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antes que a noite acabe

Summary:

Machucado e exausto, Seungmin tenta enfrentar tudo sozinho. Chan insiste em provar que ele não precisa.

Notes:

O que é isso a primeira história 100% conforto e baunilha desse perfil? Sim, eu senti muita falta de escrever algo sem conteúdo explícito e os Seungchan no AAA foram o gatilho para isso (não me culpe, eles estavam adoráveis), e tudo acabou encaminhando para uma história com fundo ot8. Novamente, não foi uma história com leitor beta, então qualquer errinho por favor desconsiderem, eu tentei revisar o máximo, mas algumas coisas acabam passando.

Eu também sou péssima com resumos, então por favor deem uma oportunidade para os SeungChan mesmo com 16 palavras de sinopse.

Ahh além disso, eu havia comentado na minha última história postada aqui que queria criar uma série com Stray Kids poli… Então aqui estou eu!! Sejam bem-vindos a segunda história da série “Contos do Luar”. Você não precisa ler a outra para ler essa (mas eu iria apreciar muito se você lesse) e eu espero que gostem!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Seungmin sabia que não deveria estar se esforçando tanto – mas tente impedi-lo e falhe imediatamente. A simples ideia de deixar seus fãs ainda mais aflitos, ou de colocar mais peso nas preocupações dos seus namorados, fazia seu peito apertar. Então ele insistiu.

Quase se ajoelhou diante dos managers, ficou ali implorando, e gastou longos trinta e sete minutos choramingando para equipe (e Bang Chan) sobre como precisava – e iria – se apresentar no Asian Artist Awards, não importasse o quão contrário eles eram sobre aquela decisão. 

Era a apresentação do ano. Eles mostrariam b-sides naquela noite, e por Deus, ele vinha contando os dias com uma ansiedade tão vibrante que parecia percorrer sua espinha. Não seria uma torção no tornozelo – leve, segundo ele; nada leve, segundo qualquer pessoa com mínima noção de lesões (ou apenas com olhos para enxergar a forma como ele caminhava) – que o tiraria do palco. Ele já havia superado dores piores. Essa, ele dizia a si mesmo, seria apenas mais uma.

Além disso, Minho havia lesionado o próprio tornozelo na apresentação do MAMA, e para Seungmin estava totalmente fora de cogitação permitir que os fãs se preocupassem com dois membros fora da performance do AAA. Quer dizer, Minho ainda estaria lá, ainda que sentado no banquinho na lateral, mas Seungmin não suportaria o olhar de apreensão que inevitavelmente viria se ele também ficasse de fora.

Então ele insistiu até que seus argumentos se esgotassem – e até seu empresário ficar sem paciência e cansado de ouvi-lo. 

Foi assim que Seungmin chegou ali: com alguns comprimidos empurrados goela abaixo para suavizar a dor latejante, fingindo estar no controle da situação, fingindo que aquele fisgar agudo, que subia pela perna sempre que seu pé tocava o chão duro, não o estava deixando levemente tonto e em pânico.

Ele não mostraria que os remédios estavam perdendo o efeito mais rápido do que o habitual. Não deixaria Chan perceber – ele já carregava a preocupação com Minho nos ombros, tão pesada que parecia visível. Então Seungmin sorriu. Engoliu as dores. Caminhou ao lado dos namorados, apoiando-se neles de forma tão sutil quanto conseguia.

Changbin e Felix... bem, talvez eles tivessem percebido. Lee Felix tinha uma sutil capacidade de senti-lo sob qualquer situação, de lê-lo melhor que qualquer livro; talvez tenha sido o efeito de dividirem um lar desde o momento em que se conheceram na empresa, ou apenas algo sobrenatural que Yongbok possuía. 

Seo Changbin, no entanto, era apenas um ponto de apoio extra de Bang Chan, seguindo o instinto em cuidar dos que estavam mal como se fosse da sua natureza animal. Ele apoiou suas costas em todos os momentos que precisavam andar, deixando que Seungmin se apoiasse o quanto precisasse, sem dizer uma única palavra. 

Era isso. Seungmin sabia que eles sabiam, mas eles não diziam, então ele prosseguiu em sua encenação de que estava tudo sobre controle, sem dor, sem aflições. 

Os momentos caóticos da noite continuaram lhe arrancando risos durante toda a premiação; ele continuava sorrindo para Stays quando recebiam prêmios; ele insistia em um choro falso – que era mais real do que gostaria de admitir – quando Felix e Hyunjin levaram prêmios solos.

Vaiando – com o peito tão cheio de orgulho que ele sentia que poderia explodir – quando 3RACHA venceu como melhores produtores. E ajudando seus hyungs com o discurso quando subiram para receber o prêmio mais importante da noite.

Houve um certo momento – aquele em que a adrenalina corre tão quente nas veias que o corpo parece flutuar – em que Seungmin realmente acreditou ter esquecido a dor. O mundo vibrava ao redor dele, as luzes pulsavam, os aplausos ecoavam como se viessem de baixo d’água, e por alguns segundos tudo se misturou: realidade, sono acumulado, euforias diferentes. 

Mas então alguém avisou que eram os próximos a subir ao palco. E, quando precisou acelerar o passo rumo ao backstage, a dor voltou como um golpe seco, lembrando-o exatamente onde seu corpo terminava e onde a teimosia começava.

Ele franziu a sobrancelha, tentando empurrar a dor para algum canto escuro da mente. Sabia que não podia – e não deveria – tomar outro analgésico, não tão pouco tempo depois do último comprimido. O pensamento o deixou inquieto, mas ele respirou fundo, buscando firmeza nos próprios limites.

Uma mão pousou em seu ombro, gentilmente, e o toque o atravessou como um alívio involuntário. Seungmin inclinou-se na direção daquelas mãos antes mesmo de perceber, ignorando qualquer staff que pudesse estar observando.

A dor fazia aquilo com ele: roubava-lhe a racionalidade e o deixava mais carente do que gostaria de admitir, como se estivesse sempre a um gesto de buscar a sensação familiar de casa em qualquer lugar.

— Você está bem? — Hyunjin indagou, baixo o suficiente para que apenas ele ouvisse. 

Havia um certo conforto na simplicidade com que Hyunjin tornava tudo mais leve: o sorriso suave, a língua pressionando o lábio inferior, o olhar atento que parecia captar até as dores que Seungmin tentava esconder.

Por um instante, a vontade de simplesmente se jogar nos braços dele foi quase esmagadora. Nos braços de todos eles. Queria envolver-se naquele calor e esquecer o latejar constante no tornozelo – mas não ali, não quando estavam prestes a se posicionar na plataforma para a última apresentação da noite.

— Não se preocupe. — Ele murmurou em resposta, sorrindo para o garoto. 

Não era um sorriso falso, longe disso. Seungmin jamais conseguiria forjar algo diante de Hwang Hyunjin.

Mas também não era o sorriso completo, aquele que carregava tudo o que ele realmente queria dizer. Era apenas o que conseguia oferecer naquele instante.

Hyunjin apertou seus ombros outra vez – gentil, confortável, quase num ritmo que dizia “eu te entendo, eu estou aqui”. Um gesto tão pequeno e tão íntimo que Seungmin sentiu o ar prender no peito.

Queria beijá-lo. Queria puxá-lo para perto e descansar ali por um instante.

Mas, em vez disso, o calor das mãos de Hyunjin foi substituído pelo vazio repentino quando ele se afastou para ocupar sua marcação na plataforma.

Seungmin também não precisou levantar a cabeça para saber que alguém estava observando. Não os staffs, não os estilistas correndo de um lado para o outro – mas alguém que jamais deixava de observar cada movimento de seus membros, cada respiração dos seus namorados.

O calor subiu pela nuca, intenso e não seria incômodo se ele não estivesse com tanto medo de deixá-lo preocupado. Seungmin reconheceu imediatamente o olhar de preocupação de Bang Chan. 

Fingiu que não sentia. Fingiu estar ocupado demais ajustando o microfone entre os dedos trêmulos. Fingiu estar totalmente concentrado na performance que estava por vir.

Concentrado demais para pensar na dor. Concentrado demais para deixar transparecer qualquer fragilidade. Concentrado demais para ser, outra vez, mais uma preocupação para Chan.

Ele sabia o quanto o líder estava sobrecarregado nos últimos dias, o quanto tentava segurar o grupo inteiro com as próprias mãos. E Seungmin não queria – não podia – adicionar mais peso àquele coração que já carregava tanto.

Então respirou fundo, ajustou falsamente o microfone, ergueu o queixo e manteve o controle da situação com o pouco de força que ainda tinha se posicionando ao meio da plataforma. O visor já estava em contagem regressiva para subirem e após isso ele não precisaria se preocupar.

Não daquele jeito.

 

 

 

 

Quando a música chegou ao fim, tudo pareceu desacelerar de uma vez. O mundo, que até segundos atrás pulsava em ritmo frenético, mergulhou num silêncio abafado. Seungmin sentiu a onda de adrenalina – aquela que o carregara pelos últimos dez minutos – escorrer pelos dedos, como se estivesse sendo drenada para fora do corpo.

Ele puxou o ar fundo, com urgência, tentando reencontrar o próprio eixo. Sabia que a câmera ainda estava sobre eles, sabia que o público gritava ao redor, mas os sons chegavam distantes, deformados, como se ele estivesse submerso. Nada parecia nítido o suficiente.

O chão parecia oscilar sob seus pés. Seu corpo inteiro vibrava em sinais de alerta: os músculos tremiam, o tornozelo ardia, a respiração se descompassava. Ele acenou, fracamente para público, tendo uma leve sensação de mais gritos ecoando ao redor, sem saber o que era real ou não – inspirou outra vez, firme, mesmo que seus membros estivessem mais fracos do que jamais admitiria. 

E então... percebeu que os outros já não estavam mais por perto. Pelo menos não todos.

Viu, de relance, as silhuetas se afastando do palco. A lateral estava iluminada por uma luz baixa, e a pequena escada que levava ao corredor do backstage parecia mais íngreme do que deveria. Lá embaixo, Jeongin esperava por eles, junto com o restante do grupo – um ponto de segurança que parecia distante demais no momento.

— Ei. — Chan chamou, aproximando-se devagar, voz baixa. — Quer uma carona?

Seungmin deixou escapar uma risada suave. Em dias normais, ele jamais aceitaria. Era um pouco vergonhoso, íntimo demais, permitir aqueles momentos com Chan especialmente diante das câmeras. Ainda mais estando tão vulnerável – com a dor queimando do tornozelo até a coxa, como se cada batida do coração se transformasse em uma pontada incômoda.

Tudo queimava. 

A respiração estava irregular. O corpo, à beira de ceder. Ele sentia isso no fundo das costelas, no peso nas pernas, no tremor quase imperceptível nas mãos.

Mas havia algo em sua mente, aquela vozinha que lhe arrancava o sono dizendo que Bang Chan já estava com coisa demais na cabeça para ter que lidar com apenas uma torção – algo tão besta, ele pensou tão estúpido. 

— Estou bem, Hyung. Consigo chegar até os bastidores. — Ele respondeu, calmamente. A escada estava tão perto, ele conseguia, certo?

Mas o corpo não acompanhou a mentira.

Quando deu o primeiro passo, a perna vacilou de maneira tão evidente que o desequilíbrio pareceu ecoar pelo palco inteiro. O mancar tão evidente que até mesmo as câmeras ao fundo do estádio poderiam ver. 

Merda, pensou ele, com o coração afundando. Aquilo não facilitaria nada. Nada mesmo.

Bem uma ova. — Chan resmungou, baixo o suficiente para que as pessoas ao redor não percebessem o palavrão escapando de seus lábios. — Me deixe te ajudar, Seungminnie.

O apelido saiu tão suave que algo dentro de Seungmin simplesmente derreteu. Os pensamentos perderam forma, escorrendo para fora do foco. Ele queria aceitar a mão estendida à sua frente – seu corpo implorava por isso, implorava por um instante em que as coisas não doessem tanto, não parecessem tão difíceis.

— Você não pode estar falando sério. — Chan continuou, aproximando-se até que apenas alguns centímetros os separassem. — Minho aceitou a minha carona mais cedo. Você está mesmo sendo mais ranzinza do que ele?

Um riso involuntário escapou dos lábios de Seungmin, fraco, quase um sopro. E, de fato, era um ótimo argumento... não que ele fosse admitir isso em voz alta.

Embora ele não precisasse verbalizar seus pensamentos; Chan simplesmente se agachou à sua frente, virando as costas para ele, um convite tão aberto, tão natural, que Seungmin soube na mesma hora que não tinha como recusar aquilo.

Ele suspirou, alto o bastante para que Chan ouvisse. Depois deu um passo – ou tentou – e acabou cambaleando na direção do namorado. Seus braços envolveram os ombros largos do líder, e o corpo inteiro de Seungmin cedeu, deixando que o peso deixasse de ser um castigo para o tornozelo e se apoiasse completamente em Bang Chan.

Só que Chan não vacilou.

Nem um pouco.

Levantou-se com facilidade, como se não estivesse carregando alguém quase do seu tamanho; como se aquilo fosse apenas outra repetição perfeita de um exercício na academia, algo que ele comentaria mais tarde no Bubble com orgulho.

E Seungmin sentiu-se... seguro. Tão seguro que deixou o rosto cair sobre o ombro do namorado sem se preocupar com nada – nem com quantas câmeras estavam espalhadas pelo estádio, nem com a equipe da premiação os observando, nem com o fato de estar exposto ali, vulnerável, diante de todos.

Absolutamente nada daquilo importava naquele momento; não quando Bang Chan ainda o segurava como se ele fosse o ser mais leve do mundo. Não quando o cheiro natural de Chan envolvesse suas narinas o preenchendo por completo. Não quando ele se sentia tão, absolutamente, seguro. 

— Como você está se sentindo? — Bang Chan perguntou.

Seungmin ouviu a voz, sentiu as mãos do mais velho apertando suavemente sua perna, mas nada daquilo foi o suficiente para arrancar uma resposta. Sua voz simplesmente não vinha. Falar parecia exigir força demais, mais do que ele tinha para oferecer naquele momento.

Em vez disso, ele apenas apertou os braços ao redor do pescoço de Chan, encolhendo-se contra o corpo quente do namorado como se pudesse desaparecer ali.

— Ok, certo... isso já é uma boa resposta. — Chan divagou, a voz baixa, carregada de uma preocupação que tentava esconder. As mãos dele apertaram novamente sua panturrilha, cuidadosas. — Quando chegarmos no hotel, o Felix vai fazer uma massagem nos seus pés. Isso parece bom para você?

Seungmin deixou escapar um som baixo demais para chamar atenção – quase um suspiro, quase um gemido frustrado de alívio – e assentiu com a cabeça. 

Os dedos de Felix eram... bons. Absurdamente bons.

Ele sempre sabia exatamente onde pressionar, onde aliviar, onde confortar. O loiro o vinha mimando com massagens diárias havia mais de dez dias, e, em algumas noites, aquela era a única coisa capaz de fazê-lo respirar sem dor.

— Ótimo. — Chan continuou, falando como se precisasse preencher o silêncio para manter a cabeça do mais novo firme sobre seu ombro. — Massagem... e um banho quente de banheira, que tal?

Seungmin fechou os olhos. É... aquilo poderia ser uma boa ideia. 

 

 

 

 

Seungmin mexeu-se, sentindo o corpo afundar em algo muito mais macio do que sua memória alcançava. Um resmungo escapou antes que conseguisse evitar. Tudo em sua mente parecia um borrão – o palco, as luzes, o momento em que Bang Chan o ergueu nos braços e o levou para longe da apresentação. Nada parecia nítido... apenas a sensação de ter sido segurado.

— Ei, bela adormecida. — A voz veio logo acima de onde sua cabeça estava apoiada. Um tom baixo, confortável, cheio de um carinho preguiçoso. Não era um travesseiro sob ele e, pelo calor constante, ele tinha certeza de que estava deitado no colo de alguém. — Sentindo-se melhor?

Chan estava ali, ele sabia pelo tom de voz e pelos dedos levemente calejados, passando devagar por seus cabelos, descendo num toque paciente até a ponta do seu queixo. Seungmin inclinou-se instintivamente contra a mão, convidando Chan a continuar.

Foi então que algo quente pressionou seu tornozelo ferido.

Um grunhido escapou de sua garganta, mais de surpresa do que de dor intensa, e ele virou o rosto, buscando instintivamente o corpo de Chan. O líder o acolheu sem hesitar, os braços firmes envolvendo seus ombros, puxando-o para mais perto.

— Onde estamos? — Murmurou, a voz arranhada, incapaz de ganhar volume.

A mente ainda parecia embaçada, pesada, como se estivesse emergindo lentamente de um sono profundo.

— Bastidores. Nossa van está a caminho. Você ficou fora do ar por alguns minutos... — Chan murmurou, mas a frase se perdeu no ar ao redor deles.

— Eu desmaiei? — Seungmin indagou, a voz embargada, afastando o rosto apenas o suficiente para abrir os olhos. A claridade dos refletores ainda latejava atrás das pálpebras.

Só então percebeu que o toque em seu rosto não era de Chan.

Minho estava ao seu lado, muito mais perto do que Seungmin conseguia imaginar, a cabeça deitada nos ombros de Chan, um sorriso nos lábios. Os dedos dele, ligeiramente frios e surpreendentemente gentis, deslizavam de sua têmpora até o maxilar como se quisessem garantir que ele continuava ali, desperto. 

Seungmin sorriu, tímido, sentindo o instinto quase infantil de se encolher novamente no corpo quente de Chan, onde o mundo parecia menos inclinado.

— Não foi um desmaio. — Chan o tranquilizou, a voz baixa, quase um sussurro carregado de culpa. — Você só ficou muito fraco. Eu senti seu corpo perdendo a força, então corremos pra cá. Ainda temos que tirar a foto oficial, querido, então se recupere com calma para isso. 

Seungmin acenou com a cabeça, leve. Suspirando o aroma da roupa de Chan.

— Você estava conversando sozinho, puppy. — Minho provocou, inclinando-se um pouco mais perto. O hálito suave dele roçou a lateral do rosto de Seungmin. — Mas eu não o culpo. O cheiro do hyung é muito bom, é como algum alucinógeno.

O rosto de Seungmin incendiou. O calor subiu pelas orelhas até latejar, e ele nem precisava de um espelho para saber que estava completamente corado. Suas mãos se fecharam involuntariamente no tecido da própria roupa, buscando algum tipo de ancoragem.

Chan riu baixinho, aproximando-se o bastante para segurar seu rosto entre as mãos, guiando seus olhos para cima, para o dele.

— Por que não disse que estava com muita dor? Você poderia ter ficado sentado com Minho.

Seungmin apenas deu de ombros, o gesto curto demais para convencer alguém que realmente se importasse. Não seria viável ficar sentado a apresentação inteira, ele sabia disso, Bang Chan sabia disso, todos sabiam. Era para isso que os ensaios funcionavam.

— Não faria diferença.

— Seungmin-

— Não, sério. — Ele resmungou, apressado, a voz arranhando a garganta como se o esforço físico ainda vibrasse ali. — Tínhamos uma apresentação pra fazer e eu só deixaria vocês mais preocupados. Não tinha necessidade... eu sabia que conseguiria suportar.

Bang Chan soltou um suspiro pesado, aquele tipo que deixa claro que a bronca está na ponta da língua. Seungmin quase conseguiu sentir o início dela; o peso da preocupação prestes a virar reprimenda.

Mas o momento foi interrompido pela voz suave, aveludada de Felix.

— Seu tornozelo estava muito inchado, Seung. Tipo, tanto quanto do Min! E sua lesão sequer é tão forte igual a dele. — Ele falou enquanto passava os dedos pela pele sensível, num toque leve, cuidadoso, quase reverente, antes de recolocar a compressa quente no lugar. O calor subiu instantaneamente pela perna de Seungmin, espalhando-se pela pele como um alívio lento. — O que eu faço com você, hein?

Seungmin riu, uma risadinha cansada, arrastada. Ele sabia que o seu tornozelo tinha sido apenas uma torção simples, ele não tinha rompido nenhum ligamento igual a Minho, mas, ainda, foi ele quem correu de um lado para o outro em um palco por dez minutos consecutivos como se estivesse em perfeitas condições.

Levantou o braço numa tentativa quase infantil de alcançar o loiro – qualquer parte dele. Felix entendeu antes mesmo de pensar; inclinou-se, entrelaçando os dedos nos dele. A mão de Felix estava quente, tremendo só o suficiente para denunciar o susto que havia passado. Um sorriso pequeno, vacilante, surgiu nos lábios dele.

— Estou orgulhoso de você. — Murmurou, a voz baixa o bastante para parecer um segredo. — Prêmio solo... qual era a categoria mesmo? Não importa. Eu tô orgulhoso.

— Kim Seungmin! — Felix grunhiu logo em seguida, as bochechas corando como se tivesse percebido que estava sendo sentimental demais. — Sério! Chris, o que vamos fazer com ele? — Choramingou, voltando a pressionar a compressa contra o tornozelo com um cuidado que quase contrariava o tom manhoso.

— Ótima pergunta... — Chan divagou, inclinando o rosto para olhar Seungmin de perto, como se tentasse ler cada microexpressão. — O que fazemos com você, hein?

— Eu tenho uma lista! — Minho cantarolou, claramente animado demais para a situação.

— Não. — Seungmin e Chan responderam em perfeita sincronia.

O coro duplo fez Minho erguer as sobrancelhas, surpreso, mas logo um sorriso torto se formou, e era impossível dizer se ele estava ofendido ou ainda mais motivado.

Conhecendo o namorado, Seungmin optaria pela segunda opção.

— Você já me assustou o suficiente semana passada. — Chan continuou, dando um leve peteleco no braço de Minho, mais brincadeira do que repreensão. O toque fez Minho soltar um “ai!” exagerado. — Não quero suas listas agora. Já você...

Seungmin se encolheu antes mesmo de perceber, o corpo reagindo instintivamente ao tom que Chan usava quando queria protegê-lo e repreendê-lo ao mesmo tempo. Mas antes que Chan pudesse completar a frase, a porta da sala se abriu e a equipe entrou no local.

A respiração de Seungmin saiu num suspiro que escapou dele antes que pudesse controlar, junto de uma risada nervosa. Eles tinham que sair, foto dos membros da empresa, eles disseram. Pose rápida, todos juntos e depois hotel.

Seria bom, ele repetiu a si mesmo. Seria bom um momento em que Chan tivesse que desviar a atenção – mesmo que por um instante – e deixar a preocupação descansar. Seria bom encontrar os grupos mais novos e poder orgulhar-se deles, um momento para ter controle novamente. 

É... seria bom. 

Ele iria para o hotel depois, tomaria os analgésicos, abaixaria a intensidade latejante que dominava seu tornozelo. E, com sorte, acordaria melhor no dia seguinte.

 

 

 

 

— Escolha seu alvo. — Minho anunciou, triunfante, afundando-se ao lado dele no banco do fundo da van. O estofado vibrou sob o peso dos dois.

Seungmin piscou, confuso.  Seungmin estava cansado – apesar do pequeno descanso entre a foto e o caminho para as vans, ele sentia o corpo esfriar e isso sempre vinha com um cansaço absurdo embutido. E a julgar pela linha de suor escorrendo pelo pescoço de Minho e a bota ortopédica de volta em seu pé, o garoto não estava tão diferente.

— O que? — Murmurou, virando o rosto na direção do namorado.

Minho sorriu daquele jeito...

Aquele sorriso meio maníaco, meio apaixonado, que sempre deixava Seungmin perdido demais para distinguir onde terminava a provocação.

— Você quer dormir sozinho hoje? — Minho inclinou-se, a voz descendo para um tom conspiratório. — Aposto que não. Então vá em frente: escolha seu alvo.

— Você fala como se fosse um predador. — Seungmin resmungou, sem energia para segurar a ironia.

Minho riu alto demais para a piada – que nem tinha tanta graça assim, se Seungmin fosse honesto. O som ecoou pela van, arrancando olhares cansados de Jeongin e Han nos bancos da frente.

— Qual é, — Minho continuou, cutucando de leve seu braço. — Tenho certeza de que você quer o Lixie no seu quarto só pela massagem. E ele ama fazer isso por você. Não é como se só você estivesse ganhando, cachorrinho.

Seungmin deixou escapar um riso

— Lixie vai estar com o Hyun hoje. — Ele suspirou. — Não me pergunte, eles estão na fase de lua de mel... como se não namorassem há anos.

— Você pode dormir com os dois. Não é como se eles fossem reclamar.

Seungmin ergueu uma sobrancelha, o olhar seco o suficiente para fazer Minho rir de novo.

— Você não é o único com o pé machucado aqui. — Ele lembrou, balançando minimamente a perna, sentindo a dor subir em ondas. — Não quero ser espremido na cama, obrigado.

— Changbin? — Minho sugeriu.

— Ele não vai estar com você? — Seungmin rebateu, rápido.

O sorriso de Minho se abriu, satisfeito demais.

— Então você é bom de pescar conversas, quem diria. — Ele o provocou, empurrando de leve seu ombro. — Mas estou divagando nos nomes, é óbvio que Chan-hyung não vai deixar você escapar.

Seungmin bufou, recostando a cabeça na janela fria da van. O contraste entre o vidro gelado e o calor do próprio corpo arrancou um arrepio de seus ombros.

— Ele deveria descansar. — Seungmin resmungou. — Estou bem sozinho, sério, não me olhe assim. Foi só uma dor fora da curva porque forcei demais o dia todo. Você também está–

— Sim, mas eu não fui teimoso e fiquei sentado. — Minho rebateu na hora, sem perder o ritmo.

Seungmin revirou os olhos, dramático demais para a situação.

— Você não foi teimoso, você foi obrigado pelo seu médico! E estava sob ameaça do Jeongin. Aliás, você é um pouco fraco pelo maknae.

— Repete isso e eu abro a porta desse carro e te jogo na rua. — Minho rosnou sem convicção, a voz mais brincalhona do que perigosa.

Seungmin soltou um riso que vibrava baixo em sua garganta, abafado pelo cansaço.

— Ele também me ameaçou. — Confessou, afundando um pouco mais no banco. — Talvez eu esteja na zona de perigo dele pelo resto do ano, porque simplesmente o ignorei. Talvez Chan também esteja, porque deixou.

— Você gosta de ser menosprezado por ele. — Minho acusou, estreitando os olhos como quem desmascara uma confissão escandalosa. — Você e Chan gostam, na verdade.

Seungmin deu de ombros, sem vergonha alguma. Não era uma mentira.

—  Ele fica gostoso quando faz isso... e também é péssimo em cumprir ameaças comigo. — Ele riu, de canto. — Assista a live dele hoje e me veja lá.

Minho soltou a risada mais sincera da noite, inclinando-se para trás, deixando a cabeça bater contra o encosto do banco com um baque suave.

— Vocês dois são maníacos um pelo outro. 

Seungmin ergueu uma sobrancelha, como se dissesse “e você só percebeu agora?”. Minho suspirou, jogando as mãos para cima.

— Certo, todos somos meio maníacos uns pelos outros... mas você entendeu.

 

 

 

 

Minho não estava mentindo quando disse que eles tinham um tipo de obsessão maníaca uns pelos outros.

A prova viva disso ecoava nos corredores do hotel.

Haviam chegado tinha apenas cinco minutos. O saguão estava silencioso, iluminado demais para a hora, com aquele cheiro de carpete limpo e ar-condicionado forte que sempre fazia Seungmin piscar devagar. Todos estavam reunidos na recepção, passando pelo protocolo antes de subirem ao quarto andar – onde um corredor inteiro fora reservado para eles e para a equipe.

Bang Chan não hesitou nem um segundo antes de abaixar-se novamente e colocar Minho nas costas; o mais velho soltou um som de surpresa tão genuíno que Seungmin riu alto, apontando sem nenhum pingo de solidariedade, deixando um tapa em sua bunda. Teve apenas doze segundos de liberdade antes de ser agarrado pelos braços firmes de Changbin.

Ele gritou, surpreso. 

E então... lá estava ele, carregado como uma princesa em um filme hollywoodiano barato.

Nos primeiros instantes, ele xingou. Xingou Changbin, xingou a mãe dele, xingou o destino que o fez ter tornozelos e pés. Mas a verdade – aquela verdade quente, vergonhosa e que ele jamais admitiria em voz alta – é que Seungmin gostava. 

Gostava do jeito como Changbin o segurava com segurança, como seu peito firme era uma âncora. Gostava da risada abafada de Han logo atrás, gostava do cheiro de perfume que grudava na gola da camiseta do mais velho. Gostava por apenas ser apenas Changbin ali… segurando-o firmemente. 

Changbin o levou até seu quarto com Han ao lado, como se ambos fossem guardiões, sombras inseparáveis.

— Manda mensagem se qualquer coisa doer. — Han pediu, tocando sua bochecha com a ponta dos dedos, leve como uma pena.

— Ou se estiver com fome e precisar de companhia. — Changbin completou, lhe dando uma piscadela para então inclinar-se e aproximar seus rostos. 

Ambos lhe deram um beijo suave, quase ensaiado, antes de seguirem pelo corredor, cada passo deles diminuindo até virar silêncio.

Mas havia algo que Minho tinha mentido naquela conversa dentro da van – ou pelo menos errado em seus palpites.

Bang Chan.

O mais velho não apareceu em seu quarto de surpresa enquanto ele desfazia a mochila com movimentos lentos e doloridos.

Não surgiu atrás dele no banheiro enquanto a água quente escorria por sua nuca, fazendo seu tornozelo palpitar menos.

Não entrou no quarto de surpresa enquanto ele secava o cabelo.

Nem mesmo se atreveu a bater na porta quando Seungmin tomou seus analgésicos – algo que, na cabeça dele, era praticamente um convite escrito para Chan vir supervisionar.

Nada.

Nenhuma invasão, nenhuma tentativa de conforto forçada, nenhuma presença familiar preenchendo o espaço.

E isso... era estranho.

Seungmin tinha saído do local apenas para visitar Jeongin ao quarto ao lado – que insistiu, quase manhoso, em uma mensagem pedindo para ele dar um oi na live. Mas, no instante em que Seungmin apareceu no quarto, o maknae simplesmente evaporou atrás das câmeras. 

Justo, ele pensou. Uma vingancinha por não ter cedido à doce chantagem que Jeongin tentou fazer para que ele não se apresentasse.

Bang Chan também não estava no quarto quando ele voltou. E uma parte de Seungmin esperava encontrá-lo ali, deitado nos lençóis brancos do hotel, mexendo no celular enquanto o aguardava. 

Parte dele queria se jogar nos braços do seu hyung e sentir o cheiro pós-banho, sem aquela sensação doce de palco e sem os acessórios espalhados pelo corpo. Parte dele só queria, por uma vez, ser cuidado por Chan.

Não que Chan não cuidasse dele – ele sempre cuidou, de um jeito tão absurdo, tão inteiro, que às vezes parecia irracional. Mas Seungmin nunca pediu. E agora, ali, deitado sozinho na cama de casal em um quarto de hotel, ele queria.

Ele suspirou, puxando um dos travesseiros extras e pressionando-o contra o próprio rosto, abafando um grito que não fez som algum.

Então veio a batida na porta. Três toques e um clique.

Seungmin arrancou o travesseiro do rosto no susto, e o objeto caiu da cama sem que ele percebesse.

— Seungmo, ainda acordado?

A voz de Chan preencheu o quarto inteiro, e Seungmin esqueceu tudo – a dor, a tensão, os pensamentos que o arrastavam. Bastaram poucos segundos para que ele já estivesse de pé, caminhando até a porta.

Chan estava ali.

Bermuda preta, regata branca simples. O cabelo ainda úmido, exalando a colônia de baunilha que ele usava depois do banho – a mesma que Felix e Seungmin haviam escolhido juntos, um shampoo próprio para reparar cachos. Seungmin sempre amou o cabelo natural de Chan, aquele ondulado suave que o fazia parecer um cachorro grande e indefeso.

Era exatamente assim que ele parecia agora, parado à porta enquanto tirava os sapatos: indefeso.

E antes que Seungmin pudesse racionalizar qualquer coisa, seu corpo já tinha se lançado para frente.

Chan o recebeu sem hesitar.

Os braços envolveram sua cintura com força suficiente para erguer Seungmin do chão em um único movimento, como se nada pesasse. Seungmin se prendeu a ele como um coala agarrado ao tronco mais importante do mundo.

— O que é isso, hm? — Chan murmurou rente ao seu ouvido, deixando um beijo suave bem ao lado da pinta. — Já estava com saudades? Eu não sumi por tanto tempo assim.

Havia um tom de ironia ali. Aquela ironia carinhosa que Chan usava quando não sabia exatamente como reagir.

Seungmin se afastou só o suficiente para enxergar melhor seu rosto – e, para sua surpresa, as orelhas de Chan estavam vermelhas.

Vergonha? Ele pensou. Chan está… envergonhado?

— Achei que você não fosse vir. — Ele confessou, e a naturalidade com que as palavras escaparam o surpreendeu. — Achei que iria passar a noite sozinho.

— Querido... — Chan sussurrou, roubando-lhe um selinho suave antes de guiá-lo mais para dentro do quarto. — Eu jamais faria isso.

Chan o ajudou a sentar na cama, com uma calma quase reverente, selando seus lábios mais uma vez, para se afastar com a mesma velocidade que se aproximou.

— Eu só estava terminando o banho. E então você apareceu na live do Ayen... — Chan deu um sorriso pequeno, como se aquela cena ainda o aquecesse por dentro. — Eu soube que precisava vir. Não ia te deixar aqui sozinho. Não antes que a noite acabasse.

Os dedos de Chan deslizaram até o tornozelo inchado. Seungmin franziu o nariz ao sentir o toque – não era dor, era só aquela sensação incômoda de sensibilidade latejante.

Ele sentia-se muito melhor do que horas antes, agora que os remédios começaram a fazer efeito novamente. 

— Já tomou os analgésicos? — Chan perguntou, como se lesse seus pensamentos e Seungmin apenas assentiu. — Sei que não sou igual ao Lixie ou igual aos nossos fisioterapeutas... mas posso...?

— Claro. — Seungmin deixou escapar quase um gemido suave.

As mãos de Chan nunca tinham passado por nenhuma formação técnica, mas havia algo nelas – um cuidado instintivo, uma paciência natural. 

— Na minha bolsa, na lateral esquerda... tem um creme que o Lixie usa lá em casa. Ele é terapêutico.

— Ok, volto num instante. 

Chan levantou, e Seungmin o seguiu com os olhos – o caminhar calmo, os ombros largos ainda marcados pela umidade do cabelo, a regata colando levemente à pele. A simples presença dele parecia preencher o quarto inteiro. 

Ele voltou poucos segundos depois, segurando o creme na mão e um sorriso nos lábios.

— Deita um pouquinho mais pra trás. — A voz dele saiu baixa.

Seungmin obedeceu sem questionar. Chan sempre teve esse efeito nele – uma mistura de autoridade mansa e carinho que o desarmava por completo. O colchão afundou quando o mais velho se sentou ao pé da cama, posicionando a perna machucada sobre o próprio colo.

— Como tá a perna do Min?

— Hum? — Chan cantarolou, levantando os olhos para ele.

— Eu sei que você deve ter ficado lá por um tempinho antes de ir pro seu quarto tomar banho. — Seungmin se ajeitou melhor contra os travesseiros. — Aposto que você tá odiando não conseguir se multiplicar pra ficar com nós dois hoje.

O líder soltou uma risada fraca, daquele tipo que carrega cansaço, mas também afeto.

Chan abriu o creme e espalhou uma pequena quantidade entre as mãos. O cheiro familiar – hortelã com aquele toque suave de camomila – se misturou ao perfume de baunilha que ainda vinha dos cabelos dele.

— Já disse que você é algo? — Chan murmurou com um sorriso pequeno.

Seungmin sorriu de volta, afetuoso.

— O tempo todo. 

E então veio o toque. Paciente e profundamente gentil.

As mãos de Chan envolveram o tornozelo com tanto cuidado que Seungmin sentiu um aperto quente no peito; quase uma pontada de vulnerabilidade inesperada.

— Ele tá bem. Talvez até melhor que você, porque alguém ainda escuta os nossos médicos. — Chan disse, pressionando a pomada em movimentos lentos.

Seungmin fez uma careta, ofendido – não pela dor do toque.

— E amanhã estaremos voltando pra casa — Chan continuou. — Então vocês dois vão ter supervisão. Nada de se arriscar até o próximo evento.

Seungmin ergueu as mãos em rendição.

— Não planejo sair correndo por aí. Quem faz isso é ele.

— Eu sei. — Chan resmungou. — Por Deus, eu sei.

A risada que escapou de Chan foi baixinha, quase exausta, e arrastou a risada de Seungmin junto. Era sempre assim entre eles – mesmo quando estavam lidando com dor, com medo, com a pressão absurda das premiações, ainda havia aquele fio de humor que os mantinha respirando. Um fio que Minho ajudava a segurar. Que Seungmin segurava. Que Chan, principalmente, sustentava.

Eles nunca tinham passado por uma era com dois membros machucados daquele jeito, e o peso disso caía sobre todos eles como uma sombra insistente. Minho odiava preocupar os outros. Seungmin também. E, ironicamente, eram idênticos nesse detalhe – irritantemente resilientes, irritantemente teimosos.

Isso costumava fazer com que Chan também se irritasse, embora nunca demonstrasse estar de fato irritado. Então eles estavam genuinamente tentando manter as coisas ali. Minho e Seungmin sempre tinham um jeito peculiar de ajudar a equilibrar o caos.

Seungmin não sabia por quanto tempo ainda ficaria com o tornozelo daquele jeito – o médico havia dito de duas a três semanas, mas ele já se aproximava da quarta. Minho, por outro lado, teria que usar a bota por pelo menos mais um mês e interromper suas corridas diárias.

E antes que pudesse pensar demais sobre isso, antes que sua mente escorregasse de volta para o incômodo, o medo, ou a frustração…

Chan apertou um pouco mais o creme nas mãos, olhou para ele e sorriu.

— Sabe de uma coisa que minha mãe me ensinou quando eu ainda era criança lá na Austrália? — Chan murmurou, o olhar perdido nos próprios dedos enquanto envolvia o tornozelo de Seungmin com cuidado quase cerimonioso.

Seungmin acenou, os lábios repuxando num sorriso que ameaçava escapar. Ele conhecia aquele tom – Chan estava prestes a fazer algo completamente inesperado ou completamente bobo. Às vezes, os dois. Era o efeito colateral que vinha toda vez que ele falava de casa.

E então veio o golpe.

Sem aviso, Chan segurou o tornozelo dele com mais firmeza, levantando sua perna até a altura dos próprios ombros antes de se inclinar… e depositar um beijo na ponta de um dos seus dedos.

Seungmin estalou numa risada alta, surpreso demais. 

— Hyung, isso faz cócegas! — Ele protestou, puxando o pé para longe, o rosto parcialmente escondido entre as mãos. — E não é nada sexy, nem comece com isso. 

— Eu não estava tentando ser sexy! — Chan reclamou, indignado como se tivesse sido acusado do maior dos crimes. — Era um beijinho pra curar mais rápido. Nunca ouviu falar nisso?

— Já, mas não nos meus pés! — Seungmin revirou os olhos, rindo ainda. — E além do mais, eu machuquei o tornozelo, não o dedo– Bang Chan!

O grito saiu no exato instante em que Chan puxou sua perna de volta com determinação, inclinando-se para beijar diretamente o local inchado.

Um choque quente percorreu a pele de Seungmin.

Chan sorriu contra sua pele antes de se afastar.

— Pronto. — Ele anunciou, satisfeito. — Agora você vai sarar mais rápido.

Seungmin encarou o namorado, o peito apertando naquele jeito que misturava afeto, incredulidade e vontade de rir até perder o ar.

— Você é um idiota. — Seungmin resmungou, embora a maneira como a voz vacilou traísse qualquer tentativa de agressividade. Nem parecia uma tentativa de ser ofensivo.

O sorriso do mais velho surgiu de imediato. Aquele sorriso aberto, brilhante, que sempre fazia alguma parte dentro de Seungmin desmoronar devagar.

— Minho me chutou da cama.

— Merecido. — Seungmin respondeu, e a risada escapou fácil.

— Ei! — Chan protestou, fingindo indignação enquanto se levantava para guardar o creme na cômoda. — Ele também me beijou depois disso, me agradecendo. Me dê um pouquinho de respeito aqui.

— Não vou te beijar agora, você estava com os lábios no meu pé! — Seungmin rebateu, apesar do calor subindo pelo pescoço.

Mas qualquer chance de manter a pose morreu quando Chan simplesmente se jogou ao seu lado na cama, afundando o colchão com o peso do corpo. Ele ficou ali, deitado de frente para Seungmin, tão perto que era uma tortura para a mente de Seungmin. 

Chan inclinou o rosto, os lábios a poucos centímetros dos dele, tão próximos que Seungmin podia sentir a respiração quente, calma, como tudo que envolvia Chan. 

Surpreendentemente perto.

Surpreendentemente tentador.

O coração de Seungmin falhou um batimento. Talvez dois.

Ele cedeu antes que pudesse pensar em qualquer drama que faria naquele momento. Fez o que seu corpo queria desde o instante em que Chan entrou no quarto: Seungmin fechou o espaço entre eles, colando seus lábios ao do mais velho, sentindo o toque firme e carinhoso das mãos de Chan em sua cintura, puxando-o para mais perto, como se quisesse protegê-lo de qualquer coisa

E pela primeira vez naquela noite, Seungmin relaxou completamente, como se finalmente tivesse encontrado o lugar onde deveria estar.

Notes:

Essa história originalmente foi escrita de uma só vez assim que terminei de assistir o AAA (provavelmente a história mais rápida que eu escrevi até hoje!!!), mas como demorei para conseguir um tempo para revisar ela demorou para vir à luz. De qualquer forma, eu realmente espero que vocês tenham gostado, os SeungChan são minhas preciosidades e eu os amo muito mesmo.

Ah, e antes que eu esqueça: Feliz Natal e um Próspero Ano Novo!
Estou ansiosa pra compartilhar em 2026 todas as histórias do "Contos do Luar" que planejo dar vida 🫶 nós vemos ano que vem!

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