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Pulamos A Sobremesa

Summary:

Jasper detesta a ideia de dever coisas a quem quer que seja, sempre centrado em cumprir suas promissões.

Ou

Aquele jantar prometido há muito tempo finalmente sai da agenda.

Notes:

Essa é a Parte 02 de Temperatura, Coloração e Sensações!!!

Alguns avisos rápidos!

Primeiramente, batalhei para publicar antes do último capítulo para tentar amparar os corações de quem for assistir (o meu também, mas acho que vou me jogar da janela antes do final da Live). Espero que gostem.

Segundamente: Por ter publicado diretamente depois de terminar de escrever, infelizmente não consegui nem tentar ler por cima para identificar os erros (então devem haver muitos por aí, mil perdões. Meu @ no twitter é ultrailuminada, se acharem alguma coisa criminosamente horrenda por aí me avisem por lá que eu corro para corrigir.

Feliz natal atrasado, esse é meu presente para vocês 🫴

Antecipadamente, peço desculpas se decepcionar alguém ou não atender às expectativas. Faz bastante tempo que eu parei de escrever, tenham paciência 🥹

No mais, é isso.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

 

O próprio diabo havia de ter idealizado o conceito de gravatas. 

Quando verbalizou o convite há pouco mais de uma semana, Jasper achou que sua maior preocupação seria ter de conversar sobre o ocorrido na antepenúltima missão completada pela equipe há dois meses – que, mesmo possuindo uma nomenclatura oficial na sede da ordem, era conhecida popular e carinhosamente como Socorro. Ele nunca buscou a origem do codinome, temendo que seria friamente chateado pela justificativa. 

Claro, suas obrigações não parariam de se fazer presentes só porque o albino estava com a cabeça cheia de opções de cardápios e possíveis restaurantes onde ele e Remi poderiam jantar. Injustiça, se alguém o perguntasse. Com assim não haviam férias conquistavéis de ‘primeiro jantar com um colega de equipe para conversar sobre temáticas relativamente pessoais e como isso afetaria nosso ambiente de trabalho usando uma gravata’?

Sugestões que poderiam muito bem ser repassadas ao balcão dos Recursos Humanos da Ordem, ele só não tinha completa certeza se existia um. O que seria outra reclamação para o mesmo setor, mas pensar nisso era quase como adentrar um paradoxo desnecessário.

E como caralhos se dá um nó nesse troço?, Jasper se questiona silenciosamente em um bufar irritado, encarando o próprio reflexo com frustração pelo retrovisor de seu carro. Seus olhos mergulham para as próprias coxas, onde seu celular descansava em uma página de tutorial para iniciantes na atividade, perguntando-se onde vinha errando. Aparentemente em tudo, porque seu acessório mais se assemelha com uma forca do que um adereço chique àquele ponto.

O relógio no painel do veículo piscava num horário poucos minutos adiantado, porém além do que estava em seus planos. Havia prometido a si mesmo que chegaria mais cedo – só que não o suficiente para soar ansioso, – para garantir a reserva da mesa e soar responsável ao seu convidado. Sinceramente, não sabia o porquê de isso importar, então seguia buscando desculpas para o fato de estar há quase quarenta minutos naquele assento de couro, os faróis desligados e janelas fechadas; não se confiava muito na estabilidade climática da cidade.

“É só um jantar, porra.” O homem sussurra para si mesmo, segurando o volante com força para canalizar o que quer que apertasse seu peito em algo externo a si. 

Ele ainda toma um instante a mais antes de finalmente se dar por vencido e jogar a gravata para o banco de trás, travando seu celular e conferindo a carteira dentro do bolso. O cheiro insistente de perfume ainda inundava o ar abafado do carro, portanto ainda deveria estar funcionando. Seu reflexo no espelho estava aceitável e, por um momento, Jasper até pensou sobre remover seus óculos. 

Idiotice. Não seria capaz de enxergar um caminhão no asfalto nem se tivesse acabado de ser atropelado por um.

Sem dar espaço para que as vozes em sua cabeça aumentassem e o fizessem desistir de vez, o albino sai do Onix azul escuro com dedos gelados e o celular esquecido no bolso da calça social. Imediatamente sentiu saudades das cargos em seu guarda-roupa, mas era um sacrifício necessário. Maldito código de vestimenta de rico.

Jasper pausa ao lado do capô por um segundo, deslizando a mão alva contra um amassado evidente do aço que tinha muito mais história do que gostaria de pensar sobre. Era um costume velho que tinha para ter sorte em alguma atividade, uma superstição pessoal que nunca havia contado a ninguém – e nenhuma alma normal estava curiosa acerca de um novo desnível em qualquer coisa que pertencesse a ele. 

A recepção no restaurante era educada e superficial, com confirmação de identidade e direcionamento pessoal até a mesa reservada – que acabou custando mais que o esperado, por não haver exatamente um sobrenome a ser dado para a marcação de presença. O lugar era espaçoso para dizer o mínimo e certamente comportaria bem mais mesas e assentos do que conseguia enxergar, coisa que acabava por criar certa privacidade para cada dupla ou grupo que estivesse ali. Se fossem realmente conversar sobre aquela noite, isso seria bom.

Sentiu, conforme se acomodava no local indicado pelo garçom, uma porção de olhares sobre si; o que o fizeram checar a própria roupa e postura algumas vezes, porém foi incapaz de identificar o que quer que estivessem encarando. Pelo reflexo da taça que lhe foi entregue com um fio de água, não havia nada em seu rosto, e tudo parecia normal da última vez que conferiu naqueles quarenta minutos dentro do carro no lado de fora.

Tudo o que restou para si, portanto, foi suportar a atenção esquisita enquanto mexia os dedos inquietamente sobre a mesa. Não se arriscou a tocar seu telefone, talvez com receio de uma mensagem cancelando a presença de seu convidado, pois não achava que saberia lidar com isso. Caso Remi não aparecesse, Jasper aguardaria pacientemente pelo fechamento do local ou implodiria de vergonha até lá. Às vezes era esquisito como lidar com coisas normais era mais complicado do que batalhar zumbis de sangue e criaturas animalescas.

Felizmente, não seria necessário.

O agente de fios castanhos, temperamento detestável e sorriso convencido surgiu surgiu da divisória ligada à entrada de um modo que fez o ar em seus pulmões escapar para sabe-se lá onde. Ele vestia um casaco de couro característico em tons carmesim, mas parecia ter substituído o cropped comunal por uma camisa escura que terminava onde o cinto ajustava o início de sua calça à cintura ridiculamente marcada. Suas botas, no entanto, foram outra coisa que ele não pareceu conseguir deixar para trás.

Sua atenção travou sobre o albino antes mesmo que o pobre funcionário fosse capaz de indicar para onde ele deveria seguir, estreitando o olhar como quem analisa algo complicado de entender. Exatamente como todo mundo vinha o encarando desde que chegou. 

Porcaria, tem um chifre nascendo na porra da minha cabeça? 

Enquanto passava as mãos pelos fios platinados – só para ter certeza de que estava errado, porque se existiam até fantasmas nesse mundo, um terceiro olho não seria impossível, – Remi corta o espaço entre eles e afasta a cadeira diante de si para sentar-se. O garçom se apressa para também servir-lhe.

“Oi, Jasmin.”

Jasper aguardou que o rapaz com a jarra de água se afastasse, rolando os olhos. “Oi, Ratatouille.”

Ao contrário do que achou naquela noite, que hoje soava tão distante, sua relação com o colega não mudou minimamente. Era quase como se nada houvesse ocorrido, nem os toques de testa foram desfeitos nas seguintes missões designadas a eles, então até mesmo as provocações seguiram tão afiadas quanto sempre. As reações imediatas tanto quanto. Qual não foi sua surpresa ao notar que os olhos castanhos sequer se abalaram com a comparação infantil, viajando pelo que conseguia ver de si mesmo já estando em um ângulo desfavorável a tal.

E não era o único.

O albino curva o corpo, posicionando os cotovelos no limiar da superfície coberta com tecido bordado para segurar o próprio rosto em frustração. “Tem alguma coisa na minha cara?”

“Não.”

“Então por que está todo mundo me olhando como se tivesse?” Os olhos azuis escalam para encontrar os do colega.

Remi ri soprado, as mãos ainda nos bolsos da jaqueta e postura relaxada demais para a complexidade do lugar. Até mesmo a mecha avermelhada de seu cabelo parecia um desafio silencioso a todos os outros presentes, que agora dividiam sua atenção entre Jasper e o moreno que o acompanhava. Ao contrário do maior, o ocultista devolvia cada encarada que recebia e soava como a ameaça que sabia ser até que fosse deixado em paz. 

Ele ignora propositalmente a pergunta, esse pestinha. É o tipo de coisa que um egocêntrico faria, definitivamente, portanto não era uma real surpresa dentro de todo o considerável. Tinha que livrar-se dessa esperança idiota de que o outro algum dia se daria o trabalho de explicar algo para alguém.

E precisava ser rápido.

“Sabe, quando você prometeu que ia me levar para jantar eu aceitaria uma pastelaria.” Remi comenta, agora prendendo uma das colheres nos dedos destros para batucar levemente contra o material do jogo americano. “Era uma piada, não esperava isso tudo.”

O albino franze o cenho levemente, mas não de forma ruim. Seus lábios estão esboçando um sorriso sem graça. “Eu pensei de ir em um trailer de cachorro quente no começo, não vou mentir. Há dois anos, quando te convidei. Acho que só adiei por tanto tempo que quis recompensar de alguma forma.”

Ele pisca, os olhos azuis cintilando com uma ideia repentina.

“E você fica uma gracinha sem sua roupa de puta,” Jasper termina seu copo de água como quem não quer nada e folheia o cardápio, se deparando com um punhado de nomes que nem conseguia ler direito. Provavelmente teria que sortear mentalmente qual escolheria.

Remi não pareceu abalado, mas o maior sentiu o olhar pesado como uma cama de pregos sobre sua cabeça. 

“Você fala como se não gostasse de me ver nela.”

Se ainda estivesse engolindo o líquido mais primordial para a vida ele teria sido a razão de sua morte, pois certamente se engasgaria pelo dito. Não era uma probabilidade, era um fato. Porra, até sem nada na boca o albino achou que estava com a garganta travada e precisou de um segundo para se reconstruir.

Antes que conseguisse, porém, o moreno retorna a falar enquanto também checa o cardápio: “Não sei você, mas eu concordaria em pular a entrada. Saímos mais cedo e damos uma volta no quarteirão, tenho a impressão que o ar desse lugar ‘tá infectado com alguma coisa pior que ritual.” 

Jasper jamais compreenderia o modo como ele passeava entre absurdos e banalidades com tanta facilidade, só que decidiu guardar essa constatação no fundo de sua mente. Era divertido não saber o que esperar dele. Ao menos, por boa parte do tempo.

Sem realmente ter muita noção do que fazer, o albino acaba aceitando a proposta e decide pedir por um prato de título esquisito feito de carne, massa e algum cogumelo qualquer; optando por não pensar demais no que foi pedido pelo homem diante de si – o que ele falou para o garçom era claramente um feitiço mortal e o homem só não caiu duro no piso encerado por não ter ouvido direito.

O clima seguiu leve, comum, guiando uma conversa fluente de tom tão banal que poderia estar acontecendo em uma praça de bairro residencial e não em um lugar que precisava ser agendado. Confortável demais, tanto que o maior até esquecera de toda aquela cena mais cedo no Onix estacionado no fim da rua, a razão de estarem ali e como não importa o quanto fingissem, sempre haveria aquele piano caindo no céu ao lado deles toda vez que se encaravam por tempo demais.

Jasper só lembrou de tudo quando terminou sua refeição – com uma quantidade absurdamente pequena de comida por um valor tão alto, não importava o quão magnífico fosse o sabor, – e encarou Remi calmamente repartir o próprio alimento. Ou melhor, os lábios que brilhavam com resquícios do molho requintado que consumia. Inconscientemente, seus dedos alcançaram a gola de sua camisa social e afastaram o tecido escuro da própria pele. Repentinamente, era como se estivesse sendo sufocado.

Suspirando de modo quase discreto, o maior tenta desviar sua atenção ao esvaziar a própria taça. O garçom mais próximo se aproxima no instante seguinte, repondo o vinho, e o rapaz agradece com um aceno ao dar mais um largo gole. Já era a quarta ou quinta vez que isso acontecia, então nem sabia se deveria estar genuinamente grato ou preocupado por não poder voltar ao seu apartamento dirigindo.

Pelo menos funcionava de desculpa para as coisas estranhas que estava sentindo.

E o moreno, espertinho como era, definitivamente não deixou passar nenhum desses detalhes. “Se você beber tudo, ele sempre vai trazer mais. Quando quiser parar, deixa um restinho na taça e esquece ela.”

Não fazia o mínimo sentido, mas o agente nem foi capaz de comentar sobre isso, pois Remi se ocupou em limpar o próprio rosto. Tudo o que talvez estivesse sujo. Tudo menos os lábios.

Porque ele sabia.

Óbvio que sabia.

Jasper engole a seco, passando a língua sobre os próprios conforme aquele idiota tomava seu belo tempo para beber da própria taça de vinho. Filho da puta.

“O que você disse.” Sua voz ressoou no espaço entre eles, fazendo o outro pausar com a atenção em si e o vidro do recipiente relativamente cheio a centímetros do próprio rosto, soando mais com uma ordem a ser respondida do que uma pergunta. “Você disse que me falaria se eu te trouxesse para jantar. Eu trouxe.”

E o ocultista podia ter tentado, de todos os modos possíveis no momento, conter o sorriso involuntário em seu rosto; só que não funcionaria. Não quando seus lábios eram assistidos com tanta veemência. 

“Sabia que ‘cê ‘tava tenso.” Remi começa, soltando a taça com uma expressão relaxada e convencida, postura desleixada com cotovelos na mesa. “Só que eu ainda tinha esperanças que você realmente queria me trazer para comer, não que estava esperando algo disso, Jasmin. Você quase me convenceu que é ruim.”

E Jasper realmente não queria, não até aquela noite.

A promessa seria cumprida evidentemente, quando suas rotinas dessem uma desacelerada e não tivessem de estar entre vida e morte todo fim de semana; porque o albino odiava a ideia de dever qualquer coisa a quem quer que seja. Podia ser uma criança em um parquinho ou o atual Papa do Vaticano, daria seu máximo para fazer de acordo com a própria palavra quando conseguisse. Só que Remi também sabia disso, e agora não parecia mais tão legal existir alguém que o conhecesse tão bem.

Parecendo tomar o silêncio breve como uma resposta – seja ela boa ou ruim, nunca há de se saber, – o moreno dá de ombros. O tecido da jaqueta ainda sobre seus ombros. Jasper consegue pensar em apenas uma razão para que o demais optasse por não se livrar da sobreposição, portanto não comenta sobre.

Ele aponta com a cabeça para a mesa a alguns metros de distância. Uma cópia completa da sua própria, com as mesmas velas altas e meia dúzia de talheres para cada prato, taças semi-cheias e o que pareciam minúsculos bolinhos para cada um do trio que conversava avidamente. Claramente aquelas unidades vendidas em supermercados, cortadas ao meio e cobertas de chocolate derretido. Simples assim.

“Aquele é o tamanho da sobremesa que, se pedirmos agora, deve chegar em uns cinquenta minutos.” A voz de Remi ressoa na mesa como a razão encarnada, seu colega não entende o que isso tem a ver com o que ele havia sido perguntado. “Ou a gente pode pedir a conta e ir conversar sobre isso em um lugar onde não tenha tanta gente.”

Jasper respira fundo.

“É tão ruim assim?” 

Só que o moreno já havia erguido a mão para chamar pelo funcionário mais próximo e agora pedia que o referencial da mesa fosse encerrado, sem nem realmente esperar por uma escolha do albino. Tudo bem que não suportava mais a música clássica ambiente, nem o modo irritante como o grupo a duas mesas de distância seguia cochichando e apontando na direção da dupla, só que dar uma opinião seria consideravelmente agradável. Cacete, ele teve que esperar trinta e sete horas em uma fila simultânea online para agendar algo há treze dias.

Sua cabeça estava tonta, ou algo perto disso, e o agente se sentia confiante em culpar o garçom por isso. Era um elo fraco para certas bebidas e, se Remi não fosse tão orgulhoso e tivesse demorado tanto para lhe avisar da regra besta sobre a taça, não teria consumido tanto vinho.

“Não. É como um elefante em uma sala.” O menor indica, posicionando um garfo e faca no centro de seu prato em vertical. Seu tom é mais baixo quando ele completa. “E aqui tem muita gente. Seria mais fácil se estivéssemos no Suvaco Seco ou algo do tipo.”

Jasper ri, genuinamente. 

É um absurdo e, para sua mente confusa e levemente nublada, uma desculpa certa. Principalmente saltando para fora dos lábios mais descarados e inconsequentes de todas as pessoas que conheceu em bastante tempo, provavelmente só perdendo para o pingo de gente que era Maria ou Lena quando falava sobre o namorado. Céus, era impossível ficar perto dela nesses momentos. Alguém, algum dia, vai precisar avisá-la que nem todo mundo precisa saber o tamanho do pênis dele.

“Então é ruim, você nem está olhando na minha cara.”

O parceiro nem tenta fingir que ele está errado, fazendo com que aquele pesar esquisito em seu coração triplicar e seu queixo estremecer de leve. Repentinamente, parece idiota todo aquele cenário que havia tentado criar e agradeceu ao diabo por ter criado a gravata. Seria uma humilhação muito grande que houvesse conseguido colocá-la.

Quando o homem de antes se aproxima, trazendo um objeto pequeno e fino com a nota da conta, Jasper o pescou antes que os dedos direitos de Remi conseguissem alcançá-lo. Ele checa o valor, a mente levemente embriagada insistindo em desconsiderar o real absurdo apresentado no fim do papel, e puxa a própria carteira do bolso apertado antes de começar a contar cédulas.

“Deixa que eu pago, Jasper.”

Já carregando a quantia quase certa em suas mãos, é perceptível quando seus músculos reagem ao vocativo. Deveria estar feliz pela ausência do apelido irritante do outro, consideraria aquilo como uma vitória em qualquer outro contexto. Não aqui, não agora. 

Esperou que seus olhos azuis não entregassem o quão machucado havia ficado com aquilo, porque nem ele entendia direito.

Remi tentou buscar por algum tipo de cartão em suas vestes, porém o albino nem sequer considerou o pedido uma opção, apenas devolvendo o objeto de couro sintético para as mãos enluvadas do garçom e se erguendo. O que sobraria de troco não valia o aguardo, principalmente quando o ar realmente parecia estar infectado com algo pior que ritual.

Assim que estendeu-se, o cômodo pareceu borrar levemente, fazendo com que o rapaz ajustasse seus óculos em busca de algum amparo. Contra o melhor dos julgamentos, ele também se problematiza com o fato de esvaziar a taça de vinho. Definitivamente não estaria dirigindo para casa hoje.

O moreno o acompanhou em silêncio conforme seguiam para fora do recinto e, se suas suspeitas estivessem certas e realmente estava sendo assistido por certas pessoas durante todo o tempo em que ficaram ali, o combatente conseguia sentir o pesar assombrando sua coluna de mais olhos sobre si. Talvez houvesse nascido um letreiro brilhante em sua camisa escrito ‘Idiota’, o que, em sua concepção, era válido. 

Se soubesse que conversar sobre aquela noite foderia com o que tinham, não teria sequer aberto a boca. Nem sabia o porquê de isso incomodá-lo tanto, para ser sincero, e isso só o irritava ainda mais.

Jasper não respondeu às despedidas da recepcionista, sequer olhou em sua direção, pois mal podia esperar para sentir a brisa gelada em seu rosto quente. Nunca achou que sentiria tanta falta do ar poluído de São Paulo desse jeito. Sabia que estava sendo acompanhado de perto, a presença tão familiar que soava costurada aos seus ossos. 

O albino tenta ignorar a vontade gritante que sente de encará-lo. Olhar para o convidado e perder a noção de tempo admirando o esforço que havia sido feito para buscar por uma roupa confortável, arrumadinha e bonita. Porra, tudo nele parecia especialmente magnífico hoje, e podia apostar dinheiro no fato de que certamente não eram as luzes desse restaurante esquisito.

“Jasper.”

Remi tem uma voz tão reconhecível que dói em seu cérebro. Ele remove o acessório de seu rosto, usando a mão pálida livre para massagear o canto interno dos olhos.

“Jasper.”

É como um sussurro dessa vez, longe dentro de sua consciência. Um sonho, talvez.

“Jasper, olha para mim, caralho.”

Quando o faz, seu próprio cenho está levemente franzido, mas acaba sendo surpreendido pela expressão alheia. Preocupação, algo que não era raro no meio onde trabalhavam em conjunto, só que pura e urgente e aparentemente sem motivo. 

O albino é incapaz de encontrar o restaurante na rua após uma olhada rápida, percebendo que provavelmente estiveram andando desde que saíram pela porta de entrada com cortina de vento – fato que só havia registrado por ter se irritado em ter os fios claros bagunçados quando entrou lá pela primeira vez. Então estiveram andando desde que saíram. Há quanto tempo isso?

“Onde ‘cê ‘tá indo?” Remi pergunta, a mão mecânica ainda circulando o topo do braço do colega para mantê-lo parado. Ou de pé, nunca se sabe.

Jasper não faz a mínima ideia. “Pra casa, eu acho.”

E ele percebe quando o moreno engole a seco.

Aquele ocultista arrogante não engole a seco.

“Achei que quisesse conversar.”

“Minha cabeça ‘tá doendo.” 

O ocultista imediatamente ergue o braço direito, apresentando uma garrafa de plástico cheia de água e com suor ainda presente. Gelada, atual. 

“Onde você pegou isso?” Ele franze o cenho, percebendo que, em algum momento, tinha posto os óculos de volta.

Remi dá de ombros, apontando para trás – apenas quando seu colega se dá por vencido e separa a tampa do gargalo para começar a beber. “Num trailer de cachorro quente no quarteirão passado. Sei que sua resistência a álcool é uma merda. Tuco estaria decepcionado.”

Jasper não aparentou estar preocupado.

“Ele pode ir se foder se estiver.”

Olhos castanhos se arregalam levemente e, para a surpresa do maior, um sorriso inesperado toma conta das feições alheias; do tipo que você solta quando ouve um absurdo. Ele detestava esse preconceito do restante da equipe com seu costumeiro ‘jeito de santo’ que o diziam possuir, o que só piorava devido ao fato de ser o mais novo do quinteto. 

Negando com a cabeça, o dono dos fios escuros busca algo de seu bolso – seu celular, com cobertura discreta e uma rachadura na película que sabia ter vindo da última missão, – para algum fim no qual Jasper não soou interessado por. Nem um pouco. Ele só tinha um problema muito grande com encarar pessoas. Remi, em específico. 

“Estou pedindo um carro de aplicativo ‘pra gente.” O menor justifica sem precedentes, o que não o surpreende. Claro que o prodígio da equipe Socorro sabia exatamente o que ele estava pensando. Típico.

O albino até pensou em reclamar sobre como ele morava em um bairro distante do outro, só que não estava aberto a conversar no momento. A razão ainda se apresentava como uma sombra escura e assustadora em sua cabeça, com um rosto contra a luz de algo que ele insistia não reconhecer. Jamais admitiria o medo que tomava seus ossos, não para o motivo encarnado de tal.

Sabia ser um péssimo mentiroso, um livro aberto para certas coisas, então não esperava que seu teatro fosse servir de alguma coisa. Talvez seu lado embriagado sim, então torceu que ele fosse embora rápido para que não fosse tão fácil de desmembrar seus sentimentos assim. Era quase como dissecar cada parte de suas memórias, sentimentos e preocupações e apresentar de bandeja lavada para qualquer um. Não. Não qualquer um. Para o único que sabia como devorar cada informação tal qual um canibal em seu alge de criminalidade, um parasita caótico e desejado.

Porra, foi exatamente isso que havia feito naquela noite.

Tinha sido guiado por um toque sagrado profano, sujo em todos os sentidos exceto o principal, quente e ancorante e tão bom que tudo o que ele mais quis desde então foi um segundo beijo. Com aviso dessa vez. Naquele ritmo esquisito que pareceu funcionar muito bem para eles, que espelhava tudo o que esvaziava seus pulmões, que o fazia se sentir tão pequeno e inexperiente mesmo quando sabia não ser.

Por que ele me beijou se não faria isso de novo?

Jasper só percebeu estar mordendo o próprio lábio quando a pele sensível se quebrou, preocupada, e derramou o fantasma de sabor metálico contra suas papilas dormentes; finalmente percebendo que também havia arruinado a garrafa de água vazia. Ele suspira, quieto, sem realmente esboçar alguma coisa que não o cansaço trago pela embriaguez. Era a única coisa que ele achou identificar, então torceu que só isso estivesse sendo mostrado, não saberia explicar nada mais do que isso e-

“O que os olhos não vêem, o coração sente.” Remi interrompe o barulho incessante em sua consciência, conquistando um olhar de canto azulado e confuso. 

Seu celular aparentemente seguia aberto no aplicativo de locomoção.

“No literal era ‘onde a visão falha, o coração sente’. Fazia mais sentido na hora.” Mesmo parecendo relutante, o moreno o encara de volta. Ele está sério, só que não do jeito arrogante e costumeiro. “Là où le regard s’arrête, le cœur continue.”

Quando finalmente encaixa, um segundo mais tarde, o contexto do dito seu peito ergue-se da bigorna onde vinha sendo martelado de uma só vez, um brilho de lembrança atravessando o tom oceânico encantador. A sensação de déjà vu o acertando como um soco no rosto, trazendo febre para suas veias e um desbalancear notável em sua respiração. Até mesmo sua postura melhorou um pouco.

Antes que tivesse a chance de falar mais alguma coisa, pergunta o que quer que pesasse na ponta de sua língua, um carro popular branco estaciona perante a dupla e Remi imediatamente se aproxima da porta atrás do motorista e o convida a entrar. Enquanto se acomoda no assento, sem desviar a atenção da face tão familiar que seria capaz de desenhá-lo de olhos fechados – ficaria uma aberração já que não conseguia reproduzir uma linha reta, mas não é esse o ponto, – ele nota que foi proposital.

O momento do comentário. 

Só o fez porque sabia que o carro chegaria em breve, cronometrou cada instante, e ainda fez questão de travar a entrada que havia criado para si para sentar-se ao lado do motorista de aplicativo – cujo cumprimento de boa noite havia sido completamente ignorado. A confirmação de endereço veio de uma onomatopeia do cliente, que agora expunha sua cara de poucos amigos corriqueiro. Não era uma mentira, porém aquela fagulha de orgulho cego por ser uma das pessoas que não recebia aquele olhar de adagas arremessadas a esmo insistiu em tomar espaço sobre seus ombros.

E foi então que percebeu a merda de buraco emocional que estava: lutando contra todos os sinais bestas do álcool em seu sistema, confuso por inúmeras razões que não pareciam ter começo ou fim, feliz por ser uma excessão, desesperado por uma explicação. Para completar a coleção olimpicamente quilométrica, ainda havia deixado seu carro estacionado numa rua do centro da capital mais conturbada do Brasil, coisa que só lembrou ao sentir a pontada da chave contra sua coxa ao posicionar-se no banco de trás.

Tudo bem que estava inapto a dirigir – perante a lei, porque o albino se considerou completamente consciente para causar menos de três acidentes a caminho de casa, – só que ainda era frustante que Remi não houvesse aprendido a dirigir com Tuco. O mais velho era um ótimo professor, era a prova viva disso. A todos que discordassem, inveja podia ser tratável.

 

 

 

Jasper deve ter cochilado em algum momento entre tantos lapsos que atravessavam seu cérebro, infelizmente confiante demais na presença no moreno para se incomodar com o fato de estarem com um estranho. O silêncio mortal no veículo também não tinha a judado muito em sua situação.

Foi rápido o suficiente para que não precisasse sonhar, longo demais para a preguiça se instalar em seus ossos.

Cambaleando para fora do carro, o albino remove os óculos mais uma vez para massagear seus olhos. Um costume que, se percebesse bem, era mais frequente do que qualquer oftalmologista gostaria. Ao menos torcia que o sono ligeiro tivesse surtido efeito e eliminado parte de sua embriaguez, pelo menos para que ele conseguisse decidir como lidar com a confissão breve de seu acompanhante mais cedo.

Ao contrário de si, Remi não parecia tão calmo. O que era assustador, no mínimo. Ele não sabia exatamente o que fazer com as mãos e seus olhos se recusavam a focar em algo, evitando encará-lo por alguma razão. Reconheceu os sinais da evasão alheia com mais familiaridade do que qualquer outro conseguiria; uma medida auto-protetiva para sempre que não se sentisse confortável com alguma questão que chegasse perto demais de alguma ferida aberta.

“Você quer-”

“Eu vou-”

Ambos começaram e se cortaram simultaneamente, fazendo com que o ar tensionasse de imediato e que ao menos um deles segurasse a respiração. Alguém bêbado não pensaria nisso. 

Jasper espera que ele diga o que quer, porém pela demora decide ser o primeiro a partir o silêncio: “Eu ia perguntar se você não queria subir. Pulamos a sobremesa. Lá em cima tem chocolate amargo e avelã.”

Que eu certamente não comprei só para manter no armário pro caso de uma visita sua.

Remi engole a seco, finalmente olhando em direção à camisa social escura. Não era seu rosto, mas podia ser considerado uma evolução.

“Você quer que eu suba?” 

Sim. Não importa o que aconteceu, ainda somos você e eu. “Até parece que você não tem uma chave do meu apartamento, Ratatouille.”

Algo nos ombros alheios pareceu relaxar com o apelido idiota, surpreendentemente, e após uma concordância não verbal a dupla se alinha no trajeto conhecido pela portaria em direção ao elevador. O prédio não podia ser considerado luxuoso, só que era confortável e decente comparado a outras unidades paulistas. Tinha até uma sauna que funcionava de vez em quando.

Um relógio mental começa a ressoar quando a caixa de metal abandona o térreo, encarando o moreno pelo espelho do local. Ele tem os braços cruzados e ainda presta atenção em tudo e qualquer coisa que não seja o homem ao seu lado.

Quatro.

Três.

Dois.

“Ainda vou descobrir com o quê você trabalha de freelancer para ter dinheiro de manter um lugar desses.”

Provavelmente essa era a única coisa previsível sobre Remi na concepção de Jasper, o modo como ele repetia a mesma coisa sempre que entrava naquele lugar. Era uma história muito longa para que ele entendesse, então o maior apenas se contentou em repetir a mesma reação que vinha tendo desde a primeira vez que o ouviu: pendeu o rosto para a frente e riu quietamente até seus ombros balançarem.

E ele se sentiu relativamente vingado ao dessa vez respondê-lo com o famigerado ‘um dia eu te conto’.

O tintilar do elevador indicou que haviam chegado ao oitavo andar com a aura ao redor deles sendo bem mais leve do que quando desembarcaram do carro contratado, dando visão para um corredor escuro e mortalmente silencioso com quatro portas. Ambos se dirigem à última delas.

Considerando todo o conhecido sobre o albino, a curiosidade do mais velho era compreensível; principalmente se alguém realmente parasse para analisar o local com dois cômodos, banheiros, cozinha, sala e lavanderia presentes em tons de ocre e branco mesclando-se de forma organizada. Até o balcão de ilha tinha uma cobertura de mármore, com móveis monocromáticos e alinhados. Mesmo que insistisse em dizer como o local havia sido alugado com mobilia predisposta, o moreno seguia dizendo reconhecer os modismos de gostos alheios em cada canto.

A primeira parada de Jasper é a geladeira, buscando por uma jarra cheia de água com facilidade, intencionando saciar sua sede e talvez resolver um pouco mais de seu estado devido ao vinho. Remi aproxima-se do colega, locomovendo-se de modo a se imaginar que ele também morasse ali, parando próximo ao armário onde sabia serem guardadas as compras do albino. O maior até cogitou lembrá-lo do fato de os chocolates ficarem no refrigerador, porém foi interrompido por si mesmo ao prestar atenção na expressão considerativa do outro.

Conseguindo perceber o momento exato em que ele engole a seco.

De novo.

Sua mão direita empurra alguns artigos de massas e biscoitos para agarrar a caixa de cereal no fundo do armário. Outra compra feita exclusivamente para o mesmo, mas não admitiria isso em voz alta, principalmente quando ele passou a conferir a embalagem pelo sabor e a validade.

Chocolate. Não está vencido. 

Só que deixou o ocultista adquirir os dados por contra própria.

Jasper decide não ficar simplesmente assistindo seu colega até nos mínimos detalhes por mais tempo, pondo o copo que havia usado ao lado da pia e guardando a jarra de volta à sua localização original. Aproveitando o fato de já estar com a porta aberta, recebendo o ar frio em seu corpo, ele opta por já recolher a barra de doce amargo para manter sobre o balcão. É um esforço demasiado ter de segurar a própria língua e não comentar o fato de alguém tão brusco e impessoal quanto o menor ser um ser humano com costumes de formiga, assim preservando sua vida por mais uma noite.

O silêncio estava confortável, reconquistado sob a calorosa familiaridade do modo como agiam dentro do apartamento, a salvo de pensamentos difíceis e faltas de explicação. Sim. Poderiam voltar ao comum e esquecer toda aquela complicação e, se viesse a acontecer de novo, talvez pudessem se resolver no futuro quanto a isso.

Foi somente com essa concepção que o combatente pareceu lembrar o conceito de silêncio. Falta de som, barulho, qualquer coisa que fosse capaz de alcançar os tímpanos humanos e registrarem-se na parte do cérebro responsável por essa área. Uma caixa de cereais não faz silêncio.

Quando se volta a Remi encontra o moreno ainda com a caixa em mãos, intacta, olhos castanhos em si. Havia algo por trás deles, uma pilha acimulativa de coisas que Jasper não ousou tentar nomear. Não tinha esse direito.

Eu estava esperando você,” Ele murmura.

Sobrancelhas naturalmente esbranquiçadas se franzem, fechando a porta do refrigerador lentamente. O outro ainda parece não respirar.

“No restaurante você parecia frustrado, eu acho, porque eu não tinha falado nada sobre aquela noite. Talvez tenha sido impressão.” O rapaz pausa por um segundo, abaixando a embalagem de papelão. “Mas eu só ‘tava esperando você falar primeiro, porque eu sei exatamente o que eu estava sentindo quando te beijei naquele dia. Você não. Porra. Eu quis te dar a chance de decidir se ia querer conversar sobre ou fingir que nada aconteceu. E eu até imaginei de realmente tocar no assunto quando você me chamou para jantar, só não imaginei que ia ser em um lugar tão- Sério, o que tu faz para ganhar dinheiro?”

E a avalanche de informações é gigantesca, principalmente agora que o albino estava começando a se contentar com a ideia de aniquilar e enterrar os acontecimentos prévios na mais profunda vala que já havia sido feita no planeta. Talvez até arremessar por algum dos portais de Agatha para outra dimensão. Era incrível como Remi conseguia ser implicante acerca de suas decisões mesmo quando sequer fazia parte delas, sem nem tentar. De repente seja culpa sua de ser tão fraco em qualquer coisa relacionada ao moreno.

Sabia o quão fechado o colega era em relação a sentimentalismo, precisando de uma boa e sólida conexão com alguém antes de esboçar até mesmo um sorriso que não seja mergulhado de escárnio ou veneno; só que isso não parecia se prolongar ao lado físico da coisa. O que só bagunçava ainda mais a cabeça de Jasper. A conta simplesmente não batia, era quase como se seu lado presunçoso e egoísta não conseguissem aceitar as palavras por talvez conhecer o lado descarado que o parceiro tinha. Sabia das histórias, conhecia as fofocas que rondavam os corredores da ordem.

“Você não é do tipo puritano.” Não era para soar como uma acusação, porém duvidava que tivesse funcionado.

Remi solta ar em exasperação, fechando os olhos por um momento. Quase uma forma física para frustração.

“Eu sei.. Acredite. Eu sei. O problema não é eu querer te foder, porque acredite, eu quis desde a primeira vez que eu te vi, é que é você. Você é bom demais, sempre foi, e tem essa coisa em você que quer me fazer ficar perto, só que não do jeito banal de ter uma noite e sumir como eu costumo fazer. Sei que todo mundo sabe disso. Eu não consigo pensar na ideia de ter algo com alguém e continuar presente, é mais complicado do que parece, e eu queria muito poder te beijar de novo só que, eu não sei, acho que estaria alimentando algo na minha cabeça que vai acabar ferrando comigo quando acabar.” 

Se existia alguma forma de expressar surpresa além da que se estampava na face pálida do albino, era desconhecida cientificamente. Sabia que o moreno tinha uma boca suja e ocupada, mas podia jurar que esse era o máximo de coisas que ele já havia falado de uma só vez. Um monólogo, praticamente, que o fazia parecer bem mais humano e sentimental do que se portava ao mundo. E Jasper achando que o pior que poderia acontecer seria abalar a dinâmica da equipe mais desequilibrada da Ordem inteira.

Não conseguia parar de repetir as palavras em sua cabeça, uma depois da outra, e assustou-se ao notar o quão sóbrio estava subitamente. Havia acabado de descobrir uma nova e eficiente forma de dar adeus à embriaguez, precisava documentar seu achado antes de ser roubado, só precisaria de alguém confiável e inteligente o suficiente para transcrever o documento com palavras difíceis. Uma pessoa que tivesse cabelo castanho, estilo duvidável, um braço mecânico e uma barreira emocional tão alta e densa que criava confusão em um copo d'água.

Competição à altura – ou três centímetros mais baixa.

O combatente se viu tão enterrado dentro de si mesmo que nem percebeu o momento em que Remi deu alguns passos adiante, passando uma mão pelos fios escuros antes de alcançar a pia. Não tinha mais os olhos em sua direção e, pela nova cara petrificada – que julgava digna de ser esculpida em mármore, – talvez nem o voltasse a fazer. Não por conta própria.

Jasper inspira profundamente, soltando o chocolate amargo sutilmente amassado sobre o balcão antes de se virar por completo para o outro, usando uma das mãos para fazê-lo virar-se para si e a outra deslizando além dele para desligar a torneira com a qual lavava as mãos. Se fosse bem criativo, poderia reimaginar aquela noite no interior, quando encostou sua testa à de Remi.

Dessa vez, no entanto, ele mesmo fez questão de tirar seus óculos.

“Se alguém além de você tem algum problema em a gente se beijar, então que se foda.”

E torcia que ele não tivesse nenhuma reclamação acerca disso, agora mais do que nunca. A julgar pela forma como o olhar afiado se pressionou em análise, claramente não tinha. Era o primeiro indício que alguma implicância estava por vir, ninguém que se preze e discordasse faria uma piada a essa altura.

“Quando foi que você ficou tão promíscuo, Jasmin?”

O albino resistiu à vontade exorbitante que teve de rir, mergulhando no espaço quase inexistente entre seus rostos para beijá-lo. Com raiva, cansaço, desejo e devoção. Não era católico praticante, mas a religião ainda se emaranhava em seus nervos e fazia com que todas as rezas que lhe foram ensinada se emaranhassem para forjar algo único, dedicado unicamente ao homem que agora tinha o rosto entre mãos pálidas e braços ao redor da camisa social escura.

Sentia tudo de uma vez e nada, nenhuma droga ou bebida existente, seria capaz de se equiparar. A sensação das mãos, exploratórias e incertas de qual parte mais ansiaram por segurar, do ar quente, do sabor de saliva compartilhada e vinho. Céus, como soava rendido por tão pouca coisa. Não conseguia nem se sentir preocupado com essa questão. Entregaria de bom grado o coração batendo como louco em seu peito para ele, se assim pedisse, e admitir isso com tanta facilidade quase o amedrontou.

Era estranho como se deixaria ser arruinado com tanta facilidade.

Mais estranho ainda perceber que, mesmo dentre a inexistente distância entre ambos, Remi havia conseguido a proeza de posicionar a mão direita no meio de seu peitoral. Espalmada, quieta, sentindo. Foi a deixa que precisou para delicadamente – contraste animalesco ao ósculo precedente, – afastar seu rosto da pele bronzeada, ainda contentando-se por respirarem o mesmo ar e não existir nenhum Belez em um raio de quilômetros.

“O que foi?” Jasper pergunta um momento depois, descansando a testa em seu lugar sagrado. Que até o inferno tenha pena de quem ousar pensar ser digno de imitá-lo.

O moreno passa a língua sobre os próprios lábios, substituindo seu sorriso satisfeito por uma expressão séria. Uma atrocidade a caminho e ele nem precisou de seus óculos para perceber isso. “Você não pode usar camisa social.” 

A única resposta que ele consegue – além do encontro de narizes breve que o albino performou por não achar ser capaz de aguentar estar mais longe que estava, – é uma expressão confusa. O gosto de metal retornou com força e talvez, só talvez, tivessem reaberto a ferida superficial.

“Sabe por que todo mundo estava te encarando naquele Ninho de Midas que você enfiou a gente?” Remi questiona, reposicionando a mão para sentir a pulsação melhor. Jasper nega com a cabeça. “Porquê você ficou gostoso pra caralho.”

Sinceramente, não sabia como o moreno suportou manter a face compacta, mas não era capaz do mesmo. Riu. Gargalhou, na verdade, curvando a coluna para descansar a testa contra o ombro ainda envolto no material avermelhado. 

“É sério, devia ser um crime ser tão bonito assim. Tenho medo do dia que te vir sem camisa.” O idiota tem a ousadia de continuar, tendo a mão esmagada entre eles enquanto usa o braço mecânico para circular o corpo pouco maior que si. 

O mais novo balança a cabeça em negação a tudo o que foi dito e feito. Não só agora, mas desde que o conheceu na primeira escalagem feita para a ‘Equipe Socorro’. Tanta coisa poderia ter acontecido em divergência e, internamente, Jasper se perguntou se alguma mudança teria mudado o que eles se tornaram. A preocupação, o carinho, os toques de testa. 

Sabia que a discussão não estava acabada, longe disso, porém pelo momento podia se conscientizar em mandá-lo calar a boca. Deixariam a parte complicada para depois, como costumavam fazer nas missões a fim de irritar Lena. 

É com isso em mente que o albino levanta o rosto e beija Remi mais uma vez.

Notes:

Esse final foi meio apressado, eu sei, desculpas de novo! Era para ser mais longo (ou ter uma segunda parte, ainda não tinha decidido) porque eu ia me desafiar a fazer um smutzinho. Não rolou por conta do tempo, mas se alguém se interessar eu sou toda ouvidos...