Chapter Text
Não precisou muito tempo desde sua interação inicial para que as duas crianças buscassem, por conta própria, a companhia uma da outra durante o evento. A pequena flor se abriu e deixou um pouco de sua natureza tímida de lado, enquanto o raiozinho de sol continha a totalidade de sua energia a pedido do pai. Era difícil, contudo, manterem-se unidos por mais de dez minutos no mesmo ambiente. Sendo a aniversariante do dia, Hinata precisava compulsoriamente cumprimentar todos os visitantes e aceitar as felicitações de muita gente que nem conhecia.
Nas primeiras vezes em que Neji seguiu a menina durante essa tarefa tão tediosa para alguém pequeno, seu tio lançou-lhe alguns olhares silenciosos. Eram rígidos, mas não pareciam perigosos em sua concepção infantil.
Seu pai o avisou de antemão, prestes a saírem de casa, sobre quem aquele homem era, sobre o que lhe era permitido e sobre as proibições impostas ao ramo da família na qual pertencia: “nunca lhes falte com respeito, Neji. Seja educado, obedeça e não aborreça ninguém de lá.”
O menino se perguntava se o lembrete de Hizashi realmente era necessário. Neji já era crescido, não havia necessidade de ser recordado de como se comportar em público. Em sua cabeça, somente precisaria não reproduzir atitudes que incomodavam seus pais e isso bastaria.
Ele perceberia, com o passar do tempo, que isso não seria o suficiente, mas, no momento presente, a Casa Principal decidiu tolerar até certo ponto o comportamento parcialmente inadequado dele, afinal, o garoto ainda não ostentava o temido característico selo.
As longas e numerosas pernas definitivamente não ajudavam a criança de um metro a localizar seu objetivo móvel, o qual parecia desaparecer a cada piscada de olhos. Em momentos de distração, Hinata sumia de seu campo de visão, e Neji voltaria à estaca zero. Em uma perspectiva otimista, aquilo era como um jogo de esconde-esconde! Que o melhor vencesse!
Em busca do tio e da mais nova amiga, Neji perguntou sobre o paradeiro de Hinata mais vezes do que enunciou seu próprio nome em sua vida inteira e pediu licença o dobro desse número.
Foram pouquíssimos aqueles dispostos a auxiliar o menino em sua jornada, mas os adultos ajudantes facilitaram muito seu trabalho. E então, o ciclo se repetiu inúmeras vezes: “licença, senhor”; “você viu Hinata-sama?”; a pessoa apontava para a direção da garota; “obrigado, senhor”; Neji corria na direção dela estampando um sorrisinho; alguém aleatório encobria sua visão; Hinata desaparecia.
Na última oportunidade em que conseguiu se manter na companhia da mais jovem, Neji estendeu tentativamente sua mãozinha para que ela a segurasse, a fim de não a perder de vista novamente, apenas para uma tia puxar-lhe com força desnecessária para longe de Hinata, guiando-o até onde Hizashi se encontrava de pé, trocando palavras com outro parente. Vestindo um sorriso falso, a mulher proclamou calmamente:
— Hizashi-san? Acredito ter encontrado um menininho por aí. Ele deve ter te confundido com Hiashi-sama, não é?
A expressão do destinatário da pergunta se tornou austera quando virou-se para Neji, quase como se dissesse “o quê foi que eu te falei antes?”
Neji quis se defender, explicar que aquele não era o caso, porém calou-se a mando da vozinha mais racional.
Pelo receio estampado nas feições de seu pai, Neji percebeu que não seria prudente procurá-la a todo momento pelo complexo Hyuuga, ainda que não soubesse a real razão por trás disso. Com cara emburrada, o menino manteve-se à vista de Hizashi, bufando nem um pouco discretamente de poucos em poucos minutos.
“Neji-chan é uma criança persistente,” a mãe do mencionado gostava de afirmar aos familiares, afinal, isso é uma característica importante para se desenvolver como ninja. A resiliência, no entanto, se mostrou presente não somente durante os pequenos treinos com Hizashi, mas igualmente na birra infantil. O progenitor, pela primeira vez, desejou que seu filhote não fosse tão cabeça-dura.
Então, o diálogo entre pai e filho se desenrolou mais ou menos a partir de um Neji irritado e um Hizashi quase monolexical:
— Por que a gente não pode brincar nos jardins, papai?
— É perigoso.
— Mas não é perigoso! — era verdade. Os jardins mencionados não ofereciam riscos a ninguém, mas esse não era o problema.
— Neji.
— Nem é perto da floresta!
— Não.
— Eu vou proteger a senhorita Hinata, pai!
— Não.
— Você disse que eu sou forte!
— E é, Neji. Você será um dos mais fortes daqui.
— Por que não posso ficar do lado dela, então?
— Você viu o porquê — o homem fez questão de olhar de soslaio para a mulher que escoltou Neji até ele. — Não insista, eles não vão ficar felizes.
— Mas…
— Neji, não.
— Por que não?
— Porque não.
— Ela é minha amiga!
Dessa vez, o pai optou por descansar a mão sobre a cabeça do menino. Apesar de manter o semblante firme, um pequeno sorriso triste levantou os músculos da cara.
— Aw… — Neji proferiu tristonho.
“Ele ainda apenas é uma criança,” repetiu pela enésima vez em sua mente, enquanto suspirava internamente. Hizashi achava adorável a determinação de Neji em querer a companhia de Hinata. É verdade, sim, que a garota aparentava ser mais dócil que uma pelúcia bem-amada, mas ela também é a peça de maior importância para a casa principal; Hizashi sabia muito bem do que ela seria capaz de fazer em poucos anos e ele definitivamente necessita, desde já, reduzir os danos emocionais que certamente virão atormentar a mente de sua cria. Quanto menos apegado Neji for a Hinata, menos ele sofrerá para compreender seus papéis naquele clã.
Apesar da restrição imposta pelo gêmeo mais novo, a criança não deixou de planejar uma estratégia para se aproximar pelo menos um pouquinho de sua prima. Um monte de “e se” trafegavam de um lado ao outro do pequeno cérebro em formação, mas nada parecia-lhe adequado ou eficiente.
À distância, Hinata caçava com os olhos a figura de Neji no meio da multidão. A feição amuada, misturada com uma grande dose de teimosia, trazia um pequeno vinco ao vão acima do nariz. Queria, tanto quanto estar em sua companhia, saber o que lhe incomodava, conversar.
A análise da sala feita por Neji não trouxe nada além de fatos óbvios à tona. Com a quantidade de gente concentrada ali, ele não conseguiria se esquivar de ninguém sem ter alguma distração.
O pivete, escorado nas pernas do pai, observava o ambiente entediado. Não somente fora incapaz de desenvolver um plano concreto e infalível para salvar sua princesa das garras dos dragões, mas também notou a ausência de outros indivíduos mais novos para brincar.
“Pense, pense…”
Com o lábio inferior sobrepondo-se ao superior e com a ponta das sobrancelhas quase se tocando, ainda pressionando a bochecha contra o tecido grosso das vestes de seu velho, Neji focou os olhos brancos no terraço. Havia alguns poucos cones de gelo pendentes nas arestas das telhas, e vez ou outra punham-se a cair, soando suave ao atingir a madeira.
Inspirado pela natureza, ele se afastou de Hizashi, o qual receava a repetição da busca incansável de seu filho. O homem deixou-se relaxar um pouco ao acompanhar os passos da criança em direção à varanda, voltando a palavrear com um parente.
Quiçá investir um teco de gelo contra uma superfície não muito densa, em um lugar ecoante, possa propiciar uma fuga perfeita. Aquele era um plano impecável, na concepção do elaborador… ou nem tanto.
Ele sabia que muitas das portas corrediças estariam trancadas para a ocasião do dia e que não poderia solicitar suas aberturas, e isso se mostrava ser um obstáculo.
Neji encarou a parede, e a parede encarou Neji.
“Hmm…”
O refinamento da estratégia, então, envolveu a aceitação de alguma consequência negativa, perder o privilégio de ficar acordado por uma hora extra no fim de semana, ter seu cachorrinho de pelúcia confiscado, ou até mesmo ajudar compulsoriamente um primo a recolher as galinhas-d’angola espalhadas pelo distrito. “Valerá a pena.”
Livre, porém solitário, Neji caçou o pedaço de água congelada mais desuniforme pelo chão, se posicionou em um local de fácil escapatória para o cômodo em que antes estivera e esperou um pouco, reunindo coragem durante esse período.
Após um suspiro decidido, levantou as mãos e atirou com toda sua força o item.
O pesado pedregulho de gelo, de fato, rompeu a parede fina e atingiu o chão estridentemente, o que classificaria sua missão como completada. Porém, fora mal executada, pois o projétil coincidentemente atingiu uma área na qual repousava uma cerâmica exótica trazida de muito longe. O geniozinho já demonstrava profunda precisão em seus arremessos, talvez até impressionasse alguém e não seria deixado de castigo!
“Espero que não dê tão ruim pra mim…”
Um vaso quebrado depois, com toda a atenção dos adultos voltada ao barulho, Neji finalmente foi capaz de sequestrar a aniversariante para longe dali. Sinalizando com sua mão, atraiu Hinata para fora do cômodo, em sua direção.
Correram pelos corredores mais vazios que encontravam, cumprimentaram um gato vadio familiar e, quando finalmente chegaram ao jardim, pararam para tomar um fôlego e descansarem as canelas bambas. Hinata se apoiou em uma árvore para dar lufadas de ar mais profundas e Neji apoiou ambas as mãos nos joelhos, ambos vestindo um sorriso cúmplice.
Não muito tempo depois de se recuperarem, deixaram os sons constantes de suas sandálias ecoarem pelo chão de terra.
Ir em uma caminhada agradável com um novo amigo é capaz de iluminar o mundinho pequeno de uma criança. O que de interessante um pode apontar para mostrar ao outro? Certamente as flores tão bem cuidadas por familiares desconhecidos nesse inverno seriam um longo tópico para passar o tempo, assim como os bichinhos que dali voavam para longe e se escondiam em outros lugares, em busca de algum calor.
Toda vez que o vento batia, as duas crianças tremelicavam. Olhando para o céu nublado em pleno dezembro, não surpreendia ninguém a gelidez do ar, que amaldiçoaria a vila pelos próximos meses.
Como solução para essa fria, Neji jocosamente ofereceu os cabelos para ser o cobertor de ambos, depois de colocar suas mãozinhas nas orelhas de Hinata, tão glaciais quanto avermelhadas. O calor era bom, mas infelizmente eles não dariam conta de caminhar daquele jeito. Ele se contentou em segurar a mão direita dela, como ação substituta.
Aquela aura e sorrisos não poderiam ser apagados por nada neste mundo, nem mesmo pela previsível carranca dos adultos quando eles voltarem à festa. Evitando pensar nas consequências, continuaram sua marcha.
A vida miúda se mostrava bastante entretenível, como afirmaram as crianças, mas se havia algo mais chamativo para a curiosidade infantil, espécies capazes de suportar um corpo grande faziam um trabalho melhor. A quantidade de sapinhos estáticos era tão grande, mas tão grande, que nem conseguiam contar nos dedos; as cores amarronzadas dos lagartinhos tornavam bastante desafiantes definir para onde eles estavam caminhando desengonçadamente; alguns camundongos saltitavam, quase como estivessem fugindo de algo muito, muito veloz:
— Será que um desses era o que estava na pia da cozinha ontem? Esses parecem bem menores, mas o de ontem também tinha corrido muito rápido, igualzinho a esses daqui! — compartilhou Neji em dado momento, só para saciar a inata vontade pueril de falar.
Dentre os numerosos vertebrados habitantes daquele enorme jardim, uma figura esquisita realça-se da grama curta, quase morta. Não perdendo a oportunidade de gastar sua voz, o menino diz:
— Haha! Olha, Hinata-sama! Ele é corcunda igual à vovó!
Um risinho saiu por trás da manga esquerda da garota. Era difícil não concordar com Neji quando um passarinho tão esquisito se dobrava imovelmente sobre uma tríade de ovos cônicos.
Era um quero-quero chocando seus ovos, em seu ninho localizado em um local tão pouco conveniente quanto a estação do ano escolhida para pô-los. Não é uma ave dócil e definitivamente deve ser mantida longe de crianças, mas não tinha nenhum adulto por ali, do jeitinho que foi-não-foi planejado por um certo alguém.
Ignorante sobre a natureza do animal e ainda muito encantado com a facilidade de fazer sua priminha alegre, o garoto pôs-se a encontrar novas comparações, sem encobrir a felicidade também sentida:
— Ele tem até polegares! — Ele apontou enquanto fazia a pose de cara legal, como um amigo (“conhecido, Neji. Aquela besta verde não é amigo meu,” corrigiria o homem se ali estivesse) de seu pai fez em sua única aparição em casa.

O pássaro apenas se esgueirou ainda mais.
— Que olhos vermelhos!
— Será que ele é parente do coelhinho da Páscoa, Neji-niisan?
Se ambos os Hyuuga conhecessem os Uchiha, talvez o quero-quero teria recebido o sobrenome. Não somente pela coloração chamativa dos globos, mas também pela intensidade com que eles encaravam o perigo à frente. Era extremamente visível ali o desejo por sangue, por um cordeiro de sacrifício… ou uma criança de sacrifício, não importava a ele.
“Deem mais um passo, se tiverem coragem,” diria o canto da mamãe quero-quero se pudesse utilizar palavras.
E não é que os dois tinham a tal coragem?
Neji, posto a alguns pouquíssimos passos adiante de Hinata (afinal, ele prometera ao pai que não permitiria perigo algum se acercar da aniversariante), largou sua mão e se aproximou levemente agachado, quase como um caranguejo, para não demonstrar ameaça ao animal. As perninhas, notou ele, começaram a doer por causa de seus posicionamentos, mas não deixaria o incômodo impedir a finalização de sua tarefa… seja lá qual fosse.
Ele girou a cabeça para o lado e acenou para que a garota o imitasse, não deixando de sorrir quando Hinata pinçou o ar como o artrópode marinho.
Assim que a garotinha se pôs atrás de Neji, algo clicou na mente do bicho.
Não tendo vivência suficiente de vida, os dois Hyuuga ainda não desenvolveram plenamente o senso de sobrevivência, mas a mamãe quero-quero pouco se importava para isso. Ela está programada, tal como um robozinho, pela Natureza para analisar, identificar e destruir qualquer coisa móvel. É desnecessário explicar que, conhecendo a espécie em questão, dois seres humanos pequenos extremamente próximos de seu ninho, ainda que parados, são sinônimos de alvo.
Foi quando o pássaro saiu de sua posição corcunda e levantou sutilmente as asas que a ficha caiu para os primos. Qualquer animal fugiria de um míssil balístico senciente com mira teleguiada, mas o susto inicial pode ser paralisante, permitindo somente um par de gritos esganiçados serem a resposta das crianças.
Tomando vantagem de sua velocidade sobre-humana, o quero-quero tomou altitude e, como uma montanha-russa, mergulhou ainda mais rapidamente, aproveitando da sua aliança com a gravidade.
Neji tomou o pulso de Hinata e acelerou ao máximo que podia. O maior problema agora — além do touro voador — era que, já que a menina não havia iniciado seu treinamento físico com o patriarca da família, ela se apresentava tão desarticulada quanto um boneco de Lego falsificado. Isso, em conjunto com o fato de ambos estarem trajando quimonos, se apresentava como a mistura perfeita para uma catástrofe. Era quase como uma corrida em dupla em sacos de batata, na qual o resultado sempre é desastroso, então não seria exagero retratar a cena como aterrorizante no ponto de vista dos menores.
Em meio à perseguição, uma pedrinha solta decidiu marcar presença e deu à Hinata as honras de tropeçar em si, ganhando de brinde um grande arranhão na testa, além de fragmentos terrosos nas palmas de suas mãos.
— Hinata-sama! — a vozinha aguda de Neji escapou depois de reparar na ausência da prima na corrida pela vida.
Ele girou 180º em somente uma perna, quase causando sua própria queda e adiando sua missão de resgate, mas assim que recuperou o equilíbrio total, gritou o mais alto que pôde e correu em direção à ave balançando os braços loucamente. Se Neji os brandasse em um ritmo mais rápido, quiçá ele mesmo fosse capaz de alçar voo.
Essa atitude toda é completamente capaz de assustar e espantar um ser humano, tanto que Hinata, ao girar o pescoço para identificar qual seria a pobre criatura em sofrência se esgoelando, arregalou os olhos como nunca antes. Porém, o inimigo de ambos os pivetes não era um humanoide: era um pássaro resoluto em não permitir a aproximação de nenhuma outra espécie de suas crias ainda não nascidas.
Não é necessária uma explicação para o fim que esta história teve:
Com toda a algazarra desenrolando lá fora, a mesma quantidade de gente curiosa sobre o vaso quebrado anteriormente se mobilizou para xeretar. Notaram uma menininha caída de bruços no chão, repleta de lágrimas escorrendo por seus olhos esbugalhados em surpresa, encarando um menininho caído de lado, o qual ainda manteve a garganta funcionando para espantar até o demônio, com as sobrancelhas franzidas em dor.
Uns três parentes da família secundária fizeram o mesmo que Neji — substituindo o grito tenebroso por um grosso “xô!” e aparentando mais compostos em seus gestos, — ao mesmo tempo que uma miríade de familiares se reuniram para levantar e averiguar a vitalidade dos primos.
Hinata saiu dali com gelo nas mãos e uma bandagem na testa, gêmea da qual Neji também agora utilizava — afinal, a mamãe pássaro não se consideraria realizada caso não tivesse a capacidade de atingir um alvo daquele tamanho. O galo deixado ali não se curaria tão rapidamente, ele sabia.
Após toda a confusão ser resolvida, Hinata e Neji tiveram que suportar um longo discurso sobre obediência, perigos e responsabilidade vindo dos irmãos gêmeos, além de serem obrigados a permanecerem ajoelhados por um bom tempo pelos anciãos.
Os sorrisinhos cúmplices escondidos, no entanto, afirmavam com certeza não haver arrependimentos em relação às aventuras do dia. Certamente não seria a primeira, nem última vez que escapariam para brincar com os pássaros rondantes do complexo.
Não é?
[Omake]
Sobre o vaso estilhaçado, o castigo de Neji fora brando.
Além de perder os minutos extras acordados aos sábados e aos domingos, como previsto por ele, teve que treinar sua caligrafia por horas seguidas, repetindo as frases “nunca mais farei isso”, “devo me comportar” e outras de natureza similar.
Sobre o vaso estilhaçado, o castigo de Hizashi não fora brando.
