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Nunca disse em voz alta que gostava do Natal, ainda assim, a ceia sempre acontecia na minha casa. Talvez porque tivesse mais espaço e conforto na minha casa do que na deles. Talvez porque ninguém iria discutir sobre minha organização, pois era raro pedir ajuda — mas o financeiro dificilmente saía do meu bolso, Hashirama garantia a fartura da ceia sem medir valores. Ou também… talvez, no fundo, todos soubessem que eu precisava tanto daquela reunião quanto eles.
O silêncio que minha vida carregava tinha um toque gelado de neve. Às vezes era tão fino que pouco incomodava, me permitindo ter relacionamentos temporários, mas preciosos. Outras vezes era tão profundo que o mundo parecia se tornar hostil, então me afastava para respirar e me encontrar de novo — pois antes, na infância, não existia calor suficiente para me fazer ver a vida de outra forma além dessa.
E nesses momentos em que permaneço em casa, Hashirama vem com jarros e sementes para preencher meu jardim. Kawarama me ajuda a mexer na terra e Itama separa os substratos, cada um fazendo uma parte para manter esse jardim. E hoje, na véspera de natal, nossa magnólia estava quase no fim da floração. As pétalas grandes, brancas, começaram a cair com o vento frio de dezembro, formando um tapete irregular ao redor do tronco e da grama. Observei aquilo enquanto ajustava a mesa pela última vez, anotando mentalmente que, neste ano, a árvore floresceu um pouco mais cedo.
Quase sempre florescia.
Mas, nos dando tempo para vê-la plena durante a noite de Natal.
Até que eles chegaram, os presentes embrulhados em papeis brilhantes, sorrisos cheios de alegria juvenil — meus irmãos, minha família.
— Vocês demoraram.
Kawarama veio primeiro, os braços magro me rodeando em um abraço firme enquanto Itama pegava os pacotes e colocava embaixo da árvore.
— O trânsito nesse horário está caótico, Nii-san — respondeu Itama, me abraçando em seguida. — Nem Anija chegou.
Suspirei. — Sim, mas achei que fossem sair mais cedo para não pegar justamente o trânsito — respondo, cruzando os braços.
— Estamos aqui Nii-san, é o que importa, não?— perguntou Kawarama, apoiando o queixo no ombro do mais novo.
Não consegui encontrar palavras para reclamar quando encarava os rostos sorridentes deles para mim. No fim, só acenei, deixando-os organizar os presentes na sala e depois uma caminhada pelo jardim. Itama juntou as pétalas caídas com cuidado, colocando cada uma em sua cesta de palha para um futuro trabalho — ele criava joias com matéria prima natural. Enquanto Kawarama via as plantas que deixou ali na primavera, contente em ver algumas ainda firmes na terra levemente esbranquiçada pela neve que caia.
Nesses instantes de poucas conversas, me vi apenas um figurante diante de meus irmãos mais novos. Eles tinham tanto a conta, fosse sua vida profissional ou vida amorosa. As novidades que tinha na capital, cursos temporários que fizeram para ampliar suas habilidades ou apenas pequenas mudanças feitas em suas próprias casas. Diferente de mim, que apenas ministrava aulas de História na escola local à tarde, no turno da manhã cuidava de crianças tão pequenas que mal havia tempo para pensar em trivialidades da vida.
A única exceção era aquele jardim.
Aquelas flores e plantas deixadas por eles para mim.
É a clareza diária de paciência e cores que preenchem meu silêncio com sua presença delicada.
Até que entre um piscar de olhos e um suspiro ouço a voz gritante de Hashirama na porta.
— Tobirama!!
— Anija, não precisa gritar — respondo de volta, ouvindo os passos pesados do homem que é uma grande criança atravessarem o soslaio da porta e vir até a cozinha externa.
— Você nem vem receber seu Anija. — Um biquinho se forma nos lábios do mais velho. Não pensando duas vezes antes de se jogar sobre o corpo menor do albino, este que descansava em uma cadeira de balanço. — Anija trouxe tantos presentes, esperou e esperou no portão e nenhum dos meus otouto veio me acudir.
— Anija saia de cima de mim!!! Anija!! — Não era a primeira vez que Hashirama fazia drama por coisas pequenas, mas suas ações eram sempre imprevisíveis, como agora. — Você é pesado, saia, saia!! Itama tire esse idiota daqui!!
Talvez minha expressão fosse muito engraçada. Talvez Hashirama tivesse combinado de chegar sorrateiramente só para me provocar. Ou só a diferença física de Hashi para a nossa nos tornar incapazes de vencê-lo quando sua estatura nos subjugar com seus abraços apertados. Seja qual fosse, o rubor que sentia em minhas bochechas e os tapas pouco delicados que dei nele o expulsaram com relutância.
— Se você quebrar minha cadeira, terá que me dar uma nova — apontei, fumigante.
Hashirama, por outro lado, só fez rir e pegar a mão delicada entre as suas. — Se você quisesse outra cadeira, Anija dará sem reclamar, você sabe disso. — O brilho amoroso com um toque travesso irradiava nas íris castanhas.
— Nii-san, não brigue com Anija — Kawarama pediu.
— Anija só queria te fazer sorrir, não fique bravo — Itama também se manifestou, o sorriso sem graça no rosto. — A culpa é nossa por pedir a Hashi para chegar de surpresa, não culpe ele.
— Itama, você…
O ar pareceu pesar um pouco mais no peito. Não desviei o olhar, apenas as palavras quase não se encontravam em minha mente, como se estivessem embaralhadas, indizíveis. Ainda assim, quando os encarava de volta, percebia que meu olhar estivesse dizendo bem mais do que a boca naquele instante.
Itama continuou — Desde que aquela moça o perseguiu, sabemos que ficou receoso em sair de casa ou nos visitar como fazia antes… — Seu olhar acompanha os dos irmãos ao lado. — Então pensamos em ficar por aqui… até o ano novo… se você quiser, claro.
O ar pareceu pesar um pouco mais no peito. Não desviei o olhar, mas precisei de um segundo a mais para responder, pois não pude simplesmente dizer “não”, porque não existia essa possibilidade em nenhum universo em que aqueles três não fossem meus irmãos. Para eles, sempre seriam “sim” para tudo que quisessem fazer, para tudo que envolvesse suas presenças ao meu lado.
— Vocês… — A risada que escapou era baixa e rouca. A vergonha perdendo lugar para uma sensação infantil de chorar, mas não diante deles. Não agora. — Se forem ficar… não ocupem o escritório. — pigarreei. — A magnólia solta muita folha no corredor.
Hashirama chorou por mim, novamente vindo como uma grande muralha ao me abraçar, acompanhado dos mais novos. O calor contrastando com o frio ameno, a segurança que aqueles braços me traziam espantava todo o desconforto e temor que me atormentam nos últimos meses. E, por um segundo, deixei as defesas do meu coração cair só para me esconder nos braços fortes de Anija e deitar no ombro de Itama — só por um segundo…
O tempo que ficamos ali não foi perceptível, apenas quando a brisa trouxe o cheiro da comida posta na mesa que lembramos que ainda era noite de Natal, assim o abraço foi desfeito devagar. Sorrisos trocados com a mais cumplicidade de anos, mas nenhuma palavra dita. Logo a cozinha se encheu de vozes e barulho de talheres, pedidos de: “coloque mais vinho, Anija”, “Nii-san fez um purê maravilhoso”, “Trouxe panetone pra gente tomar café da manhã.” Até pequenas reclamações vinham cheias de doçuras:
— Nii-san, você colocou pouco sal — reclamou Kawarama, enchendo o prato pela terceira vez com carne e macarronada.
A falsa hipocrisia quase me fez rir, porém não desviei o olhar da tigela em minha mão. — Se coloquei ou não, por que continua repetindo? Idiota.
Kawarama deu uma gargalhada, acompanhado de Hashirama ria mais alto, como sempre.
— Ainda brigam por isso? — disse, já servindo mais comida na tigela de Itama. — Lembram quando a gente mal tinha o quê dividir?
Lembrávamos.
Não que isso tivesse nos tornado desesperados pelo conforto — talvez no fundo sim. Ainda assim, mencionar o passado não deixava mais a mesma sensação amarga dos primeiros anos distantes de Konoha.
— Anija e sua boca grande. — Com um movimento, agarrei os lábios dele com os hashis, prendendo-os. — Se não tem o que falar, coma.
Um olhar foi trocado entre os três mais novos, logo Itama pegou um pedaço do frango e o colocou na boca de Hashirama, forçando-o a mastigar. Kawarama sorriu, servindo mais comida ao mais velho, seguido por mim que enchia o corpo com vinho e o fazia beber um gole a cada parada. Ninguém comentou mais, embora Anija tenha ficado ocupado demais em terminar tudo que foi posto em seu prato, nós também comemos um pouco mais devagar.
E assim, a ceia seguiu cheia de risos fáceis, provocações antigas, histórias repetidas com detalhes diferentes. Itama comentou sobre o trabalho, alguém zombou da forma como Hashirama ainda gesticulava demais ao falar, e eu corrigi uma data que ninguém tinha perguntado. Era o nosso jeito de estar juntos.
Depois da comida, vieram os presentes. Nada extravagante. Coisas úteis: livros, cachecóis, novas sementes para uma futura horta — ideia de Hashirama, claro. Entre outras pequenas lembranças que diziam “eu vi isso e eu pensei em você”. Em cada reação, aquele silêncio sumia pedaço por pedaço e minha alma parecia se tornar mais confortável na pele. Logo Kawarama tirava fotos para guardar na árvore da memória no canto da sala, onde havia cada conquista e evento registrado sobre nós, sobre nossa família.
— Anija, Nii-san, Itama-kun peguem os presentes e sorriam — delegou, a câmera preparada.
Não havia vergonha na hora que o flash brilhava em nossos rostos seguidos de novas poses para outras fotos.
— Kawa-kun abrace Nii-san e Anija com seu presente — ditou Itama. — Isso! Anija faça assim…
O momento das fotos durou por mais alguns minutos até vermos que a hora se aproximava. Me levantei do sofá e fui até o armário do corredor, peguei as pás pequenas na prateleira mais alta, gastas pelo uso anual. As trouxe de volta para o jardim onde os três tinham iniciado uma rodada de UNO em cima do tapete. Não precisei dizer nada para que, um a um, percebessem o que significava.
— Continuamos depois — disse Hashirama, mais baixo.
— Sim…
A resposta veio em uníssono enquanto eu os esperava tomar suas pás. Um olhar trocado, as luzes apagadas, restando apenas as lanternas nos beirais acesas. Os cachecois novos em cores distintas se destacavam sobre as roupas. O quintal frio trazia um conforto que poucas pessoas entendiam, nossas pegadas deixadas no chão macio. A magnólia no centro de todo esse verde profundo e branco, nos aguardava em silêncio, imensa e firme, vivenciando mais uma vez nosso encontro. E antes que os fogos começassem a decorar os céus, a expectativa já existia entre nós.
Devagar distribuí os cartões azulados — uma tradição antiga feita desde que cada um conquistou um caminho, um papel simples, sem enfeites. Cada um se afastou um pouco para escrever. Não li nenhum. E nunca irei ler. Aquele papel simbolizava desejos e agradecimentos, sentimentos que não devem ser lidos ou mensurados em palavras ditas pela boca.
— Prontos? — perguntei, guardando o meu dentro do envelope.
— Esse ano tive muito mais a pedir do que para agradecer — Hashirama se aproximou, com seu próprio já guardado.
— Anija terá que trabalhar mais para conquistar tudo que pediu — murmurei, sorrindo.
Ele sorriu de lado. — Eu sei… por você, por Itama e Kawarama… Eu irei.
Não me surpreendia que todos os desejos dele fossem só sobre nós, por isso eu estava aqui, para desejar por ele coisas para ele e nossos irmãos.
— Tudo bem… — sussurrei, tocando seu rosto com cuidado, guardando aquela expressão calorosa em minha mente. — Anija só não deve se desgastar.
Ele não rebateu, cobrindo minha mão com a dele antes de beijar a palma e se afastar. Embora ter esses carinhos explícitos me deixassem irritado pela naturalidade de como acontecia, não conseguia brigar com ele e só deixei como estava, por hoje.
Quando todos terminaram, ajoelhei-me perto da raiz mais espessa da magnólia e cavei o primeiro buraco. A terra estava fria, úmida, mas cedia com facilidade — como se já conhecesse o gesto. Seguido de outro buraco feito do outro lado e assim um a um, os cartões foram enterrados em seus respectivos lugares, cobertos com cuidado pela natureza que nos rodeava. Hashirama foi o último e bateu a pá no chão ao final, selando a terra com força.
Nos últimos instantes do dia 24, permanecemos parados, encarando os lugares que deixamos os envelopes. Lembranças de como o ano passou rápido, do que foi perdido entre as dificuldades, do que foi conquistado entre lágrimas. Noites profundas, dias quentes. Sorrisos. Abraços. Lutas. Inseguranças. Foram tantas camadas divididas em doze meses que não findava ali, mas que já deixava a sensação de fim e do que poderia vir a acontecer no novo ano que iria se iniciar.
Observei meus irmãos mais novos limpando lágrimas silenciosas, depois se abraçando com risadas bobas e sem graças, trocarem votos baixos e olhares de cuidado. Não precisei ouvir para saber o conteúdo. Eram sempre variações da mesma coisa: fique, volte, permaneça.
Olhei novamente para a magnólia.
Ela sobreviverá a invernos mais duros que aquele. A verões secos, a anos de silêncio, a mudanças que nenhum de nós poderia evitar. Ainda assim, florescia.
Sempre.
E sempre.
Como eu. Hashirama. Itama. Kawarama.
— Feliz Natal, Tobira.
— Feliz Natal, Anija.
Braços me rodeiam, um queixo firme apoiado em meu ombro. O relógio atrás de nós marcando meia noite, os primeiros fogos cortaram o céu, refletindo-se nas pétalas caídas e nas que restavam. Por um instante, tudo ficou suspenso — o tempo, as palavras, até mesmo os pensamentos.
Respirei fundo.
Talvez eu não gostasse do Natal.
Mas gostava disso.
Fim…
