Chapter Text
— Acorda campeão. Chegamos.
Olhos alaranjados brilhantes se abrem devagar, ajustando-se à luminosidade que entrava das janelas do carro. Silêncio sentiu primeiro confusão, depois preguiça e, por fim, frustração.
— Sem cara feia, rapaz, vamo.
— Sim, pai.
Silêncio desce do carro, as mãos ainda esfregando os olhos, e olha na direção da pequena casa em frente à vaga que o pai ocupou. O telhado triangular, as paredes de um marrom sem graça e a entrada com uma varanda sem cerca pareciam, aos olhos do garoto, perfeitamente aceitáveis.
Arcox foi na frente, os cabelos muito brancos e longos presos nas pontas um pouco desgrenhados pelo vento que entrou desenfreado ao longo da viagem. Os olhos castanhos inspecionaram a entrada de forma superficial, o olhar rígido em busca de algum problema com o imóvel, mas logo se pôs a abrir a porta. Silêncio vinha logo atrás, um hábito tão enraizado dentro de si que se tornara automático.
O interior estava, na medida do possível, arrumado. A camada de poeira fina cobrindo o assoalho de madeira e as barras nas janelas faz o nariz de Silêncio coçar; Arcox não demora a agir, arregaçando as mangas da camisa branca e estalando os ossos dos braços em um alongamento breve.
— Esse vai ser nosso novo lar, filho. Você vai ajudar o pai a ajeitar tudo pra quando o caminhão de mudança chegar, não dá pra fazer muito mas limpar o chão é uma das coisas que podemos fazer.
— Certo, pai.
— Volte no carro e pegue a vassoura, abra o porta malas e traga as caixas pra cá.
O garoto assente, pega as chaves e retorna ao veículo. A vizinhança parecia calma naquele dia, com poucos carros passando pela rua e pessoas caminhando pela calçada. Silêncio repara bem em como as casas ali são padronizadas e gosta disso; a organização ali fazia ser menos complicado de se adaptar.
Silêncio abre a porta traseira do lado direito e enfia metade do corpo lá dentro para pegar a vassoura atrás do banco. O carro era de um modelo antigo, com a parte traseira sem obstruções que a separasse dos bancos, e ele passaria muito tempo movendo as coisas ali.
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Já era noite quando os dois terminaram de tirar o lixo – folhas secas, fezes de rato e de pombo e sujeira em geral – da casa. Os móveis da sala de estar e da cozinha haviam chegado em meio à arrumação, porém as camas só estariam ali pela manhã do dia seguinte. Silêncio percebeu, quando o pai bufou de frustração pela terceira vez seguida após ficar sabendo da notícia, que ele detestava o som.
— Primeira noite no chão, que merda.
Arcox parece se arrepender da última palavra um segundo depois e diz:
— Você não pode dizer essas coisas, ouviu?
— Sim, pai.
— Vá tomar um banho e limpar esse suor, eu vou arrumar a janta.
Simples assim. Outras pessoas esperariam algum tipo de congratulação pelo trabalho árduo da tarde inteira, talvez uma frase doce como as das pessoas na TV. Mas não aquele garoto. Silêncio acenou e foi obedecer a ordem do pai.
Enquanto tomava banho, Silêncio sentia sua consciência viajar longe e brincar com a imaginação. Ele não se considerava alguém criativo – estava mais para prático – mas se deixou levar conforme gotas grandes castigavam suas costas. O que ele sentia com relação àquilo tudo? Em menos de três dias, toda a vida do jovem Silêncio ganhara um rumo novo e ele foi um mero expectador em todo o processo.
Silêncio pensou na mãe – na realidade, no sorriso dela – e se frustrou com a frieza com que seu rosto recepcionou aquela memória. Ele escutou de diversas pessoas diferentes que era "estranho" e que ele lembrava uma pedra de gelo quando se tratava de emoções. Às vezes, um colega de sala comentou numa certa manhã, parece que você nem pensa como gente.
Silêncio não sabia o que ele queria dizer. Ele pensava o tempo inteiro, tanto que caso decidisse dizer tudo o que já sentira vontade de falar, ele morreria antes de terminar a tarefa. Silêncio pensava – e muito – só que os outros não se interessavam em ouvir. E, depois de um tempo, ele parou de querer fazê-los mudarem de ideia.
A mãe tinha sido uma grande excessão na vida do jovem. Ela era uma mulher tão gentil que apenas um sorriso, ou o cantarolar que ela fazia enquanto regava plantas no jardim, era capaz de melhorar o humor dele. Do pai também. Pelo que Silêncio sabia, o pai não sorria nem se fosse o mais aconselhável – em eventos sociais – ou quando estava relaxado. Arcox entregou todos os seus sorrisos para sua única mulher, e ela nunca mais retribuiria o gesto.
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Assim que saiu do banheiro usando roupas mais leves e com a toalha secando o cabelo em crescimento, Silêncio procurou pelo pai na cozinha. Arcox não estava ali; seu corpo alto e esguio se encontrava encurvado, sentado nas escadas em frente à porta, uma garrafa de vidro marrom escura na mão direita.
Silêncio olhou na direção do pai durante alguns minutos, os olhos baixos e concentrados continham uma visão de mundo bem distante da das outras crianças. O momento aparentava durar horas, a tensão tão palpável quanto invisível e predatória.
— Pode vir.
O garoto piscou uma vez, depois se aproximou e tomou o lugar ao lado do maior. Arcox tinha sido um homem atlético no passado, desejado por muitos com uma aparência física tão definida, contudo esses dias também se tornaram memórias. Silêncio observa a garrafa, o dia em que o pai prometera nunca mais tocar em álcool para sua mãe ainda fresco na memória.
— Como está o chuveiro?
— Funcionando bem, a água estava gelada.
— Certo.
O pai toma mais um gole, os cotovelos apoiados nos joelhos, e encara o carro e o horizonte em frente.
— O que eu te falei sobre beber, Silêncio?
— Só depois de adulto — sua voz sai robótica, igualmente interessado nas estrelas.
— Bom garoto — Arcox passa vários minutos virando a garrafa e solta ar pela boca — Sua mãe me mataria se me visse assim.
Silêncio volta os olhos para seu velho. Eles não tocavam no assunto desde o dia em que..aconteceu.
— Ela brigaria.
Arcox ri alto, desajeitado — É, ela tinha garra nessas horas. Na verdade, ela era bem mais forte que—
A voz dele vai abaixando até sumir e Arcox não se dá ao trabalho de terminar. Silêncio não acha que ele precise, de toda forma.
— Ela tem orgulho de você, Silêncio. Você sabe, não sabe?
Outra surpresa para o jovem Silêncio; seu pai, o homem que menos falava sobre sentimentos – além dele mesmo – trazendo algo assim à tona. Com cuidado para usar as palavras corretas, Silêncio responde.
— Eu sei.
Ele sabia que havia implicações ali, escondidas no fundo do homem que nunca vinham à superfície. Silêncio gostaria de ouvir certas coisas: que ele – não só ela – tinha orgulho dele.
— Ótimo, vamos comer alguma coisa e você vai pra cama.
Silêncio se levantou, mas Arcox não se moveu. O filho vai até a cozinha, abre a sacola azul escuro contendo um grande isopor que eles tinham enchido algumas paradas antes de chegar e pega dois sanduíches de pasta de amendoim. Amassados dentro do papel que os enrolava, os sanduíches estavam com uma aparência ruim.
Silêncio pegou o dele, deixou o outro em cima da mesa de jantar e viu o pai ainda sentado à porta. Sentiu vontade de dizer alguma coisa e não disse nada. Engoliu o sanduíche, jogou o papel no lixo e foi para a cama depois de escovar os dentes.
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Silêncio tinha plena confiança no pai, porém parte de sua consciência não o deixava dormir. O menino sai debaixo do lençol fino que o cobria – graças aos céus fazia calor naquele lugar – e vai até a porta do quarto a passos lentos. A casa está às escuras e nenhum som se destaca além de carros passando, ocasionalmente, por eles.
O menino sai do quarto e vai até a sala. Arcox dormia no sofá, a cena estranhamente cômica pelo tamanho do homem em comparação com o móvel, e quatro garrafas foram posicionadas na mesinha de centro ao lado dele.
Silêncio fita-o por alguns instantes. Seu olhar foi da porta de entrada às garrafas, ao papel amassado perto delas sujo de pasta de amendoim e, por fim, ao rosto do pai. O garoto não sabia o que devia sentir naquele momento, entretanto uma coisa era certa: não era raiva, ressentimento ou vingança.
Ele faz o caminho até a porta nas pontas dos pés e confere a tranca. Estava trancada, o que permitiu que ele voltasse a respirar quando fez o caminho de volta. Silêncio temeu que seu pai fosse acordar e pegá-lo daquele jeito, um bandido se esgueirando pela casa de madrugada.
No momento em que Silêncio atravessava a porta de seu quarto, um ronco alto vem da sala.
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