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𝓟RIMEIRO ENVENENAMENTO DO AMOR
Havia algo interessante em acordar com o canto dos pássaros em plena quatro da madrugada, mas isso era algo que a filha da Branca de Neve deveria fazer com um sorriso no rosto e corretivo suficiente para mascarar o peso da perfeição.
Apple era uma garota atarefada: acordava às quatro, se arrumava às quatro e meia, e ia correr. Ela dava pelo menos quatro voltas em torno da escola antes de correr para o dormitório e começar a se preparar para o dia a dia. Às seis em ponto, ela saía do quarto com um sorriso no rosto, batom vermelho vibrante na boca e um rastro de essência de maçãs exalando pelo ar.
A saia no tamanho ideal de uma dama, bem passada e alinhada; a blusa de gola com um decote suave — nada muito vulgar, nem muito senhora. Apenas perfeita.
Como sua mãe sempre quis que ela fosse.
Ela sempre caminhava pelos corredores com um sorriso no rosto, comprimentava e acenava para as pessoas; ajudava quando necessário e, o mais importante: mantinha sua posição no topo da hierarquia escolar.
Presidente do Grêmio Estudantil, Capitã do Time de Líderes de Torcida, Presidente do Clube do Livro, Editora-Chefe do Jornal e Anuário Escolar, Presidente do Comitê Real de Ética e Líder de Sala pelos últimos cinco anos, desde que entrou na escola no nono ano.
Essa era a Apple White.
A menina de ouro de Auradon. A perfeita princesa de contos de fadas.
A que andava de salto alto sem reclamar o dia todo, a que retocava o batom de hora em hora para estar perfeita, a que só conhecia a sensação de tirar A e nunca B.
A que ganhava todas.
E ela estava tão cansada disso tudo: do peso nos ombros, da rotina sem descanso, das pessoas que não largavam do seu pé. "Apple, venha aqui!" "Apple, me ajude com isso!" "Apple, a máquina estragou!" "Apple, me ajude a estudar!" "Apple, estou com um problema para resolver!"
Ela não aguentava mais: o sorriso forçado, o aceno de concordância, as palavras afirmativas que saíam da sua boca e o seu braço sendo puxado para lá e para cá.
Ela queria paz, e nada melhor que a maconha para lhe proporcionar isso.
Esse era seu segredinho sujo. Com grandes responsabilidades, vêm grandes traumas e, o mais importante: modos sujos de ajudar a lidar com eles.
A sensação relaxante que aquilo lhe proporcionava era tremenda, uma onda de alívio que percorria cada fibra do seu ser. Sua cabeça flutuava, leve e desimpedida, como se as preocupações do mundo tivessem sido varridas para longe. Seus ombros, que sempre estavam tensos e rígidos, caíam de um jeito que só a maconha, com seu abraço narcótico, poderia proporcionar.
Era uma entrega total, um abandono consciente às sensações que preenchiam cada recanto da sua mente e corpo, diluindo as arestas afiadas da realidade em um mar de tranquilidade e torpor.
O que nos leva a sua atual situação, sentada no chão ao lado de sua amiga numa parte isolada da escola.
— Você vai se atrasar. — A voz da sua companheira de fumo soou.
— Merda! — Praguejou. — Meus olhos estão muito vermelhos?
— Você mal encostou no cigarro princesa. — A ruiva revirou os olhos. — Está perfeita.
Os olhos negros como breus da menina vestida de rosa das cabeças ao pé se encontrou com o da ruiva cacheada.
— Não brinque com isso, Rowan Dumbrach! — A loira bufou.
— Tudo bem, nome completo é porque a coisa tá feia. — A cacheada murmurou.— Vai ficar tudo bem loira, você vai lá, vai receber os vilões e acabou.
— Eu ainda não sei porque a fada madrinha quer que eu vá. — Cruzou os braços.
— Presidente do grêmio estudantil? Presidente do comitê real de ética? — A ruiva perguntou sarcasticamente. — Talvez isso refresque sua memória.
A loira bufou outra vez.
— Já tenho muita coisa para fazer. — Reclamou. — E isso é só mais trabalho para mim. AGH!...Ben e suas idiotas ideias.
— Olha como fala do seu futuro rei. — Debochou. — Vão te decapitar em praça pública por difamação à família real.
— Cala a boca, Ro. — A loira se levantou do chão. — Deixe um pouco para mim, assim que voltar daquela apresentação vou precisar de muita erva.
— VAI NESSA LOIRA! — A ruiva gritou vendo a amiga se afastar.
E então, algo lhe veio à cabeça:
Quando Rowan Dunbroch entrou no seu dormitório, no primeiro dia de aula, com seus cabelos ruivos, cacheados e selvagens ao vento, ela viu um ser pequeno com o cabelo loiro preso num perfeito rabo de cavalo sem nenhum fio solto, com uma roupa impecável e pequenos saltos de plataforma, ao lado de uma elegante mulher de cabelos pretos ébano, pele branca como a neve e lábios vermelho-sangue. Todas as duas pareciam perfeitas demais.
Então, quando olhos pretos escuros encontraram seu corpo com um sorriso grande e gentil, ela estremeceu. O sorriso perfeito dela não alcançou os olhos negros. Um músculo tenso retorceu a mandíbula, e o olhar varreu as calças rasgadas de Rowan com um nojo rápido, quase imperceptível.
Essa era Branca de Neve, mãe da sua colega de quarto perfeita.
No começo, as duas mantinham uma distância educada. Apesar da loira se manter o mais longe possível de Rowan, Apple nunca deixava de cumprimentá-la com educação e gentileza. A amizade das duas veio depois, formada por segredos, ajudas silenciosas e muita maconha.
Algo que começou sem compromisso, e hoje, preocupava a ruiva com o exigente vida que a loira mantinha.
🍎
Parada ao lado esquerdo da Fada Madrinha, Apple ajeitava sua saia pela milésima vez.
Após ter passado uma dúzia do seu perfume de maçã para encobrir o cheiro da maconha deixada, ela correu o máximo que seus saltos de agulha permitiriam para alcançar a chegada dos VK’s a tempo.
Detalhe: ela chegou bem antes dos mesmo.
— Querida. — A voz suave da Fada Madrinha soou. — Você está perfeita, como a sua mãe.
— Obrigada, professora. — Ela respondeu sorrindo forçado.
— Apenas verdades, querida.
— Benny bu. — A voz melódica de Audrey se fez presente. — Tem certeza que é uma boa ideia?
— Eles não são seus pais Audrey. — Ben disse. — Merecem uma chance.
— Sorria e seja gentil Audrey. — A loira se impôs na conversa. — Você é a futura rainha, demostre a gentileza que o cargo exige!
Uma pequena tensão se formou entre as duas, palpável no ar como a eletricidade antes de uma tempestade. A disputa entre Apple e Audrey, uma rivalidade que parecia inerente ao seu DNA, começou muito antes do que podiam se lembrar, enraizada nas gerações passadas. Desde suas mães brigando ferozmente pelo posto de mais bela nos salões da alta sociedade, até a geração presente, a competição era um fio invisível que as conectava e as separava.
Havia, no entanto, uma única coisa na qual Apple, apesar de toda a sua perfeição aparente e o orgulho que sempre buscou em sua mãe, não conseguiu realizar: namorar Benjamin Florian. Foi a primeira e última vez que Audrey a venceu, ela fez questão disso.
Namorar Ben seria apenas uma fachada para sua posição perfeita na sociedade, um fardo a mais em sua longa lista de afazeres, mas algo que deixaria sua mãe satisfeita; e que a destruiria por dentro.
Apple sempre soube que era diferente, que não deveria olhar para as meninas da forma que olhava, que seu coração acelerado pela aproximação de Rowan no começo da amizade era fora do comum.
Ela era uma aberração. Era isso que sua mãe falaria se descobrisse.
— Estão chegando! — Fada Madrinha exclamou. — Sorriem crianças.
Com um gracioso aceno de suas mãos em direção à banda, a fada madrinha deu o sinal. Instantaneamente, uma melodia comum que tocava nos jogos de futebol começou a preencher o ar, misturando-se ao burburinho da expectativa. No mesmo instante, uma limusine elegante e reluzente começou a deslizar suavemente pela estrada, aproximando-se com uma majestade silenciosa.
O carro diminuiu a velocidade suavemente. A porta da limousine foi aberta, e antes mesmo que pudessem se estabilizar, dois garotos saltaram para fora. Eles se embolavam, empurravam e trocavam insultos, brigando por doces.
A única coisa que passou na cabeça da loira foi:
Dois vira-latas.
Se sua mãe visse esse comportamento ela os teria comido vivo com aulas e mais aulas de boas maneiras, sermões implacáveis sobre comportamento em público e a imagem perfeita que se deve manter.
— Ah, ah! — O garoto de cabelos compridos falou. — Para!
— Você pegou todo o resto, seja lá qual for isso! — O de cabelos brancos falou.
— Você não divide! — Rebateu.
— Não! Me dá aqui! Ah! — O menor disse.
— Solta!
Então, com uma elegância surpreendente para alguém que se supunha ter vindo de uma ilha sem modos, uma garota de cabelos roxos que caíam cortados de maneira repicada na altura dos ombros e uma pele tão pálida quanto a da própria Apple, emergiu do carro. Seus olhos, de um tom violeta intenso, vasculharam o ambiente com uma curiosidade quase felina, enquanto um leve sorriso brincava em seus lábios finos, desafiando a imagem de ingenuidade que sua palidez poderia sugerir.
— Gente, gente! Temos uma plateia. — A garota falou com uma voz sarcástica.
Apple segurou sua vontade de revirar os olhos.
E então, por detrás das costas da figura arroxeada, emergiu uma garota de beleza etérea. Seus cabelos, de um azul vibrante e profundo, caíam em cascatas onduladas que deslizavam graciosamente até os quadris, emoldurando seu rosto com uma aura quase mística. A pele dela, de um branco perolado, exibia um brilho saudável, enquanto seus lábios, macios e convidativos, ostentavam um tom de vermelho cereja, forte como o vermelho de uma maçã recém colhida.
Mas o que realmente capturou a atenção de Apple, prendendo seu olhar de forma inabalável, foram os olhos da garota. Eles eram um mistério por si só. Por detrás de todo o esfumado preto-azulado, que adicionava um toque de mistério e profundidade, brilhavam duas gemas de um castanho intenso e cintilante.
Neles, Apple percebeu um universo de emoções contidas, um vislumbre de uma alma complexa e talvez, um tanto enigmática. Havia uma chama discreta, uma inteligência aguçada e uma melancolia velada que se escondia nas profundezas daquele olhar, convidando à curiosidade e ao desvendamento. O contraste entre a frieza dos cabelos azuis e a doçura do gloss, junto com o mistério de seus olhos, criava uma imagem inesquecível e profundamente intrigante.
Desde pequena, Apple ouviu que era a mais bela de todas atrás apenas de sua mãe, mas agora ela tinha certeza que sua mãe estava errada sobre essa sentença: Aquela garota é que carregava o fardo de mais bela.
Apple engoliu em seco e aumentou o sorriso falso para esconder o nervosismo.
— É só uma limpezinha — O de cabelos compridos disse — Levanta!
Ele levantou o de cabelos brancos à força.
— Deixem no carro ! — Fada Madrinha cantarolou. — É sério, e para deixarem no carro tudo que pegaram.
De maneira desajeitada, os dois começaram a jogar as coisas dentro do carro que logo se pôs a ir embora.
E então, quando os dois se viraram para frente em contato com a comitiva de boas vindas.
O homem de cabelos compridos, com um sorriso presunçoso e um brilho desafiador nos olhos, avançou um passo. Enquanto ele flexionava o bíceps, demonstrando sua força, seu olhar fixou-se em Audrey, que estava ao lado de Ben.
— E aí, gata. Meu nome é Jay.
Audrey soltou uma risada forçada e o ignorou.
Notando o clima tensa — ou talvez apenas sem noção, a Fada Madrinha tomou a frente:
— Bem-vindos à Escola Auradon! Eu sou a Fada Madrinha, a diretora.
— Ah, Fada Madrinha? Tipo, Bibi di Bobbidi Boo? — A arroxeada perguntou.
— Bibi di Bobbidi, você sabe! — Fez um gesto de descaso com as mãos.
— Eu sempre imaginei... a cara da Cinderela quando você apareceu do nada, com aquela varinha brilhante e o sorriso amável. — A de cabelos curtos continuou. — E a varinha brilhante!
— Isso já faz muito tempo. E como eu sempre digo: não fique no passado, ou vai perder o futuro! — Disse fazendo seus gestos de mãos a frente do rosto.
Dando um passo à frente, Benjamim tomou a situação.
— É bom finalmente conhecer vocês. — Pausou. — Sou Ben.
— Príncipe Benjamin.— Interferiu Audrey. — Logo será rei.
— Me ganhou no príncipe. — A de cabelos azuis fez uma reverencia. — Minha mãe é uma rainha, o que me torna uma princesa.
— A Rainha Má não tem status real aqui.— Audrey a olhou com desprezo. — E você também não.
— Audrey. — A voz da loira saiu repreendedora. — Cuidado com os modos, nem parece uma princesa.
Os olhos se voltaram para ela, mas a Apple nunca foi o tipo de pessoa que se importasse com isso. Sua existência servia para impressionar, cativar e fazer as pessoas saberem seus lugares perante ela.
Os olhos pretos como breus se encontraram com o castanho claro de amêndoas, um entendimento silencioso se fez presente em ambas. Não eram palavras trocadas, nem gestos grandiosos, mas sim um reconhecimento mútuo, um espelhamento de almas que transcendia o superficial. Algo havia nascido ali, brotado de forma inesperada, como uma flor rara que desabrocha em terreno árido.
Apple sentiu o coração palpitar descompassadamente em seu peito, um ritmo que ela não reconhecia, mas que, estranhamente, acolhia. Era uma emoção avassaladora, um misto de surpresa e fascínio, que a envolvia por completo. Aquele encontro de olhares, tão breve e, ao mesmo tempo, tão intenso, havia desencadeado uma tempestade em seu interior.
O ar ao redor parecia ter se adensado, carregado de uma energia eletrizante que só elas conseguiam sentir.
— Meu nome é Apple. — Se apresentou sem perder o contato visual. — Apple White, sou a presidente do grêmio estudantil.
— E eu sou Audrey. Princesa Audrey. Namorada dele. — interrompeu e olhou para Ben. — Né, Beny-Boo?
O loiro apenas assentiu.
— Ben, Audrey e Apple vão mostrar tudo a vocês. Nos encontramos amanhã.— Fada Madrinha tomou a frente. — As portas da sabedoria nunca estão fechadas…
Pausou dramaticamente.
— ...Mas a biblioteca funciona das oito às onze. Já devem ter ouvido que eu sou muito rígida! — Continuou.
Apple riu de leve, eles com toda certeza deveriam ter escutado que a diretora de Auradon era exigente com a biblioteca lá da ilha isolada e sem conexão com o mundo que eles estavam.
Então, a diretora deu as costas e começou andar.
Ben deu um passo à frente e começou a apertar as mãos de todos.
— É muito, muito, muito bom finalmente conhecer vocês. É uma ocasião importante. E eu espero que isso vá para... — Ele apertou a mão do de cabelos brancos. — para a história.
Levando a mão para a boca logo em seguida.
— Isso é chocolate! — Parou em frente a de cabelo roxo. — Como o dia em que começamos a nos curar.
— Ou, o dia em que você mostrou a quatro pessoas onde o banheiro fica.— Ela respondeu.
— Acho que exagerei um pouco.
— Um pouco mais do que só um pouco. — Levantou a sobrancelha em zombaria.
— Bom, minha primeira impressão já era, então. — Ben riu sem jeito.
— Ah, você é a filha da Malévola, não é mesmo? — Audrey interrompeu após notar o clima entre os dois.
— Quer saber? Eu não culpo sua mãe por tentar matar os meus pais e essas coisas. — Continuou. — Ah, ah... A minha mãe é a Aurora. A Bela Adormecida.
— Já chega Audrey! — A loira falou mais severa. — São nossos novos alunos, seja cortês. Francamente, frequentamos as aulas de etiqueta juntas, mas parece que só eu faço bom uso delas.
A cabeça da morena se virou para ela com seu sorriso doce e falso.
— Eu apenas utilizo minhas maneiras com aqueles que merecem. — Respondeu.
— Se fosse assim, eu não utilizaria as minhas com você. — O sorriso da loira aumentou junto com suas palavras envenenadas.
Audrey bufou discretamente e aumentou o sorriso.
— Eu já vou indo Benny-Boo. — A acastanhada falou manhosa. — Algumas pessoas não merecem minha boa educação e tempo.
Dando um beijo na bochecha de Ben, Audrey virou as costas e saiu marchando com toda sua pose de princesa.
— Eu peço desculpa por isso. — Ele olhou para os Vk’s. — E desculpe também Apple.
— Eu já lido com ela tempo o suficiente para saber como ela é Benny-Boo. — Zombou a loira. — Deixo eles em suas mãos Ben, tenho que ir para o ensaio de líderes de torcida.
— Certo. — Ele respondeu.
Dando as costas para os Vk's, Apple se pôs a andar em direção ao campo de futebol para o treinamento. Seus passos eram firmes, mas cada fibra de seu ser estava ciente da presença que a observava, um olhar acastanhado que parecia queimar em sua nuca. Não precisava se virar para saber quem era; a sensação era familiar, um calafrio que percorreu sua espinha.
Mas Apple continuou firme, sem olhar para trás.
