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Jouno e Tetchou haviam adotado Kenji legalmente há quase um ano e eles viviam numa casa relativamente grande, sem muitos luxos ou decorações e ainda assim muito confortável. Podia se dizer isso pela bagunça que a sala estava aquela noite. Tanto Kenji quanto Tetchou eram pessoas simples, diferente de Jouno, que gostava de agradar seus sentidos e sempre procurava o melhor em todos os quesitos: acessórios, alimentação, itens e móveis, tudo era uma experiência quando se visitava a casa da família.
Naquela noite em especial, uma forte tempestade era esperada por todos da região, o que para alguns significava uma noite aconchegante, para o jovem garoto loiro no auge dos seus 14 anos era assustador e parecia reviver os piores momentos da sua vida. O dia em que seu vilarejo foi tomado por uma chuva agressiva e impiedosa. Os olhares tristes das pessoas por todos os lados. Os choros das crianças que, tão novas nesse mundo já viram tamanha tirania por parte das forças maiores que circundam essa terra. Apesar de tudo isso, ele entendeu que há coisas que não se pode controlar e o importante é seguir em frente com determinação.
Mesmo assim, no seu quarto, cada flash que iluminava as paredes apertava seu coração, o som de cada trovão parecia perto e cada vez mais perto, quase agarrando seus braços e os apertando com força, quando se, na verdade, era ele quem fazia isso numa tentativa de se confortar. Sozinho ele não conseguiria. Era um contra o mundo. Era solitário naquela roda de bichinhos de pelúcias inexpressivos, eles não sentiam medo?
Inquieto, o garoto se levantou, calçou suas pantufas de vaca e caminhou pelo corredor. Olhando para a sala havia no chão alguns copos e o controle da televisão, que davam luz às lembranças dos velhos tempos que viveu há duas horas atrás, em que ele e Tetchou passaram tarde juntos assistindo seu desenho favorito em um forte feito de almofadas. Ao chegar em casa Jouno não gostou nada da desordem e os dois prometeram que arrumariam tudo, evento adiado para o dia seguinte.
No entanto, tudo acontecia naquela noite, inclusive esse sentimento traiçoeiro. Os passos o levaram a desaguar no quarto do casal o qual ele chamava de “pais”. Apenas naquela aproximação ele escutou do outro lado da porta uma voz fraca, mas audível, que o chamou para entrar.
Jouno, que ouvira seus passos receosos, já interpretou toda a situação, visto que é incomum o garoto sair do seu quarto de noite, imaginou que apenas uma anormalidade como a própria tempestade poderia ser a principal motivação. Como de praxe, ele não errava.
Em passos tímidos, Miyazawa se aproximou e ficou numa curta distância da cama de casal, vendo Jouno se ajeitar ainda que deitado, virando-se para o filho.
— Precisa de algo, meu bem? — Disse quase num sussurro, julgando pela respiração do seu marido, sabia que já estava no segundo estágio do sono e preferia não atrapalhar.
O albino então ergueu um braço e convidou o menor a se aproximar. Ele arriscou uns passos e sentiu o toque da mão macia do pai pela sua bochecha, acariciando com ternura o rosto que trocava o medo por serenidade aos poucos. A voz saiu relativamente mais alta. — Posso… Posso dormir com vocês?
— Uhm… — Hesitou. Saigiku gostava do espaço que estava delimitado, se incomodava facilmente durante o sono e ter mais um corpo no mesmo ambiente significava ter mais sons, temperatura mais elevada, etc.. Outra questão que o incomodava era seu plano de dormir agarrado a Suehiro do seu jeito possessivo, como normalmente fazia, mas na companhia de uma criança precisa-se de decência! Pensou ele.
Quem enganar? Ele é um cão de caça, poderia superar até a morte. E felizmente seu carinho pelo filho era tão grande quanto sua arrogância (aparentava). Ele concluiu que estava tudo bem, era uma situação inusitada, sim, porém seria apenas aquela vez e por sorte não aconteceria tão cedo novamente. Kenji dorme na ponta, Jouno pode arriscar agarrar o braço do seu homem ou qualquer outra coisa inocente.
Depois de um curto período de tempo, apesar da complexidade dos pensamentos, Jouno declara em baixo e bom tom — Pode, vem cá.
Kenji se anima. Jouno levanta o cobertor chamando-o e assim o menor retira a pantufa e entra; para a surpresa do albino, ele passa por cima de si e se aconchega no vão entre os pais, sorrindo de forma boba. O medo já virou problema do passado e Kenji se sentia mais corajoso para fechar os olhos e dormir.
Saigiku, por sua vez, com suas expectativas quebradas, se viu sem opção. Ficou chateado mas engoliu o orgulho como fazia com suas exceções — ou seja, sua família — e deixou o garoto ficar como quisesse.
Se deitou e relembrou da história do filho, foi aos poucos dando mais importância para a situação e interpretando da perspectiva da criança. Não era justo que ele agisse com orgulho de maneira alguma. Era um adulto e, mais que isso, era um responsável agora. Ele normalmente não sabia expressar o amor que cultivava com tamanha profundidade. Vivia com as pessoas mais pacientes que conhecia e se sentiu envergonhado por ser tão reativo, um fato interessante é que o militar se esforça muito diariamente para amenizar suas respostas.
Kenji dormia melhor quando comia e como a chuva atrapalhou seu horário de dormir, talvez não estivesse tão apto a dormir quanto antes, afinal, o pequenino normalmente tem uma janta farta antes de ir para a cama por conta da sua habilidade.
Essa informação martelou a cabeça de Saigiku e decidido a ajudar, ele afaga os cabelos do filho, passeando os dedos pela sua cabeça e balançando mechas de cabelo lentamente. Escutou a respiração dele diminuir os passos aos poucos, percebeu que a atitude inocente mudou o rumo da noite do menino e se sentiu bem, de forma tão natural como o amor paterno deve ser. Não se sentiu bem pelo seu feito mas sim por saber que a criança então se sentia segura e mais que isso, amada.
A tempestade não parecia tão ameaçadora, afinal.
