Work Text:
Infrutífero
Maki queria um bebê. Nosso bebê. Mas seu corpo… não.
Por cinco anos, vivemos entre testes de farmácia, consultas médicas e esperanças renovadas apenas para serem esmagadas no mês seguinte. Cinco anos vendo os olhos de Maki brilharem com a possibilidade e depois se apagarem, deixando para trás apenas um silêncio pesado, carregado de lágrimas que ela se recusava a derramar na minha frente.
Ela achava que me enganava. Achava que seu sorriso forçado e seu “talvez no próximo mês” me fariam acreditar que estava tudo bem. Mas eu via. Eu sempre via. O peso da frustração em seus ombros, a maneira como sua mão tremia ao segurar mais um teste de gravidez com apenas uma linha. O jeito como, nas madrugadas que ela pensava que eu dormia, sua respiração ficava entrecortada, abafada pelo travesseiro onde enterrava o rosto para conter o choro.
— Por que não adotamos? — perguntei uma noite, quando o silêncio entre nós se tornou grande demais para suportar.
Ela desviou o olhar, os dedos apertando o lençol entre os nós dos dedos.
— Yuta…
Porque Maki não queria apenas ser mãe. Ela queria ser criada mãe. Queria sentir um filho crescer dentro de si, queria dar à luz ao amor que transbordava em seu peito. Queria algo que seu corpo, cruelmente, insistia em lhe negar.
E eu… eu só queria que ela se enxergasse além disso.
Naquela tarde, a encontrei sentada no jardim. O sol dourava seus cabelos, e sua expressão era de alguém que se perdeu dentro da própria mente. Eu sabia o que ela pensava. Via isso no modo como observava as flores que eu cuidava com tanto zelo.
— No que está pensando, meu bem?
Ela demorou para responder. O vento balançava os lírios ao nosso redor, mas nada se comparava à tempestade em seu olhar quando finalmente me encarou.
— Infrutífero…
A palavra saiu amarga, e algo dentro de mim se partiu ao ouvi-la.
— Eu sou assim, Yuta. Um corpo inútil. Eu tentei, tentei tanto… cinco anos tentando, cinco anos acreditando que talvez, só talvez, algo em mim pudesse funcionar. Mas não funciona. Eu não funciono. Me desculpa… Eu não posso te dar um filho.
O tremor na sua voz me atingiu mais do que qualquer golpe já recebido em batalha.
— É como se algo dentro de mim estivesse quebrado. Como se meu próprio corpo me traísse. É olhar para uma terra seca, árida, esperando por algo que nunca vai florescer. E eu… eu só queria poder te dar isso. De nos dar isso.
Suas mãos cobriram o rosto, e então veio o choro. Um choro contido por anos, um lamento silencioso que agora ecoava no jardim.
Eu queria dizer que não doía. Queria dizer que nunca desejei ver o rosto de nosso filho espelhado no dela, nos traços fortes e na determinação inabalável. Mas mentir para Maki nunca fora uma opção. Eu também quis. Também esperei. Também senti o gosto amargo da decepção.
Mas nada, nada no mundo poderia fazer com que eu a visse como menos do que a mulher incrível que era.
Coloquei o copo de chá de lado e a puxei para meus braços. Ela resistiu, como sempre fazia quando sentia que não merecia consolo. Mas eu a segurei firme, porque se havia algo que eu jamais faria, era deixá-la sozinha nisso.
— Maki… — murmurei seu nome, sentindo-a tremer contra mim.
Passei os dedos por seu rosto, enxugando as lágrimas que ela não conseguia conter.
— Você não precisa florescer para ser completa. Nem toda planta dá frutos, mas isso não a faz menos bela, menos importante. Você é o centro do meu jardim, Maki, com ou sem flores.
Seus olhos se fecharam com força, a frustração evidente em cada linha de sua expressão.
— Não é suficiente, Yuta! — sua voz saiu entrecortada, como se cada palavra arrancasse um pedaço de sua alma. — Eu quero ser capaz… Quero que nosso amor tenha raízes, tenha frutos.
Segurei seu rosto entre as mãos, forçando-a a me encarar.
— Maki, nosso amor já tem raízes. Ele está aqui — toquei seu peito, sentindo o coração acelerado sob minha palma. — E aqui — levei sua mão até meu próprio coração, permitindo que ela sentisse o ritmo que sempre, sempre, se alinhava ao dela.
Ela soluçou, um som pequeno, quase infantil.
— Quem disse que precisamos de frutos? O amor não é uma árvore. Amor é o ar. É a terra. É tudo que já temos.
Ela desmoronou ali, nos meus braços, e eu a segurei como sempre faria, como sempre quis fazer. Porque, no fim, Maki não precisava ser nada além dela mesma para ser suficiente.
O jardim ao nosso redor dançava com o vento, e eu soube que ela também sentiu. O começo de algo novo, uma semente de esperança plantada entre nós.
Adoção.
Antes, parecia um plano B. Um consolo. Mas agora… agora parecia uma nova forma de amar.
Talvez o ventre de Maki nunca desse frutos. Mas seu coração? Seu coração, eu sabia, era um solo fértil demais para se limitar a um único sonho.
