Work Text:
Hyunjin quer fazer um experimento. Algo bobo, mas desde que percebeu, isso não sai da sua cabeça.
Todos os toques mais demorados que o normal, os olhares meio sugestivos, a implicância.
Coisas que só acontecem entre eles dois.
Então, Hyunjin começou a contar quantas vezes Chan agia diferente com ele.
- Hoje, dia 12/12/2025, Chan pegou na minha cintura enquanto passava atrás de mim. O toque durou exatos 8 segundos. Ele riu de algo extremamente sem graça que eu falei, e o ar da risada dele bateu no meu pescoço.
- Hoje, ainda dia 12/12/2025, Chan segurou meu rosto com as duas mãos enquanto avaliava minha maquiagem. Usou a ponta do dedão para limpar o borrado do meu gloss.
- Hoje, dia 13/12/2025, Chan dormiu na cama comigo, sendo a conchinha menor. No meio da noite, ele entrelaçou nossos dedos.
E a lista continua.
Algumas se repetem. Muitas aparecem até mais de três vezes.
Bom, Chan é um homem consistente, Hyunjin tem que admitir isso.
Mas.
Por quê?
A verdade é que ele talvez nunca tenha a resposta para essa pergunta, mas ele quer tentar.
Ironicamente, Hyunjin nunca foi uma pessoa extremamente organizada. Nunca foi de fazer listas. Ora, até mesmo quando tem que ir ao mercado, confia solenemente em sua memória — o que, obviamente, não dá certo.
Mas isso é investigação.
Hyunjin quer colocar um quadro em seu quarto, com fotos dos momentos listados, pegar uma fita vermelha e linkar cada um. Fazer um mapa mental. Com a foto de Chan e tudo.
Como qualquer pessoa minimamente normal e curiosa faria.
Ele precisa descobrir o porquê. O que faz Chan agir dessa maneira com ele.
Somente ele.
Não é obsessão.
É ciência!
Por mais que nunca chegue à resposta final completa, ele quer ao menos entender metade.
E, com sorte, a consistência de Chan pode virar padrão. E padrões são bem mais simples de compreender.
Hyunjin finge que lê o livro de receita que jaz sobre a bancada da pia.
Provavelmente, ele fez algo de errado. O molho está estranho, a carne dura. Mas, bom. Isso agora é um problema para o Hyunjin do futuro — e do Chan também.
No momento que o mais alto ouviu o barulho de chaves na porta da casa que divide com Chan, ele parou.
Esperando.
Investigando.
Como se estivesse observando um rato de laboratório que está sob efeito de alguma nova droga.
Qual será o resultado dessa vez?
Passa o dedo indicador pelas palavras, franzindo as sobrancelhas em falsa concentração.
Bom, não completamente falsa. É só que a atenção dele está em um lugar diferente.
Para ser mais preciso, na sala. Onde ouve Chan tirando o sapato, depois colocando a mochila na poltrona.
Se tudo sair como planejado, a próxima parada de Chan é a cozinha. E, se Hyunjin estiver com sorte, hoje ele vai ter mais uma adição à sua lista.
O cheiro da comida que fizera é, sinceramente, quase mórbido — depois ele realmente vai ter que voltar na receita e pensar onde errou tão feio. Porém, mais uma vez, esse é um problema para daqui uns… vinte minutos.
Hyunjin não gosta de antecipar suas lutas.
Os passos de Chan são altos, o chinelo bate em seu calcanhar e depois no chão ritmicamente.
A mão de Hyunjin sua onde segura a colher de pau.
“Hyun,” Chan chama. Hyunjin sabe que ele já está no batente. Consegue sentir a hesitação de Chan. As linhas na testa dele. “Precisa de ajuda?”
Ele se aproxima. Hyunjin prende a respiração.
É agora.
Ele passa por trás do mais alto para ir até o fogão. A mão dele encosta no pequeno de suas costas, o dedinho quase no cós de seu shorts.
Hyunjin quase sorri.
Não o faz. Não quer estragar o experimento.
A mão permanece ali enquanto ele abre as tampas das panelas. Enquanto ele tosse, se afasta do eletrodoméstico.
O peso da palma dele é quente e forte.
“O que aconteceu?”
Hyunjin dá de ombros. Fraco o suficiente para não assustar o amigo e fazer ele tirar a mão. Não, isso estragaria o momento. Ele precisa da ciência por trás desse toque.
“Fiz alguma coisa errada.”
A mão de Chan sobe. Mas ainda não sai.
Ele agora está atrás de Hyunjin, e se apoia no ombro dele com o queixo para ler o que o mais novo lê.
A respiração bate na nuca de Hyunjin.
Olha para um ponto amarelo na parede e começa a contar os segundos.
Um, dois, três.
“Você estava tentando fazer isso?”
Quatro, cinco, seis, sete.
“Uhum.”
Oito, nove, dez.
Ele não vai sair?
Onze, doze, treze, quator-
Finalmente, ele se afasta.
“Deixa eu pedir alguma coisa pra gente jantar.”
Hyunjin suspira. Espera ele sair da cozinha e vai atrás do telefone imediatamente, uma risada crescendo em seu estômago.
Abre o aplicativo de notas.
- Hoje, dia 17/12/2025, Chan ficou com a mão nas minhas costas durante muitos minutos. A respiração dele bateu na minha nuca por exatos quatorze segundos. Ele vai pedir janta para a gente.
Mais um dia bem-sucedido.
O filme que assistem no sofá da sala de estar do apartamento deles é… decepcionante.
Uma hora e cinquenta e sete minutos de seu tempo jogado no lixo.
Chan ainda não faz nada exótico. Isso também é decepcionante.
Hyunjin em uma ponta no sofá, Chan em outra. Um assento vago no meio deles.
O mais alto pensa em jogar os pés sobre as pernas do amigo. Pensa em instigar para fazer Chan fazer algo. Alguma coisa digna de ir para a sua lista.
Não tem nenhuma anotação dessa semana ainda.
Chan está estranhamente calmo.
Isso não é bom para a ciência!
Suspira, enrola uma mecha de cabelo nos dedos. Encara a cena na tevê, olha as unhas, se ajeita no sofá. Põe as duas pernas para cima, as costas encostadas agora no braço do estofado. De lado. Quase de frente para Chan.
Os dedos dos pés sacodem de um lado para o outro. Ele levanta o esquerdo, estica. Põe sobre o colo do Chan.
Espera.
Nada.
Estica o pé direito. Repete.
Nada.
Se ajeita novamente no sofá, deitado. A cabeça apoiada no braço de madeira. Balança as pernas, os dedos encostam no outro braço amadeirado, o do lado de Chan.
O amigo suspira, descansa as mãos nas canelas de Hyunjin. Começa a subir e descer os dígitos na pele do mais alto, lentamente.
Hyunjin não consegue suprimir o pequeno sorriso.
No entanto, não é o suficiente. Isso mal é algo fora do normal.
Espera um pouco — lera em algum lugar que paciência é a chave de qualquer investigação.
Não conta os minutos. Não conta as batidas do coração.
Apenas faz instintivamente.
Suspira alto, esperando que o amigo ouça. Balança os pés mais uma vez, arrastando as pernas pelas de Chan, devagar.
Hyunjin não sabe o que está fazendo.
O carinho do amigo para. Hyunjin também.
“O que você está fazendo?” A voz de Chan é curiosa. Quase ofendida.
Hyunjin quase pula com o rabo entre as pernas.
Ops.
“Tentando ficar confortável,” ele se mexe mais uma vez, apenas para provar seu ponto.
“O filme tá quase acabando, Hyun,” ele lembra, voltando com as ministrações.
“Hm, e daí?”
“Nada, não.”
Bom.
Decepção.
Hyunjin não tem nada para adicionar à lista hoje.
A ciência é muito complicada.
A verdade é que Hyunjin não lembra quando começou a fazer a lista. Claro, tem todas as datas e provas em seu telefone, mas o motivo?
Talvez ele nem tenha tido um, para início de conversa.
Chan sempre foi alguém cauteloso. Observador. E Hyunjin sempre quis fazer ele quebrar essa pose.
Mas, Hyunjin também sempre observou, então não foi difícil para ele perceber que Chan não o trata da mesma forma que trata seus outros amigos.
Tem carinho, claro. Chan é físico.
Porém, tem uma vírgula a mais na forma que ele lida com quem divide o apartamento.
E isso estava começando a deixar Hyunjin enlouquecido.
Ele precisa de motivos claros para entender o porquê. E ele é um cara da ciência.
Daí que veio a lista.
A primeira anotação é básica. Quase ridícula. Hyunjin tem vergonha dela.
- Hoje, dia 28/11/2025, Chan bagunçou meu cabelo depois de ter arrumado minha cama. Não sei o que isso significa.
Fez um pacto consigo mesmo de somente anotar coisas dignas. Diferentes. Chan faria isso com qualquer outra pessoa.
Mas ele ainda estava aprendendo.
Hoje, ele sabe como embasar seu ponto de vista.
Virou profissional. E se tem uma coisa que ele está, essa coisa é comprometido.
Ele vai concluir esse experimento com êxito.
31 de dezembro de 2025.
Não, isso não é uma anotação. Mas Hyunjin quer fazer uma lista separada somente para esse dia.
É dia de festa, comemoração.
Hyunjin está todo trajado de branco, seu cabelo escuro e longo está solto e orna seu rosto junto com um brinco prateado que brilha quando a luz bate.
Ainda não viu Chan. Não vieram juntos.
O telefone, apesar de bloqueado, está aberto no aplicativo de notas.
Quando algo acontecer, Hyunjin estará pronto.
Uma taça de champanhe vira duas, que viram três. E, logo, Hyunjin já não sabe mais quantas bebeu.
Talvez ele devesse ter feito uma lista para isso, também.
Talvez ele esteja indo além do normal com esse negócio de lista. Mas ele é um homem com uma missão.
Um homem da ciência.
Quando Chan aparece ao seu lado, já são quase onze horas da noite. Ele está… bom.
Objetivamente falando, muito bonito. O cabelo loiro e curto espetado para todos os lados, com uma corrente de prata curta em seu pescoço, uma regata e uma bermuda de linho branco.
Hyunjin sente que deveria anotar isso.
- Hoje, dia 31/12/2025, às 22:47, Chan está definitivamente muito bonito. Cheiroso também. Por que ele demorou tanto para chegar?
Sua vista está levemente embaçada quando escreve, mas sabe que todas as palavras foram escritas corretamente. Não pode errar. Um erro e tudo irá por água abaixo.
“Oi,” o loiro cumprimenta, sorrindo. Hyunjin tem vontade de anotar isso também. Não o faz.
“Finalmente apareceu,” bebe um gole da sua taça.
“É,” o sorriso é fraco, o rosto meio vermelho. Envergonhado, talvez. Ou quente. Tá muito quente. Estava quente assim esse tempo todo? “Tive um contratempo.”
“Hm, pelo menos você tá aqui agora,” Hyunjin dá mais um gole, o gosto cítrico e doce desce refrescante pela sua garganta. Ele inclina o copo na direção de Chan.
Hyunjin encara com uma atenção interrompida quando o amigo leva a taça até os lábios. Exatamente no mesmo lugar que Hyunjin tinha acabado de beber.
Observa como ele fecha os olhos quando o líquido entra na sua boca, como seu pomo de Adão sobe e desce quando engole a bebida.
“Muito bom.”
Hyunjin parece estar em outra dimensão.
Chan encara ele também, e as mãos de Hyunjin suam. Queria poder anotar tudo isso em sua cabeça no mesmo momento que as coisas acontecem.
“Oh,” o amigo diz ao se aproximar. Leva o dedo indicador até o canto externo do olho direito de Hyunjin. Limpa alguma coisa ali. Provavelmente a maquiagem dele que derreteu. Tá realmente muito quente. “Pronto.”
“Obrigado,” Hyunjin nem sabe o que é, mas tem vontade de esfregar os olhos com as palmas das mãos para Chan poder limpar.
O amigo sorri, os dentes à mostra.
Talvez Hyunjin esteja imaginando, mas os olhos do loiro passeiam e passeiam até que cheguem em seus lábios.
É rápido.
Chan logo coça a garganta e sai. Algo sobre buscar uma bebida para ele.
Igual um viciado buscando por droga no bolso da calça, Hyunjin procura o telefone.
Desbloqueia a tela. O aplicativo já está ali.
- Hoje, dia 31/12/2025, Chan limpou a maquiagem do meu olho. Depois, ele encarou a minha boca por poucos segundos. Não consegui contar quantos. Eu já falei que ele está realmente muito bonito?
Bloqueia o aparelho. Senta no sofá.
Mal pode esperar pelo restante da festa.
É quase meia noite.
Faltam exatos doze minutos.
Hyunjin bate os pés no chão, sem ritmo.
A casa de Changbin está cheia, e ele não vê Chan em canto nenhum.
A última anotação foi logo que o amigo chegou. Depois disso, ele sumiu.
Ele aperta o telefone sobre seu colo, e encara a grande televisão que passa um noticiário qualquer. Algo sobre contagem regressiva.
Hyunjin não precisa disso. Conta os números em sua cabeça. Um por um.
Quando Chan aparece, ele traz toda a horda de amigos com ele.
Changbin, Minho, Jisung, Felix.
E mais alguns que ele conhece mas não lembra o nome.
Sua cabeça começa a doer, e ele percebe que, talvez, devesse parar de tomar champanhe.
Mas, ah. Agora já é tarde demais.
Leva a bebida à boca e deixa que o sabor atinja cada canto de seu interior.
Junto com os amigos, vem o barulho.
Dez minutos, agora.
“Vem?” Chan pede, estendendo uma mão.
Hyunjin se deixa ser guiado para a grande varanda ornamentada de Changbin.
Todo mundo vem junto.
Minho e Jisung. Um casal.
Changbin e Felix. Outro casal.
Chan e Hyunjin. Definitivamente não um casal.
O mais alto sente que isso deve entrar na sua lista.
Se apoia na grade, uma mão de cada lado de seu corpo, e Chan está logo ali. Seus ombros estão se tocando. Do outro lado do amigo, não tem ninguém.
Por que tão perto?
Agora faltam menos de oito minutos.
“Qual seu pedido para 2026?” Chan pergunta, olhando para a rua.
Hyunjin pensa, passa a língua pelos dentes. A primeira coisa que vem na sua cabeça é completar a lista. Óbvio que ele não vai falar isso.
“Não parei pra pensar nisso,” é o que diz, “e você?”
O mais velho o encara. Desde o pingente de seu cordão até o último fio de seu cabelo.
Seis minutos.
Chan entrelaça seus braços, mas não responde. Apenas dá de ombros.
É muito errado sair correndo para anotar isso? Parece que aconteceu muita coisa nesses últimos seis minutos.
Espera se lembrar de tudo.
Quatro minutos.
Chan se mexe, joga o peso de uma perna para a outra. Solta o braço de Hyunjin. Chega ainda mais perto, o segura pela cintura. E agora toda a lateral de seus corpos estão se tocando. Dos pés até o ombro.
Uma gargalhada borbulha dentro do mais alto. Mas, de novo. Ele prende ela lá dentro.
Dois minutos.
Os dedos de Chan traçam meia-luas sobre sua camisa, e de repente Hyunjin percebe que sua taça ficou lá dentro.
Não tem com o que se distrair.
Um minuto, apoia a cabeça no ombro de Chan. Solta um suspiro. Chan ri fraco.
Trinta segundos.
Hyunjin consegue ouvir a contagem regressiva que passa na televisão.
Quinze segundos.
Agora todo mundo tá falando junto. Quase gritando.
Ele prefere ficar onde está, olhando para o céu. Esperando.
Nove segundos.
A mão de Chan para com os movimentos, mas intensifica o aperto. Hyunjin quase quer fechar os olhos.
Três segundos. Dois.
Um.
O show de fogos de artifício é espetacular, como sempre. Consegue ouvir, no fundo, seus amigos gritando e desejando Feliz Ano Novo uns aos outros.
Ele levanta a cabeça minimamente, apenas para encarar o reflexo das cores no rosto de Chan.
O amigo já está encarando.
“Feliz ano novo, Hyun.”
“Feliz ano novo.”
E, talvez, o item mais escandaloso de sua lista.
Não sabe o que aconteceu. Num momento estava apreciando os olhos de Chan, e no outro, seus lábios.
Num momento, Chan tava lá. E, agora, Chan está aqui.
Sua respiração bate no nariz de Hyunjin.
Ele parte a boca.
Seus lábios se encaixam.
É só isso.
Mais o som dos fogos e do grito de seus amigos ao fundo, e o batimento rápido de seu coração na sua têmpora.
Chan não fez nenhum esforço para aprofundar o beijo, moldar suas bocas. Parece que ele está contente por apenas existir no mesmo espaço que o mais novo.
Hyunjin aparentemente também está.
Quando eles se afastam, Hyunjin precisa sair dali.
O peso do telefone em seu bolso é gritante.
Ele corre até o banheiro mais próximo. Se tranca lá.
- Hoje, dia 01/01/2026, Bang Chan me beijou. Droga, não contei quantos segundos foram, não consegui. Acho que isso significa algo. Não sei o que. Não quero pensar sobre isso.
Quando Hyunjin levanta, com os dedos tremendo levemente, o cheiro de café já domina a casa.
Não faz a mínima ideia de que horas são. Que horas foi dormir.
Sabe que tem anotações pendentes, mas depois do beijo, todas as outras coisas parecem pequenas demais para serem consideradas.
“Bom dia,” Chan canta da cozinha, ouvindo os passos gritantes de Hyunjin.
“Dia.”
Não sabe o que esperar.
A ciência por trás das suas anotações, do seu experimento é baseada em padrões.
Hyunjin escreve, com data, e descrevendo exatamente o que aconteceu para ele poder voltar e comparar. Analisar. Entender o porquê e o quê aconteceu.
Padrões são fáceis de compreender.
O que é feito uma segunda, terceira ou quarta vez, vai ter um motivo — que talvez seja o mesmo.
É esperado.
Ciência tem que ser previsível.
No momento, ela não é mais.
Chan fez algo ontem que quebrou completamente a padronização de seus testes.
E agora?
Hyunjin não sabe o que esperar.
Quando entra na cozinha, Chan está de costas, mexendo algo na frigideira.
“Gostou da festa?”
O coração de Hyunjin acelera, os pensamentos param.
Consegue sentir o aperto de Chan em sua cintura de forma tão vívida que parece que voltou para ontem.
Concorda com a cabeça. Ignorando.
Um cientista deve ser profissional, manter sempre o nível. Não enlouquecer.
Imagina se Isaac Newton tivesse desistido ou ficado maluco enquanto a maçã estava no meio do ar.
“Foi boa,” resolve falar.
Senta-se à mesa, esperando o café da manhã que Chan termina.
“E você, gostou?”
“Uhum, foi bem boa. Queria ter ficado mais tempo só.”
“É, você chegou bem tarde.”
“Uhum.”
Chan não está diferente. Hyunjin está.
Será que isso é plausível de anotação?
Ele sente que sim.
Levanta, pedindo licença e dizendo que já volta. Pega o telefone que está entre as cobertas da cama. Abre o aplicativo.
- Hoje, dia 01/01/2026, eu estou estranho. Não sei como agir perto de Chan. Ele está normal. Isso não é bom pra minha ciência. Será que ele vai repetir o padrão e me beijar de novo?
Claro, pela ciência, Hyunjin espera que sim.
Espera que Chan o beije de novo.
É só mais uma noite onde eles estão assistindo uma série juntos.
Dessa vez, está tão frio que eles resolvem ficar no quarto de Chan, com os travesseiros altos sob suas cabeças e cobertas sobre eles.
A televisão está no volume quarenta e cinco — Hyunjin que escolheu. Mas ele não consegue ouvir nada do que passa.
Chan, agora, tem a cabeça apoiada no peito do mais novo, e talvez ele esteja escutando onde o coração dele bate estranhamente forte.
Talvez isso também seja algo para pôr na lista.
Hyunjin não sabe mais.
Quando o episódio acaba, Chan apoia o queixo no colo do amigo e o encara.
“O que foi?” Hyunjin questiona, uma sobrancelha erguida.
“Hm, só tô confortável,” suspira, fechando os olhos, mas na mesma posição.
Não está escuro o suficiente para cegar Hyunjin para além da televisão, então ele consegue discernir cada detalhe no rosto do amigo.
E, por mais simples que ele esteja, objetivamente falando, Chan está bem bonito. De novo.
Objetivamente falando. Claro.
Quando o amigo abre o olho, Hyunjin sente as orelhas esquentando por ter sido pego no flagra, mas Chan parece contente.
Ele se mexe, sobe na cama até que esteja com a cabeça no travesseiro do amigo, deitado de lado. Joga uma perna sobre a de Hyunjin. Os olhos nunca abandonam o mais alto.
“Vem aqui,” ele pede. Mas Hyunjin já está bem ali.
Não entende.
Vira o rosto para o lado do amigo, e, bom. Chan também está bem ali.
Suas testas se encostam. Chan inspira o ar que Hyunjin suspira, e vice-versa.
Seu estômago borbulha. Dessa vez não é de risada. É de algo. Ele não sabe do que.
Quer sair correndo de euforia. Parece que todos os seus órgãos estão tremendo.
Chan solta um longo suspiro que Hyunjin bebe até a última gota.
Ah.
Será que Chan vai beijá-lo?
Será que o padrão finalmente vai se repetir?
Mas ele não vem.
Ao invés, o dedo de Chan está acariciando o lábio inferior do amigo. Ele mal parece perceber o que está fazendo.
Hyunjin parte a boca, encara os olhos de Chan — ainda fechados.
Ele precisa anotar isso.
Mas não quer sair do momento.
Seu telefone está em seu quarto. Para isso, ele teria que se afastar.
E isso, ele não quer, mas precisa.
É um comprometimento com seu teste.
Com a ciência!
Precisa honrar seus esforços até agora. Essa talvez seja a anotação mais importante de toda a sua lista.
Ele se afasta. Evita encarar Chan.
“Já volto,” ele diz. A voz é estranhamente trêmula.
Quase corre até seu quarto. Quando encontra o telefone, um suspiro alto e surpreso sai de sua boca.
Sem bateria.
“Puta merda,” ele solta.
Não percebe que tinha sido tão alto até Chan aparecer no batente da porta de seu quarto.
“O que foi?”
“Meu telefone está descarregado,” revira toda a mesinha de cabeceira para tentar achar o carregador. Ele deveria estar ali.
Não está.
“Calma, você pode usar o meu,” Chan se aproxima, estendendo o próprio telefone.
“Não, tem que ser o meu.” Tira todas as coisas de todas as gavetas e joga sobre a cama.
Nada.
De repente, o beijo volta. A sensação da boca de Chan contra a sua. O hálito dele contra o seu. O aperto em sua cintura.
Será que Hyunjin está finalmente enlouquecendo?
“Hyun.” Chan se aproxima e abraça-o por trás.
Céus.
Ele precisa parar.
Seus dedos das mãos tremem.
“Usa o meu carregador, espera um pouco e daqui a pouco você faz o que tem que fazer.”
Respira fundo.
Inspira por 7 segundos, segura por 4, expira por 7.
Ele acha que é esse o padrão. Não sabe mais de nada.
“Ok.”
Chan ainda o segura por um tempo.
Hyunjin quer se espremer para caber melhor dentro dos braços de Chan. Mas ele também quer sair.
Isso é estranho.
Não parece ciência.
Será que também deve anotar isso?
Hyunjin deve admitir.
Talvez esteja virando obsessão.
A sensação de desespero ainda está ali, mesmo depois de ter aberto o aplicativo. Encara-o, pensando em como listar o que acabou de acontecer. Mas não consegue.
- Hoje, dia 04/01/2026, estava deitado assistindo filme com o Chan. Ele deitou a cabeça no meu colo. Eu não consegui prestar atenção no filme porque ele estava perto demais.
Não, isso parece mais um relato dele do que sobre o que Chan fez.
- Chan encostou a testa na minha. O dedão dele estava na minha boca. Acho que eu queria beijar ele.
De novo, não.
Isso não é sobre ele, é sobre Chan.
Além do mais, esquecera da data.
Como pode fazer um experimento sem datar e qualificar aquilo?
Encara a tela do telefone, a bateria agora em cem por cento. O dedão treme onde está parado em cima da tela.
Hyunjin sente que seu método está começando a falhar. Mas ele ainda não tem uma resposta.
- Hoje, dia 04/01/2026, o Chan encostou a testa na minha. O dedão dele estava no meu lábio inferior. Ele me abraçou por trás. A respiração dele bateu na minha.
Parece certo.
Mas não parece.
Tá vazio.
Foi só isso? Parece que foi mais.
Hyunjin sentiu muito mais do que apenas o que foi escrito.
Algo está começando a falhar nesse teste.
Chan tem estado estranhamente… distante.
Quieto.
Há mais de duas semanas que Hyunjin não tem mais nenhuma anotação na sua página de experimentos, e não foi por falta de tentativa.
- Hoje, dia 08/01/2026, Chan trouxe minha comida favorita quando chegou do trabalho. Disse que não queria que eu cozinhasse depois de ter trabalhado por quase 12h. Foi legal da parte dele.
Mas isso não era digno de estar ali. Então Hyunjin apagou.
- Hoje, dia 11/01/2026, Chan falou que me comprou um presente. Passou em frente a uma loja e viu algo que lembrou ele de mim. Era um colar. Muito bonito. Eu não tirei ele desde então.
Muito corriqueiro? Não fazia parte do padrão?
Hyunjin apagou.
Então, talvez, Hyunjin esteja incitando alguma ação. Algo padronizado para adicionar à qualidade de sua lista, e não somente momentos mundanos.
E, apesar de Chan, Hyunjin também sente dificuldade em traduzir as coisas para o papel. Atualizar a lista está cada vez pior.
Mas ele é um homem dedicado. Vai dar um jeito.
Porém, primeiro, algo precisa acontecer.
Se o amigo não faz, Hyunjin põe a mão na massa então.
Chan está na cozinha cortando alguns legumes para a janta, assobiando uma música que tocava na televisão. Hyunjin não a conhece, mas ouve com cuidado enquanto se aproxima.
“Hm,” sussurra, respira fundo, “tá cheiroso.”
“Ah,” Chan para, se virando. Coloca a mão sobre o peito. “Avisa da próxima vez. Quase que eu corto meu dedo.”
Hyunjin ri, se pondo atrás dele.
“Desculpa.” Apoia a cabeça no ombro do amigo, observa enquanto ele pega a faca e volta ao trabalho.
O barulho da faca batendo na tábua de madeira é quase reconfortante. O cheiro que sai da panela que está no fogo é tão simples e delicioso que a boca de Hyunjin saliva. Nem estava com fome, mas agora está faminto.
Sente sua respiração batendo na lateral do pescoço de Chan, e vê, de perto, quando sua pele explode em pequenos calafrios.
“Tá fazendo cócegas,” o riso que solta é fraco, quase passando imperceptível por Hyunjin.
“Hm,” concorda, mas não para. Nem se afasta. Ao invés, ele pergunta: “Tá te atrapalhando?”
Chan apenas balança a cabeça para os lados.
Envolve a cintura de Chan com os braços, fecha os olhos.
É bom. Confortável.
E não só pelo cheiro da comida.
“Não quer me ajudar ao invés de ficar aí parado fazendo nada?”
“Como assim?” Arfa, rindo. “Quem disse que eu não tô fazendo nada? Estou muito ocupado aqui.”
“Claro,” Hyunjin consegue ouvir o sorriso na voz de Chan. “Deve estar.”
“Com licença, mas meu trabalho aqui é muito importante.”
“Claro, Jinnie. Deve ser sim.”
Revira os olhos, belisca a barriga de Chan com a ponta dos dedos. Sente-a contraindo e o palavrão preso na garganta de Chan.
“Não duvide da importância do que estou fazendo.”
“E como isso é importante?”
“É importante pra mim, ok?! Preciso desse conforto.”
Chan solta a faca, balança a cabeça de um lado para o outro. Hyunjin consegue ver o sorriso dele toda vez que seu rosto aparece em seu campo de visão.
Quando ele vira para estar de frente para Hyunjin, o amigo quase se afasta. Mas não o faz.
Deixa que a proximidade assuste Chan, para saber o que ele fará.
No entanto, ele não parece perturbado pela forma que estão grudados. As respirações se encontrando na pouca distância que tem entre seus rostos.
O sorriso dele é pequeno e doce.
Hyunjin acha que nem precisa de sobremesa para depois do jantar. Isso é o suficiente.
Chan encara-o, deixa que os olhos passeiem pelo rosto de Hyunjin. O mais alto sente sua respiração presa na garganta, aguardando e aguardando. Algo. Qualquer coisa.
O mais velho levanta uma sobrancelha, o silêncio pesado e cheio de expectativa.
Hyunjin não sabe o que falar.
Quer que Chan o beije. Pelo experimento. Pelo padrão.
Para entender.
Ele nem lembra mais o que queria entender.
Mas sabe que quer. O beijo.
Talvez Chan. Mas é ele quem tem que começar.
Se Hyunjin começar, então não vai ter o que colocar na lista, e isso tudo é para acrescentar ao experimento. Somente.
Hyunjin quase solta um grunhido de decepção quando Chan volta para a pia, pega a faca e volta a picar os vegetais.
Mas permanece ali. Vivendo no silêncio e no movimento do braço do amigo. Sentindo cada flexionada de seus músculos com os próprios dedos.
Não lembra porque chegou aqui. Mas não quer sair.
- Hoje, dia 19/01/2026, não tenho nada para escrever. Não sei o que está acontecendo. Não tem acontecido muita coisa. Às vezes esqueço que eu preciso atualizar, e às vezes eu não quero. Não sei o que está acontecendo.
“Urgh,” Hyunjin reclama ao se jogar no sofá, com roupa do trabalho e tudo. Vê Chan torcendo o nariz. “Quero morrer.”
Chan ri, sabendo que é apenas drama e Hyunjin.
“O que foi?” O amigo pergunta, tirando a mão da própria coxa e levando aos fios escuros e longos do amigo. Passa os dedos entre eles, tirando cada nó. O mais alto fecha os olhos, suspira. Mil quilos mais leve.
“O trabalho, eu não aguento mais.” Se endireita até que a cabeça esteja no colo do amigo. “O sistema que a gente tá implantando é simplesmente uma merda e só dá dor de cabeça.”
“Espero que passe logo.”
“Eu também.”
Encara a televisão enquanto foca no carinho em sua cabeça. Vê mas não enxerga o que passa. Não tem interesse.
“Vai tomar um banho,” Chan pede, dando pause na série. “Eu vou terminar a janta.”
“Não sei o que seria da minha vida sem você,” Hyunjin brinca.
Mas, bom.
Talvez a vida dele realmente fosse muito mais difícil sem Chan.
Não quer pensar nisso.
O amigo ri, apenas um pequeno suspiro. Dá um aperto no ombro de Hyunjin.
“Depois a gente pode assistir alguma coisa juntos?” O mais alto pergunta, se levantando.
“Claro, o que você quiser.”
Sorri.
Talvez não tenha sido somente uma brincadeira.
Desde muito pequeno, Hyunjin observa.
Bom, ele observa tudo.
Cataloga as coisas em partes diferentes dentro da sua cabeça, procura razões em coisas irracionais. Porque é mais fácil dessa forma, tem sido, na verdade. Até certo ponto.
Foi mais fácil entender porque Felix agia diferente com Changbin, até que o amigo confessou gostar do outro. Foi mais fácil entender porque sua mãe decidiu pedir divórcio e foi morar em outro lugar.
Era simples, perceber os padrões e o que eles queriam dizer, e porque eles levaram a cada acontecimento.
Então, com Chan não podia ser diferente.
Mas...
É diferente, não é?!
De alguma forma, algo que Hyunjin não consegue ainda classificar muito bem. Ele compreende, racionalmente, que existe alguma coisa, mas ainda não chegou ao ponto de definição.
Racionalizar Chan não tá dando certo.
A cada dia que passa, a cada anotação em sua lista que exclui ou esquece de anotar, ele percebe que o experimento também não está.
As palavras que estão anotadas em seu telefone, com data, fatos, nomes, não fazem mais sentido.
Não sabe o que está acontecendo, porque logo dessa vez.
Porém, Hyunjin é um homem comprometido.
Ele vai até o final com isso.
Hyunjin nunca quis tanto que um dia acabasse tão rápido.
Essa troca de sistema em seu trabalho tem sido sua morte lenta. De alguma forma, cada novo dia tem algo a mais para fazer, um novo problema para solucionar, uma nova função que não funciona do jeito que deveria.
Realmente, ele está ficando sem esperanças que algum dia isso seja finalizado.
Hyunjin
Eu não aguento mais.
Acho que vou pular da janela do oitavo andar.
Chan <3
Se você fizer isso, não vou ter com quem morar e dividir as contas.
Hyunjin
Não é como se você precisasse de alguém para isso.
Você só gosta demais da minha companhia.
Chan <3
Bom, prefiro não comentar sobre isso.
São quase 14h. Você já almoçou?
Hyunjin
O que você acha?
Chan <3
Não sei porque ainda pergunto.
Consegue tirar 30 minutos?
Hyunjin
Acho que sim.
Chan <3
Ótimo, me dá 20 minutos e eu chego aí.
Depois disso, Hyunjin tentou mandar mensagem e perguntar o que significa isso, mas Chan não respondeu.
O trabalho dele é quase do outro lado da cidade.
A não ser que ele não esteja trabalhando, não faz sentido isso.
É óbvio dizer que, nos 20 minutos que antecederam a chegada de Chan, Hyunjin não conseguiu ser produtivo.
Seu telefone, intocado, está esquecido sobre a sua mesa de trabalho, bem ao lado do seu mouse. A mão que descansa sobre ele aperta o botão esquerdo e faz círculos, fingindo estar fazendo algo. Tanta coisa para resolver e, ainda assim, sua cabeça não consegue pensar em outra coisa senão o que caralhos Chan está pensando.
Quando seu aparelho vibra e uma luz brilha, ele sabe que é Chan mesmo sem ter que olhar. Exatos 20 minutos. Rápido demais para ele ter vindo do trabalho, mas pontual. Extremamente.
Ele vai em direção ao elevador, ignorando o peso de seu celular no bolso.
A descida é lenta. Tão lenta.
Suas mãos tremem.
Por quê?
É só Chan.
Quando Hyunjin chega ao térreo, não é só Chan.
É Chan, com uma blusa social branca e um blazer preto jogado sobre seu ombro, com uma calça social também preta, que abraça o corpo dele de uma forma que deveria ser impossível.
O pior de tudo, é seu cabelo loiro e curto que está apontando para todas as direções ao mesmo tempo. O óculos de sol. O maldito óculos escuro.
Uma única rosa vermelha em sua mão, como se ele não tivesse planejado. Apenas visto, lembrado de Hyunjin e comprado no caminho.
Hyunjin não entende, mas caminha até ele, o sorriso quase falso e completamente hesitante.
"Vamos?" Chan pergunta, dando o braço para Hyunjin entrelaçar seu próprio a ele. "Ah." Como se ele tivesse esquecido, oferece a flor para o amigo.
Não sabe o que fazer. Não sabe porque sente seus dedos dormentes quando encostam nos de Chan ao pegar o caule da rosa. Não entende porque sua garganta tá quase fechada, e as palavras parecem não sair de uma bagunça inexplicável para sentenças completas e condizentes.
O que ele tem que falar?
Chan parece não esperar nada, mas parece errado simplesmente ficar em silêncio.
“Obrigado,” é o que o emaranhado de sílabas e letras formam. Chan sorri.
Hyunjin quer voltar pro elevador e sentar na sua cadeira desconfortável para pensar nisso até o fim de seu expediente.
“Como você chegou aqui tão rápido? Por que você não tá no trabalho?”
“Ah,” coça a nuca. O sorriso não encontra seu olhos. “Estava por perto.”
“Hm, ok?!”
Chan suspira e começa a andar, forçando Hyunjin a segui-lo onde seus braços estão entrelaçados.
“Tive que visitar um cliente que tinha aqui perto.”
“Ah,” seu peito afunda, sua boca tá seca. “Quão perto?”
Por algum motivo, ele precisa saber.
Precisa saber como Chan chegou aqui, se ele correu, se ele ultrapassou sinais vermelhos e limites de velocidade. Se ele vai ter uma multa em seu nome e em sua carteira de motorista por ter chegado tão rápido.
“Será que a gente pode trocar de assunto?”
Dessa vez, o sorriso dele é verdadeiro. Suas bochechas estão num lindo tom de vermelho. Hyunjin quer beijá-las.
Ele pega essa sensação e joga no fundo da cabeça. Enfia dentro de uma caixa que ele não sabia existir, mas, estranhamente, já tem o nome de Chan nela. Ele deveria abri-la. Conhecer seu conteúdo, se familiarizar. Mas só de pensar nisso, seu estômago congela.
Não. Ele não vai fazer.
Não agora.
“Claro,” responde a Chan, fingindo que ele não está morrendo pra saber a resposta.
Chan suspira mais uma vez. Puxa Hyunjin mais para perto.
“O escritório do meu cliente era na esquina do meu trabalho.”
Ele responde mesmo assim. Como se ele não pudesse evitar fazer o que Hyunjin pede.
Ah, talvez ele devesse se aproveitar disso.
Não.
Não agora, nem nunca.
Essa caixa vai ficar pra sempre trancada à sete chaves.
O almoço é como qualquer outro. Mas não é.
Chan pede por Hyunjin, sua comida favorita. Hyunjin nem sabia que esse restaurante servia esse prato. Quando sua batata frita acaba, Chan, sem hesitar, coloca todas as que estavam em seu próprio prato para Hyunjin. Quando Hyunjin pensa em pegar sua carteira para pagar pela sua refeição, Chan já estava com o cartão na máquina, inserindo a senha.
Quando eles retornam, Chan insiste em levar Hyunjin de volta ao seu trabalho, os braços entrelaçados da mesma forma de antes. A nova recepcionista olha Chan de cima a baixo, um sorriso de lado no rosto, que Hyunjin entende completamente. Depois olha para Hyunjin e faz um pequeno sinal de sim com a cabeça.
Chan espera até que Hyunjin esteja no elevador, seu coração na palma da mão junto com uma sacola de papel e um cupcake de morango que Chan insistiu em comprar para ele.
Adoçar esse dia ruim, foi a desculpa que deu.
Não que o almoço já não tivesse feito isso, mas Hyunjin aprecia mesmo assim.
Mas sua barriga está se revirando demais para ele conseguir comer qualquer outra coisa. Não é porque comeu muito, é algo diferente.
Se assusta quando o sino do elevador soa, indicando seu andar. Seus passos são pesados e distantes. Deveria estar focado no tal do sistema, mas não consegue tirar a cabeça do sorriso solto e fácil do mais velho. O cabelo mais curto que o normal, a forma que ele ouviu cada palavra reclamona que saiu da boca de Hyunjin.
Sempre foi assim.
Mas por que foi tão diferente?
Não é o que Chan fez. Não é a forma como ele fez.
Ele não consegue apontar exatamente o que foi e isso o incomoda. Gosta de estar no controle, saber o que está acontecendo, mas hoje, ele falhou nisso.
Talvez, o que esteja diferente seja ele, no final das contas, mesmo que não saiba o porquê.
Quando joga seu peso na cadeira de rodinhas, os braços apoiados na mesa, a tela do computador desligada, tira seu celular do bolso e abre o tão usado (por mais que esquecido nesses últimos dias) aplicativo de notas.
- Hoje, dia 28/01/2026, Chan me levou para almoçar.
Mas é só isso.
Não chegou a contar, mas acredita ter ficado parado encarando a tela do celular por vários minutos. Toda vez que ela desligava por inatividade, ele desbloqueava o aparelho e lia, e relia.
Seus dedos estão travados, apesar do leve tremor. Eles não obedecem seu comando de continuar digitando, mas a verdade é que ele nem sabe o que escreveria se conseguisse.
Pela primeira vez, Hyunjin tem vontade de excluir essa pasta. Apagar tudo. Parar de encarar todas as lembranças expostas que fazem seu corpo esquentar e sua cabeça rodar.
Seu objetivo inicial era anotar tudo que Chan faz de diferente com ele. Esse deveria ser o maior momento e maior prova de todo seu experimento, mas só de pensar em passar isso pro telefone, ele sente um calafrio.
Hyunjin é um homem da ciência. Do experimento. Da verdade indubitável.
Todas essas datas zombam dele.
E, apesar do que está escrito, do que está praticamente comprovado, ele sente que falhou.
Não.
Ele sabe que falhou.
Faz duas semanas desde o dia que Hyunjin entendeu que não conseguiria continuar com a lista.
Talvez devesse ter apagado, excluído o aplicativo.
Porque tudo que está escrito ali caçoa da sua falta de profissionalismo. Desistir de um experimento tão importante assim no meio do caminho.
Mas não é como se ele tivesse parado totalmente. Ele só… está prestando atenção em outras coisas.
Como na forma que seu corpo irrompe em calafrios quando Chan encosta seus ombros sem querer. Como na forma que, almoçar juntos, virou uma coisa que eles fazem praticamente três vezes por semana. Chan sempre chega com uma flor — cada dia uma diferente.
Tão bem arrumado e de tirar o fôlego como no primeiro dia.
Não houve uma vez que Hyunjin tenha sido mais rápido que Chan para pagar a conta.
Toda vez, Chan leva Hyunjin de volta, espera o elevador com ele. Dá boa tarde para a recepcionista que agora já é conhecida. Ela sempre sorri de volta, e Hyunjin tem vontade de esconder Chan atrás de seu corpo para evitar isso.
Um dia, Chan deu um beijo na testa de Hyunjin ao se despedir. Um único dia.
E, desde então, Hyunjin tem almejado que isso acontecesse novamente.
Mas ele nunca consegue dar o primeiro passo. Fazer o que tanto quer.
Há tantas coisas que ele quer.
Quer passar o dia com o braço entrelaçado ao de Chan, falar coisas pra ele, contar de seu dia ruim e ouvir o dia estressante do amigo. Todas as flores que recebeu estão sobre sua mesa, num vaso. Elas já formam quase um buquê. Perfumam o pequeno e sem graça cubículo de Hyunjin.
Quer retribuir o beijo na testa.
Quer surpreender Chan e aparecer no trabalho dele para levá-lo para almoçar.
Quer tanto, que algumas coisas ele nem consegue identificar.
Só sentir.
O frio na barriga, os olhos que estão sempre atentos ao rosto dele, aos seus olhos, seus lábios.
É nesses momentos que ele precisa desviar o olhar, porque fica demais — encará-lo assim. Ver a forma que ele umedece-os com a ponta da língua.
O pé que bate no chão do elevador de casa, querendo apressar a caixa metálica para conseguir chegar em casa mais rapidamente.
Tem saído mais cedo do trabalho, trabalhado menos horas excessivas. Porque sempre que chega em casa mais cedo, sem ter ultrapassado a quantidade normal para um ser humano, Chan sorri daquele jeito.
Exatamente daquele jeito que Hyunjin não consegue explicar de jeito nenhum. Mas ele quer ver sempre. Toda hora, todo dia.
Então, decide que vai sair mais cedo que o normal. Hyunjin passa em um de seus restaurantes favoritos, compra a janta, sobremesa e bebida. É sexta-feira, e ele estranhamente está de bom-humor.
Pede um uber para casa.
Em menos de vinte minutos está lá. O pé batendo incessantemente no elevador, apertando o botão do quinto andar como se isso fosse ativar o modo speed.
Gira a chave na porta, o coração bate em sua orelha. O peso da comida em sua mão é bem-vindo.
Está com tanta fome, mas tem outra coisa igualmente forte em seu estômago.
Como sempre, não sabe o que é.
E, também como sempre, Chan dá aquele sorriso ao ver Hyunjin mais cedo que o normal em casa.
“Trouxe comida,” coloca as sacolas na mesa, tira o casaco. “E bebida. E sobremesa.”
Chan levanta, mexe nas sacolas. Pega o casaco de Hyunjin e pendura no lugar.
“Hm,” sorri, “qual é a ocasião?”
“Ahn,” não tem. Será que é estranho? “Sexta-feira?”
Chan apenas encara o mais novo. Uma sobrancelha arqueada levemente. O sorriso pequeno mas tão verdadeiro. Ele realmente é um livro aberto.
“Claro.” Pega as bebidas e vai para a cozinha. Hyunjin ouve o barulha da geladeira abrindo. “Vai tomar banho, eu arrumo aqui pra gente comer.”
Não hesita.
Aquela sensação familiar mora em seu corpo já há algumas semanas, mais do que ele consegue lembrar, então é fácil ignorar e focar na fome que sente para apressar as coisas.
O banho é rápido, mas quando sai do banheiro, a mesa está servida. Uma flor num vaso no centro dela. Sua comida está no prato, sua bebida na taça.
Chan está atrás da cadeira que Hyunjin senta, esperando-o.
Quando se aproxima, ele puxa a cadeira para Hyunjin sentar, e depois empurra-o lentamente para o lugar.
Senta no espaço de frente.
Aquela sensação tão familiar, parece dez vezes pior.
Não consegue parar de encarar Chan. A mesa. A flor. A mão dele que pega o talher. A boca dele que fecha no garfo, que bebe na taça.
“Hm?” Chan pergunta, olhando o prato intocado do amigo, a bebida exatamente com a mesma quantidade de antes. “O que foi?”
É impossível que ele não tenha percebido Hyunjin encarando. Mas ele apenas balança a cabeça e começa a comer.
O telefone ficou na pia do banheiro, e Hyunjin ouve, com um suspiro, uma notificação.
Talvez seja do trabalho.
“Deixa que eu pego.” Chan levanta antes mesmo de Hyunjin ter tempo de pensar.
A comida está tão gostosa, talvez devessem fazer isso mais vezes.
Quando Chan volta, as sobrancelhas estão franzidas. Os olhos presos no telefone.
Ele para na divisa entre a sala e o corredor, encara o telefone, depois Hyunjin, e depois o telefone.
Ele sorri, mas é mais uma lufada de ar que parecia presa em sua barriga e volta a andar. Circula a mesa até que esteja na frente de Hyunjin, entrega o aparelho para ele.
Curiosamente, ele está bloqueado.
Quando Hyunjin o liga, espera encontrar o que Chan estava olhando, mas é apenas a tela inicial com sua imagem de descanso, uma notificação qualquer de um grupo de mensagens. Completamente inútil.
Não entende.
Não sabe o que Chan poderia estar vendo. O porquê da sua reação.
Algo em si faz sua garganta fechar ao pensar em questionar, então ele deixa pra lá.
Mas Chan senta, estala os dedos. Come uma garfada. Suspira.
“Seu telefone estava desbloqueado na pia,” Chan começa, e Hyunjin percebe que a respiração tá presa. “Eu não mexi em nada.”
Essa tá longe de ser a preocupação de Hyunjin. Ele não tem nada a esconder do amigo.
Quer dizer, somente uma coisa.
“Engraçado,” ele ri. É um pouco falso, e isso deixa Hyunjin ainda mais na beira de seu assento. Pronto para sair correndo, se esconder no quarto. De novo, não sabe o que é. Ele sempre foi burro desse jeito? Não era pra ser um homem da ciência? Não se diz um especialista em ler Chan? “É engraçado finalmente saber porque você saía correndo do nada.”
“Quê?”
Com a boca entreaberta, Hyunjin percebe que não sente mais fome, sede. Nada. Só o mais puro pânico na ponta de seus dedos e na velocidade acelerada de seu coração.
Ele não pode ter visto, né?!
“A lista,” ele ri. Da outra garfada. Hyunjin não sabe como ele ainda consegue comer com toda essa tensão na barriga. Mas, de novo, talvez esteja só nele.
‘Chan, eu-” não continua. Não sabe como. Como vai explicar?
Agora, olhando para trás, não sabe porque essa lista existe. O que ele queria explicar com ela? O que ele queria provar?
Sim, Chan pode tratá-lo de forma diferente, porque são melhores amigos. Moram juntos. Ele esperava mesmo um comportamento que não fosse compatível com isso vindo de Chan?
Ah. Hyunjin não sabe.
Sente que errou em todos os sentidos. Desde o começo, desde a criação da maldita lista.
“Me desculpa,” é o que diz, porque parece o certo. Catalogar as ações de Chan, esperar algo. Induzir coisas a acontecerem.
De verdade, o que esperava que fosse sair disso?
“Me diz, Jinnie. O que você queria com isso?”
Hyunjin não consegue olhar para cima, encarar os olhos dele. Ao invés, brinca com a comida no prato. Talvez, no futuro, ele sinta nojo dessa refeição que tanto gosta. Sente um gosto amargo na boca, e sabe que não foi o bife.
“Eu não sei.”
“Hm,” ele sussurra. A voz é doce. Como pode isso? “Você quer saber o que eu acho?”
Não.
“Sim.”
Não quer. Espera que Chan não fale.
“Eu acho,” ele começa de qualquer jeito. Hyunjin solta o garfo e descansa a mão sobre seu colo, os punhos fechados. Esperando. “Eu acho que você queria uma desculpa pra entender o que eu sinto por você.”
Isso faz com que ele levante o olhar. É tão rápido que quase fica tonto.
Oi?
“Oi?”
“Você ainda não sabe?” Ele ri, fraco, quase triste, os lábios puxados para baixo. “Você ainda não sabe o quanto eu gosto de você? Mesmo depois disso?”
Ah, então era isso?
Mas é difícil acreditar.
“Só me diz porquê, Hyun.” Ele pede, a palma aberta sobre a mesa, convidando. “Agora eu preciso saber o motivo.”
Hyunjin abre e fecha a boca. O silêncio é alto, a geladeira murmurando sendo o único barulho a ser ouvido. É gritante.
Ele quer falar, mas vai falar o quê?
A mão de Chan que está aberta é retirada depois de nada ter acontecido. Como se ele tivesse desistido.
Ah, isso dói.
Quer fechar o olho e realmente sair correndo, mas seu corpo todo é inútil. Sua mente, suas pernas, suas mãos, sua boca.
“Tudo bem,” Chan diz, se preparando para levantar.
No fight or flight modo, o corpo de Hyunjin finalmente entra em ação.
“Não,” ele levanta, vai para o lado de Chan. Ele não pode sair, não agora. Hyunjin precisa explicar. “Eu- eu precisava saber, Chan.”
“O quê?”
“Porque você agia diferente comigo.”
“Não é óbvio?” Os olhos estão semicerrados, uma linha na testa de onde pensa, tenta compreender o amigo.
Era pra saber? Hyunjin deveria ter sabido?
De novo, não responde.
“Hyunjin, tá tudo bem.” Põe a mão sobre o ombro do mais novo. “Eu não tô bravo, não tô chateado. Eu só queria entender.” Ele respira fundo. Hyunjin prende a respiração. “Eu quero saber o porquê, para saber o que eu faço agora. Se eu finalmente entendo que não, você não gosta de mim também e sigo em frente. Eu prometo que nada vai mudar entre nós dois.”
Não, Hyunjin não gosta disso. A ideia de Chan seguir em frente, ou da ideia de não gostar de Chan.
Hyunjin não gosta da ideia de perder Chan. De perder a dinâmica que tinham construído nessas últimas semanas.
“Eh não quero isso, eu não quero que você siga em frente. Eu quero que as coisas mudem,” diz, com uma voz que não sabe muito bem onde achou. Mas talvez ela tenha chegado junto com as respostas que precisava. “Eu quero que você continue fazendo todas aquelas coisas, que a gente continue saindo pra almoçar. Você sabia que eu guardo todas as suas flores?”
Chan sorri, e é tão bonito.
Hyunjin quer beijá-lo, apenas por que quer. Não porque precisa disso para a tal da ciência.
Que burro.
Não quer perder isso nunca.
“Eu quero que você possa me beijar sem a desculpa de ser ano novo,” como todo o restante, não sabe o que está falando, mas não se arrepende quando as palavras saem de sua boca. Na verdade, parece que é algo que ele quer dizer há muito tempo, mas nunca soube como. Como uma criança, aprendendo a se comunicar, finalmente tendo vocabulário o suficiente para se expressar.
“Hyun,” Chan sussurra, a mão calma e precisa vai até a bochecha de Hyunjin. O polegar passeia pelo maxilar, todo o cuidado do mundo no toque.
De repente, Hyunjin tem tanto a falar. O portão de um reservatório de água que foi aberto do nada, e agora sai inundando tudo.
“Acho que a lista foi uma desculpa, Chan,” se apoia na palma do mais velho, uma mecha de seu cabelo tampando seu olho. Com a mão livre, Chan prende-a atrás da sua orelha. “Porque eu não conseguia aceitar as coisas que você me faz sentir.”
“É? E o que são essas coisas?”
“Muitas coisas. Todas.” Segura o pulso de Chan. Quer ele mais perto. Realmente quer beijar ele. Percebe que já queria isso há muito tempo, muito antes de tudo isso. “Acho que eu gosto de você.”
Chan concorda, como se ele já soubesse disso. Mas o suspiro que sai dele parece leve, finalmente relaxado.
“Vou te beijar, tá bom?”
Hyunjin não sabe em que mundo ele negaria isso.
Concorda mesmo que Chan saiba a resposta.
E, ah.
Tudo faz sentido quando as bocas se encostam. Todas as anotações e obsessão.
Quando Chan deixa que a mão escorregue até a nuca de Hyunjin, o beija com mais força e suas línguas finalmente se encontrando, ele entende sobre o que foi aquilo tudo.
Quando sua mão fecha na blusa do mais velho, implorando para que ele chegue mais perto. Quando um suspiro sai de sua boca e ele quer mais, quer tudo de Chan.
Ele entende, todo esse disfarce.
Deveria ser tão óbvio.
Deveria ser ridiculamente visível o quão medroso estava.
Nunca foi sobre Chan, não é?
Sempre foi sobre ele mesmo, e como Chan faz ele se sentir. Uma desculpa pra escrever e relatar ele. Para não precisar se expôr.
Mas não precisa mais disso.
Talvez, seu experimento, de uma forma completamente inesperada, tenha dado certo.
