Chapter Text
Desde a revolução muita coisa mudou. Eu voltei com o Dan. Mais pessoas se identificaram com o movimento do ROL e adotaram suas próprias formas de justiças, algumas muito violentas e outras mais pacifistas.
Venho me dedicando cada vez mais na faculdade, comecei a trabalhar como tatuador e o ROL continua com suas atividades, já que a manifestação e tudo que fizemos foi apenas o início, ainda existem muitos corruptos que precisam ser derrubados e muitos direitos que precisamos conquistar.
Eu estou exausto, mas ainda tenho muito o que fazer, hoje teremos uma reunião na garagem para discutir os detalhes do próximo plano e dar boas-vindas para os dois novos membros do grupo, ambos são amigos do Gram, o que talvez ajude a melhorar o clima na garagem. Desde que o Black voltou e descobriu que o Gram estava com a Eugene, as coisas andam complicadas.
Black não vai mais à garagem como ia antes do coma. Ele aparece esporadicamente, normalmente quando White precisa dele ou quando ele tem um plano interessante, que ele não consegue pôr em prática sozinho, não que ele vá admitir isso, ou quando Gumpa pede para ele ir, a qual é a situação de hoje.
Ele e Gram nunca se falam durante esse período, no início Gram tentou uma reconciliação, mas após uns quatro socos na cara ele parou. Portanto, torna a mesa um campo de guerra fria, de um lado fica Black, White e Sean e do outro eu, Gumpa e Gram.
Eu gostaria que eles se resolvessem logo, ninguém aguenta mais esse drama por causa de mulher, mas aparentemente isso não vai acontecer e eu e os meninos não vamos nos intrometer nisso.
Dan está deitado em sua cama olhando para a janela, jogo minhas coisas no chão ao lado da porta, o que chama sua atenção fazendo com que ele se vire em direção ao barulho, sorrio com isso.
— Ei! — Vou em sua direção me deitando ao seu.
— Oi. Onde você estava? — Ele me deu um selinho.
— No estúdio, vim direto para cá. O que você vai fazer hoje?
— Trabalhar — Dan agora trabalha como detetive particular de uma agência — e você?
Hesitei por um minuto, ele não gosta quando vou para a garagem, porque ele não se dá bem com os meninos, nós temos brigado muito ultimamente, e esse é um dos motivos, ele não se importa, e nem tenta, com os motivos pelos quais eu continuo no ROL. Ele também parou de grafitar e desenhar. Ele parece perdido em si mesmo, como se não soubesse o que fazer com a confusão que está sua mente. Ele também não quer ajuda com isso. Na maior parte do tempo finge que não é isso que está acontecendo.
— Eu vou para a ga-
— Garagem. — Resmungou.
— Sim.
— Eu já te disse para parar de ir lá.
— Eu já te disse que não vou parar de ir. E eu já não vou mais nos fins de semanas! — Argumentei.
— Nossa! Realmente que diferença!
— Não vou deixar eles na mão! E sem contar que é o pouco tempo que tenho com meus amigos.
— Isso não é verdade! Você vê seus amigos com mais frequência do que eu vejo os meus!
— Você sabe que é! Eu vejo os meus só na garagem e você vive saindo com seus amigos e os vê todo dia no trabalho! — Me irritei levantando da cama.
— Agora a culpa é minha por seus amigos não quererem sair com você? — Ele se sentou com raiva.
— Eu não disse isso! E é você quem não me deixa sair!
— Eles quem não te chamam! Eles não fazem questão de você. Nunca fizeram.
— Gram vive me chamando para sair! E eles se -
— Você sabe que eu não gosto quando você anda com ele! — Ele levantou a voz irritado, nós sempre voltamos nesse assunto.
— Ele é uns dos meus melhores amigos!
— Se você me amasse você respeitaria isso e pararia de andar com ele!
— Eu te amo! Mas não posso simplesmente parar de falar com todos aqueles que você não gosta! Se eu fizer isso vou acabar sem nenhum amigo! Você odeia todos eles! E Gram é meu melhor amigo! Não vou simplesmente me afastar dele!
— Talvez você só não saiba escolher boas amizades!
— Meus amigos são ótimas pessoas! — Explodi. — Você não pode simplesmente ficar reclamando deles quando foi você quem pisou na bola com a gente!
— Era o meu trabalho, o que você queria que eu fizesse?
—Era o seu trabalho? Não me lembro de você se importar muito com isso quando estava pichando os muros e casas dos outros!
— Isso foi um erro! Eu não faço mais isso! E não tente comparar o que eu fiz com o que vocês fazem!
— Pelo menos nós não desistimos!
— Vaza! — Exigiu ele apontando para a porta — Faça o que você quiser, Yok!
Peguei minhas coisas ao lado da porta e sai.
— Se você for para a garagem, você vai se ver comigo! — Ouvi ele gritar.
Desde que voltamos, o ROL e o Gram estão sendo os motivos mais comum para brigas, ele acha que Gram está afim de mim e que eu vou trair ele com Gram, na verdade ele acha que vou traí-lo com qualquer um dos meus amigos, até mesmo com os que namoram, eu encontro com Kan e Wat, meus amigos do ensino médio, uma vez no mês e isso já é o suficiente para Dan surtar!
No início eu tentei ser compreensivo, explicar para ele que eu não o trairia e que todos os meus amigos são apenas amigos, até apresentei ele para esses meus dois amigos, mas ele conseguiu ser odiado por eles também.
Na cabeça de Dan é como se ele não estivesse errado, como se meus amigos da garagem não tivessem motivos para odiá-lo e meus amigos do ensino médio estivessem apenas com ciúmes de eu estar seguindo minha vida.
Às vezes me pergunto como cheguei nesse ponto, como nós chegamos a esse ponto.
Antes de todo o incidente tudo era muito bom, muito leve e sem problemas, não me lembro a ultima vez que estive genuinamente feliz ao lado de Dan, acho que não conseguimos passar uma semana direito sem brigar. Chega a ser cansativo.
Não fui direto para a garagem depois de sair da casa de Dan, estava de cabeça quente, não queria descontar em nenhum deles e tenho certeza que se Gram e Black estivessem lá e começassem a discutir eu falaria tudo o que todos querem falar. Por isso, decidi dar uma volta na minha moto antes de ir para lá.
Mal tinha entrado na garagem quando comecei a ouvir vozes, uma delas, que era a mais exaltada, era de Sean, ele estava xingando. Eles estavam lutando, um deles era Sean, o outro, que estava claramente ganhando, estava de costas para mim, deveria ser um dos novos membros.
Todos os outros estavam sentados assistindo, me aproximei por trás de Gram.
— Ei cara!
— Yok! Você finalmente chegou! Esse é Ayan. — Ele apontou para seu amigo que estava ao lado.
Puta merda. Esse é meu ex namorado.
A minha cara de espanto deveria ser a mesma no rosto de Ayan, o que seria cômico se eu não estivesse nessa posição.
— Vocês... se conhecem? — Gram perguntou estranhando nossas reações.
— Sim. — Respondemos ao mesmo tempo, o que só causou mais constrangimento.
— Ei, como você está?
Ayan tentou quebrar o climão começando aquela conversa típica de estranhos, o que não somos! Ninguém nunca me conheceu como ele me conhecia e ninguém nunca o conheceu como eu conhecia, ou pelo menos era assim antes.
— Bem, e você? — tentei parecer relaxado, o que claramente era inútil, já que tanto Ayan quanto Gram me conheciam muito bem.
— Tudo bem também!
— Ok... Isso é bem estranho, o que tem entre vocês, hein?
— Bem... -
— Yok! — Sean gritou do chão, ele tinha perdido, eu estava muito grato por ele ter me salvo desse momento constrangedor — Traz sua bunda aqui! Porra, você tem que ganhar dele!
Eu poderia ter me sentido levemente culpado por abandonar Ayan para explicar a Gram sobre como éramos ex namorados se eu não tivesse reconhecido o outro membro, o qual Sean acabara de perder, esse era Fadel, o irmão de Ayan.
Quando as coisas acontecem é tudo de uma vez.
Fadel parecia tão surpreso quanto Ayan tinha ficado, talvez achando mais graça do que eu e Ayan sentimos, mas ainda surpreso. Assim que se recuperou do seu choque inicial ele olhou por cima do meu ombro, provavelmente para Ayan.
— Anda logo Yok! Ele já ganhou de Black e de mim, você é nossa última chance!
Olhei de Sean para Fadel, que já voltava a me encarar, não havia nenhuma chance de eu vencer ele, não quando foi ele quem me ensinou metade do que sei.
— Vocês apanharam e querem que eu apanhe agora? — sorri para Fadel, o que espero que tenha parecido um pouco menos desconfortável e constrangido do que eu me sentia e transmitido um pouco da confiança que eu normalmente sinto.
Seus lábios se curvaram um pouco para cima, quase em um sorriso.
— Vá se exibir logo Yok! — Disse Gram do seu lugar ao lado de Ayan — Todos nós sabemos que você está doido para isso.
— Vai lá garoto. — Disse Gumpa.
— Eu pego leve dessa vez com você! — Tinha me esquecido como Fadel era provocador igual a seu irmão.
— Como se alguma vez você fizesse isso! — Sorri para ele, dessa vez mais confiante — Se eu fosse você tomaria mais cuidado dessa vez.
Nos posicionamos um na frente do outro, já sei como isso vai terminar, não existe dúvidas, por mais que Fadel pareça um pouco receoso, como se estivesse analisando o quanto eu poderia ter evoluído sozinho.
Sinto um aperto no peito, faz muito tempo desde que lutamos pela última vez. Ele parece o mesmo de sempre, uma folha em branco com uma postura implacável. Lembro que quando eu estava no ensino médio era o melhor na luta, os meus colegas me procuravam para treinar e o professor sempre me pedia para ajudar os novatos, foi assim com Ayan. Porém, quando conheci Fadel percebi que ainda tinha muito o que aprender, ele sempre dizia que eu era bom na técnica, mas quando lutava deixava claro demais minhas intenções.
Nunca ganhei dele. Nem uma vez. E eu sei que hoje não será diferente. Porém, isso não diminui minha vontade de tentar. Pelo contrário. Quero honrar tudo o que ele me ensinou, todo tempo que ele gastou comigo para isso, quero que ele veja o quanto melhorei.
Ele encontra meu olhar e sorri de canto, daquele jeito discreto que sempre teve. O mesmo sorriso de quando eu era menor, mais desajeitado, tentando acompanhar seus movimentos. Sempre tive uma admiração por ele.
Nunca tive um irmão, mas Fadel foi o mais próximo disso, ele não só me aceitou como o namorado de seu irmão, mas também me aceitou como família. Quando terminamos Fadel veio me ver para se certificar que eu estava bem, foi a última vez que o vi.
Estando aqui agora, de frente para ele e sabendo que Ayan está no banco assistindo me sinto mais leve do que a muito tempo, não estou mais constrangido. Era como se tivesse voltado aquela época onde tudo era mais fácil.
O primeiro ataque veio como um teste, um golpe direto, rápido, que bloquei com o antebraço. O impacto foi seco. Trocamos jabs curtos, quase como se estivéssemos tentando relembrar a intensidade de antes.
O ritmo aumentou. Dei um jab de esquerda obrigando-o a recuar dois passos e girar o corpo para o lado, deixando o golpe passar raspando. Ele aproveitou a abertura para avançar tentando um chute baixo, o que eu evitei recuando. A respiração começou a pesar. O suor escorria pelas nossas testas, mas eu sabia que Fadel estava se segurando, o que era incomum.
Aproveitei um instante de hesitação e arrisquei mais do que de costume. Avancei de forma ousada, encurtando a distância rápido demais para que ele reagisse de imediato, misturando o avanço com uma finta curta. Ele recuou, surpreso, e foi tudo de que precisei. Meu golpe entrou limpo e controlado, suficiente para marcá-lo sem derrubá-lo, apenas para provar que eu havia melhorado e que ele deveria tomar cuidado. Ele abriu um sorriso logo em seguida, parecia orgulhoso. Ele se recompôs rápido, ajustou a base e devolveu na mesma intensidade, forçando-me a recuar e erguer a guarda outra vez. O choque dos golpes ecoou entre nós, e ficou claro que, dali em diante, ele não pegaria mais leve.
A troca seguinte foi mais dura, menos cuidadosa. Entramos no alcance um do outro ao mesmo tempo, e os golpes começaram a se encontrar de verdade. Senti o impacto de um soco atravessar minha guarda e atingir meu ombro, fazendo meu braço arder. Respondi com um gancho curto, que acertou seu corpo e arrancou dele um grunhido contido. Não era dor incapacitante, mas o tipo que se acumula, que pesa nos músculos e piora a cada erro. O tipo que faz você perder por se distrair.
Então aconteceu. Avancei um segundo tarde demais. Ele leu o movimento antes mesmo de eu completá-lo e respondeu com um golpe preciso, limpo, mais rápido do que consegui reagir. Senti o impacto me desestabilizar, o chão se aproximando num instante breve e inevitável. Caí de costas, o som abafado ecoando na sala enquanto o ar fugiu dos meus pulmões. Usei as mãos para me apoiar e sorri.
É muito bom lutar com alguém melhor do que você, faz com que você se esforce mais. Olhei para Fadel e o mesmo também estava sorrindo, um daqueles sorrisos de canto discretos, mas ainda sim um sorriso, ele estava suado e ofegante, mas também tinha um brilho no olho, daqueles que se tem quando a luta é boa.
Os meninos começaram a reclamar logo em seguida, olhei para o banco e Ayan estava lá, me olhando com aquele olhar que sempre tinha quando eu estava lutando, senti um arrepio no corpo inteiro, desviei o olhar para Fadel novamente que agora me ofereci uma mão para levantar, aceitei e foi puxado para cima, agora ele sorria de verdade, daquele com dentes mesmo.
— Você melhorou! Podia ter me ganhado hoje.
— Agora você sabe que não pode mais vacilar, se fizer eu te venço na próxima! — Ele soltou uma risada.
— Eu não vou Yok! Mas não me peça para pegar leve com você de novo, isso não vai funcionar.
— Eu não pedi! Você se ofereceu!
— Você queria me pegar de surpresa.
— Você nunca pega leve, não achei que ia dessa vez, mas valeu a pena, aquele soco que dei foi muito certeiro.
— Na próxima você vai ver! — Ele tentou um tom de ameaça, mas ele estava muito satisfeito com tudo para conseguir soar assim.
O resto da noite foi agradável, conversamos sobre o próximo plano e depois jogamos alguns jogos e bebemos um pouco. Não falei com Ayan e Fadel pelo resto da noite, os vi com Gram e depois com White, mas para ser bem sincero estava muito focado em ganhar de Sean na bisca, o que ao longo da noite, em que foi ficando levemente embriagado, foi se tornando impossível.
Sai para o lado de fora da garagem para tomar um ar e fumar um cigarro.
Não tenho do que reclamar, para ser honesto estou muito feliz por vê-los aqui, Ayan e Fadel fizeram parte de uma fase ruim da minha vida, tudo aquilo que passei em Suppalo e todos os problemas familiares que tive eles estiveram lá para mim. Fadel sempre me tratou como um irmão mais novo, foi ele quem me ensinou a dirigir e a atirar e Ayan, bem, foi ele quem moldou grande parte de quem sou hoje.
Claramente a minha teoria de novos membros é igual a melhor clima, estava certo, até mesmo Black parecia mais relaxado e eu posso jurar que o vi entregando uma cerveja a Gram. É bom vê-los se dando bem no ROL, porque está é minha família e fico feliz com eles fazendo parte dela de novo.
A noite está fria, daquele jeito em que você tem certeza que está vivo, porque sente cada extremidade do seu corpo gelado contra a parede. O cigarro esquenta levemente os meus dedos e o meu corpo por dentro, trazendo uma sensação de conforto. Escuto antes de ver alguém se aproximando, viro a cabeça para a entrada da garagem e lá está Ayan, ele se aproxima furtivamente como se estivesse preocupado em assustar um gato medroso, como fazia na época do colégio quando eu estava assustado.
— Quer um? — Ofereço um cigarro da caixa.
— Sim. — Ele relaxa se aproximando e encostando na parede ao meu lado.
Entrego o cigarro e o isqueiro. O silêncio que se forma não é desconfortável, mas é carregado. Sinto o olhar dele mesmo sem virar o rosto.
— Estranho me ver aqui? — Pergunto soltando a fumaça.
— Sim. — Ele responde rápido demais, depois tentou suavizar — Não que eu duvidasse que você ainda lutasse pela comunidade e tudo isso. Sempre achei que te encontraria em uma das manifestações... mas isso me parece um pouco extremo demais para você.
Dou um meio sorriso.
— Você me conhece. Nunca fiz nada pela metade. — Ele soltou uma risada curta.
— Pensando bem, talvez seja exatamente o que você faria. Você sempre foi oito ou oitenta. Nunca soube ficar em cima do muro.
— Olha quem fala.
Agora de perto as mudanças ficam mais claras. Ele está diferente, mais alto, mais forte, mais saudável, sem aquelas olheiras profundas de sono e aquele olhar vidrado de quem sobrevive de cafeína. Ele parece bem.
— Sabe... — Ele começa com cuidado demais — eu e meu irmão podemos ir embora. Podemos dizer a Gram que não é muito nosso estilo. Que preferimos ficar só nas manifestações.
Meu corpo reage antes de eu pensar.
— Não!
A palavra saiu alta demais. Desvio o olhar, constrangido.
— Quer dizer... você conhece Gram. Ele não desistiria fácil. E... — Dou de ombros — Não acho que vocês odiaram isso.
Ele me observa por alguns segundos tentando entender o que eu não havia dito.
— Ele desistiria, eventualmente.
— Não precisa.
— Sério Yok. Não seria problema nenhum. O Fadel também não se importaria.
Abro a boca para responder, mas nenhuma frase parece certa. O silêncio se alonga, pesado.
— Tudo bem. — ele diz por fim, mais baixo. — Eu entendo. Seria estranho mesmo. Vou falar com o Gram amanhã.
— Não.
Viro o rosto para encará-lo de novo.
— Eu quero que vocês fiquem.
Ele parece surpreso. Continuo, a voz menos firme do que gostaria:
— É... é bom ver vocês de novo, Aye.
O sorriso que surge no rosto dele é o mesmo de anos atrás. Aberto, sincero, perigosamente familiar.
— É bom ver você também, Yok.
