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A madrugada pesava como um véu murcho sobre o quarto, abafada pelo calor da lareira que crepitava em brasa quase apagada, iluminando apenas o suficiente para revelar o brilho febril na pele de Aguiar. Ele respirava com dificuldade — o ar entrava áspero, saía ainda mais trêmulo — e o suor escorria em filetes quentes pela têmpora, contornando o maxilar até se perder na gola úmida da camisa.
O tecido, colado ao peito, deixava nítida a ascensão irregular das costelas a cada tentativa falha de puxar fôlego. As faixas que envolviam o torso, antes limpas, agora exibiam manchas densas de sangue escurecido, como ferrugem fresca impregnada nas fibras. A cama, ampla demais para dois corpos acostumados com pouco, parecia pequena quando tomada pelo tremor dele.
Labirinto dormia ao lado, pescoço curvado, um braço jogado displicente sobre a cintura do acastanhado — como se o contato, mesmo inconsciente, fosse garantia de retorno à realidade depois de tantos dias de combate. A respiração tranquila dele contrastava cruelmente com o ofegar febril do outro. Foi um som baixo, quase um gemido dissolvido na penumbra, que o chamou de volta ao mundo.
Como um soldado treinado para acordar antes do perigo o alcançar, Labirinto irrompeu da superfície do sono num instante, olhos abrindo como lâminas brilhantes sob o fio de luz. Por um segundo procurou a espada que o outro havia conquistado na luta contra a vampira— sempre ao alcance — mas ela estava encostada à parede, junto do machado, longe demais para quem estava condicionado a jamais estar desarmado. A ausência do peso metálico pareceu deixá-lo nu. Vulnerável.
— Aguiar? — chamou, se erguendo, a pergunta veio carregada de uma urgência que ele tentou, sem sucesso, disfarçar.
A aproximação foi imediata; seus dedos buscaram o rosto vincado de febre, e o toque o fez recuar como se tivesse encontrado brasa viva. O calor da pele de Jonas era absurdo, antinatural, como se o corpo internamente ardente estivesse tentando matar o próprio homem que habitava.
— Merda... — sussurrou, a voz arranhada por um medo que ele não permitia revelar nem diante da morte. — Você está queimando.
Aguiar tentou responder, ou talvez apenas expressar dor, mas o som que escapou foi um ruído fraco, sufocado entre o ranger dos dentes e o tremor dos músculos. Seus dedos buscaram algo no ar, apoio, e se fecharam em nada, como se a febre consumisse até o gesto mais simples. Labirinto aproximou-se mais, o corpo firme sustentando o outro com um cuidado que contrariava o histórico de mãos treinadas para matar, mãos treinadas para rituais, não para segurar com delicadeza.
— Respira comigo... devagar — pediu, aproximando o rosto do ferido como se a proximidade pudesse estabilizá-lo. Com o braço forte enlaçando as costas de Aguiar, ele o ergueu com uma paciência inesperada; cada movimento fazia o ferido soltar um arquejo rouco, misto de dor e exaustão. O corpo dele, normalmente sólido, agora parecia gelatina derretida, prestes a desabar de volta nos lençóis. Labirinto o guiou até encostar na cabeceira da cama, arrumando travesseiros com movimentos rápidos e quase desesperados, a mão sempre retornando ao ombro do ex-delegado como se precisasse assegurar que ele ainda estava ali, vivo, respirando.
O cheiro do sangue começava a domar o ar — ferro úmido, impregnado com suor, febre e a lembrança distante de batalha. Labirinto sentiu o estômago se contrair, não pelo sangue em si — sangue era familiar, quase cotidiano — mas pelo pensamento involuntário, cruel, de que poderia perdê-lo justamente ali, longe do campo, depois de terem sobrevivido àquilo que muitos não sobreviveram. O perder por falta de cuidado que ele próprio teve ao enfaixar o outro homem.
Seu olhar caiu sobre as bandagens. O vermelho infiltrando nelas parecia crescer como flor maldita. Ele respirou fundo, tentando ignorar o tremor das próprias mãos enquanto levava os dedos à camisa molhada de Aguiar.
— Vou ver o ferimento — murmurou, a voz baixa demais, como se o silêncio do quarto pudesse quebrá-lo. — Só... fique acordado. Se puder.
O tecido aderido à pele se recusava a desgrudar sem resistência, e Labirinto precisou suspirar para criar coragem. Ergueu a camisa devagar, puxando-a com cuidado para não abrir os pontos improvisados horas antes, na pressa. O ar noturno encontrou a pele quente como fogo, e Jonas arqueou o corpo, um gemido abafado escapando sem permissão.
A cena que se revelou sob a luz trêmula da lareira fez o mundo estreitar-se ao redor de Labirinto: o corte profundo, mal fechado, o sangue escapava de maneira lenta e constante. Os dedos dele pairavam acima da ferida por um instante que pareceu eterno.
— Isso está pior do que antes... — sussurrou, quase para si mesmo, a mandíbula tensa, a respiração pesada. — não faz isso comigo.
Ele se inclinou, buscando o kit de machucados improvisado ao lado da cama; mas antes que pudesse desfazer ou renovar as faixas, sentiu o corpo de Aguiar se retesar sob seus dedos. Um som rouco, quase um lamento, escapou dos lábios dele. Os olhos se abriram. Lentos, pesados, como se as pálpebras fossem feitas de chumbo quente. Pupilas dilatadas, confusas, tentando reconhecer o mundo ao redor.
— ...La...bi... — a voz dele saiu quebrada, arranhada, como se tivesse atravessado quilômetros de deserto.
O ocultista se inclinou imediatamente, segurando seu rosto com as mãos quentes.
— Ei. Estou aqui. Fica comigo — disse em tom baixo, firme, um pedido desesperado. — Respira devagar. O ar entra... — aproximou o próprio rosto, guiando o ritmo. — ...e sai. Isso. Mais uma vez. Olha pra mim.
Jonas piscou, os olhos lutando contra a febre que distorcia tudo. Ele tentou inspirar fundo, mas soltou um arquejo que o fez curvar-se, a dor aflorando sob a pele sensível. Labirinto o segurou antes que ele dobrasse sobre si mesmo, uma mão firme em sua nuca, a outra apoiada em suas costelas — evitando o ferimento, mas perto o bastante para sentir a pulsação acelerada sob seus dedos.
— Calma. Eu sei... dói — a voz dele quebrou um pouco, como se confessar isso fosse perigoso — mas você precisa respirar. Comigo. Não me deixa sozinho assim.
A febre parecia devorar a lucidez de Aguiar; ainda assim, ele tentou obedecer, puxando o ar com dificuldade, os lábios tremendo, a respiração tateando o caminho até um ritmo menos caótico. Labirinto manteve o olhar preso ao dele, como se pudesse segurá-lo pela íris e impedir que ele escorregasse de volta para a escuridão.
O delegado inspirou. Uma, duas vezes. O peito doeu, mas o ar veio. O tremor diminuiu um pouco.
— Assim... — Labirinto murmurou, quase um alívio exalado — bom garoto.
A respiração do homem de fios castanhos estabilizou-se apenas o suficiente para que o silêncio voltasse a ocupar o quarto. Labirinto manteve uma mão em seu ombro por longos segundos, observando o vai e vem frágil do peito dele, como se cada movimento fosse garantia de vida. O calor febril ainda queimava sob seus dedos.
O homem retirou os dedos da ferida com cuidado, e o cheiro de ferro invadiu o ar de maneira quase nauseante. O tecido estava encharcado, tão saturado que escorreu quando ele puxou a ponta das bandagens, deixando um rastro rubro pela pele pálida. Ele engoliu em seco. Era impossível tocar aquilo sem abrir ainda mais o corte. A cada centímetro desgrudado, Aguiar estremecia.
— Você está um desastre... — murmurou, a voz baixa demais, quase sem som.
As bandagens caíram por fim, pesadas de sangue, e revelaram a pele manchada de vermelho até a cintura. Era impossível tratá-lo assim. Não sem limpá-lo primeiro. O ocultista soltou o ar pela boca, um suspiro tenso, e apoiou uma mão na nuca dele.
— Vamos tirar isso de você.
Aguiar não respondeu, mas seus olhos febris o acompanhavam enquanto o outro homem o ajudava a mover-se. O peso do corpo parecia dobrado. Labirinto deslizou para fora da cama e, com um último olhar para ele, saiu do quarto, foi à cozinha, pegou uma bacia e abriu a torneira, despejando água quente misturada com ervas. O vapor subiu devagar, enchendo o ar com cheiro de alecrim e folhas amargas que pomba havia arrumado. Levou a bacia para o banheiro e repetiu o processo até encher a tina. Voltou para o quarto, colocou o braço de Aguiar sobre seus próprios ombros e o levantou aos poucos, sentindo cada tremor, cada fragmento de força se esvair.
— Segura em mim — pediu.
O outro obedeceu com atraso, dedos fracos agarrando o tecido da camisa dele, a respiração batendo irregular na clavícula de Labirinto. Cruzaram o espaço curto até o outro cômodo. A água quente ondulou quando o ocultista o acomodou ali dentro — com todas as roupas — e com todo o cuidado que tinha. O contato arrancou um gemido baixo de Aguiar, uma mistura de dor e alívio. A pele dele parecia fervilhar contra a água, mas o suor começou a se dissolver, o sangue escorrendo em fios vermelhos que flutuaram antes de desaparecer sob a superfície.
Labirinto ajoelhou-se ao lado da tina, as mãos mergulhando na água até tocar o corpo dele. Passou um pano limpo sobre o peito marcado, removendo a sujeira devagar, como se cada movimento pudesse quebrá-lo. A água tingiu-se escura, quase negra. Ele repetiu o gesto, mais vezes, até que a pele antes turva por sangue e poeira revelasse sua cor verdadeira: pálida, quente, viva.
O silêncio era quebrado apenas pela água sendo espremida do pano e o som rouco da respiração de Aguiar. Ele mantinha os olhos abertos, ainda turvos, mas fixos no rosto do outro homem. O ocultista desviou o olhar apenas quando precisou enxaguar a toalha. Cada vez que retornava ao corpo de Aguiar, a mão pousava com mais firmeza, como se o toque também fosse uma amarra para mantê-lo no mundo.
Quando terminou de limpar o torso, passou para o pescoço, ombros e braços. Cada movimento lento. Aguiar respirava fundo quando mandado, como um cachorro obediente em meio ao delírio. Labirinto encostou a testa à borda da tina por um segundo breve, recuperando o fôlego. Só então levantou o rosto e voltou a observá-lo — molhado, febril, mas estranho e terrivelmente bonito.
[...]
A Noite passou devagar. Aguiar dormiu com a cabeça no colo do ocultista, ainda quente, mas respirando melhor. A febre não tinha ido embora totalmente, mas já não parecia tão forte quanto antes. Labirinto ficou acordado quase a noite inteira, fazendo carinho nos cabelos dele de vez em quando, só para ter certeza de que ainda estava ali, vivo. A lareira virou brasa, a casa ficou silenciosa, e o mundo parecia pequeno — só os dois e o som fraco da respiração de Jonas.
Quando a manhã chegou, a luz entrou pela janela e iluminou o quarto, revelando o cansaço no rosto de Labirinto. Ele continuava sentado com as costas na cabeceira, sem coragem de se mover para não acordar Aguiar. O corpo do outro estava pesado sobre ele, quente, e parecia que qualquer movimento poderia abrir os machucados.
Foi então que a porta se abriu sem aviso, três batidas rápidas e depois Kemi entrou no quarto com pressa, segurando alguns papéis.
— Vocês têm que levantar — ela começou — precisamos ir ver umas coisas lá fora, parece que teve movimentação
Parou. A frase morreu no meio, o careca a olhava sem piscar. O quarto ainda tinha o cheiro de erva e água quente do banho, e as roupas sujas de sangue estavam no canto.
Kemi arqueou uma das sobrancelhas.
— O que... — ela apontou com o papel. — Isso é sério?
— Desculpe — disse num tom seco, porém cansado. — Tenho um assassino pegajoso e febril no meu colo.
Passou a mão no cabelo de Aguiar, como prova.
— Eu tento levantar quando conseguir convencer ele de que febre não significa que ele está morrendo. Agora ele está fora do risco de morte.
Kemi ficou alguns segundos só olhando a cena, tentando entender se ria, se brigava ou se ia embora. No fim, soltou o ar num suspiro resignado.
— Tá bom. — levantou as mãos. — Eu não vou mexer nisso aí.
Labirinto deu um leve aceno com a cabeça.
— Me avisem quando o "assassino pegajoso" conseguir andar — ela disse, virando para sair. — De preferência antes do almoço, se puder.
E saiu, fechando a porta devagar.
O quarto voltou a ficar quieto. Labirinto olhou para Aguiar dormindo, ainda apoiado nele, e apenas ficou ali, em silêncio, segurando-o.
Sem pressa para soltá-lo.
Sem vontade de soltar também.
