Work Text:
Mosto é um segurança. Ele sabe proteger as pessoas.
Ele sabe o que fazer quando alguém engasga, mesmo que seja algo grande e afiado como uma chave.
1. Fique atrás da pessoa que está engasgando;
2. Coloque os braços em volta da cintura dela, como se fosse um abraço;
3. Feche um dos punhos e posicione-o logo acima do umbigo;
4. Coloque a outra mão em cima do punho fechado;
5. Faça cinco vezes um movimento de compressão, para forçar o objeto do engasgo a sair;
6. Os movimentos devem ocorrer sempre em direção para cima e nunca para baixo.
— Me solta, caralho! - Tarrafa rosna, estranhamente ingrato por Mosto tentar salvá-lo - Solta, solta!!
— Tarrafa, engasgado - explica - Tarrafa, engasgado, chave. Perigoso.
Ele ri, deixando o grandão ainda mais confuso e irritado. Tosse no meio do riso, provavelmente pela garganta arranhada, depois ri mais um pouco.
— Tá tudo bem, Mosto. Eu fiz de propósito.
— Engolir chave, perigoso.
— Eu gosto do perigo! - Dá um joinha, sorrindo para o amigo.
[...]
— Mataram Tarrafa - Mosto chora, aos berros - Mataram, mataram!
— Eu não morri não, maluco - ele se levanta do chão sujo do banheiro da balada, com um sorriso meio torto no rosto, muito sangue pelo corpo e a porcaria de um arpão atravessando sua garganta.
O segurança ainda estava se acostumando com a ideia de Tarrafa gostar de engolir chaves. Ele contou que ouviu falar de uma síndrome de pica que, apesar de não ter gostado do nome, talvez fosse o que ele tinha. Ou talvez não, quem sabe fosse só o prazer que sentia na dor de ter sua garganta arranhada. Teria que consultar um médico para saber, e ele não tinha tempo, dinheiro ou vontade de fazer isso.
Mas um arpão atravessando sua garganta? Aquilo era demais para seu cérebro acompanhar.
— Tarrafa vivo?
— Sim, mais vivo que nunca!
Ele olha, de todos os ângulos possíveis, o buraco na goela do amigo. Como ainda estava vivo? Para ele, não tinha como isso ser normal. Não mesmo.
— Aqui, oh - ele tira o arpão, deixando Mosto tocar no buraco aberto e sangrando - Vivinho da Silva.
Ele se admira e coloca o dedo para ter certeza de que era real. Coloca de um lado, do outro, só para confirmar que não era o fantasma do seu amigo que voltou para lhe assombrar.
— Além do mais, não sei se dá pra matar alguém furando a garganta - reflete, olhando para o arpão - Seria melhor perfurar o peito. Acho.
De repente, o grandão se lembra do motivo da sua visita. Discretamente, pega do bolso um molho de chaves que não ia mais usar e põe atrás das costas.
— O que você tá escondendo, grandão?
— Presente, Tarrafa.
— Presente pra mim?! O que é?
Divertido, ele balança o molho de chaves, fazendo o outro sorrir abertamente ao ouvir o tintilar metálico.
— Comida?!
Mosto finalmente entrega para o colega, que logo solta o arpão e agarra o presente.
— Tarrafa gostar chaves - ele sorri por baixo do saco de pão, feliz por ter acertado em cheio no presente.
— Sim, sim, eu gostar muito!
