Chapter Text
Outubro - 1988 Derry mane.
O clima parecia estar escurecendo ao redor de Richie enquanto ele passa com sua bicicleta a toda velocidade pelas ruas, seus pés tentando descontar sua fúria nas pedaladas, ele vai cada vez mais rápido tentando ignorar as lágrimas que ameaçam cair mas quanto mais pensa no que aconteceu, mais sente um ímpeto incontrolável de chorar. Até que desistindo num suspiro frustrado ele freia a bicicleta, parando e respirando fundo. O choro que ele vinha reprimindo se solta um pouco e ele tira seu óculos para poder esfregar os olhos tentando fazer com que aquilo pare mas ele não consegue.
Ele havia finalmente ultrapassado um limite? Ele devia saber que isso aconteceria em algum momento! Por que ele não conseguia se controlar perto de Eddie? Por que ele achou que de alguma forma aquela bagunça tinha sido uma boa ideia? Deus, ele era um desastre! Talvez Eddie nunca fosse o perdoar agora e o abandono dele depois da rejeição havia finalmente chegado, o momento que ele mais temia desde seus 10 anos! O que ele iria fazer? Mesmo que Eddie o perdoasse nunca mais seria o mesmo perto dele e ele queria gritar de frustração, mas só soltou um soluço trêmulo de decepção. Ele era um idiota e tinha conseguido estragar a relação mais próxima com um de seus melhores amigos! Um barulho perturbador semelhante a um rosnado tira Richie de seus devaneios e só então ele percebe que resolveu parar pra respirar no pior lugar possível, bem na frente da casa abandonada da rua neibolt.
Como isso aconteceu? Richie tinha se esquecido totalmente em sua pressa de chegar em casa que o atalho que pegou acabava direto na neibolt! Aquela casa lhe causava arrepios sempre que passava por ela, parecia ter algo o observando ali, algo assustador! Enquanto pensava sobre isso, o mesmo barulho que o despertou soou novamente parecendo vir de todo lugar e nenhum lugar ao mesmo tempo. Já apavorado Richie pegou sua bicicleta decidido a ir ainda mais longe possível dali, quando de repente ele ouviu “RICHIE” como se fosse um sussurro mas reverberando como um grito numa voz esganiçada mas rouca que vinha de dentro da casa com certeza. Tremendo, Richie pensou em fugir dali mas se sentia travado no lugar. “VOCÊ QUER BRINCAR COMIGO RICHIE?”
Veio a voz novamente, num tom que parecia zombar dele e por algum motivo ele sentia que essa ironia com ele ia muito além do que parecia, como quando Bowers o chamava de “fadinha” aquele sentimento de puro pavor em ver nos olhos de alguém, ouvir diretamente da boca de alguém, o quanto te odeia porque SABE quem você é! O QUE você é! E Richie só consegue balançar a cabeça em negação. “Não…por favor…” ele murmura sem nem ao menos saber com quem está falando. Ele só queria ir pra casa e chorar por horas por todo desastre que ele causou com Eddie, por que nem isso parece mais ser possível para ele? Ainda tentando se mexer de alguma forma e fugir em alta velocidade para casa ele mexe no guidão, uma, duas, três vezes e quase se sente ele mesmo novamente para correr, porém…
“EI…Rich?” A voz se suavizou e por algum motivo agora parecia vagamente familiar, parecia a voz de…Eddie ? Em completo choque o garoto fica com os olhos arregalados, o que poderia ser muito engraçado visto de fora, com seus óculos já deixando seus olhos comicamente grandes e com ele fazendo aquela cara só os tornava ainda maiores, mas não havia ninguém ao redor para rir daquilo. De alguma forma, Richie sentia que a piada ali era ele mesmo, ainda mais depois de suas recentes piadas, quase como uma punição. Aquilo…deveria ser uma punição, uma vingança, um truque. Teria que ser isso…não é? “Richie? Eu sei que você está aí! Sou eu! Bem aqui.” Com certeza soava exatamente como Eddie, mas por algum motivo, num tom mais arrastado que sua voz normal, ao final da frase, a porta da casa abriu escancarada, tão subitamente que Richie quase caiu pra trás de susto. Não havia ninguém na porta a princípio, mas logo uma silhueta foi tomando forma nas sombras lá de dentro, uma silhueta baixinha, franzina e levemente magrela que Richie reconheceria em qualquer lugar.
“E-eds?” Ele perguntou baixo demais e muito incerto. Afinal, o que Eddie estaria fazendo ali? De todas as pessoas, Richie tinha certeza de que ele era a pessoa que mais temia aquele lugar, não havia maneira nenhuma no inferno de ele estar ali dentro mas então, como que a pessoa ou seja lá o que fosse parecia tanto com ele ali dentro? Como sabia tanto sobre ele? E por que apenas olhar para aquela sombra já lhe causava um aperto no peito? Ainda muito inseguro, Richie dá um passo à frente. Bem hesitante. “Eds é você mesmo?” Uma risadinha familiar se ouviu, a risada de Eddie, mas ao invés de causar borboletas no estômago de Richie como normalmente fazia, agora lhe causou um terrível pavor que o atingiu bem na garganta e ele quase se sentiu sem ar. Desde quando ele estava com tanto medo?
“Claro que sou eu, seu bobão!” Brincou a voz e mais uma vez era o familiar tom irritante e brincalhão de seu amigo, mas Richie sentia como se fosse algo o cercando e o atacando e suas pernas com certeza cederiam a qualquer momento. “Entra aqui, nós precisamos conversar” dessa vez o jeito que a voz soou não tentou em nada se assemelhar a como Eddie falava, ainda parecia sua voz, mas a maneira como falou aquilo era fria e cortante, o lembrando vagamente de momentos atrás e Richie teve a súbita sensação de que iria pôr pra fora todos os salgadinhos que tinha devorado na casa de Stan. “O…o que?” Perguntou ele com um fio de voz, quase não podendo ser ouvido, mas claro que foi. “Eu disse que precisamos conversar, venha aqui, vamos resolver as coisas.” Disse a voz, ainda parecendo distante. “Você quer acertar as coisas, não quer?” E por um milésimo de segundo Richie jurou ter visto olhos dourados na silhueta de seu amigo naquela casa, mas desapareceram tão rápido que ele se convenceu que foi só impressão dele.
Ainda sim, era como se aquele brilho dourado tivesse o hipnotizado momentaneamente, mesmo sem ele nem ter certeza se ele esteve ali, ele se sentia atraído agora, como uma mosca indo direto para a luz “sim…sim eu quero…” ele respondeu com uma voz monótona que ele nem sabe que vinha dele e se sentindo sem controle do próprio corpo foi andando sem hesitar até a porta da casa onde supostamente estava seu amigo e assim que se viu totalmente lá dentro, a porta se fechou, trancada. Acordando de seu transe passageiro com o bater da porta, Richie pisca tentando distinguir algo ao seu redor com tanta escuridão. Por dentro a casa quase parecia não ter luz alguma e ele mal conseguia ver um palmo à frente de seu nariz, mesmo estando de óculos. Ele não se sentia nada bem ali, ele sentia que tinha algo de muito errado naquele lugar e que ele nem deveria estar ali, quase não lembrava porque tinha se metido ali para início de conversa. Então uma mão pousou em seu ombro, com um aperto firme e ele quase podia sentir unhas enormes tentando perfurá-lo, porém não havia qualquer tentativa disso ainda, parecia que estava apenas aguardando.
“Hum…Olá?” Richie perguntou tremendo de medo da cabeça aos pés, olhando para a mão em seu ombro, ela momentaneamente pareceu a mão do lobisomem horrível que Richie tinha visto naquele filme que passou no cinema da cidade no mês anterior, o que explicaria as garras, mas então no que pareceu um piscar de olhos, se tornou uma mão normal, pequena e suave e um toque semelhante a um que era bem conhecido por Richie. “Eddie…” sussurrou o garoto apavorado, a pouca luz que tinha no lugar iluminou a forma atrás de Richie se revelando ser Eddie mesmo, mas com o cabelo bagunçado e um sorriso estranho que nunca antes tinha cruzado seu belo rosto. Um arrepio percorreu o corpo do garoto não pela primeira vez naquele dia ao olhar para seu amigo, algo estava definitivamente errado com ele. “Por que está me olhando assim Rich?” Pergunta o que parece ser Eddie com sua voz inocente mas seu sorriso estranho não vacila.
“Eu…eu não sei…por que você está aqui?” Pergunta Richie com dificuldade de ignorar o nó em seu estômago. “Não é o que você queria? Que estivéssemos só nós dois? Que nós pudéssemos conversar em paz sobre…o que você fez.” A última parte saiu como se fosse um veneno cuidadosamente aplicado e é sussurrado na orelha de Richie, muito perto mesmo, causando arrepios em seu pescoço com a proximidade mas nada semelhante aos que Eddie normalmente desperta nele. “O…o quê você quer dizer com…” mas ele não tem tempo de terminar a frase pois seja lá o que for que se parece com Eddie simplesmente o joga no chão com violência contida e logo em seguida pula em cima dele, agarrando seu pescoço. Richie engasga e luta, se debatendo no chão.
“E-Eddie…o que você…” o sorriso no rosto do que parecia ser seu amigo se alargou e se mostrou cheio de dentes afiados. Aquilo não era Eddie! Com certeza não era ele! Uma risada maníaca se seguiu daquela coisa e seu aperto no pescoço de Richie aumentou, o fazendo se debater ainda mais em busca de ar. “VINGANÇA VINGANÇA, NÃO ERA ISSO QUE VOCÊ QUERIA? QUE EU ME ATIRASSE EM VOCÊ TAMBÉM?” Sua voz voltou a ser aquela voz assustadora e ela estava atingindo Richie exatamente onde doía, ele quase conseguia sentir como se fosse Henry Bowers falando com ele. “VOCÊ PODE ME TOCAR AGORA RICHIE, NÃO ERA ISSO QUE VOCÊ QUERIA? VOCÊ NÃO QUERIA PODER ME TOCAR DO JEITINHO SUJO QUE VOCÊ TANTO TENTA ESCONDER?” Richie tossiu sentindo sua respiração o deixando e pontinhos brancos se formarem em sua visão. Ele tenta tirar as mãos daquela coisa do seu pescoço mas não sente força para o fazer.
“ISSO, TOQUE EM MIM, NÃO ERA O QUE VOCÊ QUERIA? VOCÊ PODE AGORA, VOCÊ PODE APROVEITAR SUA ÚLTIMA CHANCE DE FAZER ISSO!” Grita a voz para ele e os olhos de Richie começam a marejar, mas ele ainda consegue ver que a mão que encostou nas da criatura que fingia ser Eddie estava agora cheia manchas marrons que se alastram e deixam seus membros ainda mais fracos e lamacentos, como uma doença terrível. “VOCÊ É TÃO SUJINHO QUANTO TINHA MEDO DE SER, VOCÊ É TÃO PERIGOSO PARA MIM QUANTO EU ACHAVA QUE SERIA, É O QUE ACONTECE QUANDO VOCÊ TOCA EM MENINOS RICHIE” o garoto engasgou e se contorceu. Ele estava apavorado e só queria arrancar aquilo de sua mão e agora de seu braço e tirar aquela criatura de cima dele!
“VAMOS MANTER ISSO…NOSSO SEGREDINHO SUJO NÃO É?” Diz aquela criatura num terrível sorriso zombeteiro e de repente, uma gosma preta começa a vazar de sua boca e o rosto semelhante ao de Eddie se torna ainda mais pálido “QUER BRINCAR DE CUSPARADA?” Ele pergunta e só então vomita a gosma preta que sai de sua boca em cima de Richie. Ele fecha os olhos atordoado e só abre quando percebe que acabou. Ao abri-los novamente, quase se sente sem forças para o fazer. Seus membros estão todos cobertos por aquelas manchas agora, ele não sente qualquer força para se mexer, é como se estivesse mesmo doente mas de um jeito que nunca esteve antes e tudo que escuta antes de desmaiar completamente é a voz do verdadeiro Eddie gritando palavras que ele disse para ele naquela mesma tarde “NÃO ENCOSTA EM MIM!”.
