Work Text:
Eu quero que você me devore. Que me ame e me devore.
- Bones and All
Anya Calder era filha de um dos melhores engenheiros da mecânica, e como ele não tinha com quem deixa-la, a levava para o trabalho. Foi entre o barulho alto do gerador, do companheirismo das Profundezas, da graxa e suor que ela foi criada. Aprendendo a língua de sinais dos mecânicos e tudo sobre máquinas antes mesmo de saber ler. Sempre sendo uma garota obediente e prestativa, todos ao seu redor tinham apresso e carinho por ela. Era simpática, mas também feroz quando queria lutar por algo importante. Teimosa quando sabia que estavam fazendo coisas erradas e achavam que ela era boba ou pequena demais para compreender.
Knox era o filho do chefe da mecânica e desde criança sabia que queria ser como ele, mesmo que o pai não fosse o mais presente possível e fizesse a mãe chorar, mas na visão de uma criança, seu pai sempre vai ser seu herói. E quando sua mãe saia para ajudar na clínica e deixava o pai responsável pelo filho, ele o levava para o trabalho. O deixava sentado na sala de operações, e só o procurava novamente na hora de irem embora. Mas Knox não ficava triste pela falta de atenção do pai nessas horas, porque Anya estava ali para passarem o dia conversando sobre máquinas ou brincando pelas Profundezas.
Anya é o que ele considerava sua melhor amiga, ela era legal. Era alguns anos mais velha, mas não tinha vergonha de andar com Knox por aí. Na maioria das vezes eles ficavam sentados e quietos na sala de operações enquanto Anya o ensinava sobre o básico para ser um mecânico. Knox sabia de poucas coisas, como o nome de algumas ferramentas, coisas que pegava no ar ao prestar atenção na conversa dos mais velhos. Nunca perguntava ao pai porque ele sempre estava ocupado demais concertando alguma coisa e nunca tinha tempo o suficiente para ele.
"Como é o nome dessa?" Anya tinha espalhado algumas das próprias ferramentas, presentes do pai, no chão onde estavam sentados. Encolhidos entre um armário de registros e um dos painéis de controle.
"Chave inglesa." Knox sorriu, essa era fácil até demais.
"E o que fazemos com ela quando um daqueles motores superaquecerem e fumaça começar a sair?" Ela percebia que Knox achava que suas lições mais se tratavam de brincadeiras do que de preparo para o futuro.
Todos sabiam que Knox ia ser o Aprendiz do pai, e que ele iria precisar de conhecimento prévio se quisesse sobreviver e ser um bom chefe da mecânica, para que a Profundeza pensasse que Knox era digno desse cargo, e não que estava ali apenas por ser filhinho do papai, mas porque tinha potencial, que tinha espírito de líder. Porque Anya via um futuro brilhante para ele e o estava preparando para isso, sem querer nenhum agradecimento em troca.
O silêncio de Knox tirou um riso baixo dela, Anya empurrou a cabeça baixa dele, que tinha as bochechas vermelhas pela vergonha de não saber o que responder.
"Tudo bem. Quando não souber de algo, você pode perguntar perguntar a um de seus colegas. Por isso o trabalho em equipe é tão importante, não podemos saber de tudo, então precisamos de pessoas em quem confiamos ao nosso lado."
"Vou ter você na minha equipe então não vou precisar de mais ninguém, você é tipo um computador superinteligente que sabe de tudo." A fala do garotinho tirou uma risada sincera de Anya, que bagunçou o cabelo dele por isso.
"Espertinho." Anya se ajeitou no chão, batendo nas coxas. "Mas a chave inglesa no problema do motor: se ele superaquecer você precisa aliviar a pressão afrouxando a válvula de vapor."
"Prometo não esquecer." Knox sabia que provavelmente não se lembraria disso no final do dia, mas não tinha problema, perguntaria a Anya se precisasse. "Podemos ir na casa da Walker agora?"
"Só se você me ajudar a arrumar isso." Apontou para todas as ferramentas e parafusos espalhados pelo chão na frente deles.
Knox se ajoelhou para pegar a caixa de ferramentas e juntos jogaram tudo ali dentro. Ele gostava de passar tempo com Anya, mesmo sendo popular com crianças da sua idade, ter a atenção de alguém mais velho, que era sempre tão gentil, fazia algo engraçado crescer dentro do seu estômago. Não acreditava quando os meninos mais velhos, enciumados pelo carinho de Anya por ele, diziam coisas cruéis. Por exemplo, que ela era a babá dele pro pai manter o emprego no gerador, ou que ela só queria ganhar a simpatia do chefe da mecânica.
Mas foi na adolescência que essa sensação engraçada no estômago ganhou mais importância. Knox se tornou mais alto e junto com a puberdade, veio a força, estava começando a se parecer mais com um homem do que com um garoto. Ombros largos, braços mais definidos, tatuagens nos bíceps e no pescoço, estava começando a ter mais jeito com as pessoas. Sabendo lidar com suas graças e conseguindo negociar favores como ninguém nas Profundezas conseguia. E finalmente se tornou o Aprendiz da Mecânica. Agora ele podia andar livremente pela área de trabalho do gerador, mesmo que o pai insistisse que ele deveria estudar mais sobre o gerador e como os números nos painéis eram importantes. Mas Knox adorava suar enquanto carregava canos para cima e para baixo, se queimando com os dutos de vapor e criando calos nas mãos.
Talvez gostasse um pouco mais porque poderia ver Anya trabalhando.
Anya agora era uma mulher, mais bonita do que nunca. Com braços fortes, tatuagens cobrindo as costas e escorrendo pelos ombros até os bíceps. Era a melhor engenheira dali e todos admitiam isso quando o pai de Knox, o chefe, ia atrás dela procurando concelhos para lidar com as máquinas. Quase todos o fazia, porque sabiam que ao perguntar era já ter uma resposta garantida, ela ditava como um computador. Tudo memorizado de modo impecável.
Knox estava observando ela. Anya estava soldando um cano que substituiria outro, desgastado pelo tempo. Ela tirou a regata que usava porque naquele dia o calor estava terrível, e uma fina camada de suor cobria seus braços fortes e tronco. Dava para ver suas costas definidas e coberta de tatuagens. Aquela calça alguns números maior lhe caia muito bem, acentuando o quadril largo, com um cinto de utilidades preso a cintura. A máscara de proteção para solda não permitindo que vissem seu rosto. As faíscas brilhando ao seu redor lhe dava um ar mais divino.
"Para de babar na menina e volta ao trabalho!" Seu pai gritou, ao abrir a porta da sala de operações, na frente de todos.
Knox ficou vermelho como um tomate e correu para cuidar de suas tarefas, não ficando para ver Anya levantando a máscara, rindo enquanto o seguia com os olhos. Terminando o trabalho com a solda, ela balançou a cabeça enquanto ia fazer a substituição dos canos.
As coisas entre os dois não mudaram muito, ainda eram amigos extremamente próximos. Mas Walker e Shirley já notavam a quedinha que Knox estava tendo por Anya. Era engraçado e fofo. Elas adoravam ver o jeito que ele ficava corado quando Anya chegava nos lugares ou como ele sempre tinha um sorrisinho bobo na direção dela. Amor jovem, sempre revigorante. Isso a fazia se lembrar dos dias com Carla, por isso sempre os expulsava da oficina quando Knox ficava muito idiota para cima de Anya.
O pequeno grupo estava reunido no refeitório. Knox, Shirley, Hank, e a mais nova adotada direto do Intermediário, Juliette Nichols. Ela era uma boa menina que havia fugido de casa e acabou na oficina da Walker, depois fez amizade com Shirley na Reciclagem e logo estava andando com o grupo. Que nem sempre andava junto, mas sempre comiam juntos.
Bem, Knox agora andava com meninos da idade dele, incluindo Hank, Shirley era mais nova e ficava com a Jules desde que tentou andar com o Knox e ele a deixou sozinha na Caverna no escuro e não voltou para buscá-la. Anya normalmente sempre estava ocupada com o gerador e não tinha muito tempo para ficar desfilando pelos corredores das Profundezas agora que morava sozinha depois que o pai morreu, mas sempre que podia, reunia aquele grupo de amigos. Hank era um que sempre estava no pé dela, ele quer se tornar Delegado do Xerife, o que é ambicioso, era difícil pessoas nascidas na Mecânica virarem Delegados, normalmente o Topo mandava gente de lá ou do Intermediário para assumirem trabalhos importantes nas Profundezas, talvez porque não confiassem neles. No começo, Knox ficou um pouco enciumado, mas depois notou que o que Hank sentia por Anya era apenas admiração, assim como ele próprio.
Os amigos estavam esperando Anya terminar de servir seu almoço para se juntar a eles na mesa em que estavam. Ela vinha andando com sua bandeja, Knox puxou a cadeira ao seu lado para ela quando a viu chegando. Balançando a mão para que se apresasse. Não tinha muitas pessoas no refeitório naquele horário, já que passava um pouco da uma da tarde.
"Anya! Se senta com a gente." Jake, um dos caras que estudou com Anya, a chamou para se sentar com eles e mais uns três amigos. Knox abaixou o braço levantado, todos do grupo pararam de conversar entre si para prestar atenção no que poderia acontecer.
Anya parou com a bandeja nas mãos na frente da mesa de Jake e o olhou com uma cara de nojo tão aparente que poderia fazer qualquer um desanimar na hora.
"Vai. Só dessa vez. Deixa esses pirralhos de lado." Jake se inclinou na única cadeira disponível, do seu lado. Seu cabelo oleoso grudando no rosto suado e sujo de fuligem.
"Vai para a casa do caralho e para de encher meu saco." Anya falou entredentes e arremessou um dos pães que acompanhavam a sopa, eles eram tão duros que eram uma arma séria ali por baixo. Acertou bem no olho do Jake.
Quando mais nova, antes de conhecer Knox, Anya costumava andar com eles para não ficar sozinha. Mas a companhia dele e de seus amigos se tornou insuportável depois que ela entrou para a equipe principal do gerador. Jake achava que ela apenas servia café para os trabalhadores esforçados e que ela não sabia trocar as pilhas de uma boneca idiota. Ele sempre voltava para o assunto de seu emprego merda na Reciclagem, nunca deixando os outros falarem.
Ela saiu andando, satisfeita com sua ótima mira, em direção a mesa onde os amigos gritavam em euforia. Shirley gritava tanto no ouvido de Juliette enquanto segurava os ombros dela que afetaria futuramente na audição, isso era certeza. Hank tapava os ouvidos, mas se levantou e balançou os ombros de Anya, que largou a bandeja na mesa.
"Isso foi incrível!" Hank era mais alto que Knox, ele poderia ser grande mas parecia um urso fofo. Sua gentileza era sempre acolhedora.
Anya se sentou ao lado de Knox, na cadeira que ele havia puxado. O sorriso de orgulho no rosto jovem dele sempre era um colírio para os olhos cansados.
"Uma pequena que eu perdi meu pão, era a única coisa que tornava essa sopa comestível." Ela mexeu a sopa com a colher de alumínio. Não tinha uma das cores mais agradáveis, muito menos o gosto.
"Não seja por isso, minha rainha." Shirley se levantou de sua cadeira para pegar os pães nas bandejas de todos e colocar na de Anya.
"Meu pão..." Juliette praticamente murchou ao ver que teria que comer a sopa pura. Hank caiu na gargalhada enquanto Shirley tentava a consolar, afirmando ser uma causa nobre.
"Como sua rainha, vou ser generosa e lhes deixar se alimentar, meus fiéis servos." Anya riu ao devolver o pão de todos, partindo o de Shirley e dando metade dele para Juliette, por ser a menor, precisava se alimentar bem e eles cuidariam disso.
Ao tentar devolver o de Knox, ele recusou. Mas Anya partiu o pão e ficou apenas com metade. Hank, que era um dos últimos com o pão intacto, o partiu e compartilhou com Anya. As ações de bom coração tiraram altas gargalhadas de todos, que começaram a comer como se a sopa não estivesse horrível e o pão duro, mas estavam entre amigos que deixavam tudo melhor.
Sabiam que juntos poderiam passar por qualquer coisa.
Naquela noite, alguns adolescentes se juntaram para dar uma pequena festinha na Caverna proibida. Anya, Knox e Hank foram convidados, mas Hank recusou pois tinha prometido ajudar a mãe na Clínica aquela noite. Shirley implorou para ir e Anya não permitiu, Campbell parecia bem decidida sobre isso então Knox a ameaçou dizendo que se ela fosse, ele a abandonaria no escuro como fez na última vez. Então Shirley desistiu. Knox estava radiante porque seria a primeira vez que ficariam "sozinhos" em bastante tempo. Sempre tinha algum amigo andando com eles, no trabalho Knox não tinha tempo para conversar com ela, apenas observava de longe. Os únicos momentos tranquilos que compartilhavam era quando acabava o turno e como toda noite nos últimos anos, Knox acompanhava Anya até a porta da casa dela para se certificar que ela havia chegado bem.
Mesmo que Anya tivesse sido contra a companhia no começo e afirmando que poderia se sair muito bem sozinha de volta para casa, passando pelos corredores que percorreu a vida inteira e cercada de gente que conhecia a árvore genealógica completa, Knox não ficou satisfeito. Com os anos, isso se tornou um hábito apreciado pelos dois. Era o pouco tempo que podiam conversar calmamente, sem a pressão de ter olhos sobre eles ou pessoas interagindo e se intrometendo. Era só eles dois. Às vezes, Anya o convidava para entrar e eles ficavam conversando por boa parte da noite, e quando ele recusava adentrar, dizendo que deveria voltar rápido para casa, eles acabavam sentados nos degraus na frente do apartamento minúsculo de Anya e perdiam completamente a noção do tempo.
Era engraçado como o ar ficava mais leve quando estavam juntos, era como se o peso que carregassem em suas costas por suas histórias diminuísse consideravelmente. Tudo se tornava mais divertido e engraçado quando se juntavam, qualquer tarefa tinha suas risadas como trilha sonora. Ainda eram melhores amigos.
Anya estava sentada no chão da Caverna, com as costas apoiadas na parede que tinha os nomes dos membros da Mecânica que participaram da Rebelião. Knox estava em pé com uma lanterna, tentando ler e decifrar os nomes e frases escritas ali. Ambos já estiveram ali antes. Anya, em suas visitas anteriores, tinha olhado para aquela parede por tanto tempo que saberia ditar cada nome. Mas era a primeira vez que Knox tirava um momento para prestar atenção na tinta desgastada que cobria toda a superfície.
"Max..." Knox leu em voz alta, encarando Anya logo depois. "Escreveu o nome do seu pai." Não era uma pergunta, nem uma afirmação, talvez só um comentário inocente.
"Depois que ele morreu, passei bastante tempo aqui." Ela balançou a cabeça, dando um gole no copo com uma bebida duvidosa que eles haviam ganhado ao chegar. Observando os outros meninos e meninas se divertindo em outra área da Caverna.
"Quando meu velho bater as botas, vou colocar o nome dele aí também." Knox se sentou ao lado dela no chão. Pegando o copo da mão de Anya e dando um pequeno gole.
Anya sabia que o pai de Knox não era a melhor pessoa do mundo, mas ficava triste quando o via implorando migalhas de atenção e reconhecimento. Isso a irritava.
"Como anda o treinamento de Aprendiz?" Eles sempre deixavam conversas mais pessoais para momentos a sós.
"Um saco. Gostava mais quando você era minha professora." Anya riu com a fala de Knox e bateu seu ombro com o dele.
"Ah, sim. Porque comigo, mesmo se tivesse dado a resposta errada ainda ganhava um parabéns." Ambos gargalharam porque era verdade.
Depois se seguiu de um confortável momento de silêncio. Knox segurou o copo vazio no colo e passou os dedos na borda, pensando se realmente deveria fazer aquela pergunta.
"Não quero voltar para casa. Posso dormir na sua?" Knox a encarou com olhos de cachorrinho perdido, abandonado na rua durante uma tempestade.
"Claro." Anya não entendia a hesitação de Knox ao fazer a pergunta, não era como se fosse a primeira vez dele dormindo na casa dela.
Quando foi morar sozinha, todo o grupo de reuniu para dormir com Anya na primeira noite. Porque queriam mostrar seu apoio logo após a morte de Max e porque aquela seria a primeira noite de Anya dormindo em uma casa entranha e sem o pai. Se lembrava do barulho, a gritaria que eles fizeram em sua porta. Quando Anya abriu, viu todos eles com seus colchões e lençóis parados como mendigos no meio do corredor. Foi a primeira de muitas festas do pijama e se tornou um dos dias que todos se lembravam com muito carinho.
"O que tá rolando na sua casa?" Anya sabia que tinha um motivo para Knox ter feito aquela cara.
"Meu pai tá dando tratamento de silêncio na minha mãe. De novo." Knox deixou o copo de lado. Ele sempre se irritou no jeito que seu pai tratava a mãe, mas sempre foi verbal. Seu pai nunca levantou a voz ou a mão para ela, era sempre passivo agressivo. O que tornava tudo ainda pior.
Anya balançou a cabeça, pensando em algo para dizer. Mas veio de forma natural.
"Tenho orgulho de você, sabia?" O sorriso que surgiu na cara de Knox foi magnífico. Suas bochechas rapidamente ficando coradas. Knox coçou a nuca enquanto olhava para baixo, envergonhado e sem saber o que responder.
Então apenas apoiou os cotovelos nos joelhos e ficou encarando Anya com olhos carinhosos. Ela olhava para os outros, seu perfil era um deleite, com aquelas luzes amarelas iluminando sua figura tranquila. Poderia ficar com aquela vista pelo resto da vida e ainda seria um prazer.
"Para de me olhar assim." Ela o advertiu, sem virar o rosto.
"Assim como?"
"Como se quisesse me beijar."
Knox nem se permitiu pensar direito antes de retrucar, tinha que ser agora, quando a coragem estava transbordando de seu peito e molhando sua língua. Porque se hesitasse, ia ficar meia hora olhando para o nada, digerindo e ficando vermelho e gaguejando e passando a maior vergonha da sua vida.
"É porque eu quero."
"E vai ficar querendo. Eu sou velha demais para você, Knox." Anya finalmente o encarou de volta, mas não havia rejeição em seus olhos ao falar aquelas palavras, mas um pingo de pesar por esses fatos os afastarem.
"E quando eu vou ser velho o bastante para você, Any?"
Anya parou para pensar por alguns segundos, nenhuma resposta que veio a mente parecia a certa.
"Quando você virar Chefe da Mecânica." Anya levantou o queixo, orgulhosa de sua resposta.
Knox rapidamente se levantou, batendo as calças para tirar a poeira do chão. E começou a se dirigir ao corredor da saída.
"Onde vai?"
"Implorar para o meu velho se aposentar de uma vez por todas." Ele estendeu os braços e falou alto.
Aquilo tirou uma gargalhada de Anya.
Demorou alguns anos, mas aconteceu. Knox era o novo Chefe da Mecânica.
E ele estava mais do que radiante por isso, imensamente feliz e quase dando pulinhos de alegria. As Profundezas estava em festa, havia bebida, comida boa, e muito barulho. Pessoas cantavam letras sem sentido e usavam o próprio corpo como instrumento, batendo em seus abdomens, estalando os dedos ou fazendo sons com a boca para complementar a cantoria. Outros achavam que era o momento ideal para pintar as escadas, pintavam grafites ou desenhos com significados que apenas quem era das Profundezas entenderia, aquele era seu lar, que carregava sua história, suas dores e lutas. O que compartilhavam uns com os outros nem mesmo o Topo poderia quebrar ou oprimir. Eles se uniam em momentos de festança e fortaleciam esses laços em meio de guerras e rebeliões.
A festa no refeitório seguiu mesmo que a principal pessoa tivesse fugido. O grupo ficou apenas algumas horas no começo da noite e depois se juntaram a Walker na oficina para uma comemoração mais íntima.
Todos estavam sentados na mesa redonda que Walker esvaziou para a chegada deles.
Knox conversava com Martha enquanto Shirley ensinava Juliette a beber e Hank tentava impedir. Anya atravessou a porta alguns segundos depois, segurando o casaco que vestia contras as costelas para esconder o que tinha ali debaixo. Quando se aproximou, Shirley a ajudou a tirar uma das garrafas de rum que ela havia tirado do armazém secreto do pai, era envelhecido desde a rebelião e Max só os bebia em momentos muito especiais. Como quando Anya se juntou aos Mecânicos e ele a ensinou a beber com aquelas garrafas empoeiradas. Ele dizia que sua garotinha tinha que começar experimentando o melhor.
A noite se seguiu cheia de gritos e risadas que ecoaram pelas paredes da oficina, provavelmente todos que passavam percebiam que as coisas estavam animadas. Jogos, brincadeiras e Juliette vomitando na pia de Walker depois de provar a bebida de Anya. Certamente ela não se lembraria disso na manhã seguinte, mas Shirley iria fazer questão de trazer de volta esse momento vergonhoso todos os dias até morrerem.
"Pelo amor de Deus, arrumem um quarto." Shirley cobriu o rosto vermelho pelo álcool com as mãos. Os dois a encararam com cenho franzido, não estavam fazendo nada demais. Apenas mantendo uma conversa amigável... Tá bom, eles estavam um pouco mais próximos do que deveriam.
"Shirley, para." Hank, que carregava uma Juliette bêbada demais para andar em linha reta, reclamou. "Chega, vamos." Ele a puxou.
"Isso, vão mesmo. Embora, para bem longe." Walker os expulsava, indo até a porta e abrindo-a. Depois apontou para Anya e Knox, que estavam sentados no sofá. "Vocês dois também. Para fora agora."
Knox ajudou Anya a se levantar e pegou os casacos deles jogados em cima da mesa.
"Sim, senhora." Ele bateu continência de modo irônico. Um pouco aéreo pela bebida, felizmente nada muito grave.
"Mas eu vou levar isso." Anya levava a última garrafa de rum consigo.
"Me dá isso aqui, garota." Walker tomou da mão dela de modo ranzinza. O que rendeu boas gargalhadas.
Os dois começaram a andar pelos becos em direção ao apartamento de Anya. Knox ia deixá-la, como sempre. Encontraram alguns bêbados no caminho, outros vomitando na lata de lixo alheia. Nada fora do comum. O silêncio era confortável, nunca precisaram encher o ar com conversar tolas apenas para não ficarem em silêncio, mesmo quando não tinham nada para falar continua legal. Era bom ouvir o nada um do outro.
"Então... Chefe da Mecânica." Anya falou, ainda era recente demais para falar isso e não atrelar a palavra com o pai de Knox, levaria um certo tempo até se acostumar. Knox sorriu com isso, a cabeça baixa e mãos nos bolsos. Ele havia crescido ainda mais, não achava que alguém poderia ficar tão grande. Mas Knox agora tinha ombros largos, braços fortes que mal cabiam nas mangas das camisas e uma barba que o deixava bem bonito. Agora era realmente um homem. E um homem bem atraente. "Como se sente sendo meu chefe agora?"
"Não sei, amanhã vai ser meu primeiro dia no cargo." Knox deu de ombros. Na verdade, estava um pouco inseguro sobre isso ainda.
"Não se preocupe." Ela bateu em seu ombro de leve. "Vou pegar pesado." Ambos riram com a afirmação de Anya.
Viraram na esquina que levava a porta de Anya, seguiram em silêncio, dando passos lentos para demorar um pouco mais para se separarem.
"Mas me sinto meio idiota agora. Quis esse cargo por um motivo muito egoísta." Pararam na frente da porta de metal. "Só para beijar uma garota."
"Só vai ser idiotice se ela não quiser mais te beijar." Anya deu de ombros, rindo enquanto observava Knox cruzar os braços, umedecer os braços e olhar para cima, sem saber o que dizer.
Mas o jeito que Knox inclinou a cabeça para encará-la foi de fazer as pernas tremerem. Aquele olhar escuro por algo desconhecido, talvez desejo. Anya adorava quando ele fazia isso. Porque parecia que ele poderia devorar ela a qualquer instante. Era intenso, pecaminoso e cheio de luxúria. Era poucos os momentos em que Knox deixava isso transparecer. Ele seguiu firme com sua promessa durante todos esses anos.
Knox observou Anya balançar a cabeça como se acompanhasse a melodia de alguma música proibida. Depois ele deu adeus a sanidade que ainda restava e avançou.
Ele segurou o rosto de Anya com tanta delicadeza, um cuidado que não condizia com seus lábios famintos, a empurrou em direção a porta, fazendo com que encostasse as costas ali. Daquele ângulo, Anya sumia completamente, Knox se tornava uma muralha na frente dela, com costas definidas e ombros largos aos quais ela podia se agarrar agora.
Suas línguas não batalhavam por controle, mas dançavam em uma valsa regida pela saudade do que nunca foi provado. Uma mão de Knox subia e descia pela lateral de Anya, grande e com dedos grossos cheios de calos. A outra no pescoço dela, delineando a linha do maxilar e acariciando o rosto de Anya com o polegar.
Anya tinha uma nos ombros de Knox, descendo pelos bíceps definidos. A outra na nuca dele, acariciando, arranhando e puxando para mais perto. Compartilharam beijos molhados e cheios de carinho até o ar começar a fazer falta e seus pulmões reclamarem. Depois, trocaram selares e toques, Knox puxou a chave do apartamento de Anya do bolso dela e abriu a porta.
"Espero que não se arrependa disso. Agora sua alma é minha." Knox brincou, a empurrando para dentro e se apoiou na soleira da porta. "Fui persistente, fiz por merecer."
"Claro que não me arrependo, chefe." Anya sorriu, dando um último beijo nos lábios avermelhados e mordidos de Knox, antes de fechar a porta.
Anya surtou dentro de seu apartamento enquanto Knox correu para casa como um idiota, com um sorriso de orelha a orelha. Aquele foi um dos melhores dias da sua vida.
