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Whisky fever

Summary:

Pude sentir a brisa de seus lábios tocando rapidamente as costas de minha mão. Ou, talvez, o whisky tenha inibido meus sentidos e me dado um doce e cruel sono febril.

Work Text:

O whisky costuma inibir a dor.
Costumava me fazer esquecer o que me faz senti-la. Agora ele simplesmente adormece meu corpo e deixa turva minha visão. Isso faz com que eu não sinta a lâmina desenhar linhas carmesins, que pintam desde as bandagens que outrora cobriam a pele pálida até o piso. Não vejo com clareza o tom de vermelho no chão, mas sinto seu cheiro, o simples ato de tocar a poça no chão faz com que eu lembre de quando toquei o sangue que não era meu. Quando mãos sujas de sangue tais quais as minhas tocaram minha pele pela última vez. Quando o corpo frio jazia em meus braços. Ainda podia sentir seu toque frio. Mas ele de repente ficou quente, como se em suas palmas houvesse brasas que acariciavam minha pele, unindo-se ao álcool na luta para tornar a trazer calor ao corpo congelado pela dor, ou talvez pela perda de sangue. Elas me tocaram de uma forma diferente também, não possuíam a leveza do toque de um escritor mas sim o peso e a aspereza de um lutador. Tentei focar em seu rosto, mas não consegui. A figura era um borrão em movimento. Acho que ele disse algo, mas não consegui absorver.
Ele era mais baixo que eu. Mesmo sentado isso era claro. Passei a gostar disso depois de um tempo, fazia parecer que ele era quem precisava da minha proteção mesmo que sempre fosse ao contrário. Pelo menos possuía uma imagem intimidadora, naquela época isso bastava para afastar qualquer um, afinal, eu era o demônio prodígio. Mas isso nunca o afastou, acho que ele conseguia ver por baixo disso, por baixo do sangue e das bandagens (as que ele próprio colocou em mim algumas vezes, como agora) ele me viu, de uma forma que nem eu mesmo consegui até hoje. E eu estou vendo-o agora. Seus olhos são brilhantes, sempre foram, até mesmo no escuro, eles brilham com sentimento, ele sempre sente demais. Seu cabelo tem um corte ridículo, é longo de um lado e curto do outro, ele tem ondas ruivas. O ruivo me trás lembranças ruins, me lembra de Odasaku, me lembra o vermelho do sangue, me lembra a merda da gravata que Mori sempre usa. Mas o cabelo dele tem uma tonalidade de cobre, me lembra o nascer do sol. E as vezes acho que tenho astigmatismo, porque parece impossível olhar para ele sem me sentir queimar.
Enquanto enfaixava meu braço pude sentir seus anéis, pude sentir sua pulsação (poderia estar cego e mesmo assim reconhecer o ritmo de seus batimentos, eram como uma melodia gravada em mim) e também senti seus dedos, seu toque em minha pele. As pessoas costumavam não me tocar, por diversas razões, quando eu era criança eu era extremamente pálido, minhas veias eram visíveis abaixo da pele quase transparente, as crianças achavam nojento, como se fosse um cadáver apodrecido que as transmitiria doenças, e os adultos achavam que eu era uma boneca de porcelana que racharia ao mínimo toque. Depois, foi meu poder, desconectar-se de sua habilidade era desconfortável para a maioria dos usuários. Mas não para ele, acho que ele tem mais do que pode suportar, e isso acaba pesando.
É engraçado, ele se considera sem humanidade pelo seu poder, mas é uma das únicas pessoas que conseguiria ser o mesmo sem ele.
Inumano. Que tipo de idiota consideraria qualquer pessoa mais humano que Nakahara Chuuya? O que faz um ser humano? Ser capaz de sentir? de amar? Chuuya carrega esses fardos mais do que qualquer um que eu conheço. Eu nunca fui capaz disso. Sinto apenas o que absorvo dos outros. Tento compensar minha falta de conexão sendo quem esperam que eu seja. Tenho que nadar contra a correnteza de mentiras em que eu mesmo me afundei. Acho que ele me faz flutuar. Não sinto o chão, mas sinto seus braços me sustentando. Quando a superfície me encontra é macia. Minha cama. Ele me carregou até minha cama. Seus braços me soltam enquanto ele se afasta. O frio parece voltar. Não consigo vê-lo, mas o sinto, ouço, eu o toco. Minhas mãos envolvem seu pulso, meus dedos tocam a pele fina de seu interior, a pulsação que conheço melhor que a minha própria unindo-se ao sangue residente em minhas mãos. Mas não tem problema, até porque, é a sujeira que ele próprio já limpou muitas vezes, meu sangue. Seria dele se ele quisesse, assim como cada parte de mim, que apenas aguarda sua reivindicação.
Acho que eu disse alguma coisa, e acho que ele ouviu, porque soltou um suspiro e sentou-se no chão do lado da cama, sem desvincular-se do meu toque. Perto de mim, mas nunca comigo. Eu podia toca-lo, mas seus olhos estavam fora do meu alcance. Podia sentir o cheiro de fumaça e poeira, mas nunca perguntar o que aconteceu. Assim como ele podia vir aqui cuidar dos meus ferimentos sem saber o que os causou. Era nosso pequeno acordo. Ele ficaria aqui, segurando minha mão para que eu não morresse de hipotermia, mas pela manhã o quarto estaria completamente frio e vazio. Nenhum batimento cardíaco reconhecível. Apenas a visão do nascer do sol, me lembrando do cabelo que um dia pude tocar.
— Sinto sua falta.
Sofro com sua falta mesmo em sua presença.
Não tenho certeza se realmente falei ou se as palavras ficaram em meus pensamentos enevoados. Mas sei que naquele momento ele entrelaçou seus dedos com os meus, e pude sentir a brisa de seus lábios tocando rapidamente as costas de minha mão. Ou, talvez, o whisky tenha inibido meus sentidos e me dado um doce e cruel sono febril.