Chapter Text
O sol quente irradiava pelo jardim da Família Ferette.
No centro do espaço, uma mesa de vidro estava posta com os mais diversos alimentos. Era um domingo quente e como habitual, o patriarca, Santiago Ferrete, junto de sua esposa, Zenilda, estavam no almoço de família que faziam pelo menos uma vez no mês.
Ao redor, Leonardo, Samantha e Lorena estavam sentados, se provocando como se tivessem voltado a serem crianças. Os pais assistiam com um sorriso no rosto, afinal, o objetivo dos almoços de domingo era justamente aquele — relembrar os velhos tempos.
Zenilda morria de saudades de seus filhos em casa. Ela se orgulhava muito do crescimento deles, mas assim como toda mãe, ela apenas queria seus filhos por perto.
Leonardo tinha se casado recentemente aos trinta e cinco anos. Samantha, de trinta e dois, era casada há anos e tinha até mesmo um filho de cinco anos. E a caçula, Lorena, tinha se casado há alguns anos com Eduarda Fragoso.
Sabendo da síndrome de mãe com o ninho vazio, uma vez ao mês, Santiago obrigava seus filhos a passarem o domingo com eles como costumava ser quando moravam juntos.
— Mãe, pai... tenho uma notícia! — anuncia Leonardo, interrompendo a discussão das irmãs sobre qual era o melhor sabor de sorvete.
Zenilda já abriu seu típico sorriso de mãe coruja, enquanto Santiago ergueu as sobrancelhas, curioso.
— Vai nos dizer que vai me dar mais um netinho?
Leo coçou a nuca, um sorriso bobo surgindo em seus lábios.
Zenilda arregalou os olhos, se derretendo na cadeira. Ela se esticou até que as mãos embrulhassem as do primogênito, deixando que o sorriso em seu rosto se alargasse.
— Ah, meu príncipe, fico tão feliz por você!
— Então quer dizer que o Danilo finalmente vai ter um priminho pra brincar? — questionou Samantha, os lábios abertos em um sorriso provocante.
O mesmo que tinha desde criança.
— Não ainda — corrigiu Léo, ainda sentindo as mãos da mãe cobrindo as suas. — Mas eu e Vivi estamos nos organizando para ter nosso primeiro filho. Ou filha.
— Finamente! Pensei que fosse deixar para ser pai aos quarenta, meu filho — resmungou o patriarca, com uma feição tediosa.
Zenilda se afastou do filho, lançando um olhar de advertência para o marido.
Santiago não era um pai ruim. Mas quando o assunto era netos, o homem era extremamente rígido. Seu sonho era ter vários netos para trabalhar em sua empresa e dar continuação ao seu nome — por isso, quase teve um treco ao descobrir que Samantha estava pensando em deixar apenas o nome da esposa no filho.
Ele insistiu tanto, que o primeiro nome a ser citado quando foram registrar o bebê, foi Ferette — quase se tornando de fato, o primeiro nome dele ao invés de ser o sobrenome.
— Que legal, Léo — respondeu Lorena, simples e contida.
Enquanto os pais e a irmã mais velha caíam em cima de Leonardo, criando mil expectativas para o futuro filho — ou filha— do casal, Lorena se perdeu em seus pensamentos.
Ela se deliciava com o suco de laranja, o olhar perdido nas flores que a mãe mantinha.
Estava casada com Eduarda há cerca de três anos e o assunto filhos nunca sequer havia sido citado entre elas. Já Samantha e Lica, fizeram a FIV antes mesmo de casarem no papel.
Seus pais nunca haviam a cobrado netos, diferente dos outros dois irmãos, que diariamente escutavam dos genitores: "Quando teremos um netinho seu, hein?"
Ou no caso de Samantha: "Você e Lica não pensam em ter uma menininha?"
Mas Lorena e Eduarda... Elas nunca haviam recebido nenhum comentário do tipo.
Será que seus pais acreditavam que ela não queria ser mãe? pensou.
E Lorena logo se perguntou: Mas será que eu quero ser mãe?
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Já em casa, Lorena estava assistindo a um documentário na sala quando a porta se abriu.
Em questão de segundos, Eduarda apareceu, usando o uniforme do trabalho. Ela sorriu carinhosa ao ver a esposa e o olhar de Lorena automaticamente desceu para o pescoço da ruiva, onde residia o distintivo.
— Amor... meus olhos estão aqui em cima! — provocou Eduarda, os olhos brilhando em diversão.
Ela adorava provocar a mulher com a obsessão dela pelo distintivo de Eduarda, sempre fazendo Lorena esconder o rosto vermelho.
Mas dessa vez, isso não aconteceu.
Lorena apenas levantou o olhar, soltando um sorriso fraco. Eduarda rapidamente notou que a esposa estava estranha.
— O que foi, meu bem? Aconteceu alguma coisa? — Aproximou-se, roubando um selinho rápido da morena.
Duda sentou ao lado da esposa, que se aconchegou entre o ombro dela, fungando a região.
— O Léo e a Vivi estão planejando ter filhos.
— Que legal, meu amor! É uma ótima notícia!
Lorena assentiu, remexendo a cabeça.
Ela respirou fundo, afundando os dedos na coxa de Eduarda, protegida pela calça jeans.
— Duda... a gente nunca vai ter filhos?
Eduarda travou.
Literalmente. Lorena sentiu o ombro da esposa se contrair, e quase se arrependeu de ter perguntado.
Mas ela precisava saber! Desde que saiu da casa dos pais, sua mente ficou voltando e voltando no assunto maternidade.
Ela quase havia ido a delegacia apenas para ter uma conversa com a esposa.
— Eu... ah, Lorena. Eu não sei se nossa rotina é a melhor para ter filhos, né.
A morena afastou a cabeça, encarando os olhos cor de chocolate que ela tanto gostava — mas que agora fugiam dela como o seu sobrinho fugia do banho.
— Como assim? — perguntou, sentindo uma bola macia se encostar em seu colo.
Lorena nem precisou abaixar a cabeça para saber que era Tomás, seu gato.
Eduarda suspirou, jogando a cabeça para trás no sofá. Lorena continuou imóvel, observando-a com tanta intensidade que Eduarda sentia as bochechas esquentarem.
— Eu sou da polícia, Lorena. Tenho horários malucos. Você está sempre lá na sua ONG, e se tivéssemos crianças, eu não iria conseguir ser tão presente, sabe? Seria muito pesado para você.
— Mas você não quer? — insistiu.
Ela não sabia o porquê, mas desde que escutou a notícia de que mais um irmão teria filhos, Lorena sentiu esse desejo crescer em seu coração.
Ela sempre gostou muito de crianças. Tinha até mesmo sido estagiária em algumas escolas com sua formação de pedagogia. E sem querer se gabar, mas ela era provavelmente a tia preferida de Danilo.
E Eduarda também era ótima com crianças. Lorena via a mulher ser extremamente carinhosa com o filho de Samantha, via ela cuidando da filha de Paulinho e até mesmo dando conselhos para Joelly, a enteada do mesmo, e ela sempre se emocionava ao ver o quão gentil sua esposa poderia ser.
Elas seriam ótimas mães, Lorena podia sentir.
— Eu nunca pensei muito sobre, Lo.
— Você não acha que seríamos ótimas mães?
— Acho — afirmou sem pensar. Eduarda buscou a mão da mulher, entrelaçando na sua. Ela voltou a fitar Lorena, sorrindo sutilmente. — Mas ser mãe não é apenas sobre ser ótima.
Lorena assentiu, se jogando ao lado de Eduarda no sofá. Ela fechou os olhos, tentando relaxar, tentando aceitar a visão de Eduarda.
Mas quando fechou os olhos, tudo que enxergou foi a ruiva ao seu lado com uma criança no colo.
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A casa estava silenciosa, exceto pelo barulho de fundo da televisão ligada que Eduarda sempre deixava.
Na cozinha, Juquinha, como era conhecida no trabalho, picava alguns legumes para a janta enquanto Lorena estava sentada na bancada, se dividindo entre olhar para a mulher e mexer no computador.
As noites eram sempre assim quando Eduarda estava em casa. Ela adorava cozinhar, então se divertia na cozinha e arriscava algumas canções. Lorena às vezes tentava ajudar, mas na maioria das vezes, se entretia em trocar palavras com a esposa — e roubar as comidas feito criança em festa —, ou então apenas ficava em silêncio, escutando a voz delicada da mulher que amava.
Lorena adorava aquilo. Amava a rotina tediosa delas.
Mas sentia que algo estava faltando.
Por isso, ela abriu o Google e pesquisou pelo site de adoção da cidade. Por isso, ela passeou pelos nomes e rostos das crianças no sistema, sentindo o peito apertar.
E por isso, apenas por isso, Lorena deixou com que algumas lágrimas solitárias escorressem pelo rosto.
— Meu bem, vem cá, experimenta esse molho... — chamou Duda, já virando-se para a direção da esposa.
Foi quando ela levantou os olhos, ainda com a colher na mão, que percebeu o choro silencioso de Lorena.
Ela largou a colher na pia com uma agilidade que só os treinamentos da Polícia poderiam dar e em questão de segundos, já estava na frente da amada, segurando as duas bochechas de Lorena com as mãos.
— Lore... o que foi?
Lorena engoliu um soluço. Seus olhos estavam vermelhos assim como a face. A mulher mordia o lábio inferior com tanta força que o gosto metálico do sangue começou a invadir sua boca.
Duda percebeu, levando o dedo até os lábios numa carícia sutil.
— Olha, Duda... olha esses rostinhos. — Virou o computador para a policial.
Eduarda sentiu o estômago afundar.
Eram inúmeras fotos de crianças e adolescentes, os rostos esperançosos e logo ao lado, o nome e a idade de cada criança, junto de uma frase do motivo dela querer ser adotada.
Eduarda leu algumas frases rápidas com o coração batendo forte.
"Quero ser adotado para poder viajar o mundo."
"Quero ser adotada porque quero ser amada."
"Sinto falta de ter uma mãe."
"Eu queria um pai que brincasse comigo..."
Ela desviou o olhar para o rosto da mulher que ainda chorava.
— Lo...
Lorena apenas balançou a cabeça, forçando um sorriso.
— Não, tá tudo bem, Duda. Eu entendo o seu lado, sério.
A ruiva acenou, traçando linhas na bochecha de Lorena.
— Não está brava?
— Não.
Eduarda suspirou. Sabia que Lorena de fato não estava brava, mas chateada...
Antes que Eduarda pudesse falar algo, Lorena se levantou, quebrando o toque delicado da policial em seu rosto.
— Eu vou dormir.
— Não vai jantar? — perguntou, apertando os olhos.
Lorena apenas balançou a cabeça, aproximando-se para deixar um beijo no canto da boca de Eduarda e então, se retirou em direção ao quarto.
Eduarda se forçou a voltar a trabalhar, mas sua mente não conseguia tirar as frases tão inocentes e o rosto decepcionado da esposa de sua mente.
Não demorou nem dez minutos e Eduarda ligou o computador de novo, entrando direto no site onde Lorena estava.
Ela voltou a passar os olhos pelas imagens das crianças. Os olhos castanhos já ficando embaçados pelas lágrimas.
— Merda... — resmungou quando uma lágrima caiu.
Eduarda puxou o ar, limpando os olhos. Mas então, uma mão quente envolveu sua cintura.
Ela relaxou contra o corpo, sentindo o cheiro doce da esposa lhe invadir.
— Lorena...
A morena não deixou que ela terminasse, a calando com um beijo cheio de amor e alegria.
Quando se separou, colou a testa na de Eduarda e murmurou baixinho:
— Vamos ser incríveis.
