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Capítulo 1:
O Peso do Vidro e o Aroma de Lavanda
A luz azul do smartphone era a única coisa que cortava a escuridão do quarto de Natachai. Eram duas da manhã, mas o silêncio do apartamento parecia estranhamente barulhento. Para Dunk, o barulho vinha de dentro. Cada notificação que vibrava contra o lençol parecia um estalo de chicote.
Ele não deveria estar lendo. Os assessores avisaram, os amigos imploraram, mas o vício na própria destruição era mais forte. Na tela, as hashtags subiam como labaredas. O comentário insensível que Joong fizera em uma live horas antes — uma piada mal colocada sobre o esforço de Dunk e sua posição na indústria — tinha aberto as portas do inferno. O ódio não vinha apenas de estranhos; vinha de "fãs" que se sentiam no direito de esquartejar sua saúde mental em 280 caracteres.
Dunk sentia o peito apertado, uma pressão física que dificultava a respiração. Era o burnout. Não era apenas cansaço; era a sensação de ser uma engrenagem moída por uma máquina que nunca parava de girar.
Para fugir da própria realidade, ele abriu o aplicativo de streaming. O novo episódio da série de Dew, Burnout Syndrome, tinha acabado de sair. Dunk assistia não apenas por apoio ao colega, mas porque a presença de Dew na tela tinha um efeito quase sedativo sobre ele.
Então, veio a cena.
O beijo entre Dew e Gun foi uma coreografia de entrega e técnica perfeita. Mas para Dunk, que nutria uma admiração silenciosa e sufocante por Dew há meses, aquilo foi o gatilho final. A beleza de Dew, a calma que ele emanava mesmo em cenas dramáticas, o modo como ele parecia ter o controle de tudo... era o oposto de como Dunk se sentia: um desastre ambulante.
Com os dedos trêmulos e o julgamento nublado pela exaustão e por uma ponta de inveja daquela paz, Dunk abriu a DM de Dew.
> Dunk: Você é um pecado, Dew Jirawat.
> Dunk: Aquela cena de beijo... como você consegue ser tão perfeito enquanto o mundo está desmoronando aqui fora?
>
Ele bloqueou a tela imediatamente, o coração martelando contra as costelas. "O que eu fiz?", pensou, sentindo o rosto queimar. Ele era apenas o parceiro de ship de Joong, um ator em crise, e acabara de flertar abertamente com um dos maiores nomes da agência.
Dunk jogou o celular longe e cobriu o rosto com o travesseiro, esperando o sono que não vinha. Mas, cinco minutos depois, o aparelho vibrou.
> Dew: O mundo só desmorona se você deixar que as pessoas erradas construam o telhado, Natachai.
> Dew: Eu vi o que aconteceu hoje. Você não merece isso.
>
Dunk sentou-se na cama, o ar escapando dos pulmões. Dew não apenas respondeu, ele estava ciente do caos.
> Dunk: Eu só estou cansado, Dew. Tão cansado que nem sei mais quem é o 'Dunk' que eles tanto odeiam.
> Dew: O Dunk que eu conheço é o que sorri com os olhos e trabalha mais que qualquer um. O resto é ruído.
> Dew: Você já comeu?
> Dunk: Não tenho fome.
> Dew: Péssima resposta. Me envie sua localização atualizada. Agora.
>
Dunk hesitou. A mente dizia que era tarde demais, que Joong ficaria furioso se soubesse, que a mídia cairia matando. Mas o corpo... o corpo só queria ser cuidado. Ele enviou o endereço.
A Chegada do Alívio
Quarenta minutos depois, o interfone tocou. Dunk arrastou os pés até a porta, vestindo apenas um pijama de seda largo e com os olhos inchados. Quando abriu, Dew estava lá. Ele não usava roupas de grife ou maquiagem; vestia um moletom preto e um boné, carregando uma sacola térmica e um projetor portátil debaixo do braço.
— Você está horrível — disse Dew, mas o tom era tão doce que soou como um elogio.
— Obrigado pela honestidade — Dunk tentou rir, mas o som saiu quebrado.
Dew entrou, dominando o espaço com sua aura tranquila. Ele não pediu permissão; foi direto para a cozinha, serviu um copo de água para Dunk e começou a arrumar sushis em um prato.
— O Joong ligou para você? — Dunk perguntou, sentado no balcão, observando as mãos grandes e calmas de Dew.
— Ele tentou. Eu não atendi. Pessoas que iniciam incêndios não deveriam reclamar do calor — Dew respondeu sem olhar para trás. Ele se virou e caminhou até Dunk, parando entre suas pernas. — Esqueça o Joong. Esqueça o Twitter. Esta noite, você é apenas o Natachai, e eu sou apenas o cara que trouxe comida.
Eles se mudaram para o sofá-cama da sala. Dew ligou o projetor, mas em vez de colocar um filme, colocou uma animação visual de florestas com sons de chuva. O ambiente mudou instantaneamente. O cheiro de lavanda começou a emanar de um pequeno difusor que Dew trouxera na sacola.
— Deita aqui — Dew comandou, encostando-se na cabeceira do sofá.
Dunk obedeceu. Ele se acomodou de lado, e Dew, naturalmente, puxou-o para que a cabeça de Dunk descansasse em seu peito. O som do coração de Dew era constante, rítmico, o oposto da ansiedade frenética de Dunk.
— Por que você veio, Dew? — sussurrou Dunk, sentindo o calor do corpo do outro.
Dew começou a acariciar os cabelos de Dunk, os dedos longos massageando o couro cabeludo com uma precisão que fez Dunk soltar um suspiro longo, o primeiro suspiro real em dias.
— Porque eu odeio desperdício — disse Dew, a voz vibrando contra o ouvido de Dunk. — E ver você se quebrar por causa de alguém que não sabe o valor que tem é o maior desperdício que já vi nesta indústria.
Dunk fechou os olhos. Pela primeira vez em semanas, o peso no peito diminuiu. Ele se sentia seguro. Ele se sentia... dele.
O Primeiro Tiro de Mestre
Enquanto Dunk caía em um sono profundo e pesado, embalado pelo carinho rítmico, Dew continuava acordado. Ele olhou para o rosto sereno de Dunk em seu colo e um sorriso frio e possessivo brincou em seus lábios.
Ele pegou o celular. Com uma das mãos, tirou uma foto da perspectiva de cima: o rosto adormecido de Dunk pressionado contra seu peito, uma de suas mãos grandes espalmada protetoramente sobre o ombro do menor.
Ele abriu a conversa com Joong Archen.
Dew selecionou a foto para Visualização Única. Ele não queria provas permanentes ainda, queria apenas plantar o terror.
> Legenda: Erre mais uma vez com ele, e o Natachai será meu permanentemente. Obrigado por ser tão imaturo, Archen. Você facilitou muito o meu trabalho.
>
Dew enviou. Ele viu o "Recebido" instantâneo. Ele sabia que, do outro lado da cidade, o mundo de Joong estava prestes a queimar tanto quanto o de Dunk queimara horas antes.
Dew bloqueou o celular, beijou o topo da cabeça de Dunk e fechou os olhos. A guerra estava apenas começando, mas ele já havia conquistado o território que importava.
