Chapter Text
A primeira vez que disse a seus amigos que amava o cheiro de chuva, Shino lhe contou que o cheiro tinha nome.
“Petricor.” Ele lhe disse. Hinata sorriu com aquela informação. O nome parecia combinar com o aroma de terra molhada, de renovação. Ela nunca esquecera daquela pequena curiosidade. Hinata se lembrava do nome nas tardes de outono, de quando encontrava as folhagens da sua pequena área externa úmidas.
No entanto, nas manhãs de primavera pós tempestades, lembrava de quando contou a curiosidade a pequena genin de seu recém-formado time. A garotinha pareceu descobrir um novo mundo. “Petricor!” Ela dissera a sua sensei, “Nunca soube que cheiro tinha nome!”.
Hoje seus olhos negros atormentavam os sonhos da Hyuuga. O sorriso inocente de Hikari se tornara fantasmagórico nas noites infindáveis, e faziam Hinata tomar calmantes regularmente.
Seus pensamentos longínquos foram postos no fundo de sua mente, assim como o desejo de sequer sair da cama naquele dia. Olhou para o café que caía em sua xícara habitual. Lembrava-se do nome do cheiro, mas nunca mais tivera a coragem de pronunciar a palavra.
A máquina parecia estar cada vez mais lenta, conforme as gotas demoravam a cair.
- Você não gosta de dias assim de chuva? O cheiro que fica? – Uma voz atrás de si dizia, há poucos metros. – Sempre me lembro dos tempos que frequentava a academia ninja.
- Eu não vejo graça alguma. Não quando eu tenho que vir trabalhar. – Disse outra mulher, sem qualquer emoção.
Cada dia que passava seu escritório se tornava um antro de pessoas sem emoções. E ela era só mais uma delas.
Hinata caminhou de volta em direção a sua sala, no final do corredor, ignorando a conversa entre duas colegas de outro departamento. Tomou um gole de seu café ainda sem açúcar, não que fizesse questão de sabores adocicados. O líquido era para mantê-la mais atenta. Seus passos eram lentos em direção ao cubículo que chamava de sala. Uma pequena janela as suas costas, um espaço em que mal cabia sua mesa cheia de gavetas, que debaixo estavam com mais caixas de arquivos.
Sentou-se à mesa, abrindo a embalagem individual de açúcar e colocando em seu café. Houve um dia em que sua terapeuta lhe recomendou devolver a sua rotina pequenos hábitos que tivera antes dos traumas. Era um pequeno passo, porém adoçar seu café agora era parte de seu tratamento terapêutico. Mexeu a bebida com a pequena colher que também usava habitualmente. Voltou-se a seu notebook, um computador não muito novo que a repartição lhe dera apenas para digitalizar documentos. Uma porção deles.
Abriu o primeiro arquivo. Um homem de idade avançada com sobrenome “Saito”. Perdera uma perna em combate ninja e lhe foi aconselhado se aposentar das missões, por mais que fosse apenas um chunin e cumprisse missões de baixo ranking.
“Aconselhado”. Hinata respirou fundo quando leu a palavra.
Os dados de Saito foram colocados na ficha online. Perguntava-se o que aquelas pessoas estariam fazendo após se aposentarem das missões ninjas. Seriam comerciantes? Parte da mão de obra necessária nos avanços tecnológicos? Ou estariam trabalhando em repartições, enfiados em pequenos cubículos, tomando café levemente amargo, vivendo rente a vida ninja e a vida comum, fugindo de seus fantasmas?
Afastou o pensamento. Seguiu para a próxima ficha.
Seus dias se alongavam daquela forma até às dezessete horas. Agora caminhava em direção a saída, abrindo o guarda-chuva assim que sentiu gotas caindo do céu. Com seus dias no escritório, mesmo quando a chuva caía incansavelmente, raramente sentia o cheiro de petricor. O concreto tomava conta da cidade. Não havia terra que fizesse o cheiro ser presente.
Ao entrar em seu apartamento, fechou a porta balançando o guarda-chuva em sua área. Tomaria um chá, comeria uma comida que fizera no dia anterior, tomaria os calmantes prescritos pelo psiquiatra.
Aquele era seu ciclo. Os dias entre missões, aventuras, treinamentos, haviam morrido.
No dia seguinte, estava de novo em seu cubículo. Alguém lhe trouxera mais um punhado de fichas e deixara em sua mesa. Hinata abriu a segunda, terceira, quarta ficha. Homens e mulheres que já haviam saído da vida ninja, com um passado de mortes e traumas. A sistematização tornaria mais fácil para os ninjas terem controle sobre quem está na ativa e quem não está. A vida em Konoha era sustentada pelas relações ninjas o que deixava todo o sistema à mercê das ordens shinobis. O daimyo ajudara na criação de uma repartição constituída por civis e ex-ninjas, para que cuidassem dos arquivamentos ninjas e não-ninjas.
Hinata era a segunda categoria há quase três anos.
Sequer ousava assistir as notícias, tampouco a caminhar pelas áreas de treinamentos, ou observar quem que estivesse correndo sobre os telhados. Fugira de todo e qualquer resquício de sua vida passada.
Mais uma ficha. Um nome que já ouvira antes. Digitou com calma, preenchendo as lacunas do arquivo.
Uma vez ou outra um e-mail aparecia em sua caixa de entrada. Era o responsável da repartição – um homem de idade avançada que também já fora um ninja, apegado demais a sua antiga vida – convidando ou avisando toda equipe da visita de alguém da área ninja. Lembrava-se de um e-mail específico, alegre e vívido, contando a todos que ninguém mais ninguém menos que o próprio Hokage visitaria a repartição. Suas mãos tremeram ao ler as palavras. “O grande Uzumaki Naruto virá pessoalmente conhecer nossas instalações!”
Ela se fechou em sua sala. Suas mãos trêmulas acompanharam seus batimentos cardíacos em descompasso. Ouviu os passos alegres e vozes pela porta a fora. Ele estava há poucos metros de seu esconderijo, justo no seu andar. Como ele estaria? Quanto tempo fugira da imagem dele, por mais que ela estivesse disponível porta a fora, em um mundo que não mais era dela? Sem resistir a curiosidade, abriu a porta em apenas uma fresta. Então, como se o destino estivesse lhe pregando a pior das peças, ela logo o viu. Naruto sorria. Tão límpido, incorruptível, continuando a sorrir entre as palavras que saíam de sua boca. Seus traços amadureceram, seu maxilar ficara mais marcado. Os cabelos eram mais curtos, mas continuavam tão rebeldes quanto antes.
Naruto ainda era o sol. Assim sendo, não apenas um sol que iluminava. Ele também queimava. Também cegava.
Suas manias também eram as mesmas. A mão atrás do pescoço. O olhar sempre aberto, atento. Antes essas manias faziam parte de um conjunto de charmes inocentes, hoje devido a sua musculatura e porte, já causava outras sensações. Sua voz mais madura, intensa. Os olhares femininos de suas colegas mostravam que ela não era a única atingida por aquele sorriso perfeito e o brilho de seus olhos claros.
Foi quando lembrou dos azuis de seus olhos que os olhares de ambos se encontraram. Agora ele lhe encarava. Para ela foi como se o tempo tivesse parado naquele meio sorriso que continuava em seus lábios.
A fresta da porta revelava seu rosto, mas ainda sim estava atrás de outras pessoas que também o olhavam admiradas. Nunca saberia como e por que os olhos azuis a encontraram. Fechara a porta após aqueles segundos, trancando-a. Naquele dia chorou em silêncio, sem entender a razão exata. Felizmente a visita havia sido rápida.
Isso havia acontecido há mais ou menos dois meses.
Desde então, evitava ainda mais sua caixa de entrada de email. Ou fingia evitar, ao final do dia sempre abria, como se estivesse na surdina, fazendo algo muito errado.
Assim que terminou uma ficha, pegou outra. Essa estava em uma pasta de cor diferente. O tom era cinza escuro, quase preto. Estranhou a tonalidade mas seguiu, abrindo o arquivo.
Sentiu seu coração parar. Aquela ficha não deveria estar ali. Hinata só cuidava de documentos que não estavam mais no meio do processo, que haviam sido finalizados. O destino havia sido cruel com ela, mais uma vez. O papel, a foto e a descrição lhe causaram um imenso mal-estar, colocando-a à beira de uma crise de ansiedade.
“Nome: Hyuuga Hinata.
Ranking: Jounin.
Aposentada precocemente por trauma em missão malsucedida. Duas perdas contabilizadas, sendo dois menores.
Arquivo reencaminhado a repartição pelo clã Hyuuga. Aguardando revisão para encaminhamento de tutela ao Hokage, que estará a cargo de autorizar ou não suspensa ninja vitalícia.”
