Work Text:
Quando tudo estava feito e sua missão cumprida, era a hora de descansar. Sentar-se em repouso e permitir que o tempo acalmasse as feridas da alma, anestesiando a dor e cicatrizando os buracos no coração deixados por quem já se foi.
Tudo o que precisava fazer, era aprender a viver em uma nova realidade onde seu maior desafio era reconhecer a existência da paz e se permitir relaxar nos braços do marido.
Arthur se recostou contra a pilastra do alpendre, acendendo um cigarro e permitindo que a queimação da nicotina entrasse em seus pulmões e acalmasse seus pensamentos, sorrindo levemente para o burburinho que vinha de dentro da casa, Ivete fofocava com Balu e Dante tentava sem muito sucesso fazer com que Jennifer II saísse de cima de algum documento.
Ele assoprou a fumaça do cigarro para longe, vendo a névoa se misturar com o sereno da noite e por um segundo o rosto de Thiago brilhou em sua mente e por aquele breve instante ele não estava fumando aquele cigarro sozinho.
Somos os túmulos e as igrejas daqueles que se foram.
Ele gostava da frase, ficou com ele desde a primeira vez que Dante a recitou, citando o trecho de um livro ou outro. Tão inteligente era aquele seu marido. Às vezes, em momentos como aquele, Arthur se pegava catalogando os pequenos retalhos que ele e o marido teceram em suas colchas, recortes de quem as pessoas que amaram costumavam ser e que inconscientemente ou não eles adotaram para si.
Se ele procurasse com atenção o bastante, percebia estar em todos os cantos da vida que estavam construindo para si. No pequeno jardim ao redor da casa, jasmins para o primeiro amor de Dante, violetas para Kaiser. Estava na forma como o marido mantinha uma cópia da divina comédia na cabeceira da cama e folheava quando a saudade de Beatrice apertava e estava na forma que Arthur tomava uma xícara de café todos os dias depois do almoço como o pai costumava fazer.
E em como ele sempre balançava a cabeça quando precisava resolver um caso porque a Liz já teria conseguido ou quando assistia às competições de ginástica na televisão tentando imaginar o Joui ali, no lugar daqueles atletas. Ele apagou a bituca do cigarro no cinzeiro ali do lado e enfiou a mão no bolso, fechando os dedos em volta de uma moeda e lançou o objeto para o alto.
Somos os túmulos e as igrejas daqueles que se foram.
Sua mão apanhou a moeda e ele sorriu. De fato e eram erguidos em memórias.
— Entra guri, se fica assim no sereno vai acabar pegando uma friagem.
Arthur balançou a cabeça e guardou a moeda se virando para Ivete parada na porta e caminhou até ela passando o braço sobre os ombros dela e os guiando para o interior da casa.
— O Dante cuida de mim.
Brincou e segurou uma risada ao ouvir o homem em questão reclamar quando a gata jogou uma pilha de papéis no chão.
— Bah, ele tá ocupado demais apanhando para a gata.
— Arthur manda a gata parar de bagunçar o meu trabalho!
