Chapter Text
Depois da última temporada, Erin me perguntou se voltaríamos a ser namorados, eu apenas marquei um novo encontro no telhado, onde confessei que seria a última vez que ela me chamaria de namorado.
Não precisei explicar muito, Erin é muito inteligente e mais experiente com esses sentimentos, então ela deduziu que se tratava dos sentimentos que surgiram em mim depois da chegada do Garoto21.
Depois de alguns minutos calados, apenas prestando atenção no ar que saía das nossas bocas, Erin finalmente quebra o silêncio.
– Você não vê, não é? Já percebeu que o Russ gosta de ficar com você? -- pergunta Erin. -- Ele segue seus passos o dia inteiro como um cachorrinho perdido. E a maneira como ele olha. Ele gosta de você. Ele precisa de você. Você tem sido um bom amigo. Tem ajudado o Russ. Se ele decidir entrar para a equipe, provavelmente vai ser só para vocês dois poderem permanecer juntos.
– Ele só me segue porque o treinador falou para ele fazer isso. Esse é o único motivo. – Sei o que Erin está tentando fazer com que eu não me sinta tão perdido, o que pode ser um pouco estranho, quer dizer, quem mais daria conselhos para seu ex sobre a nova paixão dele?! Mas Erin é evoluída o bastante para não ligar para isso, ou ela só percebeu tudo isso antes de mim e se preparou antecipadamente.
E tudo isso faz com que eu a admire ainda mais. Erin foi a primeira pessoa que me mostrou que nem sempre preciso guardar tudo para mim, perder ela completamente seria algo doloroso.
-- Não, não é, Finley. É porque você é uma boa pessoa. Porque é fácil ficar perto de você. Porque você é você. Não exige nada de ninguém, nem diz qualquer coisa negativa...nunca. Há tanta gente que suga a vida de todos ao redor, mas você não. Você dá força às pessoas, apenas por ser quem você é.
Não concordo com ela, mas não falo nada.
Depois de alguns minutos, enquanto Erin brinca com meus dedos, ela suspira e diz:
– Ouvi uma conversa do treinador com os avós do Russ, antes dele esquecer completamente essa história sobre cosmos… Russ disse aos avós que perguntou aos pais se poderia ficar na Terra por mais algumas semanas porque tinha um amigo chamado Finley, que era uma “presença tranquilizadora”. Ele disse que estava gostando da sua companhia.
Eu me lembro da primeira vez que escutei isso vindo do Russ.
“Gostaria de me sentar com você em seu telhado um dia desses e lhe contar sobre meu lar… o espaço – disse Russ. – Sua presença é tranquilizadora, Finley. Seria possível nos sentarmos em seu telhado um dia desses?”
Nunca me disseram que minha presença é tranquilizadora. Talvez as pessoas pensem isso, mas simplesmente não digam.
“– Claro – respondi.”
Gosto muito mais das palavras presença tranquilizadora do que de Coelho Branco ou mudinho idiota.
Eu observei o seu rosto, tentando descobrir se ele tava debochando de mim ou sendo irônico, mas não era o caso – ele parecia estar falando sério, e com a descoberta de que ele também compartilhou isso com os avós, acredito que seja verdade.
Naquela noite nós ficamos sentados em silêncio no telhado, até o treinador ir buscá-lo, visivelmente constrangido.
Fiquei acordado a noite inteira pensando no Garoto21.
Por muito tempo me senti egoísta por beijar a Erin enquanto pensava em Russ, mas eu achava que poderia ser porque ficávamos juntos praticamente o dia todo, e não porque estava começando a gostar dele.
Agora vejo que eu sempre a amei, mas que nunca fui apaixonado de verdade por ela.
– Eu fui um péssimo namorado, não é?
– Não diria isso, mas acho que funcionamos melhor como amigos, então não precisa se preocupar tanto comigo, claro que preciso de um tempo, mas eu realmente quero que você continue na minha vida.
– Quando você percebeu…? – Pergunto sem saber se ela irá entender minha pergunta.
Erin encolhe as pernas e fica de frente para mim, o que me obriga a fazer o mesmo.
– Vendo aquele velho cliché acontecer: Você olha para ele como eu queria que você olhasse para mim.
É algo chato de admitir, mas eu sei que ela tá certa.
– Eu realmente tô orgulhosa de você, Finley. E eu sei que a sua mãe também deve estar orgulhosa.
Em seguida ela me abraça, um abraço confuso, mas que me deixa com o coração quente.
Depois de deixar um beijo na minha testa, Erin devolve a pergunta:
– Como você descobriu?
A verdade é que eu não sei qual a resposta correta. Parece que esses sentimentos sempre estiveram aqui, mas com o tempo foram desabrochando lentamente.
– Não sei… – Erin me conhece, sabe que eu quero falar mais, então espera pacientemente a minha coragem chegar – Na primeira vez que ele sorriu pra mim, eu me senti… estranho, mas de um jeito bom.
– E quando foi isso?
– Quando eu o conheci. Ele me perguntou porque eu me importava com ele, eu disse que de alguma maneira me importava com todo mundo, então ele sorriu.
– No mesmo dia ele trocou de blusa na minha frente, acho que fiquei tempo demais encarando o corpo dele, admirando. Depois disso, por mais que o medo de perder minha posição no time crescesse cada vez mais, eu sempre ficava ansioso para encontrar ele.
– E agora que ele pegou seu número, como se sente? Ele era importante pra você.
– Ele era. Basquete já não me faz tão feliz quanto antes, e se entregar meu número for o suficiente para o fazer feliz, então não importa. Posso fazer muito mais por ele.
Erin me dá um sorriso pequeno e um aperto nas minhas mãos.
– Faça o que for preciso para você e Russ terem uma vida boa. Vou torcer por você. – Mais um aperto e ela se levanta– Agora eu preciso ir, amanhã irei encontrar as meninas para comemorar o jogo.
– Você quer que eu te deixe em casa?
– Não precisa, é melhor você ficar, caso seu avô precise de ajuda, mas aceito você me deixar até a porta.
Então me levanto e sigo Erin em silêncio. No lado de fora, meio incerto como me despedir, coloco as mãos dentro do bolso do blusão que tô vestido, que inclusive é do Russ, foi deixado aqui em alguma noite que ficamos no telhado.
– Fico feliz que você esteja finalmente seguindo o que você deseja, Finley. Sempre esperei por esse momento. E mesmo que as coisas demorem para ficar confortáveis, vou adorar ouvir sobre vocês dois.
– Você vai querer mesmo ouvir?
– Menos a parte mais constrangedora, sinto muito, mas você vai ter que procurar outra pessoa para isso. --Erin se afasta e dá de ombros enquanto expulsa a risada pelo nariz.
– Você definitivamente não precisa se preocupar com isso, você seria a última pessoa a saber. – Digo fazendo uma careta que deixa claro o constrangimento.
– Isso me deixa aliviada, obrigada Sr. Finley. Bom, agora preciso mesmo ir… muito obrigada por ter sido sincero.
– Acho que era o mínimo que você merecia, Erin.
Depois de um breve abraço, Erin se vai. Não sei quanto tempo eu fico do lado de fora, mas contando quantos pensamentos passaram pela minha cabeça, com certeza foi por longo tempo.
