrau por degrau, mas, sinceramente, nós temos limites, nós só flutuamos até a parte subterrânea da estação. Estava vazia, ainda bem, eu gosto de atender os fãs, mas não durante meus escassos encontros, era bem iluminado, uma arquitetura minimalista, mas ao nosso lado havia uma grande pintura, ela era o retrato de algumas figuras em uma paisagem vermelha, esquisito mas nada que Towsville não tivesse criado.

— O próximo trem sai em 15 minutos, podemos sentar ali e esperar.

— Estou bem onde estou — ele disse me puxando pela cintura para mais perto.

— Alguém está animadinho, mas melhor deixar pro final.

Outra coisa que as pessoas ignoravam sobre o Boomer, ele não era nada bonzinho, é que quando você o coloca ao lado da crueldade e da selvageria dos irmãos dele, ele parecia razoável, mas ele tinha bastante malícia por trás daqueles olhos azuis.

— Me lembre de quebrar as pernas de quem inventou que o melhor fica pro final.

Não era mais apenas um puxão pela cintura, ele segurava meu pulso com força, se eu fosse uma humana normal provavelmente doeria. Ele encarava meus olhos assim como eu os dele, estávamos centímetros um do outro.

— Estamos só nós dois aqui por 15 minutos, por que exatamente eu não posso roubar um beijo seu agora?

Chega ser nauseante quando ele tenta ser um galã, mas ele esquece que eu consigo ver as orelhas dele vermelhas como tomate e a mão esquerda dele tremendo enquanto segura minha cintura.

— Foi bom? Eu tirei daqueles filmes adolescentes que você gosta.

Provavelmente minha cara não foi a ideal para a situação, e eu sei que homens não gostam de ser elogiados assim, mas não consigo impedir de achar fofo.

— Foi, mas não quero você roubando nada, especialmente de mim, basta pedir.

Bastou eu passar os braços pelo pescoço dele para que a distância entre nós fosse mínima, eu podia sentir o hálito quente e repleto de balas de mente dele, poucos centímetros separavam nosso flerte de um beijo eletrizante, literalmente.

Trim-trim

— Trabalho?

— Argh, sim — disse enquanto tirava meu celular da bolsa.

Era o toque de prevenção, ele era diferente do de emergências, indicava que eu deveria ficar alerta contra possíveis ataques, normalmente vinham de uma ligação do centro de apoio.

— Diga Jared, espero que seja importante, estou no meio de algo aqui.

— Desculpe atrapalhar seu encontro, Bubbles, eu sei que você colocou no quadro de prioridades, mas é realmente importante.

— Direto ao ponto.

— A certo, o sensor captou assinaturas demoníacas próximas ao local que você está, receio que uma abertura surja nos próximos minutos.

— Ok, eu cuido disso, obrigado por avisar.

Townsville nunca para, e seus vilões também, aparentemente ELE não era o único demônio interessado no mau das pessoas da cidade, e desde que os desordeiros derrotaram ELE, ele soltou os cachorros na cidade, mandando seus capangas enquanto ele fica lá se remoendo.

— O que é dessa vez?

— Alerta de demônios por perto, me avisaram para me manter alerta, não precisa se preocupar, eu lido com isso.

As feições de Boomer entregavam tudo, ele nunca falou muito sobre o tempo que passava com ELE, mas o fato dele e dos irmãos terem dado uma surra histórica nele já mostra que não era muito fraternal.

— Não sei onde ele poderia surgir, estamos bem aqui e não vejo nada de estranho.

— Talvez ele apenas queira surgir nos trilhos e virar sopa de demônio.

— Não acho que demônios têm impulsos suicidas.

— Nunca se sabe, vai que ele foi rejeitado por alguma succubus.

— Boomer!

— Ok, ok, evitar piadas de mau gosto, eu lembro da regra.

Examinando a estação, não havia nada de anormal, demônios costumam surgir de dobras de realidade, alterações que eles utilizam de portal, uma porta clássica em um prédio comercial, um corredor que não leva a lugar nenhum, esse tipo de coisa.

O que mais se destacava, era o grande quadro na lateral, examinei ele por algum tempo, era algo meio surrealista e um pouco grotesco.

— Eu reconheço essa paisagem.

— Paisagem?

— É, é um dos círculos do inferno, ELE já me trancou aí uma vez para me castigar, não foi nada legal.

Nos poucos segundos que eu me virei para ver o Boomer, consegui sentir o cheiro de enxofre tomar conta do ambiente, do canto do olho eu conseguia ver a fumaça negra se aproximar.

— Vocês desordeiros sempre dispostos a atrapalhar os nossos planos — disse uma voz aguda atrás de mim.

— É, vocês não cansam de nós sabotar — outra voz surgiu, uma extremamente grave.

Eram dois demônios, ambos possuíam garras no lugar das mãos, saindo diretamente da pintura, um era semelhante a um goblin, baixinho e barrigudo, seus chifres eram como os de um bode, o outro era semelhante a um ogro com chifres de antílope.

— Astanas e Borquiór, imaginei que vocês estivessem aposentados depois da surra da última vez.

— Não temos nada para discutir com você desordeiro, nossa questão é com a Loirinha — disse Astanas, o alto de voz fina.

O ambiente estava pesado, talvez fosse o cheiro infernal que havia se espalhado, ou o olhar duro que Boomer lançava para os nossos convidados.

— Bubbles, — disse Boomer surgindo bem perto de mim — por que você não deixa que eu cuide deles só por hoje? Não quero que você manche sua maquiagem.

A mão dele, marcada e cheia de calos, passava levemente pelo meu cabelo, era doce e amável, como era quando ele me tocava, mas eu sabia que havia algo a mais ali, algo que me atiçava.

— Ok, contanto que termine antes do trem chegar.

— Eu vou sempre rápido — respondeu e depois deu um leve selinho na minha testa.

Boomer não mentiu quando disse que sempre ia rápido, eu já havia lutado com ele vezes o suficiente para saber que essa sua marca. Os demônios atrás de nós eram astutos e claramente tentariam impedir nosso flerte, pude ver com o canto do olho enquanto o goblin, Borquiór, avançou para cima de nós como um touro desgovernado. Em segundos vi o Boomer desaparecer da minha frente e acertar o demônio com as costas da mão, fazendo-o voar como se fosse uma bolinha de papel, o jogando contra a parede próxima ao trilho do trem.

Eu me contentei em dar alguns passos para trás para assistir, eu não era uma dama que precisava ser salva, mas ter alguém para fazer o serviço sujo para mim de vez em quando não fazia mal nenhum.

— Você se acha muito esperto, Desordeiro, mas eu tenho algo reservado para você — disse Astana.

Da garra dele, uma luz amarela surgiu, saindo como uma rajada em direção ao Boomer, foram segundos, não, milésimos de segundo para que o atingisse, em cheio. O ambiente foi tomado por uma fumaça amarela, impedindo qualquer um de ver o estado dele.

— Energia demoníaca pura, pode destruir qualquer mortal ao mero contato.

Eu tinha ciência disso, eu e Buttercup já tivemos ferimentos bem nojentos graças a esse tipo de golpe, essa energia dificulta que você se regenere pois ela vai matando as células em contato, é bem perigoso… para pessoas normais. Quando a fumaça diminui, raios dourados surgiram, se espalhando pelo ambiente, fazendo as luzes piscarem sistematicamente.

Lá estava ele, atrás de uma parede de raios e relâmpagos, com a bandana nas mãos, enquanto seu olho direito brilhava um azul cintilante, ileso.

— Como!? 

E como se a primeira vez não fosse o suficiente, ele continuou a atirar rajadas uma atrás da outra, todas elas atingiam o alvo e se esvaeciam em contato com a camada de raios, de novo e de novo. Boomer foi andando lentamente até ele, cada passo mais pesado o próximo passo ia, reverberando conforme ele ia se aproximando, passo atrás de passo.

— Acho que ELE não lhe informou sobre meus novos poderes.

O demônio uniu as duas garras, lançando um raio contínuo diretamente em Boomer, foi como ver um jato de água rebater em uma parede de metal, ela era refletida e absorvida ao mesmo tempo, enquanto isso, o demônio caído se levantou, correndo em grande velocidade, se chocando com a esfera de raios e eletricidade que Boomer criava, não era algo sólido, era como se ele estivesse soprando uma corrente de ar muito forte na direção oposta dos golpes.

O vento que surgiu do impacto varreu o chão da plataforma, fazendo o cachecol do boomer voar de seu pescoço e a barra da minha saia levantar. Eu tentei fazer as duas coisas, impedir que demônios vissem coisas que não deviam e segurar o cachecol dele.

— Não se preocupe, eu peguei ele. 

Consegui ver o pescoço dele, marcado com algumas cicatrizes, meu relacionamento com Boomer nunca foi muito longe, mas eu tenho quase certeza que ele deve ter mais delas por todo o corpo. Nunca perguntei, mas presumo que esse seja o motivo dele usar roupas largas o tempo todo.

Ele olhou por um instante para mim, provavelmente ele viu minha saia levantar, deve que foi o motivo dele ter se virado para o demônio causador disso. Boomer começou a marchar, pisando fundo no chão conforme os raios e relâmpagos se intensificavam, indo de amarelo a um azul bem escuro.

De relance eu pude ver o olho direito dele, ele brilhava em um azul intenso e profundo, enquanto a íris dele girava em formatos geométricos que eu sinceramente desconhecia, eu achava fascinante como os poderes dos desordeiros eram diferentes dos nossos. Conforme ele ia marchando até o demônio, ele ia sendo empurrado para trás, centímetro atrás de centímetro, fazendo um arrasto do concreto do chão.

O demônio tentava atacar com mais socos e chutes que eram empurrados de volta com mais força do que foram desferidos, ele já havia encostado às costas na parede próximas ao trilho do trem, Boomer foi lentamente se aproximando dele, o empurrando contra a parede de concreto maciço.

— Não vire as costas para mim!

Essa é a parte engraçada sobre criaturas infernais, anos lutando contra elas te dão uma concepção precisa do que eles iram fazer, eles tem ego super frágeis e tomam decisões idiotas por causa disso.

Vi aquele demônio, encher a garra de energia demoníaca, atacando sem pestanejar, chocando os raios azuis com partículas amarelas que se espalhavam pelo ar, era uma linda mistura visual de azul e amarelo, não pude esconder o sorriso.

Boomer virou o rosto um pouco, encarando aquele demônio com seu olho esquerdo, os formatos geométricos mudaram constantemente, pude ver que Astana começou a tremer conforme a energia de Boomer ia o empurrando para trás e amassando Borquiór na parede.

— Quanto mais vocês usarem sua energia em mim, mais forte minha campo vai ser. — A gaiola de Faraday, eu lembro quando Blossom o deu as dicas para usar essa habilidade, nós a treinamos juntos muitas vezes, o Boomer cria um entorno de si próprio com energia estática, criando um campo magnético que repulsa quase tudo que chega perto dele, atravessá-lo é exponencialmente mais difícil e por algum motivo ele consegue dissipar a energia direcionada a ele, foi uma explicação demorada e detalhada da blossom, mas por cima é isso. 

— Acho que seu amiguinho aqui não está aguentando mais.

Boomer se virou para Borquiór, o olhando no fundo dos olhos antes do seu campo se expandir e expandir, amassando e quebrando o demônio osso por osso, órgão por órgão, até que ele finalmente cedeu.

BOOM

Como uma bomba de confete de festas de aniversário, o demônio explodiu, espalhando seu sangue dourado por todo lado, manchando a roupa de Boomer, as paredes e infelizmente meu vestido. Foi extremamente violento, grotesco até, mas tem algo que as pessoas não gostam que eu admita, mas eu gosto de um pouco de violência, ver criaturas más irredimíveis que vivem apenas para trazer o mal as pessoas sofrerem do próprio veneno me deixa bem satisfeita.

Um pouco daquele líquido dourado respingou no meu rosto, próximo o suficiente para que minha língua alcançasse, ok, eu admito, é nojento, mas eu sempre tive um apetite bastante liberal, o gosto era doce, estranhamente doce, uma mistura de chocolate de creme com toques amanteigados. Naquele instante, quando eu terminei minha degustação, pude ver Astana tremendo, da cabeça aos pés, Boomer o encarava com um sorriso maníaco estampado, ele sabia muito bem que seria o próximo, então ele tomou a decisão que para ele seria a mais inteligente, ele fugiu? Não exatamente.

Ele parou de atacar o Boomer e correu, usando sua super velocidade para vir para cima de mim, eu sabia claramente o que ele queria, nesse negócio de luta contra vilões eu já era uma veterana. Ele me queria como refém, iria utilizar de pressão psicológica contra o Boomer para conseguir o que queria, ele sabia que o Boomer era emocionalmente frágil, estávamos trabalhando nisso juntos mas era difícil minerar por tantos anos de traumas.

E isso me irritava muito, muito mesmo, muitos, centenas de vilões já tentaram me fazer de refém, eles achavam que eu era o elo mais fraco das meninas, que eu seria facilmente manipulada, que eu seria a primeira a ceder sobre pressão, que eu era incapaz de me proteger.

Astanas estava se aproximando rápido, Boomer estava desativando seu campo de força devagar demais para tentar fazer algo, não que ele precisasse, eu estava ciente de toda a situação.

Eu encarei aquele demônio com todo o deboche, raiva, orgulho e maldade que eu tinha dentro de mim, e abri um largo sorriso, fazendo um pequeno sinal com a mão, eu queria ter visto a reação dele, mas as vezes eu passo um pouco do esperado.

CRACK

Quando a garra dele estava a centímetros do meu rosto, o corpo inteiro dele foi abocanhado por um grande tubarão branco, que surgiu em instantes, feito inteiramente de uma substância azul marinho, arrancando o braço dele em questão de segundos, que voou longe pela plataforma. O sangue dourado se espalhou pelos lábios do grande tubarão branco e um pouco pelo meu vestido, fazendo o babado branco em algo amarelo ouro lindo.

— Quem é o tubarão bonzinho? — perguntei enquanto fazia carinho no queixo dele — É você mesmo, quem é a minha máquina mortífera preferida?

Ele balançava e sorria a cada carinho que eu fazia, ele se dissipou um pouco depois disso, Sharky era uma das minhas invocações preferidas, mas não conte isso aos lobos, eles são muitos ciumentos.

— Cara isso foi super foda, tipo muito Hardcore, ele foi tipo muito rápido mais ai você foi mais e… — disse o Boomer antes de olhar para o meu vestido — A merda! Mil desculpas, eu devia ter sido mais atento, será que ainda dá para irmos ao encontro? Eu compro outro se for preciso…

Eu adorava isso nele, como ele podia sair do psicopata mirim para um garoto super atencioso, pelo menos comigo, meu vestido estava estragado? Estava, era culpa do Boomer? Talvez, mas sinceramente, tem coisas na vida que vão além disso.  Eu gosto da normalidade, porém, viver isso, lutando contra vilões, caçando demônios, descobrindo novos poderes e testando nossos limites, acho que eu não trocaria por nada, pelo jeito eu estou presa ao Boomer mesmo, felizmente.

Eu me aproximei dele sem dizer uma única palavra, talvez eu estivesse o deixando nervoso, mas que garota bonita não faz isso com os garotos, passei meus braços pelo pescoço dele, voei para ficar na altura dele e o beijei. Ele não tardou em retribuir passando os braços pela minha cintura e costas, era quente, eletrizante, reverberava na minha espinha fazendo até meus dedos do pé se contraem nos tênis brancos que agora eram dourados.

Boomer nos separou com as sobrancelhas levantadas, estampando uma cara de surpresa bastante fofa.

— O professor mudou algo na sua composição? Você está mais doce do que o normal.

Não pude me segurar de rir na frente dele, o deixando mais confuso ainda.

— Não, talvez eu tenha provado um pouco dessa meleca no meu vestido.

O olhar dele passou por surpresa, confusão e uma malícia tentadora.

— Realmente eu tenho que te conhecer melhor, Sra Utunium.

Já podíamos ouvir o barulho do trem se aproximando rapidamente ao fundo.

— Não se preocupe, você vai ter a vida toda para descobrir meus segredos.

O rosto de Boomer foi de surpresa para uma total cara de espanto, ele começou a gaguejar murmúrios que eu sabia o que significavam, meus ex's sempres falavam que eu era muito intensa nos relacionamentos, talvez eu seja mesmo, grudenta também, ciumenta as vezes, mas assim como eu era, o Boomer também tinha seu combo de defeitos que eu já havia aceitado, eu não esperava que ele aceitasse os meus.

Pois eu sei que ele vai.