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O amor espera

Summary:

Ele lhe ensinou a amar.
Com Max, aprendeu a permanecer.
𝘖 𝘲𝘶𝘦 𝘷𝘢𝘭𝘦 𝘢 𝘱𝘦𝘯𝘢 𝘱𝘰𝘴𝘴𝘶𝘪𝘳, 𝘷𝘢𝘭𝘦 𝘢 𝘱𝘦𝘯𝘢 𝘦𝘴𝘱𝘦𝘳𝘢𝘳. - Edith Stein

Notes:

Minha primeira história!!!!!
Ela é inspirada no desenho do cavaleiro chorando no casamento da princesa, então vais ser um pouquinho dramático.

Chapter 1: O que se perde antes da guerra

Chapter Text

O reino de Morrígan é tão antigo quantos as pedras nas calçadas de Roma, durante milênios o reino viveu em sinfonia com os outros quatro reinos existentes. Mas aos poucos essa sinfonia foi desaparecendo. Dois dos quatro reinos se autodestruíram e a paz que reinou ente Morrígan e o outro reino é tão fina quanto um fio de seda.

 

Em Tellūs, a paz reina desde os primórdios de sua criação. A paz é a base que sustenta os quatro espíritos e permite que eles coexistam. Pelo menos foi isso que ensinaram a Charles desde o começo.

 

Sempre deve haver paz. Charles é uma criança enérgica, que corre por aí como um vento selvagem impossível de ser domado. O único herdeiro do reino de Morrígan. Para sua mente infantil e jovem, isso significa que ele sempre tem que ser o rei em suas brincadeiras com Max.

 

Max é dois anos mais velho que o príncipe. Na prática, ele parece ser infinitamente mais velho. Filho de um dos soldados mais leais do rei, ele é treinado para proteger Charles a qualquer custo.

 

Nenhuma dessas responsabilidades é consciente nas duas crianças. Enquanto eles brincam de pega-pega na sala do trono, o vento corre por seus rostos, a liberdade por suas veias, e todas as obrigações são deixadas de lado.

 

As crianças são melhores amigas desde que conseguem se lembrar. Se Max tentasse se lembrar do passado, Charles estaria lá, e vice-versa. Uma das melhores memórias que os dois compartilhavam era de quando tinham por volta dos seis anos.

 

Eles estavam em uma colina, um lugar florido, com um aroma impecável. E corriam livremente pela colina até Charles cair e se machucar. O choro era sofrido e melindroso, saía do fundo de seu peito e chegava como um tsunami aos ouvidos de Max.

 

— Ei, Charlie, não chore, por favor. Vai ficar tudo bem. — Max não sabia como agir e só conseguia sentir o sofrimento de seu querido amigo.

 

— Dói muito, Maxie — o biquinho que Charles fazia quando estava sendo dramático sempre foi adorável na visão de Max.

 

— Não se preocupe. Nada vai doer em você enquanto eu estiver aqui, Charlie — a promessa de Max reverberou durante anos em suas vidas. Uma promessa feita em Tellūs é uma promessa cumprida. O espírito de Morrígan leva como fundamento de sua criação a promessa. Descumprir uma é um desrespeito direto ao espírito.

 

Max deixou um beijinho no joelho ralado de Charles como parte de sua promessa e o ajudou a se levantar, e a brincadeira continuou como se nada tivesse acontecido. Charles sempre amou a liberdade que tinha ao correr.

 

Ao voltarem para o palácio naquele mesmo dia, Charles contava a todos como Max era seu grande salvador, que o tinha salvado de morrer em uma queda terrível e perigosa. Sem saber que aquelas palavras selariam o destino de Max para protegê-lo pelo resto da vida.

 

Charles e Max brincavam de reino na sala do trono todos os dias. Aquela era a brincadeira favorita de Max. Ele nem entendia o porquê, mas amava o sorriso de Charles quando ele se sentava no trono de seu pai.

 

Os anos se passavam e algumas coisas nunca mudavam. Quando tinham oito e dez anos, estavam na mesma colina de sempre, correndo como se não houvesse amanhã. As risadas compartilhadas ficariam grudadas em suas memórias pela eternidade.

 

— Maxie, o que você acha de ser rei? — Charles era curioso por natureza. Explorar e instigar eram seu cotidiano.

 

— Como assim, ser rei, Charlie? Eu sou só um plebeu — Max nunca conseguia compreender completamente o que se passava na mente de Charles, mas se esforçava muito.

 

— O que você acha de virar rei junto comigo? Ia ser muito entediante sem ter você pra brincar comigo. Aí, se você virar rei junto comigo, nenhum de nós dois vai ficar entediado ou sozinho. Eu me sinto muito sozinho em todas aquelas aulas que meu pai diz que eu tenho que fazer — as perguntas de Charles sempre perdiam o foco na segunda palavra que ele dizia.

 

Seu pai costumava dizer que ele vivia nas nuvens.

 

— Charlie, pra eu virar rei, a gente teria que se casar e fazer todas aquelas coisas nojentas, como se beijar — Max nunca foi um grande apreciador de toque físico, e seu pai também não era uma pessoa que lhe dava muito amor para que ele entendesse a importância disso.

 

— Eca, eu não quero te beijar, Maxie, eu só quero que você vire rei junto comigo. — Charles se vira para Max com os olhos brilhantes e cheios de esperança. — Você não vai me deixar sozinho quando eu virar rei, né?

 

As palavras de Charles eram vulneráveis e cheias de um significado que ambos não compreendiam.

 

— Eu nunca te deixaria sozinho, Charlie — Max sempre falava isso, mas naquele momento as palavras pareciam ter bem mais peso.

 

E os dois continuaram a correr pela colina sem pensar no amanhã. Max começou a aprender a lutar com espadas antes de aprender a falar. Antes mesmo que conseguisse ficar de pé, o bebê Max já empunhava uma espada. Foi-lhe ensinado que, em hipótese alguma, ele deveria andar sem sua espada.

 

Um cavaleiro sem sua espada não é um homem, apenas um garoto, era o que lhe diziam frequentemente.

 

Aos dez anos, ele já era o melhor espadachim de todo o reino de Morrígan, mas nunca tinha tocado em um livro. Educação era apenas para as classes mais altas, e por mais que seu pai fosse um cavaleiro, aquilo ainda era inalcançável.

 

Charles já sabia falar três idiomas, ler e escrever; afinal, ele seria o próximo governante. Um reino em que a educação não chegou nem ao mais alto escalão de poder está fadado ao fracasso e à ruína. Charles nunca deveria ir a um campo de batalha, ele deveria evitá-los; portanto, nunca tocou em uma espada. Antes de saber quem era, livros e mais livros foram colocados à sua frente.

 

Um dia, Max acompanhava Charles em uma de suas aulas de latim, e sua curiosidade sobre como funcionava uma pena os levou a uma grande descoberta.

 

— Como assim você não sabe mexer numa pena, Maxie? Isso é tão básico — não passava pela mente de Charles a desigualdade que existia entre os dois desde o nascimento, uma criança que não entendia nem como conjugar um verbo.

 

— Ora, não sabendo. Simples assim. Nunca me ensinaram como mexer nesse treco — Max se incomodava por não saber algo. Como ele responderia às dúvidas de Charles se não soubesse de tudo?

 

— Como você escreve o seu nome? — a dúvida que havia se plantado em Charles era gigante. Como uma pessoa iria escrever se não soubesse usar uma pena?

 

— Hum... eu não sei escrever, Charlie — o rubor subindo pelas bochechas de Max era um grande indício de sua vergonha. Ele parecia vulnerável como Charles nunca vira.

 

Charles trava com aquelas palavras, seu melhor amigo não saber escrever é um tiro no peito dele. Em sua mente de criança todos sabiam escrever e descobrir que uma das pessoas mais importantes de sua vida não sabia o desolara.

 

Mas além de enérgico Charles sempre teve muita compaixão pelos outros e nunca passaria pela sua mente deixar seu amigo nessa situação.

 

 — Que tal eu te ensinar a escrever? — Charles se sentia nervoso sem saber explicar. Talvez fosse pelo medo de Max negar. Ele não conseguiria viver sabendo que não fez nada para ajudar a alguém .

 

— Eu não quero te incomodar Charlie. E o que eu poderia fazer para compensar esse esforço? Nada — Max não poderia lidar com o sentimento que se apossaria de seu corpo por estar fazendo Charles se esforçar demais.

 

Charles seria rei. Ele já era uma criança ocupada demais com seus deveres reais. 

 

— Por favorzinho Maxie, eu quero te ajudar e você poderia me ajudar a usar uma espada então nos dois estaríamos aprendendo alguma coisa — Era praticamente impossível dizer não aos olhinhos brilhantes de Charles.

 

Mas ainda existiam empecilhos nisso. Era proibido que o príncipe aprendesse a usar qualquer tipo de arma. Ele teria soldados para protegê-lo então porque ensiná-lo? Era assim que o rei pensava.

 

— Mas e se alguém descobrir sobre isso Charlie? Vão nos deixar de castigo para sempre e nunca mais a gente vai se ver — Max não tinha medo por si mas por Charles. Ele não merecia uma vida solitária e Max não iria deixar que ele fizesse isso consigo.

 

— A gente dá um jeito nisso depois, vem cá que eu vou te ensinar seu nome. — Charles não se importava. Nenhum castigo seria mais doloroso que saber que seu melhor amigo não sabia ao menos o próprio nome.

 

Cautelosamente Max se sentou ao lado de Charles e esperou receber alguma ordem. Charles pegou uma das penas e mostrou a Max como segurá-la da forma correta.

 

— Você coloca ela entre os dedos, desse jeito. Tá vendo? — A primeira tentativa de Max é um fracasso completo, a pena gira em seus dedos e cai no chão. — Não assim não. Desse jeito aqui. Viu?

 

A paciência de Charles é infinita, ele pega a pena do chão e coloca na mão de Max e o ajuda a colocar na posição correta para escrita. Então ele guia a pena em direção ao tinteiro e coloca a ponta da pena em um pedaço de papel.

 

— Você fez esse movimento aqui. Certo? — Ele guia a mão de Max pela folha de papel e enquanto a pena desliza Max consegue ver sua mão fazendo um daqueles símbolos que ele nunca entendeu. — Essa é a letra M, a primeira letra do seu nome.

 

Então o processo se repete com as outra duas letras do nome de Max e no fim ele consegue reconhecer as três letras M, A e X. O orgulha infla em seu peito e a sensação de vitória o domina. Ele sabe seu próprio nome. Algo que antes seria impensável. Charles solta sua mão para ele repetir sozinho os movimentos.

 

As letras agora não são mais tão belas, são um garrancho. Mas ele não se importa com isso beleza não é seu objetivo principal. Eles passam uns bons minutos com Max treinando sua caligrafia e Charles o ajudando nos mínimos detalhes.

 

— A gora que eu te ensinei a escrever seu nome você me ajudara a segurar uma espada. — O entusiasmo de Charles era contagiante e Max se sentia bem mais motivado para ajudar seu amigo a aprender defesa pessoal.

 

Max tirou a espada da bainha e colocou o punho da espada em sua mão. Max se colocou por trás de Charles  para ajustar sua postura.

 

— Olhe sempre pra frente Charlie. É ali que o seu oponente vai estar. — Max envolvia a mão de Charles por cima e segurava a espada junto com ele. — Coloque seu peso sempre na sua perna de apoio e nunca em hipótese alguma hesite. Se você hesitar antes de um ataque dará tempo suficiente para seu oponente atacá-lo.

 

Charles ouvia pacientemente e registrava tudo como se sua vida dependesse daquelas informações. Um dia poderia depender. Max soltou-o e ficou de frente pra ele. 

 

— Agora tente me atacar e lembre-se do que eu te ensinei. — Ver Max se oferecer para ser seu boneco de testes incomodou Charles. E se ele o atingisse e o machucasse? E se ele o matar? Charles não conseguia parar de pensar em diversos cenário onde as coisas dariam errado. — Pare de pensar demais Charlie, apenas lute. Você não vai me machucar.

 

As palavras de Max o incentivaram o suficiente para ele tentar dar um primeiro golpe, quando ele foi avançar colocou o peso na perna errada e se complicou todo. Seu corpo girou e ele se desequilibrou e quando percebeu já estava no chão sem nem estar  perto de Max. Era humilhante.

 

— Essa é sua primeira vez, está tudo bem dar errado. Na minha primeira vez eu cai por cima de uma saco de farinha junto com a minha espada. Voou farinha para todo lado — Max estava tentando animá-lo e estava conseguindo.

 

Até que sua primeira vez não tinha sido tão ruim assim.

 

Alguns anos se passaram, e a amizade continuava mais forte do que nunca, mas agora com uma camada de sentimentos a mais que ambos não eram capazes de nomear. Com seus quinze e dezessete anos, suas obrigações reais agora pareciam muito maiores e mais significativas.

 

Os dois sempre andaram grudados, antes por amizade, agora por obrigação. Era dever de Max proteger Charles a qualquer custo, mesmo que ele morresse para que isso acontecesse. A todo momento, ele estava de armadura e com a espada pronta para ser sacada.

 

Aquilo causava um profundo desgosto em Charles. Os olhos de Max eram a coisa mais bela já criada. Um azul tão profundo quanto o céu da meia-noite, cheio de significado e com o brilho de todas as estrelas do universo.

 

E, com aquela armadura, tudo que ainda havia para reconfortar seu pobre coração era a voz de Max. Uma melodia confortante como uma xícara de leite quente numa noite fria.

 

Charles também estava preso em suas milhares de obrigações como príncipe. Diversas aulas preenchiam sua rotina. E o único momento que tinha para ser ele mesmo era com seu pai, Kimi, monopolizado para que passassem um tempo juntos.

 

Não que Charles não amasse seu pai. Ele o amava. Seu outro pai, Sebastian, morreu quando ele ainda era bem pequeno, então tudo que tinha de família era Kimi. Mas ele era uma pessoa tão ocupada com seu cargo de rei que, às vezes, esquecia dele. Charles entendia que seu pai estava apenas tentando compensar um tempo que tinha perdido, mas não estava dando muito certo. As conversas eram frias e sem emoção, e seus deveres sempre o tiravam de perto antes mesmo de a conversa acabar.

 

Em contrapartida, o pai de Max nem tentava. Sabia que devia criar seu filho para ser tão bom quanto ele e não poupava esforços. Mas, na visão distorcida do homem, isso significava bater em seu filho até que ele fosse o melhor entre todos.

 

O corpo de Max parecia uma tela de pintura preenchida de hematomas desde a infância. O abuso não era só físico, como também psicológico; as palavras eram como agulhas atravessando sua pele toda vez que eram proclamadas.

 

Max entendeu desde pequeno qual era seu lugar no mundo, e rebeldia não o levaria a lugar nenhum. Com isso, aos dezesseis anos, ele já estava alistado no exército. Ele nem se importava com isso tudo. Seu pai poderia bater nele o quanto quisesse; se Charles estivesse bem, então ele também estaria.

 

Agora, na adolescência, ele tinha consciência de seus sentimentos por Charles.

 

Amor.

 

Um sentimento terminantemente proibido entre os dois. Max sabia que não deveria sentir, mas não conseguia impedir-se de se apaixonar cada vez mais pelo príncipe.

 

Charles era o ser mais lindo que já havia pisado na Terra, o mais próximo do que seria um anjo. Os olhos verdes como duas esmeraldas brilhantes, um rosto angelical. E não só sua beleza, mas todo o conjunto que formava Charles: seu biquinho em suas crises dramáticas, seu espírito competitivo e o sorriso mais belo e adorável já visto.

 

Charles é a definição de perfeição na visão de Max.

 

Charles sabia que sentia algo diferente por Max, mas não sabia o que era. Como qualquer adolescente que não entende nem a si próprio.

 

Uma de suas melhores memórias dessa idade foi conhecer outros amigos: Lando e George.

 

Eles eram suas damas de companhia, mas, em seu âmago, eram seus novos amigos. Com quem podia confiar coisas que não contava a ninguém. Não eram segredos, e sim algo mais profundo e sensível.

 

Seus sentimentos.

 

Outra de suas memórias-base dessa época foi quando Max terminou seu primeiro livro. Nenhuma realização pessoal de Charles foi tão significativa quanto aquela.

 

— Charlie, você não vai acreditar nisso — as conversas sobre isso eram sempre sussurradas. Um segredo a sete chaves. Ninguém podia saber, e por isso os dois estavam agachados na despensa do castelo, comendo uvas e contando seus progressos. — Aquele livro que você me emprestou, eu finalmente consegui ler. O Gato de Botas é muito legal.

 

A empolgação em sua voz fazia o estômago de Charles revirar e suas bochechas corarem sem motivo.

 

— Eu queria ter um gato que usasse botas e lutasse com uma espada. Em vez disso, a gente só tem o velho e gordo do Jimmy. A parte em que ele luta com um bandido foi a minha favorita. Foi tão legal ver as habilidades dele de espadachim. — Max não sabia que aquele era um livro infantil, e Charles não tinha coragem alguma de contar a verdade para ele.

 

— Agora que você terminou um, já posso te emprestar outro para você se divertir quando estiver de guarda. — Essa era outra coisa que o incomodava: Max plantado na porta de seu quarto durante boa parte da noite.

 

Como ele descansava? Tentava explicar isso para algumas pessoas, mas ninguém respeitava suas opiniões. O que é bem preocupante, afinal ele seria rei. As pessoas deveriam respeitá-lo? Ou ele tinha que conquistar isso? As aulas de filosofia o estavam deixando bem confuso.

 

— E você? Progrediu com a espada? — Se Max não parou de aprender a ler e escrever, Charles também não deixou a defesa pessoal. Os dois sabiam que era errado, mas qual a graça se não fosse proibido?

 

— Muito. Ontem eu consegui atingir uma pessoa em movimento. — Ele acabou quase matando Lando, que já era naturalmente dramático; depois disso, então... Para sua sorte, ele não se importava com o príncipe aprender a usar uma espada e não o deduraria. Se fosse George, a situação seria o oposto.

 

George andava com o livro de condutas praticamente debaixo do braço. Ele seguia qualquer regra quase cegamente. Se soubesse que Charles estava fazendo isso, o deduraria — não por maldade, mas por acreditar estar fazendo o melhor por seu amigo.

 

Foi nessa idade também que Max e Charles entraram em sua primeira encrenca juntos, e com dedo de George envolvido. Max estava ajudando Charles a matar uma de suas milhares de aulas do dia; eles estavam indo para sua tão familiar e acolhedora colina.

 

George foi chamar Charles para a aula e o ouviu discutindo seu plano de fuga com Max. Para um príncipe, aquilo era inaceitável. Ele correu para contar ao rei sobre as peripécias de seu filho e, antes mesmo que a dupla pudesse sair do castelo, já estavam encurralados por seus pais.

 

Daquele dia em diante, Max começou a odiar George, e vice-versa. George acreditava que Max estava corrompendo Charles, e Max acreditava que George estava aprisionando seu melhor amigo. No fim, os dois estavam certos de alguma forma.

 

Essa foi a primeira de muitas encrencas em que se meteram juntos. E a mais emblemática, exatamente por ser a primeira em que se envolveram.

 

Compartilharam muitas outras aventuras juntos, mas a mais marcante foi o aniversário de dezesseis anos de Max. Um dia que eles nunca esqueceriam.

 

Era uma manhã de domingo calma e preguiçosa. O sol nem havia nascido ainda, e Charles já estava de pé. Tudo tinha que ser perfeito naquele dia. Aniversários eram os dias mais importantes de todos para Charles. Absolutamente tudo precisava ser impecável.

 

Não precisava ser luxuoso, mas aconchegante e sincero. E a parte mais difícil era escolher um presente para Max. Ele já tinha tudo o que o dinheiro poderia comprar, e seu melhor amigo também era uma pessoa difícil de agradar.

 

Charles poderia dar a ele uma espada de ouro. Max não precisava de uma espada de ouro.

 

Ou o melhor e mais bonito escudo de todos. Max não precisava daquilo.

 

Talvez um livro. Mas, se o pegassem com aquilo, receberiam uma punição bem pior do que no dia em que fugiram.

 

Precisava ter um significado, ser de coração. E enquanto vasculhava seu porta-joias, Charles viu o presente perfeito.

 

Um colar.

 

Não um colar qualquer, mas um que se completava com o par que estava no pescoço de Charles. Os colares haviam sido feitos para seus pais, e Charles usava o seu desde o nascimento. Kimi nunca gostou muito de colares.

 

Quando seu pai morreu, Kimi não conseguiu lidar com a dor que os colares traziam e preferiu deixar os dois com Charles. E ali estava o presente perfeito: dois colares que se completavam e que só revelavam seus segredos na presença um do outro. A mesma definição de sua amizade com Max.

 

Na parte da tarde daquele domingo, Charles deu o colar a Max, e, daquele momento em diante, ele se tornou parte de seu corpo. Ninguém nunca soube que os dois compartilhavam aquele colar. E isso tornava tudo ainda mais atraente: o segredo que apenas os dois dividiam.

 

Aos poucos, os deveres reais foram consumindo a amizade. Ela não morreu, mas já não tinha mais tanto tempo para existir como antes. O pensamento de proteger Charles começava a transbordar em Max. Tudo o que ele fazia era proteger.

 

Como um soldado, e não como um amigo.

 

E as novas amizades de Charles, por algum motivo, não agradavam a Max. Elas lhe causavam um desconforto descomunal. Seu peito se apertava, e sua visão ficava levemente turva ao pensar em ser substituído por aqueles intrusos.

 

Ciúmes.

 

O ciúme consumia Max por dentro. Pensar em ser deixado de lado por aquele em quem ele mais acreditava o deixava à beira da loucura. E o que mais o desagradava era saber que seu ciúme era irracional. Max não tinha nenhum direito sobre Charles.

 

E nunca teria.

 

Max sabia que precisava ser o mais racional possível. Ele era um cavaleiro e, ainda assim, não conseguia evitar o ciúme e a paixão se entrelaçando em sua alma.

 

Aos poucos, algumas interações ficaram íntimas demais. Os apelidos já não eram tão bem vistos ao longo do crescimento dos dois. Apenas nos momentos mais reservados, os apelidos eram ditos com a força de um terremoto.

 

A amizade também não era bem vista. Um príncipe não deveria ser amigo de seu cavaleiro. Apenas de seu futuro marido.

 

Charles odiava os conservadores. Ele acreditava que o reino de Morrígan era um lugar progressista e que sua única função não era um casamento.

 

Seu pai não o estava treinando para ser um marido, e sim um rei. Então por que não podia ser amigo de Max?

 

O que antes era permitido virou completamente proibido. A amizade só existia quando não havia ninguém por perto.

 

Max entendia isso melhor do que ninguém.

 

— Eu não quero você manchando o nome dessa família — os socos já nem doíam, mas as palavras continuavam a rasgar sua alma. — Você não é amigo de ninguém. Você é um cavaleiro e vai aprender onde é o seu lugar.

 

Depois desse dia, Max já não tinha mais controle de suas ações. Era um espelho completo do pai.

 

Charles seria seu único ato de rebeldia para sempre.

 

Quando Charles completou dezoito anos, a relação mudou mais do que ele gostaria. O príncipe agora era apto a se casar.

 

Seu pai havia lhe dado liberdade total para escolher seu pretendente. Mas Charles queria Max. E sabia que não podia tê-lo.

 

Ele agora finalmente entendia seus sentimentos pelo guarda real e percebeu que os compreendeu tarde demais. Max estava apaixonado por outra pessoa.

 

Havia aquela bela mulher da vila, Kelly, uma beleza angelical e um ser humano respeitável.

 

E toda vez que Max olhava para ela, seus olhos brilhavam com a intensidade da explosão de uma supernova.

 

— Ele ama outra, Lando, e agora? Com quem vou me casar? — a tristeza de Charles era sentida até pelas paredes. O clima também estava de acordo com seus sentimentos; um temporal assolava o reino. — Vou achar um qualquer para me casar e ser infeliz o resto da vida.

 

— Não diga isso, Charles. Você nem tem certeza de que ele está apaixonado por essa mulher — Lando odiava ver seu amigo desolado por algo que ele nem podia controlar: seu coração.

 

— Mesmo que ele não estivesse, não poderíamos ficar juntos. Ele é meu guarda. — Charles se sentia derrotado e sabia que teria que aceitar qualquer casamento que lhe oferecessem.

 

Nunca, em sã consciência, ele escolheria outro homem que não fosse Max para se casar.

 

— Seu destino não está pré-escrito, Charles. Se dê o direito de escolher como vai viver a sua própria vida — George podia odiar Max com todas as suas forças, mas odiava ainda mais ver seu amigo tão infeliz. Ele quebraria todas as regras para fazer seu amigo minimamente feliz naquele momento.

 

— Como eu explicaria isso ao reino? Ao conselho? E pior, ao meu pai? — Charles pensava em todos os "e se...", em qualquer ocasião. — Então eu só diria que me apaixonei pelo meu guarda? Isso seria um escândalo em proporções gigantescas.

 

Mas, para Max, a situação era completamente diferente. Kelly não era seu interesse romântico. Era sua amiga. Uma camponesa gentil que ele conheceu enquanto patrulhava, alguém com quem podia compartilhar seus sentimentos mais profundos.

 

— Têm sido dias difíceis. Cada dia mais distante de Charles. Todo dia não temos tempo para ficar juntos, nem que seja por cinco minutos — Max se sentia decepcionado consigo mesmo. Ele não conseguia arranjar tempo para falar com o melhor amigo.

 

Que tipo de amigo ele é?

 

— Não seja tão duro consigo, Max. Vocês dois têm vidas bastante agitadas. Às vezes acontece de a agenda não bater — Kelly sempre se esforçava para colocá-lo para cima. Uma mulher de muita paciência; ouvir Max falar sobre Charles não era para qualquer um.

 

— Sinto que uma guerra se aproxima. O conselho está enlouquecido. O rei anda muito preocupado, e o exército tem começado a convocar soldados do castelo — Max não podia pensar num cenário desses sem que seu coração começasse a bater rápido demais e ele não conseguisse respirar. Em algumas vezes, ele até chorava.

 

Kelly dizia que isso se chamava ansiedade.

 

Max era um soldado do exército. Se fosse declarada uma guerra, ele seria convocado e certamente morreria. Não que ele não tivesse confiança nas próprias habilidades, mas porque uma guerra é precária.

 

A maioria dos soldados morre de fome. E uma coisa é passar o dia protegendo alguém de uma possível ameaça; passar o dia inteiro se protegendo da ameaça constante de ser morto é apavorante.

 

— Espero que você esteja errado — a angústia de Kelly era quase palpável. Sua voz não passava de um sussurro, e suas mãos tremiam sem parar. Ela também tinha alguém querido no exército.

 

Esse era outro motivo que fazia a amizade deles ser tão forte. Ambos vivendo um romance em suas mentes que não poderia acontecer. Kelly era apaixonada por Daniil, um homem de baixo escalão do exército. E era proibido que o baixo escalão em atividade se relacionasse com outras pessoas.

 

Uma medida para evitar que o número de viúvas aumentasse.

 

Os dois compartilhavam seus temores, ciúmes e adorações sobre seus parceiros, e assim a relação se fortalecia mais a cada dia.

 

Aos poucos, Charles e Max iam se substituindo, e sua amizade era deixada de lado por outras pessoas. Eles ainda eram a pessoa mais importante de todas um para o outro. Mas agora esse sentimento não era verbalizado. Uma coisa ainda permanecia a mesma desde a infância.

 

A colina.

 

Naquela colina, segredos eram trocados, confusões confessadas e o amor só aumentava. Mas nunca era dito. Em hipótese alguma. A colina continuava ali para os jovens amantes, mas os amantes, aos poucos, já não estavam ali para a colina.

 

Max começou a passar mais tempo no exército. Isso só aumentava suas preocupações sobre uma guerra iminente.

 

Charles começou a passar mais tempo com seu pai, para ter experiências com o reinado.

 

Pouco a pouco, a amizade também ia morrendo. Mas o amor continuava.

 

Lando começou a sair com um camponês chamado Oscar. Eles andavam de mãos dadas o tempo inteiro, se beijavam pelos corredores e trocavam olhares melosos o dia todo.

 

Charles sentia seu estômago revirar com aquelas cenas. Inveja. A mais pura inveja. Não sabia por que se sentia assim. Ele estava muito feliz pelo amigo e queria o melhor para ele. Mas assistir a outro casal sendo feliz enquanto ele estava fadado à solidão era deplorável.

 

— Ele é tão gentil comigo, Charlie, tão bondoso e me trata tão bem — os olhos de Lando formavam dois corações em sua íris, tamanha a paixão que ele sentia.

 

— Não me chame assim — o tom de Charles era seco e cortante. Ele vinha falar de um amor dando certo e ainda o chamava pelo apelido que só Max usava. Charles estava a ponto de considerar aquilo um insulto direto à coroa.

 

— O quê? Qual o problema, Charlie? — Lando não entendia tamanha melancolia que acompanhava Charles quando o assunto era Max.

 

— NÃO ME CHAME ASSIM! Você vem aqui, me insulta com esse amor ridículo, me humilha com sua felicidade e ainda acha ter o direito de me chamar por algo que eu não quero ouvir! Saia já daqui! Não apareça no meu quarto nunca mais e vá embora! — o grito de Charles saía do fundo de seu peito.

 

Ele não queria insultar Lando nem ser tão grosseiro, mas aquilo tinha sido a gota d'água para algo que Charles já estava segurando há muito tempo. Lando saiu do quarto assustado, questionando-se sobre o porquê de tamanha tristeza por algo tão banal.

 

No momento em que Charles ouviu o clique da porta se fechando, as lágrimas rolaram soltas por seu rosto. Seu peito começou a apertar e a visão a ficar turva. Os joelhos fraquejaram, e ele caiu no chão. Sem forças para se levantar, Charles ficou ali, soluçando no chão, lembrando-se de um amor que nunca poderia ter.

 

Ele não saberia dizer quanto tempo se passou, mas ficou no chão chorando até adormecer. Quando acordou, já era noite. O mundo girava e o peito doía. George bateu na porta para entrar, mas foi dispensado. Ele não desistiu de bater, e Charles não desistiu de dispensá-lo, até se cansar.

 

— Saia daqui, Russell! Vá embora e me deixe em paz. — Charles já nem tentava mais controlar o tom de voz; tudo o que fazia era gritar, tentando apagar um pouco da dor no peito.

 

— Saiba que, se você precisar de mim, estarei sempre aqui, tá? — foi a última coisa que ouviu de seu amigo antes de escutar os passos se afastando.

 

Aquilo só destruiu Charles ainda mais. O choro voltou com uma força ainda maior. Ele podia ter todos ao seu lado, mas a única pessoa que ele queria não estava ali.

 

Ao olhar pela janela do castelo se sentiu ainda mais traído, Max e Kelly lado a lado andando enquanto riam e se divertiam. O ciúmes o consumiu. Não só tristeza como também a raiva tomou conta de seu corpo.

 

Seus estomago se embrulhou e liquido lá presente voltou com força por sua garganta. Ele vomitava toda a raiva, tristeza, ciúmes e amor em seu corpo. Uma rachadura estava presente em sua relação e não havia mais nada a ser feito contra ela.

 

Max sempre dizia a ele que nunca o deixaria sozinho.

 

Agora ele se sentia mais sozinho do que nunca.

 

Agora Charles e Max têm 24 e 26 anos, respectivamente, e muita coisa mudou entre eles e no mundo. A amizade era apenas uma memória no fundo de suas mentes, que os lembrava de um passado distante. O amor só aumentava a cada minuto que se passava. E continuava sendo o único segredo que eles não compartilharam um com o outro.

 

Uma guerra foi declarada. Reinos de fora de Tellūs tentam atacar Morrígan pelo mar. O reino está em estado de calamidade. Charles não se sente preparado para lidar com essa situação sendo rei.

 

Morrígan é um reino próspero e avançado, mas está sendo atacado por reinos com tecnologias muito acima das suas. A única coisa que ainda mantém o reino estável é a presença do espírito primacial.

 

As vilas se encontram destruídas e caóticas, o povo passando fome, sem ter nada a que se amparar. A situação está enlouquecendo Charles; ver seu povo sofrer e não poder fazer nada é definitivamente uma das piores sensações que ele já experimentou.

 

A pior foi perder Max.

 

Seu peito ainda se aperta ao lembrar que eles já foram melhores amigos e agora não resta nada. O pior era ver Max agir como se nada tivesse acontecido. Vê-lo passar por ele como se eles não tivessem perdido a parte mais bonita de suas vidas doía.

 

Mas a mente de Max está muito mais turbulenta do que Charles imagina. Ele sabe que vai ser convocado. É questão de tempo. E sabe que não vai sobreviver a essa guerra. Ele vai morrer e nunca dizer ao homem que ama o quanto ele é especial. A mente dele não tem capacidade de processar um mundo sem Charles.

 

Imaginar Charles vivendo sem ele é como uma adaga em seu peito. Uma que ele terá que arrancar uma hora ou outra. Ele não pode viver com ela cravada em seu peito porque é mais confortável.Ele já conseguia imaginar seu corpo estirado no chão e banhado de sangue, morto apenas na carne; sua alma havia morrido no momento em que deixou Charles escapar entre seus dedos.

 

Ele estava planejando confessar seu amor, não porque fosse corajoso, mas porque não podia morrer deixando Charles achar que ele nunca o amou.

 

Max o ama até o último fio de cabelo. Moveria montanhas e mares para provar seu amor pelo príncipe. Faria o possível e o impossível para ter uma única chance. E ainda assim recusaria aceitar esse amor para protegê-lo. Depois de fazer tudo ao seu alcance para cuidar dele, iria se permitir ser um pouco egoísta e pensar só em si.

 

Max acredita que ser amado é ser visto, e ele viu todas as versões e possibilidades que Charles tinha. Ele se lembra de tudo sobre ele e nunca esqueceu nenhum pequeno detalhe. E agora acredita que finalmente poderá dizer isso em voz alta. Nem que seja apenas para ter uma morte tranquila.

 

É melhor falar ou morrer? Ele teria a resposta para essa pergunta em breve.

 

Numa tarde fria e chuvosa, um dos guardas chegou até ele e deu a notícia.

 

— Seu navio parte amanhã cedo. Esteja no cais antes do sol nascer. — Aquela era a sentença de morte mais curta que ele já tinha ouvido.

 

Ele não pensou duas vezes antes de ir atrás de Charles. Era agora ou nunca.

 

O príncipe nem sonhava que Max estava alistado, e essa era uma das poucas coisas que confortavam seu coração naquele momento. Max estava seguro.

 

A porta de seu quarto se abriu com um estrondo, e um Max ofegante entrou sem pedir permissão. Naquele instante, Charles soube que algo estava errado. Max nunca entrava sem permissão.

 

Ele caminhou a passos largos e segurou o rosto de Charles entre as duas mãos. O pânico estava escrito nos olhos de Max.

 

— Charles, meu bem... Eu não queria te dar essa notícia assim. Quem sabe, em outra vida, eu tenha tido a oportunidade de dizer isso antes e não nos condenar.

 

Charles travou no lugar e só conseguia ouvir um zumbido insistente.

 

— Eu te amo. Eu te amo tanto, Charles Leclerc. Cada parte do seu ser eu amo com toda a minha alma. Você foi enviado diretamente dos céus para mim, como um belo anjo. Eu amo seus olhos verdes-esmeralda, a cara de cachorrinho que você sempre faz para pedir alguma coisa. Amo o biquinho que você faz toda vez que está sendo dramático. Amo sua compaixão, o quanto você se importa com os outros. — Lágrimas escorriam sem parar dos olhos de ambos. — E eu sinto muito por nunca ter dito isso antes.

 

Ele faz uma pausa e respira fundo.

 

— Saiba que eu vou pensar em você em cada momento no campo de batalha. Vou levar uma parte de você comigo em cada instante em que eu estiver longe. Vou pensar em você ao dormir e ao acordar e, com a bênção de todos os espíritos, eu vou ganhar essa guerra. Por você. — A fragilidade em sua voz fazia o coração de Charles se apertar ainda mais.

 

Max estava indo para a guerra?

 

Não.

Não, não, não.

NÃO.

Seu Max.

 

Charles não se sentia capaz de reagir. O amor de sua vida estava à sua frente, confessando seu amor, e ao mesmo tempo dizendo que iria para um campo de batalha mortal, de onde talvez não retornasse para casa.

 

Um silêncio mórbido se instalou.

 

Charles não respondeu nada.

 

Max entendeu que aquele silêncio era tudo. Respondia a todas as suas perguntas. Charles não o amava. Ele era apenas mais um idiota que achou que tinha chances.

 

— Talvez em outra vida sejamos nós dois, Charlie. — Max beijou sua mão e saiu da sala, levando seu remorso e o coração de Charles junto.