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Pinto na parede

Summary:

Ser o "nerd" da escola nunca foi um incômodo pra Dan Heng, mesmo que isso significasse que ele teria que aparecer em alguns eventos, fazer algumas falas em prol da escola, ser o porta voz da direção para os alunos algumas vezes, mas aquilo era demais. Aquela era a função mais vergonhosa que alguém já tinha lhe dado dentro daquela escola de selvagens, incontroláveis, animalescos e, principalmente, nojentos alunos.

Dan Heng tinha que tirar um pinto de borracha com ventana colado na parede da escola depois da ridícula festa de fim de ano para a qual ele não queria ir.

O bom é que apareceu um garoto disposto a lhe ajudar.

NO, THERE IS NO SMUT.

Notes:

Feliz aniversário!

Sim, essa fanfic foi inspirada em um meme de um garoto tentando tirar um pinto de borracha da parede do colégio. Achei que serviria pra você.

Divirta-se 😘

Chapter 1: Gente ridícula e festa ridícula

Chapter Text

Dan Heng sempre foi um bom aluno. Boas notas, boa frequência, boa relação com professores e pedagogos, bom nível de interesse nos assuntos relacionados a escola e um ótimo nível de desinteresse na vida dos outros adolescentes a sua volta, na opinião da assustadora professora Kafka.

Ele nunca se incomodou com esse fato. Na verdade, ele não parecia muito incomodado com nada à sua volta, preso sempre ao seu mundo de livros e estatísticas. Ser o "nerd" da escola nunca foi um incômodo pro garoto, mesmo que isso significasse que ele teria que aparecer em alguns eventos, fazer algumas falas em prol da escola ou ser o porta voz da direção para os alunos, como na vez em que ele teve que entregar panfletos sobre prevenção sexual com uma caixa de camisinhas debaixo do braço. Bem, na verdade, essa foi a única vez em que ele achou que a direção havia abusado de sua boa vontade como aluno. Aquilo foi ridículo.

Mas não mais ridículo do que a situação em que ele se encontrava agora.

~~~~~~


Os corredores estavam limpos. Dan Heng percebeu isso como um sinal do trabalho das pobres faxineiras ontem a noite. O garoto tinha sentimentos mistos sobre o dia após a faxina, que acontecia toda semana. Ele adorava a sensação do limpo. Quando tudo estava limpo, era como se seu cérebro reiniciasse e ele entrasse num estado de paz quase inalterável-bem, quase porque ele estava na escola, e nenhum estado de paz permanecia inalterado por muito tempo numa escola. Mas pra todos os efeitos, Dan Heng gostava do cheiro de produto de limpeza que subia aos corredores brancos, mas sentia pelas tias da limpeza que tinham que lidar com a porquisse dos outros alunos. Hoje estava tudo limpo, mas em uma semana isso tudo estaria encardido de novo.

E como uma continuação aos seus pensamentos, o corredor começou a se encher e todos os tipos de sentidos tomaram conta do ambiente. Alunos que cheiravam a mofo, trancados por horas em salas empoeiradas, alunos cheios de cansaço, alunos cheios de empolgação, alguns alunos com cheiro de ervas, alunos com perfumes intensos, alunos com tipo de perfume algum. Dan Heng notava tudo isso. Mas ele decidiu focar mais em seu sentido visual quando dois alunos com cara de "não dormi essa noite" subiram até o batente da parede e ergueram uma bandeirola, daquele tipo de bandeira de São João onde cada letra fica dentro de um triangulozinho colorido, escrito "Festa de fim de ano". O corpo todo de Dan Heng foi tomado por um sentimento de "não quero ter nada a ver com isso" imediatamente.

Seus olhos pararam de se contrair em repulsa quando ele avistou mechas cor-de-rosa claro no seu caminho. Se aproximava dele um ser feito de tiras de plástico coloridas e confetes caindo pra fora de uma triste caixa de papelão. A primeira instância, era difícil identificar a criatura, porém uma saia com várias costuras que adicionavam as cores rosa, branco e azul claro ao azul apagado da farda escolar e um sapato preto denunciavam sua verdadeira identidade. Logo os braços (não tão fracos) de Dan Heng receberam uma caixa de papelão sendo entregue com fervor, e ele passou a ser a criatura não identificada feita de confetes de carnaval e tiras de plástico tristes.

-Tão começando os preparativos pra festa! -Falou uma voz aguda, que fez doer os ouvidos sensíveis de Dan Heng de tão histérica. Era sete de março, sua amiga. Bem, amiga, não. Mais pra colega. Mais pra partilhadora e mantenedora de segredos, já que sete de março de algum modo sabia que ele era gay e, ironicamente, eles começaram a se falar por causa de uma festa: a festa de formatura do nono ano. Ele ainda se lembrava da primeira interação dos dois.
"-Você não quer chamar ninguém pra formatura porque você é gay, né?

-Quem disse que eu sou gay? -E, movimentando os ombros e arregalando os olhos ela falou, como quem fala algo com pura honestidade: -Dá pra perceber"
Dan Heng ficou feliz por ter sido mencionado como um garoto gay. Antes ele era só uma garota "normal". Naquele ponto, ele já tinha feito todos os trâmites necessários, como mudar o nome na chamada, mudar um pouco sua aparência por meio de corte de cabelo, roupas e uso de pronomes, e até inicializado os impedidores de puberdade. Mas mesmo quando você é uma pessoa praticamente fora do armário, ainda existe gente que não se toca, e Dan Heng sentia que o fato dele ser reservado não ajudava no processo de outros entenderem sua identidade. Aquela foi a primeira vez em sua vida onde alguém presumiu sua sexualidade sem nem duvidar da sua identidade primeiro. Aquele foi o primeiro momento em sua vida onde ele se sentiu um garoto legítimo.

"-Bem, de qualquer jeito, eu acho que eu não iria pra festa. A formatura é uma cerimônia um pouco...ridícula.
-Sabe aquele garoto? Eu acho que ele é gay também." -Dan Heng olhou pra trás de si, para onde o dedo de sete de março discretamente tinha apontado um segundo atrás. O garoto era diferente. Tinha um cabelo longo, muito longo, só que ele escorria pela sua nuca em algumas tiras de cabelo preso. Sua cor era de um tom de azul que Dan Heng pensava nunca ter visto na vida, intenso, hipnotizante, e que singelamente transacionava para um quase roxo nas pontas. Seus olhos o faziam querer o olhar mais, chamando-os com um tom quase que vermelho. Foi aí que ele conheceu Blade.

Mas ele não gostava de lembrar disso.

O moreno voltou ao presente quando sentiu o cheiro intenso vindo da garota a sua frente. Sete de março estava praticamente colada nele, como acontecia quase sempre. Desde aquela festa de formatura, eles geralmente faziam as coisas juntos quando precisavam de um parceiro pra alguma coisa. E sete de março era do tipo de garota que se apoiava em você pra andar. E Dan Heng era o tipo de garoto que não queria ter que encostar em ninguém pra fazer nada. Mas ele até não se importaria tanto se não fosse pelo cheiro. A rosada sempre colocava uma colônia forte, daqueles adocicadas. E isso deixava o nariz de Dan Heng enlouquecido, talvez fosse por alguma alergia, talvez por algum outro motivo.

-Aquela festa ridícula? -Dan Heng apoiou a caixa com facilidade ao lado do corpo.
-Não é ridícula. Vai ser legal. -Sete de março deu aquela empurradinha no corpo de Dan Heng com seus quadris, segurando os braços de empolgação, como se estivesse comemorando, e ainda com seu sorriso e seu cheiro insuportavelmente forte de perfume.
Dan Heng tinha todos os motivos pra acreditar que aquilo não seria legal.
-Você diz isso pra todas as festas da escola. -Ele ajeitou um pouco mais a caixa e começou a caminhar em direção ao lugar onde ocorreria a festa: a merda do ginásio.
-Porque é verdade. -Sete de março acompanhava seu passo. -As festas do ensino médio sempre são as melhores. Não dá pra perder! Vai que você encontra alguém. -Sete o cutucou com o ombro, lançando aquele olhar sugestivo.
-Hãm. Duvido muito que tenha outro gay nesse colégio. Bem, além de... -Dan Heng olhou pro lado, parando com a caixa grande bem na entrada principal do ginásio.
-...Blade. -Completou Sete, com uma cara que acionava um sentido amargo em Dan Heng.

Depois de terem sido empurrados por um grupo de garotas e chamados de "bando de cegos", eles foram para o lado pra posicionar a caixa no chão e começar a arrumar as coisas no canto.

-Não é um bando, é só uma DUPLAA. -Março devolveu, mas as garotas já estavam longe.

-Bem, de qualquer jeito, eu não vou pra aquela festa. -Disse Dan Heng ao jogar a caixa sem muito esmero no chão.
-Ah, vai, por favor! Olha, se ninguém me chamar, a gente pode ir junto. -Março pegou em suas mãos, o arrastando para mais perto dela, como se ser colocado naquela parte do ginásio automaticamente qualificaria ele no grupo das pessoas que vão para a festa. -Pode ser legal! Talvez tenha até bebida. -disse ela baixinho, como se fosse um segredo.
-Você sabe que essa é a possibilidade que mais me assusta. Adolescentes em posse de substâncias proibidas só pode resultar numa tragédia. -O mais alto disse naquele tom calmo e sério de sempre, imaginando todos os cenários possíveis do que poderia acontecer se jovens tivessem acesso a bebida alcoólica numa festa de fim de ano dentro da própria escola.
-Você é muito certinho. Precisa se soltar mais. -A garota já pegava as decorações dentro da caixa e imaginava qual lugar seria melhor colocá-las pra poder tirar uma boa foto depois. O garoto não estava com vontade nenhuma em ajudar.
-Não vou fazer isso indo pra essa festa. -Exclamou mais uma vez. -Não vou.

~~~~~~~~


-E é por isso que adoraríamos poder contar com a sua presença na festa. -Disse a mulher de cabelos roxos e olhar imperceptível, terminando sua frase como quem termina o último argumento de um debate.

O mesmo a encarava com um olhar desacreditado. Dan Heng defendia que o respeito a qualquer funcionário ou pessoa que dedicasse seu tempo a um trabalho era primordial, e que o contrário disso era inadmissível. Mas essa mulher em específico parecia pegar no pé dele, e agora ela estava querendo que ele participasse de uma celebração ridícula com pessoas ridículas por uma noite inteira. Coisa que não ia acontecer.