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Primeira neve

Summary:

Enquanto o inverno se aproxima, Hinata tece, ponto por ponto, um presente que traduz tudo o que não precisou ser dito em voz alta.

MadaHina | Natal

Notes:

Boa noite meus amores 🥠

Essa história foi escrita como um presente de amigo secreto para uma pessoa muito maravilhosa que conheci no projeto PervertidasdeKonoha.
Hoje reposto ela aqui, espero que gostem.

Work Text:

O tempo nunca foi algo que Hinata sentiu pressa que passasse rápido.

Na sua percepção, ele passou como passam as coisas que são certas — sem anúncio, sem grandes movimentos. Primeiro, o estranhamento delicado do contato inicial; conversas espaçadas entre um encontro e outro, olhares que duravam um segundo a mais do que o necessário. Depois, o namoro que se construiu em pequenos acordos silenciosos, onde Madara aprendia a diminuir o passo e Hinata aprendeu que podia se expressar sem o julgamento de está sendo intensa demais ou agradável demais.

Cada passo dado juntos, trouxe uma nova aventura — algumas longas, outras menores. Mas o crescimento de entender um ao outro, tornou o pedido de casamento um detalhe bonito em sua história. Ela não precisou pensar ou hesitar se era “cedo demais” para estar com alguém definitivamente. 

— Hyuuga Hinata, você.. você aceita casar comigo? — Ele tremia, a caixinha erguida com um anel delicado e prateado brilhando na luz bruxuleante das velas. 

— Sim, eu aceito, Mada-kun. — O par perolado refletia o Uchiha ajoelhado, um único pensamento: Madara era homem para si.

Foi nos braços dele que percebeu que não era difícil ser amada, notada, apreciada. Assim como ele próprio se viu sendo cuidado, ansiado, entendido. Pois as experiências anteriores deixaram cicatrizes que pareciam não sarar o suficiente — não até estarem juntos.

E quando houve a cerimônia, não foi grandiosa como um evento, nem promessas ditas em voz alta demais, com sorriso de orelha a orelha para desafiar o tempo. Não. O lugar escolhido foi um jardim pequeno, poucos convidados, mas preciosos na trajetória deles. Houve mãos dadas, lágrimas derramadas sem soluços ou alvoroços, um “sim” dito em voz baixa, e a certeza de que caminhar juntos era mais simples do que continuar sozinhos.

— Eu te amo, Hime. 

— Eu também te amo, Madara.

Declarações feitas na intimidade do quarto, onde a Lua descansa por entre as nuvens escuras. Corpos unidos em uma dança cheia de carinho, sem pressa para o fim, mas com intenções profundas de dar e sentir prazer. Gemidos que escapam em sincronia, o suor translúcido nas peles aquecidas. O ápice chegou singelo, acompanhados de beijos atrapalhados e outras promessas inaudíveis. 

Logo a rotina se acomodou com a mesma naturalidade.

Manhãs silenciosas divididas entre chá quente e leituras paralelas. Tardes em que Hinata organizava a casa, preparava bolos para entrega ou fazia pequenas divulgações enquanto Madara respondia e-mails, marcava reuniões, resolvia problemas na empresa do pai. As noites já eram preenchidas por conversas tranquilas, risos breves e o conforto de dividir o mesmo espaço sem a obrigação de preenchê-lo.

Mas, foi durante uma dessas transições quase imperceptíveis que Hinata notou: o clima estava começando a mudar.

O ar ficava mais seco pela manhã, as noites mais longas, o vento mais insistente e gélido ao atravessar a casa. Madara saía para compromissos usando sempre as mesmas peças — casacos antigos, grossos o suficiente para resistir a pequenas friagens, mas tão marcados pelo tempo que não preservaria o calor quando a temperatura caísse mais. Não eram ruins. Apenas… velhos demais.

— Você não comprou nada novo para esse inverno? — perguntou certa noite, enquanto dobrava roupas recém-lavadas.

Madara ergueu os olhos do livro, pensativo.

— Não vi necessidade — respondeu ele, encarando as peças com certo apego. — Esses ainda servem bem.

Hinata arqueou a sobrancelha ligeiramente, mas assentiu, o olhar atento ao estado das peças no interior. “Ele não vai se desfazer delas”, pensava suspirando internamente. Não estava incomodada pela reação dele, pelo contrário, achava fofo vê-lo tão tranquilo em passar frio nos próximos meses — claro, se ela não estivesse ali para impedir que seu Uchiha morresse congelado. 

— Madara-kun já é um homem tão grande — sussurrou, guardando as roupas, o sorriso doce nos lábios. — Mas não sabem nem se cuidar direito. 

O Uchiha não sabia que sua esposa estava imaginando-o como uma criança pequena. Convencido de que as roupas de inverno estavam inteiras o suficiente para suportar mais uma estação gelada. Ao se deitarem, ele se aconchegou nos braços da morena, o rosto escondido na curva delicada do pescoço enquanto Hinata acariciava gentilmente o couro cabelo dele. Pérolas brilhando no escuro do quarto pensando em como substituiria cada peça sem Madara perceber. 

… 

Nos dias seguintes, Hinata aproveitou cada saída para observar vitrines com mais atenção. Parando para comprar peças sempre que via algo que lembrasse Madara: luvas novas vermelhas, peças térmicas discretas, calças macias para o dia a dia, algumas roupas para si também — coisas práticas, funcionais para o trabalho. Ainda assim, algo permanecia fora do lugar.

O cachecol.

Nenhum parecia certo o suficiente para o moreno.

Uns eram largos demais, outros chamativos demais. Havia cores que não combinavam com ele, texturas que pareciam incomodar mais do que oferta conforto, padrões que pareciam ter sido feitos sem uma estética agradável aos olhos. Nada carregava a presença de Madara da forma como ela sentia que deveria.

Em outra loja, observou as opções de cachecois na sessão de inverno. Novamente sentindo o incômodo de não encontrar nada que realmente fosse útil.

— Não vai ficar bom — resmungou baixo, tocando no crochê claramente falso da peça. — Vai arranhar ele ou dar alguma coceira. Tsc. — No mesmo instante, largou o cachecol, agradecendo com um sorriso leve as vendedoras e saiu. 

Durante outras passadas em outros lugares, Hinata já tinha desistido de realmente achar algo que pudesse combinar com o marido. Não que o preço importasse para si, mas sentia que não era aquilo que buscava achar, até receber uma notificação de Mikoto convidando-a para um chá à tarde. 

“Hinata-chan, recebi um conjunto de chá maravilhoso, gostaria que viesse estreá-lo comigo.”

“Claro, Mikoto-san. Estou por perto, chego alguns instantes.”

— Talvez ela me ajude a clarear a mente — murmurou, caminhando com mais pressa. 

Mikoto era meia-irmã de Madara, mãe de dois homens — Itachi e Sasuke. Vivia uma vida bastante caseira com Fugaku. Assim como era uma grande fornecedora de perfumes artesanais na cidade, mas que evitava estar na frente dos holofotes, esse papel era dado ao seu marido. Um empresário bastante rígido com questões de imagem e superprotetor com a saúde e bem-estar da morena.  

Hinata os admirava, não só pelos anos juntos, mas como a paciência e a calmaria de ambos se entrelaçam com tanta naturalidade. No fundo, esse era seu objetivo com Madara: saber que o silêncio dos anos não tirariam deles o amor e carinho que existia no começo. No meio dos pensamentos, uma grande roseira se fez presente em seu campo de visão, reconhecendo de imediato o portão vermelho escuro no centro. 

Logo apertou a campainha e a porta ao fundo foi aberta quase junto. Sons de passos rápidos e a tranca sendo destrava para revelar um jovem mulher no auge dos cinquenta anos — cabelos negros como cascara, olhos onix profundos, a pele palida ao sol ameno. Uchiha Mikoto possuía um charme e beleza etérea que apenas os Uchiha possuíam.

— Hinata-chan! Bem-vinda. — Gentilmente a abraçou, o sorriso brilhante.

Correspondeu ao abraço com timidez. — A senhora para rejuvenescer sempre que a vejo — comentou, rindo levemente. 

Mikoto corou, compartilhando da risada. — Boba. 

— Fugaku-san é muito sortudo — provocou com uma piscadela, adentrando o jardim.

— Não sei nada sobre isso. — Riu, o vestido preto balançando como vento. — Mas talvez seja. — Devolveu a piscada. — Assim como Mada-kun é sortudo em ter uma fada como esposa.

Foi a vez de Hinata ficar corada, o vermelho delicado percorrendo a extensão das maçãs do rosto até o pescoço escondido pelo cachecol roxo. Ainda assim, sorriu doce para a mais velha.

— Madara-kun é tão belo quanto eu — respondeu baixo. 

— Não, não. Mada-kun tem um estilo tão rústico, é claramente a Fera ao lado da Bela — brincou, agarrando o braço da cunhada. — Mas deixemos eles de lado, Ita-kun trouxe um conjunto lindo de chá da Índia e eu tenho um pacote de chá que Fugaku trouxe da China mês passado, também tem salgados e… 

Hinata ouviu cada frase com o coração quente, esquecendo por um tempo a frustração anterior apenas para relaxar no ambiente quase fantasioso da casa da Uchiha. Nas horas que se seguiram, conversas iam e vinham em assuntos diferentes — às vezes sobre trabalho, fragrâncias novas, decorações de doces. Em outros era sobre as comemorações de fim de ano, opções do que poderia vir a ser, se teria alguma jogatina para entreter os outros. Nada realmente profundo até chegar em pequenas inconveniências que aconteciam dentro de casa.  

— Fugaku-kun insiste em manter aquele trapo como touca para o inverno — resmungou, pegando um pedaço de torta limão. — Já tem tantos buracos que eu não sei como ainda se mantém na cabeça dele.

A Hyuuga riu da situação, lembrando de si mesma e o cachecol. 

— Estou tendo esse mesmo dilema com um cachecol que Madara comprou. 

— Homens. — Mikoto revirou os olhos. — Acham que o “cuidado” que têm com as coisas, faz com que elas durem até o fim da vida. 

— Não só o cachecol como as peças de inverno estavam tão antigas que a costura já cedeu em vários lugares. — O tom de voz dela se elevou um pouco, as pérolas cintilando em uma fúria controlada. — Mas ele insiste em usar. 

— Fugaku tem essa mania também — suspirou Mikoto, soprando o chá. O sorriso singelo no canto dos lábios ao concluir — Mal sabe ele que já me desfiz da maioria das coisas, só estou esperando a oportunidade para me livrar daquela touca. 

Hinata quase riu, mas manteve a expressão suave. — Mikoto-san, como você pretende substituir a touca? 

— Ah! Isso, eu estou fazendo uma — respondeu, pegando uma bolsa que estava na cadeira ao lado. — Soube por Gaara-kun que tricotar é bom para passar o tempo livre. 

Dentro da bolsa havia agulhas, linhas e várias toucas mal acabadas em tons de vermelhos distintos. 

— Ignore esses testes — sussurrou Mikoto, pegando uma metade pronta. — Foram minhas primeiras tentativas. — Devagar ela abre a peça, os pontos bem feitos, as agulhas deixadas no rolo de linha para que fosse posto sobre a mesa. — Não está perfeito, mas… tudo que procurei para ele não parecia o suficiente. 

Foi nesse instante que algo no íntimo de Hinata pareceu se tornar óbvio — nada do que encontrara antes carregava Madara do modo como aquela pequena peça, ainda imperfeita, carregava Fugaku. 

— Mikoto-san, você… você me ensina? — Sua voz saiu baixa, quase desesperada para agarrar a pequena touca e transformá-la em um cachecol. — Por favor. 

O brilho nas íris peroladas não passaram despercebido pela Uchiha, logo entendendo que a jovem também estava passando pela mesma sensação. Com um sorriso, acenou com alegria:

— Claro!

Com certa pressa, o restante do lanche foi guardado em recipientes para Hinata levar para casa. O conjunto de chá foi lavado e guardado de volta na caixa em que veio enquanto elas voltavam a sentar, agora com agulhas e linhas para uma pequena aula de demonstração. A tarde a partir dali passou mais lentamente, como se o próprio tempo estivesse dando a Hyuuga a oportunidade de aprender o ofício. 

Quando a noite chegou e Madara veio buscá-la, Hinata carregava uma sacola extra com materiais dados pela Uchiha em segredo, com uma pequena lista de onde pesquisar tutoriais e com um aviso de mandar fotos para Mikoto do processo do cachecol. Na manhã seguinte foi ao armarinho indicado e comprou os fios com cuidado, escolheu a cor pensando nele — o vermelho profundo, quente, que contrastava com seus traços fortes. Pesquisou por desenhos simples que pudesse colocar como detalhes, escolhendo lírios negros. Assim como comprou um saquinho de pérolas para o centro, pequeninas, para que não incomodasse ele ao usar.

O moreno percebeu a pequena atividade, mas não perguntou sobre. 

— Está ficando bonito — elogiou, beijando o topo dos fios azulados.

Hinata sorriu. — Eu espero que diga o mesmo quando estiver pronto. — O tom de voz com um toque leve de provocação. 

Madara afundou o rosto no cabelo macio, aspirando o cheiro suave de lavanda. — Tudo que você fizer, eu vou achar lindo, Hime… — sussurrou, os olhos fechados. 

— Eu sei — sussurrou de volta, parando os movimentos para trazer o rosto dele para si. — Por isso quero que você realmente goste do resultado final — disse, beijando os lábios finos do Uchiha. 

E ele a correspondeu com o mesmo carinho. Línguas que se encontram como amantes, as bocas que se movem sem grande pressa para sentir e explorar o outro. Quando o ar se fez necessário, Hinata deixou selinhos sobre os lábios úmidos antes de se afastar e voltar ao tricô. 

— Não vamos para cama, Hime? — murmurou ele, não escondendo a excitação na voz.

— Não querido — sorriu, dando uma pequena piscadela para ele. — Estou ocupada agora.

O Uchiha encarou os movimentos ágeis das mãos delicadas com as agulhas, o entrelace da linha para formar um tecido e a tranquilidade, quase zombeteira, dela em dizer que estava ocupada para estar com ele. Mas, apesar da surpresa de ser negado, Madara apenas suspirou e sentou no sofá ao lado da poltrona onde Hinata estava entretida em seu tricô.

— Já que é assim… — Ele pegou o livro ao lado, colocou o óculos e começou a ler. — Ficarei aqui também. Com você.

Foi tudo que disse, e Hinata não contestou ou ficou ansiosa por vê-lo acompanhar a criação do cachecol — no fim, ele não perceberia realmente que aquela peça era para ele. E assim, o silêncio retornou, mas agora com um toque de calor. 

…  

E então veio aquela noite.

O azul profundo do céu noturno começou a derramar pequenos pontinhos brancos, quase tímidos, como se testasse o chão antes de se entregar por completo e se acumular pelo chão terroso. A porta da varanda estava entreaberta, deixando o ar gelado entrar só o suficiente para ser percebido minutos depois por Madara. Seu olhar deixou o terceiro livro que concluía para observar a janela, sentindo a atmosfera fria se infiltrando pelas frestas e os pequenos montes esbranquiçados deixados nos beirais.

— Está nevando — comentou, abrindo a porta para observar.

Hinata estava sentada próxima à lareira, as pernas dobradas sob o corpo, o calor tocando-lhe as faces de forma suave. Ela acompanhava os flocos caindo além do vidro da porta da varanda, sentindo a brisa gelada misturar-se ao calor do fogo. Aquela mistura fazia seu peito aquecer de um jeito diferente — antecipação, talvez.

— É… — respondeu baixo. — Acho que essa é a primeira noite realmente fria.

Madara sorriu, de canto admirando a mudança lenta do ambiente — ainda não havia muito para ver, mas presenciar o primeiro instante do inverno parecia mágico. Logo ele se aproximou, sentando-se ao lado da Hyuuga no tapete grosso, trazendo o corpo menor para perto de si enquanto apoiava o queixo no ombro dela. 

— Nosso primeiro inverno casados — disse ele. — Deveríamos guardar alguma recordação, não?

— O que guardaremos? — perguntou. — A neve vai derreter se guardamos em um pote. 

— Uma foto — riu ele, seu olhar encontrando as pérolas. — Podemos vestir nossas roupas de frio e tirar uma foto na primeira neve de Dezembro. 

Hinata assentiu, os dedos entrelaçados no próprio colo, o pensamento singelo de como aquela frase soou diferente para ela — como se tivesse sido dita no tempo exato para o que pretendia fazer.

Logo ela respirou fundo, se virando para o marido.

— Madara… — chamou, a voz baixa, mas firme o suficiente para pedir atenção.

Ele encarou o rosto delicado, o olhar escuro com um toque de curiosidade.

— Sim, Hime?

As mãos dela tocam as bochechas dele, uma carícia quase tímida entre eles. O sorriso doce adornando os lábios vermelhos. Madara não entendeu, mas não interrompeu, deixando que Hinata fizesse o que quisesse enquanto apreciava o carinho. Naquele silêncio e toques trocados, Hinata se levantou com cuidado, caminhando até um pequeno móvel próximo à parede. De lá, pegou uma caixa retangular, envolvida em um papel simples preto e decorado apenas com um laço. 

— Um presente? — murmurou, esperando ela voltar . 

— Eu… fiz isso para você. — A bochecha recebia um toque vermelho ao estender a caixa para ele com ambas as mãos.

Madara se levantou, pegando a caixa sem dizer nada a princípio. Seu olhar, porém, ia do embrulho para a esposa que esperava cheia de expectativa. Ele sabia que não era uma data importante assim como sabia que não teria como retribuir naquele instante o presente dado — não que o último fosse realmente um problema. 

— Hime — sussurrou, rindo sem jeito. — Você… você é sempre uma surpresa. 

Brincou, tímido como ela, sentindo o peso leve da caixa, mas que para sua mente carregava um peso maior por vir justamente de sua esposa — sua Hinata. E assim, com cuidado equilibrou a caixa em uma mão e desfez o laço, temendo quebrar se fosse rápido demais, e abriu.

Vermelho

Foi a primeira coisa que viu, descendo olhar pela extensão rubra por mais alguns segundos até identificar que era um cachecol longo. Seu sorriso aumentou, uma voz no fundo da mente dizendo que reconhecia aquilo, mas ainda não tinha captado suficientemente as informações. Devagar tirou a peça de dentro da caixa, o tom se mostrando profundo e quase vivo pelas chamas da lareira, estampado com pequenos desenhos de flores negras que se espalharam com sutileza pelo tecido quente. Algumas delas, quase escondidas, estavam decoradas por pequenas pérolas clara que refletiam na luz da lareira.

Como os olhos de sua esposa, pensava ele, o coração se aquecendo ao tocar trêmulo em cada centro. Ainda assim, não disse nada de imediato. Ele sentia a textura firme, feita à mão, o cheiro tenue de lavanda e a lembrança surgindo aos poucos da Hyuuga sentada na poltrona tricotando, os sorrisos cheios de alegria e satisfação sempre que ela parava para olhar. Mesmo que não tivesse entendido na época o motivo por trás de tanta dedicação em um hobby, agora a ficha tinha caído e o trabalho que pensou ser apenas uma passatempo, repousava em sua mão.

— Hinata… — murmurou, as íris negras refletiam seu choque tanto quanto as frases não conseguiam fazer sentido suficiente para serem ditas. — Você… querida… você… 

As pérolas derramam singelas lágrimas enquanto acenava suavemente.  

— Eu pensei que… — começou, limpando as gotas sorrateiras. — Quando o frio chegasse de verdade… você iria precisar de algo para aquecer… — Ela se aproximou um pouco mais, o coração acelerado, a voz gaguejando para controlar o choro. — Então… você estava com aquele cachecol tão velhinho, tão… frágil — Sua risada com um toque de nervosismo, mas doce. — E-Eu achei que seria bonito… que você tivesse algo quente e novo para proteger quando a neve chegasse.  

Ouvir que ela pensou nele, que notou seu descuido, que deixou ele acompanhar o processo daquele presente mesmo não dizendo em palavras explícitas que era para ele. Madara se viu quase desarmado, com apenas um sorriso pequeno, incrédulo, suavizando traços que o mundo insistia em chamar de duros. E o pouco que conseguiu juntar para formar uma frase, foram ditas em um tom rouco, quase ingênuo.

— Você fez esse cachecol e esperou a neve… por mim?  

Hinata assentiu, as bochechas coradas pelo choro.

— Esperei.

Madara inspirou, segurando as próprias lágrimas enquanto colocava o longo cachecol nas mãos de sua esposa.

— Poderia colocá-lo em mim, Hime?

Uma pergunta apenas. 

Não era necessário ter resposta, pois ela pegou a peça, o sorriso cheio de carinho em seus lábios enquanto envolvia o cachecol ao redor do pescoço do moreno com cuidado. A lã quente protegendo a área sensível, o vermelho contrastando os cabelos escuros e o branco da pele —  com tudo o que ele era para si.

— Quente? — perguntou Hinata, afogando o tecido em volta.

— Hm — resmungou baixinho, trazendo a Hyuuga para mais perto, envolvendo-a em um abraço firme, protetor. O cachecol roçava a face enquanto afundava o rosto nos fios azulados, trazendo consigo o cheiro dela, misturado ao fio novo e ao calor da lareira.

— Obrigado — murmurou contra seus cabelos. — Por pensar em mim assim.

Ela fechou os olhos, respirando fundo, sentindo o peso bom daquele momento se acomodando em seu peito.

— Eu te amo Madara — disse, ouvindo os batimentos dele, acompanhando o compasso do seu.

Madara apertou mais o abraço, beijando o centro da testa dela. — Eu sei… — E então completou, baixinho: — E eu amo você, Hinata.

Do lado de fora, a neve continuava a cair.

Do lado de dentro, não havia frio algum.

Fim…

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