Chapter Text
Em uma vila Chinesa de poucos habitantes no início do século XXI, um grupo de seis mulheres viviam juntas em uma construção Huizhou de seis cômodos, uma casa tradicional da arquitetura Chinesa, com paredes brancas e telhados escuros. Elas são enfermeiras e médicas recém formadas que, sem muitas opções na cidade grande, viram uma oportunidade de experiência profissional ao morarem na vila e se dedicarem a cuidar da saúde dos moradores locais no pequeno hospital que ali há.
Todas elas são bastante amigas e se conheceram anos antes, durante o tempo de estudo. Todas exceto uma delas, Pansa. Embora Pansa tenha estudado durante um período com alguma delas, sempre foi a mais distante. Ela também era a neta do atual chefe do Clã da vila, que foi enviada para estudar na cidade grande e voltar, justamente para se tornar a médica responsável por todos. A mãe de Pansa, a atual médica chefe responsável, foi quem conduziu todo o processo de recrutamento por meio de Pansa, e cuidou de que elas tivessem boa estadia, oferecendo a própria casa da recém doutora Vosbein.
Pansa não dizia muita coisa. Era quieta, reservada e muito obediente. Ao menos era o que seu jeito de ser fazia todos pensarem.
Todos na vila adoravam aquelas jovens mulheres, eram encantados por elas e por seus cuidados, principalmente os mais idosos e as crianças, que eram poucas. Elas eram muito extrovertidas, simpáticas, carismáticas e inteligentes. Uma delas se destacava ainda mais naquele meio, a enfermeira Pattranite, uma figura baixinha de bochechas rechonchudas, olhos grandes e brilhantes de anjo, e de sorriso fácil. Ela tinha facilidade em atrair atenção por onde passava.
Tudo era lindo e flores no início.
Depois de um certo tempo, estabilizadas na cidade e bastante conhecidas, boatos começaram a correr. Acontece que Pattranite, a menina de rosto e caminhar angelical, era na verdade um demônio, que seduzia mulheres e as levava para a cama.
Era Pattranite que organizava festas sigilosas no meio da noite e fazia com que nessas festas, mulheres ficassem umas com as outras e embebedava-as.
Era Pattranite quem ficava com todas as suas colegas de quarto e de todas da casa e já tinha levado todas elas para a cama. Pior ainda, seduzia todas as mulheres da vila, e tinha estado com duas das filhas dos conselheiros.
Além disso, a enfermeira tinha vindo da cidade grande justamente para fugir de todo o seu histórico com mulheres. A última situação fora tão caótica que o pai, um militar Chinês influente e político, precisou intervir.
Grande parte da vila, em sua maioria homens adultos, ficaram enojados com tudo isso.
Pattranite, embora não soubesse de tudo com clareza, nem mesmo suas amigas sabiam - ou se recusaram a dizer - percebeu que algo estava errado e começou a sentir a diferença na forma que a tratavam. Mesmo assim, Pattranite continuou com a mesma luz e com o mesmo sorriso. Nunca se deixando abalar.
A enfermeira era principalmente responsável por vacinar e tratar idosos e crianças. Muitas vezes, esses eram pacientes que vinham de vilas vizinhas ou mais distantes. O hospital era o único mais próximo em uma área extensa. Os boatos dificilmente chegavam a esse público alvo de pacientes, e consequentemente dificilmente afetava Pattranite.
Pansa soube de tudo, de cada boato.
— Espero que você não esteja envolvida com nada disso, é uma nojeira — Sua mãe disse sem esconder a repulsa em sua voz, estavam no seu pequeno escritório do hospital — Se eu souber que está envolvida com alguma coisa sobre isso, você vai pagar caro. Você não está, está? — Nunca tinha visto a mãe assim, não eram de ter discussões calorosas. Nem mesmo conversavam muito.
Pansa apenas negou com a cabeça, os braços cruzados.
— Responda! Com palavras. — A mãe exigiu, apontando o dedo para o seu rosto.
— Não estou. — Respondeu baixinho.
— Quando acabar a campanha de vacinas, não quero mais essa garota por aqui. — Seguia dizendo com repulsa na voz — Dê um jeito nisso.
A médica não sabia se era verdade. Mas sabia que a maioria das mulheres daquela casa se envolviam com mulheres. Até mesmo se relacionavam entre si. As garotas eram discretas, com exceção de Pattranite que podia ter um jeito único de ser e de vestir. Mas Pansa, chegou a presenciar uma situação: Uma vez, ela entrou na casa e viu View e Mim beijando-se no sofá. View era médica e sua colega de quarto. Foi com View que Pansa estudou durante um período há uns anos atrás. View era sua maior amiga entre todas elas.
Ninguém falou nada. Até que o assunto surgisse naquela noite antes de dormir:
— Eu sei o que pode parecer, mas eu não tenho nada contra View. Isso não é comigo… E eu não vou contar para ninguém. Não se preocupe. — View relaxou, ela parecia bem aflita antes. E esteve, durante o resto do dia. Tinha tanto medo de perder o emprego…
Certa tarde no hospital, depois daquele episódio com a mãe, Pansa sem querer ouviu Mim e View cochicharem enquanto organizavam papeladas na sala de arquivo.
— Você acha que foi a Pansa? Que falou e inventou essas coisas? — Era a voz de Mim.
— É claro que não. De onde você tirou isso? — View sussurrou olhando para os lados.
— Você sabe… Desde que ela nos pegou no flagra. — Mim continuou — E ela é muito estranha, e suspeita. Ela é daqui, as pessoas daqui são bem conservadoras. Não importa que ela tenha passado muito tempo na cidade…
— Não foi ela, eu tenho certeza. Eu conheço a Pansa, conheço o suficiente para saber. Talvez a Namtan devia ter tido mais cuidado em quem confiar. Naquela festa, Pat acabou bebendo um pouco a mais e beijou uma garota na frente de todo mundo. Tinha algumas pessoas diferentes naquela… E agora sobrou tudo pra coitada…— Pansa engoliu um gosto amargo na garganta — Temos que tomar cuidado…
Naquela tarde, ela ainda foi pega no flagra bisbilhotando, mesmo que fosse sem querer. A enfermeira Pattranite apareceu em suas costas.
— Está tudo bem, doutora Vosbein? – questionou, depois de chamar a atenção com um murmúrio vindo da garganta.
Pansa apenas se virou e a olhou por um segundo. Não disse nada e apenas virou de costas outra vez. Saindo dali com os papéis que tinha ido guardar ainda em mãos.
Pansa não conseguia ficar muito tempo perto de Pattranite.
Mal conseguia lhe dirigir a palavra. Pansa era assim com todo mundo, não conseguia interagir com as pessoas. Isso sugeria uma grande arrogância de sua parte. Até mesmo para com os pacientes, considerando que nem sequer era querida por algum deles. Com Pattranite, sua necessidade de se manter distante apenas se tornava maior.
— Senhor Wai, o senhor terá que vir até aqui amanhã, vou agendar um horário para o senhor com a doutora Vosbein. — A voz era suave e doce, simplesmente encantadora. Pattranite.
— Ahn? Não! Porquê? Porquê você não me atende logo? – O senhor Wai reclamou, como qualquer idoso teimoso.
— Porquê infelizmente eu não sei tudo. O senhor sabe que minha especialização são as vacinas… Não consigo identificar o que são essas manchas, acredito que possa ser uma reação alérgica. Maaaas, isso terá que ser com a doutora, que vai analisar melhor. — Ela nunca perdia a simpatia.
— Mas eu já estou aqui… — O idoso continuou a reclamar.
— Sim, mas os agendamentos por aqui também estão lotados. Tem sorte que eu sou uma querida e consigo esse horário exclusivo para o senhor amanhã.
— Mas porque não pode ser com a doutora Piploy? Porque tem que ser com aquela doutora carrancuda? Já é ruim o suficiente ter que vir ao hospital.
Pattranite soltou uma risadinha com a teimosia semelhante à de crianças.
— Porque aquela falta de sorriso dela esconde sua super inteligência. Afinal, não se pode ter tudo, né? — Ela disse finalizando as avaliações de consulta — O senhor se tivesse que escolher entre ser muito inteligente, bonito e carrancudo ou ser burro, feio e extrovertido o que escolheria?
— Escolheria ser extrovertido, de carranca já basta a vida. Feio e burro eu já sou.
Pattranite gargalhou alto. Pansa espiava da porta, um sorriso pequeno se fez presente no canto em seu rosto… A enfermeira achava ela bonita?
— Não digas isso! — repreendeu a enfermeira.
A questão é que Pansa sentiu uma coisa por Pattranite desde quando ela entrou pela primeira vez por entre os portões da vila.
Pattranite usava calças jeans, um moletom branco para o frio e tênis. Tinha uma mochila nas costas e uma mala de mão. Uma vestimenta um tanto quanto incomum para a época e naquele lugar. Naquela época a Ásia ou o aqui citado, China, já tinha alguma influência do ocidente e a roupa indicava de onde você vinha, da cidade grande e daquela influência moderna. Na vila, aquilo podia ser visto como esquisito ou corajoso. Pansa achou interessante. Diferente de Pattranite, suas colegas preferiram as saias e vestidos das vestimentas casuais tradicionais. O cabelo da enfermeira era vermelho, como vinho. Era mais uma coisa no seu diferencial que chamava a atenção.
Pattranite usava também um lindo sorriso. Um sorriso lindo e brilhante. Pansa sempre se lembraria daquele sorriso. Nunca recebeu um sorriso direto de Pattranite durante todo esse tempo. No meio de toda aquela gente no pátio naquele dia, ela gostava de fingir que aquele foi para ela.
A nova equipe de saúde tinha sido recebida por boa parte da vila no parque principal da entrada naquela tarde. A vila era pequena, com pouco pouco mais de setecentos habitantes. Tudo, então, se tornava novidade. As pessoas paravam e faziam de tudo um grande evento. Inclusive presenteavam e homenageavam os visitantes, principalmente aqueles que vinham de longe para cuidar da sua saúde.
Pansa, um pouco mais atrás de onde sua mãe estava, apenas aplaudiu, assistindo com fascinação e discrição todas as ações de Pattranitte.
Tudo o que passava em sua mente desde então, era a palavra Amor.
