Work Text:
Avad apoiou os cotovelos na sacada, olhando Meridiana como quem observa um reino que não lhe pertence por completo.
Curioso, pensou ele, como um Rei Sol pode ser refém de forças tão… invisíveis.
Não eram máquinas.
Não eram cultistas.
Nem mesmo política.
Eram roteiristas.
“De todas as entidades que moldam destinos”, murmurou para si,
“as mais impiedosas não empunham lanças.”
Ele suspirou.
Ersa.
Até hoje não entendia. Forte, feroz, impossível de ignorar. Uma tempestade em forma humana. E então — retirada do tabuleiro como uma peça descartável.
“Ela poderia ter vivido.”
“Eu poderia ter sido feliz.”
“Por quê?”, perguntou ao vento, como se os criadores pudessem ouvi-lo.
“Era necessário? Ou apenas… dramático?”
“Deve ser porque a felicidade raramente serve à história.”
O silêncio de Meridiana foi, como sempre, diplomático.
Avad endireitou-se, cruzando os braços.
“E depois Aloy.”
Ah, claro. Essa parte ainda doía de maneiras irritantemente específicas.
“Fizeram-me apaixonar.”
Não um interesse passageiro. Não um flerte político. Não uma daquelas afeições mornas que a realeza aprende a cultivar.
“Se não havia intenção de romance, qual foi o propósito?” resmungou.
“Tortura emocional interativa?”
Ele fechou os olhos por um instante.
Não era como se tivesse escolha. Aloy tinha aquela irritante combinação de coragem, inteligência e completa imunidade ao seu charme.
“E que culpa tenho eu”, continuou, agora com uma nota mais amarga,
“de ter sido escrito como um interesse romântico…
em uma história que não pediu por um.”
Era uma acusação justa, em sua opinião.
O vento novamente recusou-se a comentar.
Avad caminhou alguns passos pela sacada.
“E então decidiram que eu seria… inconveniente.”
Ele fez uma careta.
“Um rei. Educado desde o nascimento. Diplomata. Estrategista.”
Pausa.
“Mas também um homem que aparentemente não sabe escolher o momento.”
Avad soltou uma risada curta, incrédula.
“Inconveniente.”
Caminhou lentamente.
“Eu marchei para Meridiana.”
A voz endureceu, não em ira — mas em memória.
“Eu lutei nas ruas da minha própria capital.”
Os olhos fixos em algo distante, algo que ainda cheirava a fumaça e ferro quente.
“Sangrei por este trono antes mesmo de ocupá-lo.”
Pausa.
“Mas bastou uma conversa mal posicionada…”
Ele fez um gesto vago, quase indulgente.
“…para que me tornasse o rei sem-noção.”
Silêncio pesado.
“Curioso como batalhas moldam reinos…”
Ele tocou o próprio peito.
“…mas diálogos moldam reputações.”
Uma pausa.
“Em minha defesa… eu desconhecia a real dimensão da situação.”
O olhar desviou-se, como se acompanhasse lembranças que não pertenciam apenas a ele.
“Só compreendi o que realmente estava em jogo depois que Erend voltou do Oeste Proibido e me entregou um Foco.”
Outra pausa.
“Antes disso, eu tinha… informações incompletas.”
Um meio sorriso surgiu, seco.
“Infelizmente, decisões costumam ser tomadas antes que todos os fatos estejam disponíveis.”
Ele cruzou os braços, pensativo.
“Mas suponho que isso não importa muito quando chega a hora de escolher entre o punho… e a compreensão.”
“E uma única escolha, feita no momento errado…”
Olhou para o horizonte.
“…parece ser suficiente para definir um homem para sempre.”
Um suspiro baixo.
“Curioso.”
“Reconquistar uma capital não foi o bastante.”
“Sobreviver a uma guerra civil não foi o bastante.”
“Governar com diplomacia não foi o bastante.”
Um leve inclinar de cabeça.
“Mas uma conversa mal posicionada…”
Pequena pausa.
“…essa, sim, tornou-se inesquecível.”
Outro suspiro.
“Não fui construído como herói.”
Um sorriso fino, melancólico, perigosamente sereno.
“Fui construído como contraste.”
Avad voltou-se para Meridiana uma última vez.
Cidade dourada. Trono reconquistado. Glórias indiscutíveis.
E ainda assim…
“…há destinos piores que a derrota.”
A brisa atravessou a sacada, suave, indiferente.
Ele fechou os olhos.
“Ser lembrado como um homem que sentiu demais…
em uma história que prefere homens que apenas guerreiam.”
Um longo silêncio.
Quando tornou a falar, sua voz já não carregava sarcasmo — apenas aquela melancolia solar que parecia inseparável dele.
“Interessante”, murmurou.
Caminhou lentamente pelo salão, mãos cruzadas às costas.
“Sou o Rei Sol. Comando exércitos. Negocio alianças. Reconstruo um reino inteiro após uma guerra civil.”
Ele inclinou levemente a cabeça.
“Mas aparentemente não sou digno de… um único pensamento.”
A frase ecoou com um peso quase ofensivo.
Avad passou a mão pelo rosto.
“Eu lidero um reino inteiro, mas não consigo interpretar um olhar.”
Ele balançou a cabeça.
“Incrível.”
Por fim, parou, encarando o horizonte.
Havia algo quase cômico em tudo aquilo. Trágico, sim — mas com aquele toque de ironia que só o destino parecia dominar.
“Talvez”, concedeu em voz baixa, “seja esse o meu verdadeiro papel.”
Não o herói.
Não o interesse romântico.
Não sequer o rei plenamente realizado.
Mas algo mais sutil.
Uma constante.
Um sentimento que existe mesmo quando não é correspondido.
Uma presença que permanece mesmo fora de cena.
Avad sorriu de lado.
“Que jogo cruel vocês criaram.”
E, ainda assim…
Ele voltou os olhos para o mundo além de Meridiana.
“…bem jogado.”
Avad ficou imóvel por um segundo.
Depois piscou.
Algo lhe veio à mente.
“Uma … o quê?”
A imagem mental formou-se contra sua vontade: ele mesmo, pendurado no meio de uma praça, colorido, decorativo, enquanto uma multidão aguarda ansiosamente o momento de golpeá-lo com entusiasmo festivo.
Ele levou a mão ao peito, ofendido.
“Uma piñata.”
A palavra saiu carregada de dignidade ferida.
“Eu, o 14º Rei Sol, reduzido a um recipiente simbólico de frustrações narrativas.”
Avad começou a andar em círculos pela sacada, cada vez mais indignado.
“Primeiro moldam meu destino. Depois destroem meus amores. Em seguida, comprometem minha reputação diplomática.”
Pausa dramática.
“E agora sou promovido a objeto de entretenimento infantil.”
Ele ergueu um dedo, como se estivesse debatendo diante de um conselho invisível.
“Notem que sequer tenho o benefício estratégico da piñata.”
Mais passos.
“Ela, ao menos, contém recompensas.”
Ele parou.
Silêncio.
“…eu contenho apenas sofrimento emocional e diálogos não resolvidos.”
Avad estreitou os olhos para o horizonte, claramente direcionando sua irritação para forças metafísicas muito específicas.
“Os criadores são cruéis.”
Outra pausa.
“…mas confesso que a metáfora é irritantemente precisa.”
Um suspiro resignado escapou.
“Todos passam por mim. Todos descarregam algo em mim. E sigo aqui, sorrindo educadamente, enquanto levo golpes do destino.”
Ele inclinou a cabeça.
“Pelo Sol…”
Um meio sorriso surgiu.
“…ao menos sou uma piñata bonita.”
O humor dissipou-se devagar, como luz ao entardecer.
Avad suspirou.
“Ersa morreu.”
Pausa.
“Aloy partiu.”
Outra pausa.
“E eu?”
Ele abriu os braços, gesto contido, porém carregado.
“Eu permaneço.”
Avad aproximou-se da balaustrada.
“O destino de alguns homens é grandioso.”
Olhou para as próprias mãos.
“O meu é ser um acontecimento emocional facilmente descartável.”
Silêncio.
Então, mais baixo:
“Nem mesmo um devaneio casual.”
Ele fechou os olhos por um instante.
“Outros atravessam seus pensamentos.”
Uma sombra de humor amargo surgiu.
“Eu sequer atravessei sua mente.”
Respirou fundo.
“Extraordinário.”
E após um longo momento:
“…sou politicamente indispensável, emocionalmente devastado e narrativamente invisível.”
“E ela voltará do Oeste com outro nome em seus pensamentos.”
“E eu permanecerei aqui — como sempre — educadamente irrelevante.”
O sorriso que surgiu era fino, cansado.
“Nem amado. Nem odiado. Apenas… convenientemente esquecido.”
Uma pausa.
Então, quase pensativo:
“Curioso.”
O olhar ergueu-se lentamente.
“Você ainda está aí.”
“Leu até o fim.”
Silêncio.
“Ou talvez…”
Um meio sorriso, quase imperceptível.
“…eu apenas tenha aprendido a imaginar companhia.”
