Work Text:
“Eduarda Fragoso é uma policial.”
O empresário passa a mão pela testa e encara o capanga.
— Você sabe o que fazer.
— Sim, chefe.
*-*
— Eu demorei menos tempo que você pra namorar.
— É óbvio que não.
Juquinha discute com Paulinho enquanto saem de um restaurante depois do almoço.
— É óbvio que sim.
O investigador gargalha e finalmente se rende.
— É que vocês mulheres são mais diretas. Eu tive que preparar o terreno.
— Preparar o terreno?!
Juquinha abre a porta da viatura quando ouvem um estampido. Paulinho olha na direção do barulho e repara em um homem mascarado fugindo da cena. Ele volta a olhar Juquinha quando vê ela apertar o ferimento no estômago com a mão ensanguentada.
— JUQUINHA!
Ele corre a tempo de ampará-la e a última imagem que a jovem policial tem é do homem chorando.
*-*
Lorena não sabe por quantas vidas passou antes dessa, mas tem certeza que não está preparada para perder o amor de sua vida justo agora que a encontrou. Ela chega no hospital, quase que no mesmo instante que recebe a ligação de Paulinho. Seu irmão a acompanha mais para evitar que ela invada a sala de cirurgia do que como apoio emocional.
— Como ela está?
Paulinho leva as mãos para esfregar os olhos e percebe que ainda tem vestígios do sangue de Juquinha entre os dedos. Lorena olha na mesma direção e seu semblante se desespera.
— I-isso é dela?
— Lorena… — Leonardo tenta segurá-la, mas ela é mais rápida em sair andando pelo corredor.
— Eu preciso falar com um médico. Cadê o médico?!
— O médico está lá dentro operando ela, Lorena.
Leonardo segura seus braços e ela se debate.
— Um médico, Léo. Eu preciso que alguém fale que ela vai ficar bem.
— Ela vai, ela vai ficar bem.
Leonardo abraça Lorena que finalmente desaba em seus braços.
*-*
Juquinha nunca tinha pensado nas questões da vida depois da morte. Para onde iria? Céu? Inferno?
Esses lugares realmente existiam?!
O clarão que a impede de enxergar a frente não responde essas questões e quando ela tenta dar um passo, é sugada e tudo fica escuro.
A próxima vez que abre os olhos, o clarão é um pouco diferente e depois de piscar algumas vezes, a policial percebe que está deitada com alguns fios grudados em si e conectados em aparelhos que fazem bip-bip. Ela vira a cabeça e vê sua namorada dormindo de boca aberta em uma poltrona.
Juquinha tenta se sentar e a máquina apita acordando Lorena que pula de susto.
— Eduarda!
O abraço de urso sufoca a policial que grunhe e faz a jovem se afastar de olhos arregalados.
— Desculpa, machucou?! Eu vou chamar uma enfermeira.
Lorena se levanta, mas Juquinha a puxa de volta para sentar à sua frente.
— Eduarda!
— Fica aqui comigo, por favor.
Elas se olham até a herdeira Ferette envolvê-la em um abraço.
— Tive tanto medo de te perder, não sei o que faria se algo pior tivesse acontecido.
— Mas não aconteceu. Eu tô aqui. Não fica pensando nisso.
Lorena concorda e a aperta ainda mais contra si fazendo a policial grunhir mais uma vez.
— Ops, esqueci. Vou parar de te abraçar.
— Tudo bem.
As duas se afastam minimamente e Juquinha leva a mão até o curativo por baixo da camisola do hospital. Devagar, ela afasta o tecido e Lorena arfa ao ver o estrago.
— Gastei uma vida aqui.
Juquinha ri do próprio comentário e para ao ver a expressão séria de Lorena.
— Quem fez isso? Foi alguma coisa na delegacia? Algum bandido?
Uma, duas, três, Juquinha pisca sem saber como chegou naquela situação. Ela só se lembra de sentir uma queimação e Paulinho gritar seu nome.
— Não sei… Paulinho deve ter visto alguma coisa.
— Alguma investigação de risco?
— Não. Se fosse por causa disso, faria mais sentido atirar no Paulinho.
As duas ficam em silêncio e nesse momento, Paulinho entra no quarto.
— Graças a Deus, você tá acordada.
Ele olha de uma para a outra e levanta as mãos de forma defensiva.
— Interrompi alguma coisa?!
Lorena fica de pé.
— Não. Vou aproveitar que tem companhia pra dar uma passadinha rapidinha lá em casa só pra trocar de roupa e volto pra passar a noite com você.
— Não precis…
Lorena a interrompe com um selinho.
— Precisa sim. Já volto.
Ela vai embora e Juquinha revira os olhos pro sorriso idiota que Paulinho exibe.
— Pelo visto, nem preciso perguntar como está passando.
A policial ignora o comentário e recosta nos travesseiros.
— Já sabe quem foi?
— Não. O sujeito fugiu, mas já estão analisando todas as câmeras de segurança da rua porque ele teve a audácia de atacar em plena luz do dia e numa rua de comércio. Vamos descobrir quem foi e fazer esse sujeito pagar com juros e correção monetária.
Juquinha faz que sim e um cansaço toma conta de seu corpo. Sem perceber quando, ela fecha os olhos e dorme.
*-*
Lorena entra em sua casa e sobe as escadas até seu quarto. Antes de chegar no destino ela ouve a voz de seu pai bem baixinha. Devagar, ela se aproxima da porta do quarto de seus pais até conseguir entreouvir o que ele diz.
— Você é um irresponsável e um incompetente é isso que você é.
Confusa, Lorena pressiona ainda mais a orelha contra a porta.
— Se eles descobrirem que foi você, eu não vou pagar advogado, não vou fazer nada.
Só pode ser uma coincidência.
— Era pra você acabar com ela e o que aconteceu?! Minha filha está em um hospital com ela viva.
O som de algo sendo arremessado não é o que a assusta. Sem fazer barulho, ela se afasta, se vira e sai correndo.
*-*
Lorena abre a porta do quarto e se detém quando Paulinho e sua namorada olham pra ela.
— Aconteceu alguma coisa? — Juquinha pergunta ao ver a expressão de pavor dela.
— Nada. Só fiquei preocupada.
A policial olha as roupas de Lorena e fica confusa.
— Não foi na sua casa?
Lorena se mede de cima a baixo e força um sorriso ao mesmo tempo que as palavras de seu pai ecoam por sua cabeça.
[...] acabar com ela [...]
— Eu não cheguei a ir, só quero ficar com você.
Ela caminha até se jogar nos braços de sua Eduarda que a segura. Com uma sequência de gestos, Paulinho sinaliza que vai embora e deixa elas sozinhas.
