Chapter Text
A madrugada se estende, pinta os céus com os seus pastéis azuis e roxos, cobrindo o manto da cidade em uma não tão eterna escuridão. Alhaitham, acostumado com a recorrente insônia, revira sua escrivaninha em busca da perfeição imaculada. A luz das velas posicionadas em pontos estratégicos cobrem o seu rosto com uma veladura suavemente quente, aquecendo suas bochechas de maneira a torná-las mais rosadas do que o costume.
Em meio a organização metódica de papéis, ele encontra uma falha. Uma carta devorada pelo tempo que ali ficou enterrada, diferente de todos os papéis escritos por suas mãos. Ele a examina, frente e verso, mas a única marca que a identifica é um selo vermelho sangue que protege as palavras depositadas dentro dela.
Ele abre a carta, temendo já saber quem a escreveu.
…
Eu provavelmente nunca te contei isso, mas, eu leio o seu diário todas as noites.
Cada segredo seu, cada ondulação registrada pela caneta sobre o papel que me contam parte de quem você é estão entalhadas em mim. Elas já são parte de quem sou, algo que nunca mais poderá ser esquecido ou retirado.
Você é um bom escritor, Alhaitham. Muito melhor do que eu esperava, honestamente. Jamais imaginei que um escrivão pudesse transcrever sentimentos de maneira tão vívida que chegam a queimar. Mas mais uma vez, você foi capaz de provar que eu estava errado.
Devo começar dizendo que gostaria que fôssemos mais diretos um com o outro. Admito que por muitos anos imaginei que você me odiava — e descobri que na verdade você odeia, mas não como eu um dia entendi. O seu rancor se mistura com o desejo de ser como eu, de também ser parte de mim.
Sei que você pode vir a me odiar ainda mais por expor sua intimidade aos meus olhos quando não foi me dada a permissão, e acredite, eu assumo o risco. Porém, conhecer você me alimenta o desejo de te devorar, palavra por palavra, até que sejamos um só. Uma única alma que compartilha diferentes histórias entrelaçadas por carne e osso. Sinto que seu corpo seria o paraíso da minha alma.
Por isso, estou sendo transparente contigo quando digo que li cada página escrita. Li cada dúvida, cada ponta solta que carece de respostas que nunca tinha lhe entregue até então. Com isso, quero que me conheça também, que possa enxergar a minha própria nudez assim como eu enxerguei a sua. Que cada pincelada nessa carta seja como a peça que faltava em seu quebra-cabeça de dúvidas.
Seu caderno me disse sobre seus sentimentos mistos em relação a mim.
Eu admiro você, do fundo do meu coração. Algo em sua expressão retraída expõe uma certa inocência, curiosidade de conhecer um mundo além das barreiras que você mesmo construiu ao seu redor. Essa face sua, que só eu consigo enxergar, é a mais linda do que meros rostos que outros tenham me mostrado no passado.
Contigo, sinto que posso me livrar das máscaras que esculpi para outros, pois sei que pouco se importa com a minha feiura. Por muito tempo, achei que pouco se importava com a minha presença, mas não. Você enxerga cada imperfeição minha como “os remendos dourados de um kintsugi”, assim como tu mesmo escreveste. E para mim, essa foi a maior confissão de amor que poderia sair das suas palavras.
No entanto, Alhaitham, devo confessar. Da mesma maneira que meu coração corresponde à minha adoração por você, ele também pulsa em rancor.
Sua casca me causa desgosto profundo, pois eu sei que ela é o que impede de sermos simples, de termos algo simples. Você é como um enigma que jamais serei capaz de desvendar, mesmo dedicando a minha vida inteira a isso. É como se não fosse feito para ser resolvido por ninguém, o que me deixa fazendo papel de trouxa toda vez que tento nos reduzir a alguma coisa. Somos amigos? Amantes? Ou inimigos?
Acho que essas dúvidas são o que me fazem ficar por perto. Elas me intrigam, me causam fome em sua forma mais primitiva. Me fazem desejar ser um mero parasita que se aloja em você e te consome até que não reste nada. Apesar disso, te vejo como alguém cujo envolvimento provém satisfação genuína, algo além de uma mera troca ou dependência unilateral.
Me pergunto o que você viu em mim. O que mais gosta de quem sou?
Suas palavras dizem que são as mechas escurecidas do meu cabelo macio, a maneira na qual a ponta do meu nariz move conforme falo alguma coisa, cada sarda perfeitamente posicionada sobre minha pele… mas sei que isso foram apenas detalhes que observaste como consequência de algo que te despertou o interesse muito antes. Caso contrário, jamais saberia de coisas tão particulares minhas.
Sei disso pois também conheço um pouco do seu íntimo. Sei como suas sobrancelhas franzem quando está minimamente concentrado, como olha para mim sempre que precisa de um minuto de silêncio. Sei como seu coração vibra ao perceber que acendi a sua vela favorita. Eu também tenho olhos para você — e às vezes, é tudo o que consigo enxergar.
Me conte mais sobre ti mesmo, Alhaitham. Aquilo que esconde até mesmo de si próprio. Me instiga a saber até mesmo as coisas mais simples, tudo o que quiser me compartilhar.
Foi bom escrever para você.
De seu “alguém”,
Kaveh.
…
O homem abaixou a carta e a fechou novamente, lágrimas se formando em seus olhos. Gostaria que tivesse lido tais palavras antes. Assim, talvez, tivessem mais tempo — para trocar cartas, conversar como dois adultos, sem a camada de mentiras que fundava a relação entre eles. Talvez pudessem até mesmo dar um nome ao que tinham. Mas sabia que agora era tarde demais. Kaveh não iria voltar.
No que estaria pensando agora?
