Chapter Text
Alê escarava as três fitas em sua frente como se sua vida dependesse disso — e meio que depende sim.
A parede gelada do banheiro em que estava apoiade era um grande contraste para seu corpo quente e tenso de nervosismo da resposta que obteria em alguns segundos daquelas três fitinhas.
Já se passaram os 5 minutos desde que mergulhara as fitas no recipiente e o receio de analisá-las era gigantesco. Alê respira fundo e finalmente desgruda as costas da parede azul bebê do banheiro e anda em direção aos três testes de gravidez que resolveu fazer.
Os enjoos nas últimas semanas estavam insuportáveis, elu não podia tomar um copo de água sem sentir uma ânsia no âmago de seu estomago. As cólicas também ficaram mais frequentes, mesmo que sua menstruação fosse um evento raro devido aos hormônios que tomava sazonalmente.
Semana passada chegou a receber uma reação justa de confusão e um pouco de nojo de seu parceiro, Eloy, ao pedir um pouco de sorvete de chocolate com mostarda escura às dez da noite.
Não é preciso uma análise detalhada de um especialista para ao menos suspeitar de que algo, ou melhor, alguém, estava acontecendo. Nesta manhã o casal havia ido à farmácia e comprado três caixinhas de testes, para não haver falsos resultados, enquanto Alê ficou em casa os fazendo, Eloy correu para o mercadinho mais próximo para comprar mais um dos desejos estranhos que seu parceiro pediu, dessa vez, doce de abóbora com picles.
Antes nessa manhã, Alê também havia recorrido ao tarot para obter mais respostas e, bem, as cartas não mentem. A cartada da Imperatriz foi a primeira a aparecer, uma mensagem óbvia e clara de que, qualquer teste que faria na próxima hora, daria positivo. Toda a tiragem é feita sob o olhar atento, curioso e igualmente aflito de Eloy.
Mesmo que Alê confie nas cartas e em suas respostas, eles precisavam ter uma certeza, e é agora que elu a terá.
A primeira fita mostra um risquinho forte e outro extremamente fraco, mas existente. No segundo e no terceiro nem era necessário chegar muito perto para ver os resultados: duas linhas.
Duas linhas vermelhas.
Positivo.
A garganta de Alê se aperta, o espelho em sua frente reflete uma face que não sabe o que sentir, um rosto que começa a ser molhado por lágrimas.
Os sons de Eloy entrando apressado no apartamento carregando sacolas demais para um doce de abóbora e um picles foram abafados pelo silêncio torturante do banheiro, pela tensão que acaba de cair em seus ombros e nunca mais sairá, pela respiração ofegante que se recusava a parar.
Ela não sabe quanto tempo se passa até que Eloy bate na porta e a abre com cuidado.
— Amor? O que deu o... — Ele não chega a terminar a frase, não é necessário, não precisa de uma pergunta para saber exatamente o que aquelas três fitinhas revelavam.
Eloy arregalou os olhos, seu coração apertando ao ver as lágrimas no rosto de Alê e entender o que elas significavam. Seu primeiro instinto foi a envolver em um abraço com uma das mãos em seus cabelos fazendo um cafuné.
Eles não falam nada por um momento, até Alê finalmente conseguir parar de molhar o rosto, mesmo que Eloy só não conseguisse chorar pelo choque em seu semblante.
Ele seria pai? Ele poderia ter uma criancinha cujo altura mal bateria em seus joelhos o chamando de pai? Um serzinho que seria a mistura perfeita de si e Alê, a pessoa que mais ama no mundo.
A ideia dava medo, é claro, ter total responsabilidade sobre uma vida tão frágil, ter que protegê-la de todos os perigos do mundo, desde pessoas horríveis até quinas de móveis, ter de ensiná-la tudo sobre o mundo, a falar, ler e escrever, a ensinar o que é o céu, uma placa de trânsito, uma árvore de natal...
Céus, eles teriam um trabalho e tanto.
Um trabalho tão satisfatório.
Mas ele se lembra, isso se Alê decidir que queria o bebê, o que pela reação delu ao ver o teste, não parecia a realidade.
— Meu bem? Princesa? Olha pra mim — Ele finalmente sai do transe, soltando o abraço apertado com dificuldade pela força com que elu a apertava, segurou o seu rosto mantendo contato visual, seu coração aperta mais uma vez ao ver a vermelhidão no nariz e maçãs do rosto — Você ta bem?
Ele hesita antes de levantar os ombros suavemente, indicando confusão. Eloy nunca viu essa expressão no rosto de Alê, as sobrancelhas franzidas e os olhos azuis embaçados e perdidos na dúvida.
— O que a gente faz agora Eloy? — a voz dela estava embargada em choro — Como que eu vou cuidar de uma criança?
— Como a gente vai cuidar — ele afirma com confiança e conforto — Isso se você quiser isso..
— Eu não sei... você.. você quer? — Alê segura as mãos dele que ainda pousavam em seu rosto, a incerteza junto da esperança vinda da situação a inundando.
Eloy demora um pouco para responder
— Eu quero, mas só se você tiver pronta — Ele duvida que teve alguma vez em sua vida em que soou mais sério e honesto do que agora.
— Eu... eu quero — elu sorri com dificuldade, a mente se clareando — eu quero muito.
No início, o medo a cobriu por inteiro, aquelas duas linhas representavam uma vida que agora é totalmente ligada a ele até o fim, uma responsabilidade sem fim que foi o gatilho para as lágrimas que escorriam devagar pelo choque, sem saber se estava feliz ou não pela notícia, sem saber como ele reagiria.
Eloy foi a segunda coisa que veio em sua cabeça, a primeira sendo o pequenino feto que crescia em seu ventre, como Eloy reagiria a ele?
Mas que dúvida idiota.
Ele seria o homem mais feliz do mundo e Alê sabe disso, elu sabe que o parceiro no momento em que visse o teste positivo começaria a pensar nas inúmeras possibilidades do que poderia fazer. Ele pensaria em como criar esse bebê da melhor maneira, o que ensinaria a ele, como o chamaria, como o vestiria...
Eloy foi feito para ser pai e Alê não poderia ficar mais feliz e relaxade ao ser lembrade desse fato pelo abraço apertado do homem.
— Vamos fazer isso então — finalmente, como se esperasse uma confirmação serena, os olhos de Eloy se enchem de lágrimas e ele cola a testa dele na delu – Vamos ter um bebê, meu amor.
O beijo que vem em seguida ainda mantém o formato do sorriso que adornava seus rostos, um beijo carregado de sentimentos, memórias e expectativas do que está por vir.
Nós vamos ter uma família.
